64 - O Catolicismo Romano

George Tyrrel
II. HISTÓRIA RELIGIOSA

A - CATOLICISMO ROMANO

1. O Modernismo
Um acontecimento significativo na história da Igreja Romana, no início do século XX, foi o Movimento Modernista e a sua supressão, movimento que surgiu depois de 1890. 


Consistia, então, na aplicação da cultura ao estudo da Bíblia e da História Eclesiástica, por homens que se rebelaram contra os métodos medievais impostos por Pio IX e Leão XIII.

Este movimento tomou um caráter teológico progressivo. Os modernistas não eram protestantes, mas sustentavam que a vida intelectual da igreja deveria expressar-se livremente. O modernismo era favorável à liberdade religiosa, à separação entre a Igreja e o Estado.

Em 1900, este movimento espalhou-se pela Itália, França, Alemanha e Inglaterra. Eram numerosos os jornais, livros e revistas que expressavam e publicavam suas ideias.

Pio X, em 1907, deu início à campanha contra esse movimento. As publicações, o ensino e os estudos foram limitados e supervisionados pela igreja com suas disciplinas e ameaças.

O ilustre francês Loisy foi excomungado e virtualmente o foi também o teólogo irlandês George Tyrrell.

Lançando mão de todos os meios possíveis, a Igreja Romana conseguiu sufocar esse movimento, pelo menos em sua propaganda aberta, embora o mesmo continuasse secretamente, mas sem expressão.



2. Relações do papado com os estados europeus
Nos fins do século XIX, depois da luta por causa das Leis Anti-Romanas, veio um período de regular entendimento entre o governo alemão e o papado, entendimento que se acentuou durante a Primeira Grande Guerra, depois da qual a influência romana cresceu ainda mais na Alemanha.

Mas o aparecimento do Estado Totalitário de Hitler criou uma situação inteiramente nova. A determinação estatal de controlar absolutamente a vida do país era intolerável para a igreja.

Depois de muitas lutas e franca controvérsia, durante a qual muitos clérigos denunciaram abertamente a pretensão do governo nazista de autoridade ilimitada, realizou-se uma Concordata em 1933, entre Pio XI e o governo.

Este documento, por certo tempo, parecia ser uma base para a harmonia. Mas logo rebentou de novo o conflito e pelas alturas de 1935 as relações entre o papado e o governo alemão eram sem dúvida, de hostilidade, embora não se verificasse rompimento definitivo.

Na França, a oposição à Igreja Romana levantou-se na última parte do século XIX, porque nos primeiros anos da Terceira República, isto é, a partir de 1870, a Igreja era favorável a uma monarquia.

O sentimento anticlerical cresceu em virtude das enormes riquezas das ordens monásticas e de sua forte influência através das suas escolas.

Em 1901, a Lei das Associações Religiosas exigia que todas as ordens pedissem licença ao Estado para funcionar, e proibia que os membros de ordens licenciadas ensinassem.

Como resultado, muitas ordens abandonaram o país e a educação caiu inteiramente nas mãos das escolas oficiais do Estado, isto é, das escolas leigas.

A controvérsia surgida por causa desta lei, entre Pio X e o governo, provocou a hostilidade popular contra a Igreja. O. resultado foi a separação entre a igreja e o Estado em 1905.

O governo denunciou a concordata feita com o papado em 1801. Acabou com o auxílio que dava às igrejas e cessou a autoridade do Estado sobre elas.

As grandes propriedades sobre as quais a Igreja Católica Romana exercia domínio desde a Revolução foram transferidas para o Estado.

A igreja não podia desfrutar livremente dessas propriedades desde que elas estivessem em mãos de associações leigas sujeitas ao Estado.



Pio X combateu tudo isto, denunciou a separação da igreja e o Estado e evitou que se tomasse qualquer passo enquanto existisse tal lei de separação. Depois de dois anos de conflito, nova lei veio permitir aos sacerdotes o uso das propriedades das igrejas sob contrato com os prefeitos das cidades.

Foi uma vitória parcial da Igreja Romana, mas esta e o Estado continuaram separados. As propriedades da igreja romana foram tornadas bem público. E outros edifícios, excetuando os templos, foram usados para fins públicos.

A falta do auxílio governamental resultou num bem espiritual para essa igreja. O povo teve novos estímulos para demonstrar sua devoção. A Primeira Grande Guerra provocou uma melhora de sentimentos entre a igreja e a nação. Muitos sacerdotes lutaram nas fileiras e a "sagrada união" de todos os franceses contribuiu para sanar a brecha existente.

Uma espécie de armistício foi celebrado em 1924, por Pio XI. Com tudo isto havia apenas 10 milhões de católicos numa população de mais de 41 milhões, segundo afirmação da própria igreja.

Na Espanha, a constituição da república estabelecida em 1931, separou a igreja do Estado, transferiu para este as propriedades eclesiásticas, permitiu liberdade religiosa e colocou a educação sob o controle estatal. Pio XI protestou contra a constituição espanhola e a oposição continuou apoiando a revolta contra a nova ordem iniciada em 1936.

