12 - A Igreja no Ocidente - O papado Medieval - Hildebrando


I. A IGREJA DO OCIDENTE

A - O PAPADO MEDIEVAL

1 – HILDEBRANDO
Ao fim do período precedente vimos surgir em cena, na cidade de Roma, o homem de quem disse um outro que lhe era semelhante na ambição imperial: "Se eu não fosse Napoleão, desejaria ser Hildebrando". 

Hildebrando encontrou o papado enfraquecido e humilhado e o tornou o maior poder na Europa. Foi o maior de todos os papas, o principal construtor do papado na Idade Média.

Antes dele, Gregório I muito trabalhara na estrutura desse sistema, e depois dele, Inocêncio III foi um pouco adiante, mas o planejador e extraordinário construtor foi Hildebrando. 

Em sua mente levantou-se um ideal pela grandeza da cadeira pontifícia e pela Igreja, que nos deslumbra por sua ousadia.

O seu gênio planejou uma política cujo objetivo era a consumação do seu ideal, e a sua vontade de ferro tornou-a em grande parte um fato concreto.

a) Livrar a Igreja do mundo
Eleição dos papas sem a intervenção dos imperadores
A política de Hildebrando era constituída de duas grandes partes: a primeira, livrar a Igreja do controle do mundo exterior. Este era também o propósito do partido reformista do qual ele dantes já se tornara líder.

Hildebrando resolveu livrar a Igreja da escravidão dos governos civis e dos interesses seculares. Para isso uma coisa se fazia necessária, era a mudança do método da escolha do chefe da Igreja. Por muitos anos os imperadores decidiram quanto à escolha dos papas.

Durante o papado de Nicolau II (1058-1061), quando Hildebrando estava realmente à frente desses assuntos, tentou o estabelecimento do colégio dos cardeais com poder de escolher os papas. A influência imperial neste assunto foi praticamente reduzida a nada.

Desse modo o chefe da Igreja era escolhido pela própria Igreja, por intermédio dos seus oficiais e não pela interferência de algum monarca poderoso.



Abolição da investidura secular
Outra coisa necessária para a libertação da Igreja era acabar com a indicação dos bispos feita pelos reis. Tal prática era conhecida como a "Investidura Secular", porque o bispo era investido de certos símbolos do seu ofício pelo governador, que era leigo.

Em tudo isto vemos que a razão estava com Hildebrando. A Igreja não podia permitir que os seus mais eminentes oficiais, os homens que dirigiam a sua obra, fossem indicados por autoridades civis dos países nos quais eles iam servir. A Igreja é que os devia escolher.

Os presbiterianos escoceses em 1843 deixaram a Igreja da Escócia e organizaram a Igreja Livre porque não permitiram que seus ministros fossem escolhidos pelos senhores feudais ou land-lords das paróquias, em vez de o serem pelas congregações. Com essa atitude estavam endossando o princípio de Hildebrando.

O princípio é que a Igreja já não pode ser a verdadeira Igreja de Cristo se não escolhe seus próprios dirigentes ou mestres. Além do mais, Hildebrando viu claramente que enquanto os governos civis indicassem os bispados e outros cargos eclesiásticos sempre haveria simonia.

O único meio de se livrar desse grande mal que estorvava a vida da Igreja era cortá-lo pela raiz, retirando das mãos dos reis qualquer controle sobre a Igreja.

Luta com os governos civis
Logo após tornar-se papa, Hildebrando deu início a uma guerra sistemática contra a investidura secular. Mas os reis não estavam dispostos a abrir mão desse privilégio da indicação dos bispos. Muitos bispos tinham em seu poder grandes e valiosas terras.

Naturalmente os governadores insistiam na escolha desses que retinham tão grandes possessões, dentro dos seus domínios.

Foi assim que Hildebrando entrou em conflito com os homens mais poderosos da Europa. Em virtude da sua índole, ele não se esquivou do conflito, antes o provocou e deu início à luta com um dos mais poderosos oponentes, o chefe do Império Germânico ou Santo Império Romano.

Aqui os dois grandes poderes da Europa, a Igreja e o Império, empenharam-se finalmente num conflito inevitável.

A luta com Henrique IV
O imperador Henrique IV, homem obstinado e tirano, recusou aceitar o pensamento do papa sobre esse assunto da indicação dos bispos e ofereceu lhe resistência de vários modos. Depois de conferências, e ameaças, Hildebrando excomungou a Henrique e o declarou deposto do trono.

Pelo fato de Henrique contar com muitos inimigos entre os seus súditos, algumas partes do seu domínio entraram em revolta. A excomunhão papal fortaleceu a revolta e Henrique viu-se na impossibilidade de a subjugar.

Foi obrigado a sujeitar-se às condições mais humilhantes impostas pelos grandes nobres da Alemanha. Teve que se submeter absolutamente ao papa para que obtivesse, depois de um ano, o livramento da excomunhão que o ameaçava de perder para sempre o trono.

A decisão sobre se deveria permanecer ou não no trono, veio ao fim de um ano, através da Dieta Alemã, presidida pelo papa. Enquanto isso Henrique teve de viver em retiro, sem fazer uso da sua autoridade imperial. Os nobres planejaram nessa Dieta escolher um substituto para Henrique, eliminando-o de vez.

Henrique em Canossa
Nesta conjuntura Henrique viu apenas uma saída, tentar livrar-se da excomunhão imediatamente, em vez de esperar ainda um ano. Se conseguisse a paz com o Papa, sua posição, com relação ao trono, se fortificaria. Resolveu então fazer a tentativa.

Em companhia da rainha e do filho menor, partiu no meio do inverno, arrostando uma viagem tremenda para a Itália, atravessando os Alpes no meio de neves pesadas, lutando com tremendas dificuldades.

No Castelo de Canossa. na Lombardia, em Janeiro de 1077, ele encontrou o papa. Hildebrando recusou-se a recebê-lo e, por três dias, amigos de ambos discutiram os termos da reconciliação.

O inexorável papa não aceitaria outra proposta exceto a resignação à coroa e com isto Henrique não quis concordar. Finalmente, o rei decidiu-se obter o perdão sujeitando-se a uma abjeta humilhação.

Muito cedo, em uma manhã invernosa, descalço, usando uma grosseira camisa de lã, o imperador bateu no portão do Castelo. Permaneceu ali o dia todo batendo, mas em vão. Dois dias assim levou o monarca do Santo Império Romano a implorar misericórdia.

Afinal, Hildebrando acedeu em discutir as condições de perdão. Levantava a excomunhão, mas sob a promessa de que o rei submeteria a sua coroa à decisão dos seus nobres e que, no caso de permanecer com ela, teria de obedecer ao papa em todas as coisas concernentes à Igreja.

Teve assim, em Canossa, o papa a sua vitória sobre o imperador. Mas a vitória de Hildebrando não estava tão completa como parecia nesse episódio.

O papa excedera-se. Sua arrogância, crueldade e severidade para com o maior dos poderes seculares da terra, poderes que os homens consideravam como autoridades indicadas por Deus, provocou em muitos, lugares revoltas, indignação e hostilidade.

Na Alemanha, os sentimentos gerais se voltaram a favor de Henrique. Este reuniu companheiros e lutou pela reconquista de seu trono. Zombando dos trovões de Hildebrando que o excomungou e o destronou novamente, conduziu Henrique um exército contra a Itália e entrou em Roma.

Em meio de grandes aflições e dificuldades Hildebrando abandonou Roma para nunca mais voltar. Poucos anos depois no leito de morte, exclamou: "Sempre amei a justiça e odiei a iniqüidade, e contudo morro no exílio".



Resultado da luta entre o papa e o imperador
De qualquer modo, a cena de Canossa representou uma vitória para Hildebrando e para a Igreja, vitória que foi assegurada, quarenta e cinco anos mais tarde, por meio de um acordo entre o imperador e o papa daquele tempo.

Por todos esses anos a luta continuou, mas em 1122 terminou por meio de um compromisso. Os bispos seriam eleitos pelo clero, e os papas os investiam nos seus ofícios espirituais.

O imperador investia-os, nas suas propriedades, com a autoridade de chefes temporais. De sorte que o imperador exercia poder sobre os que possuíam terras nos seus próprios domínios, assunto sobre que sempre insistira e defendera. Mas a Igreja também teve a sua vitória na escolha dos seus próprios ministros..

Abolição do casamento do clero
O terceiro item do programa de Hildebrando, necessário à libertação da Igreja, era a abolição do casamento do clero. Neste particular ele estava de acordo com a opinião do partido reformista ao qual pertencera.

Ele julgava que os sacerdotes casados não podiam colocar os interesses da Igreja em primeiro lugar, nas suas vidas, pois deviam cuidar dos seus filhos, e presos por esses cuidados familiares, negligenciariam os interesses da religião.

A verdade é que a experiência de muitas partes da igreja cristã onde se permitia o ministro casar, provou que os temores de Hildebrando e do seu partido não tinham fundamento.