3. Restauração do Poder Temporal
No início do século XX e durante a Primeira Grande Guerra o papado continuou o seu protesto contra o que considerava usurpação dos seus direitos, ou seja um governo temporal, na Itália. O aparecimento do Fascismo criou novas condições.

O Fascismo e a Igreja tinham certa afinidade por representarem a autoridade e se oporem ao liberalismo, embora fossem autoridades que se rivalizavam. Além disso Mussolini apoiava tudo que trouxesse prestígio a Roma e à Itália.

Por essa razão foi assinado, em 1929, um tratado entre a Santa Sé e o reino da Itália, pelo qual se reconhecia um novo Estado, a Cidade do Vaticano, compreendendo o palácio do Vaticano, a Catedral de S. Pedro e uma pequena área adjacente, sobre a qual o papa exercia governo absoluto. Pôde, assim, o papado reassumir sua posição de soberania sobre um território.

O papado reconheceu também o reino da Itália, tendo Roma como capital. Foram feitos outros arranjos mutuamente vantajosos. Os bispos deveriam jurar fidelidade ao governo, o casamento ficaria sujeito à lei da Igreja; o ensino religioso católico seria compulsório nas escolas.

De 1929 em diante, houve certas dificuldades porque o Fascismo com o seu culto do Estado e seu domínio absoluto sobre todos os aspectos da vida, era realmente incompatível com a igreja. Mas externamente havia relações harmoniosas entre a Igreja Romana e o Estado.



4. História Geral
A Igreja Católica Romana expressou de modo absoluto sua autoridade por meio da nova Lei Canônica promulgada em 1918, pelo Papa Bento XV, e que obrigava todos os católicos romanos.

Por esta lei se declara:


  • que a Igreja é um poder soberano vindo de Deus; 
  • que é uma sociedade perfeita, isto é, que tem competência para ser uma organização completa, perfeita para a vida humana; 
  • que tem direitos soberanos de propriedade e propaganda; 
  • que não é sujeita a qualquer governo civil e, em caso de conflito, a autoridade da igreja deve prevalecer.


De modo que as pretensões da igreja da Idade Média ainda permanecem, embora que, por motivos de conveniência, elas não sejam praticamente impostas e defendidas.

A ênfase que a I.C. Romana, por vários meios, tem dado à questão da sua autoridade, diz respeito particular e especialmente ao papado.

Na sua interpretação prática de religião, a Igreja Romana visa à exaltação do papado. A Igreja é aquele poder aperfeiçoado pelo Concílio do Vaticano.

No que se refere ao movimento para unidade Cristã do século XX, a Igreja Católica Romana tem tornado bem claro o fato de que ela não reconhece, de modo algum, como cristãs, as outras igrejas.

Ela sustenta sua pretensão de ser a única igreja cristã. E não atende a qualquer pedido de aproximação com as demais igrejas.

Depois da Primeira Grande Guerra afirmou-se algumas vezes que foi a Igreja Católica Romana quem a venceu.

Os novos países da Polônia e da Áustria eram predominantes e totalmente romanistas. Concordatas foram conseguidas pelo papa com vários países da Europa Central, como a Bavária, as quais muito fortaleceram a posição do romanismo.

As relações diplomáticas do papado foram alargadas com o fim de ampliar a influência da igreja. Sedes de bispados e ordens monásticas tornaram-se consideravelmente numerosas no Continente. As atividades educacionais e beneficentes foram ampliadas.

O movimento da Juventude Católica atraiu grande parte da mocidade. Em virtude do desespero e desordem existentes em muitas partes da Europa Central, após a guerra, a unidade da igreja e seu ensino autoritário encontraram muita ressonância e constituíram um forte apelo ao espírito de muita

Um aspecto notável da grande atividade da Igreja Católica Romana após a guerra foi um despertamento intelectual.


Vários pensadores notáveis apoiaram os ensinos da Igreja. Surgiu uma nova escola filosófica, a escola neotomista com o propósito de restaurar o pensamento de Tomás de Aquino, grande teólogo medieval.



Apareceu uma torrente de livros e periódicos católicos. Surgiram muitas instituições educacionais que multiplicaram o número de estudantes das escolas romanistas.

Embora a Igreja não tenha afrouxado seu combate a qualquer contestação da sua autoridade ou dos seus ensinos, como no caso do Modernismo, tem sido, por outro lado, muito feliz na tentativa de se aliar ao progresso intelectual. Este esforço tem trazido alguns intelectuais que se têm aproximado do Catolicismo Romano.

A situação em que a Europa foi mergulhada pela Segunda Grande Guerra colocou um ponto de interrogação nestas recentes vitórias da Igreja Romana como igualmente quanto a outros fatos narrados neste capítulo.

Um dos mais importantes eventos na história da Igreja Romana no presente século foi a encíclica de Pio XI, Quadragésimo Anno, publicada em 1931, a qual se ocupa das questões sociais.