Suas razões contra o casamento
Para entender realmente os pontos de vista de Hildebrando sobre este assunto, precisamos de nos lembrar de que muitas das posições ocupadas pelo clero estavam ligadas aos seus valiosos territórios.

Isto era verdade especialmente com relação aos bispos, muitos dos quais governaram extensos territórios, como grandes nobres ou príncipes. Podemos entender como Hildebrando via as coisas.

Esses homens tão bem situados, se tivessem família, seriam grandemente tentados a se dedicarem às mesmas mais do que aos interesses da Igreja. Temia Hildebrando que desse modo o ministério da Igreja se tornasse uma casta hereditária, que cuidasse principalmente das suas propriedades.

Deve-se também lembrar que, conquanto o casamento do clero fosse comum, era estritamente proibido por lei eclesiástica, lei que, em muitos casos, serviu de capa à imoralidade. Além disso, é fácil explicar muita coisa da política de Hildebrando, pois ele estava extremamente convencido de que a vida monástica era a única e verdadeira vida cristã.

Não obstante não ser pessoalmente monge, foi o chefe de um partido reformador composto de monges e trabalhou para imprimir na vida de todo o clero esse espírito e ideal monástico. E o meio mais fácil de conseguir esse objetivo era tornar todo o clero celibatário.

Sua luta contra o casamento do clero
Contra o casamento do clero, Hildebrando lutou ferozmente com todas as armas que a legislação eclesiástica lhe outorgava, lançando mão da disciplina e até da agitação popular.

Desfez muitos casamentos existentes, por meio de perseguições cruéis. Os monges, seus companheiros de ideal, levantaram a opinião publica contra os sacerdotes casados.

Embora não tenha conseguido uma abolição completa do casamento clerical, reduziu grandemente o número dos casados e criou, afinal, um forte sentimento na Igreja contra o matrimônio. Desde então o sentimento geral da Igreja vem condenando o casamento do clero.

Tornar o papa o monarca absoluto sobre a igreja
Já consideramos as coisas que Hildebrando julgava necessárias para livrar a Igreja da influência secular. Vimos também, que para atingir seu objetivo muito desenvolveu o poder do papado. Para continuar sua política era necessário que o papa fosse realmente o chefe supremo da Igreja.

A sua ideia era tornar a Igreja uma monarquia absoluta sob a autoridade do bispo de Roma. Todos os demais bispos, todo o clero, todos os monges, tinham de sujeitar-se absolutamente a ele.

Valendo-se de três anteriores audaciosas declarações para impor sua supremacia como sucessor de S. Pedro, e, através da arma da excomunhão, conseguiu relativo êxito na sua política.

Desde então a vontade do papa tem sido lei para a Igreja, muito mais do que o fora antes de Hildebrando.



b) Tornar a Igreja senhora suprema do universo.
Vimos apenas, até agora, somente uma parte do grande sonho de Hildebrando. Ele planejou não apenas libertar a Igreja do domínio secular, mas depois disso torná-la senhora suprema do mundo. A ela todos os demais poderes deveriam sujeitar-se.

Do papa, representante e cabeça da Igreja, todos os reis e governadores receberiam ordens e só poderiam exercer autoridade sob a supervisão do papa.

O papa teria o direito de depô-los e libertar os respectivos súditos da obediência que lhes deviam prestar, se os governos contrariassem a suprema e divina autoridade papal.

O mundo seria uma espécie de confederarão de Estados em que todos os reinos tinham de ser governados de acordo com a soberana vontade do chefe da Igreja.

O papado como supremo poder mundial
Essa foi a estupenda ideia de Hildebrando a respeito do papado: o papa deve encarnar o supremo governo da Igreja e como o cabeça da Igreja deve ser supremo governador do mundo.

Tal ideia espantosa dá-nos viva impressão da grandeza da mente de Hildebrando ao planejar tão audaciosa empresa. À luz da história do seu tempo até nós, descobrimos que a tal ideia constituía um erro colossal.

O papado, como ele concebia, seria a destruição da vida nacional da liberdade e do próprio cristianismo. Mas se quisermos entender Hildebrando temos de olhar as coisas como ele as viu e com a luz que ele tinha, não do nosso ponto de vista moderno de liberdade.

O pensamento medieval sobre esse assunto
Todos concordamos em que o cristianismo deveria governar o mundo ]1]. Mas para os habitantes da Europa ocidental, na Idade Média, afirmar isto era o mesmo que dizer que a Igreja deveria governar o mundo; pois para eles o cristianismo e a única igreja em que viam o cristianismo corporificado, eram a mesma coisa, pois ambos estavam identificados.