Essa encíclica condena com veemência a concentração de riquezas e de poder nas mãos de alguns, a terrível e extrema pobreza de muitos trabalhadores da indústria e da agricultura; os salários que não correspondem às necessidades humanas, e as condições precárias, isto é, ambiente impróprio para o trabalho.

Nela se afirma que o atual sistema industrial resultará na destruição do caráter e que o interesse pelo bem da humanidade deve estar acima dos lucros. Esta declaração papal tem sido considerada como um programa para uma sociedade cristã.

Embora afirme que a solução dos problemas sociais deva estar sob o controle da Igreja e se constitua indubitavelmente, uma denúncia poderosa contra esses males ainda atuais, a encíclica alcançou grande influência na Igreja Romana em toda a parte e até mesmo em círculos fora dessa igreja.

Por Robert Hastings Nichols

ÍNDICE

A preparação para o Cristianismo
01 - A contribuição dos Romanos, Gregos e Judeus
02 - Como era o mundo no surgimento do cristianismo

A fundação e expansão da Igreja
03 - Jesus e sua Igreja
04 - A Igreja Apostólica Até o Ano 100

A Igreja antiga (100 - 313) 
05 - O mundo em que a Igreja vivia (100 - 313)
06 - Características da Igreja Antiga (100-313)

A Igreja antiga (313- 590) 
07 - O mundo em que a Igreja vivia (313 - 590)
08 - Características da Igreja Antiga (313-590)

A Igreja no início da Idade Média (590 - 1073) 
09 - O mundo em que a Igreja vivia (590-1073)
10 - Características da Igreja no início da Idade Média 
11 - O cristianismo em luta com o paganismo dentro da Igreja

A Igreja no apogeu da Idade Média (1073 - 1294) 
12 - A Igreja no Ocidente - O papado Medieval - Hildebrando
13a - Inocêncio III
13b - A Igreja Governa o Mundo Ocidental
14 - A guerra da Igreja contra o Islamismo - As cruzadas 
15 - As riquezas da Igreja
16 - A organização da Igreja
17 - A disciplina e a lei da Igreja Romana
18 - O culto da Igreja
19 - O lugar da Igreja na religião
20 - A vida de alguns líderes religiosos: Bernardo, Domingos e Francisco de Assis
21 - O que a Igreja Medieval fez pelo mundo
22 - A igreja Oriental

Decadência e renovação na Igreja Ocidental (1294 - 1517)

23 - Onde a Igreja Medieval falhou
24 - Movimentos de protesto: Cataristas, Valdeneses, Irmãos
25 - A queda do Papado
26 - Revolta dentro da igreja: João Wycliff e João Huss
27 - Tentativas de reforma dentro da Igreja
28 - A Renascença e a inquietude social como preparação para a Reforma

Revolução e reconstrução (1517 - 1648) 
29 - A Reforma Luterana
30 - Como Lutero se tornou reformador
31 - Os primeiros anos da Reforma Luterana
32 - Outros desdobramentos da Reforma Luterana
33 - A Reforma na Suíça - Zuínglio
34 - Calvino - líder da Reforma em Genebra
35 - A Reforma na França
36 - A Reforma nos Países Baixos
37 - A Reforma na Escócia, Alemanha e Hungria

O cristianismo na Europa (1648 - 1800)
43 - A França e a Igreja Católica Romana
44 - A Igreja Católica Romana e a Revolução Francesa
45 - O declínio religioso após a Reforma
46 - O Pietismo
46 - A Igreja Oriental
47 - A Regra Puritana
48 - Restauração
49 - Revolução
50 - Declínio Religioso no começo do século 18
51 - O Reavivamento do Século 18 e seus resultados
52 - Os Pactuantes (Covenanters)
53 - O Século 18 na Escócia
54 - O Presbiterianismo na Irlanda

O Século 19 na Europa
55 - O Catolicismo Romano
56 - O Protestantismo na Alemanha, França, Holanda, Suíça, Escandinávia e Hungria
57 - O Movimento Evangélico na Inglaterra
58 - O Movimento Liberal
59 - O Movimento Anglo-Católico
60 - As Igrejas Livres
61 - As Igrejas na Escócia: despertamento, descontentamento e cisão
62 - As missões e o cristianismo europeu

O Século 20 na Europa
63 - História Política até 1935
64 - O Catolicismo Romano
65 - O Protestantismo no Continente
66 - A Igreja da Inglaterra
67 - As Igrejas Livres 
68 - A Escócia
69 - A Igreja Ortodoxa Oriental
70 - Outros países orientais
71 - O Movimento Ecumênico

O cristianismo na América
72 - As primeiras tentativas
73 - As Treze Colônias
74 - Reconstrução e reavivamento após a Guerra da Independência
75 - O Século 19 até 1830
76 - 1830 - 1861
77 - 1861 - 1890
78 - 1890 - 1929

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