Não podiam pensar num cristianismo à parte da igreja, isto é, da igreja que conheciam, a Igreja Romana.

Ainda hoje há muita gente em situação idêntica.

Havia alguns que discordavam deste ponto de vista e faziam distinção entre os dois, entre a Igreja e o cristianismo; mas provavelmente Hildebrando vivendo toda a sua vida nos limites eclesiásticos romanos dentro das fronteiras da sua igreja, jamais ouvira ou pensara em tal ideia de um Cristianismo à parte da Igreja.

E praticamente todo o mundo pensava assim naquela época.

Para um homem da época e da formação de Hildebrando, não havia outro meio mais prático de tornar o cristianismo supremo no mundo a não ser tornando a Igreja a suprema autoridade na terra.

Para ele a supremacia da Igreja significava a supremacia do papado. Sem dúvida a maioria dos cristãos daquele tempo na Europa ocidental reconhecia o papa como o supremo chefe da igreja, divinamente indicado.

Consequentemente todos concordariam em que, se a igreja tinha de exercer autoridade sobre o mundo, essa autoridade só poderia ser exercida por intermédio dos papas.

Para o povo a soberania do cristianismo sobre o mundo tinha de ser exercida pelo soberano governo do papado.

Esses fatos acerca do pensamento do tempo de Hildebrando temos de ter sempre presentes, se quisermos fazer-lhe justiça e aos homens que compartilhavam das suas ideias.

Por Robert Hastings Nichols

ÍNDICE

A preparação para o Cristianismo

01 - A contribuição dos Romanos, Gregos e Judeus
02 - Como era o mundo no surgimento do cristianismo

A fundação e expansão da Igreja
03 - Jesus e sua Igreja
04 - A Igreja Apostólica Até o Ano 100

A Igreja antiga (100 - 313) 
05 - O mundo em que a Igreja vivia (100 - 313)
06 - Características da Igreja Antiga (100-313)

A Igreja antiga (313- 590) 
07 - O mundo em que a Igreja vivia (313 - 590)
08 - Características da Igreja Antiga (313-590)

A Igreja no início da Idade Média (590 - 1073) 
09 - O mundo em que a Igreja vivia (590-1073)
10 - Características da Igreja no início da Idade Média 
11 - O cristianismo em luta com o paganismo dentro da Igreja

A Igreja no apogeu da Idade Média (1073 - 1294) 
12 - A Igreja no Ocidente - O papado Medieval - Hildebrando
13 - Inocêncio III
13 - A Igreja Governa o Mundo Ocidental
14 - A guerra da Igreja contra o Islamismo - As cruzadas 
15 - As riquezas da Igreja
16 - A organização da Igreja
17 - A disciplina e a lei da Igreja Romana
18 - O culto da Igreja
19 - O lugar da Igreja na religião
20 - A vida de alguns líderes religiosos: Bernardo, Domingos e Francisco de Assis
21 - O que a Igreja Medieval fez pelo mundo
22 - A igreja Oriental

Decadência e renovação na Igreja Ocidental (1294 - 1517)

23 - Onde a Igreja Medieval falhou
24 - Movimentos de protesto: Cataristas, Valdeneses, Irmãos
25 - A queda do Papado
26 - Revolta dentro da igreja: João Wycliff e João Huss
27 - Tentativas de reforma dentro da Igreja
28 - A Renascença e a inquietude social como preparação para a Reforma

Revolução e reconstrução (1517 - 1648) 
29 - A Reforma Luterana
30 - Como Lutero se tornou reformador
31 - Os primeiros anos da Reforma Luterana
32 - Outros desdobramentos da Reforma Luterana
33 - A Reforma na Suíça - Zuínglio
34 - Calvino - líder da Reforma em Genebra
35 - A Reforma na França
36 - A Reforma nos Países Baixos
37 - A Reforma na Escócia, Alemanha e Hungria
O cristianismo na Europa (1648 - 1800)
43 - A França e a Igreja Católica Romana
44 - A Igreja Católica Romana e a Revolução Francesa
45 - O declínio religioso após a Reforma
46 - O Pietismo
46 - A Igreja Oriental
47 - A Regra Puritana
48 - Restauração
49 - Revolução
50 - Declínio Religioso no começo do século 18
51 - O Reavivamento do Século 18 e seus resultados
52 - Os Pactuantes (Covenanters)
53 - O Século 18 na Escócia
54 - O Presbiterianismo na Irlanda

O Século 19 na Europa
55 - O Catolicismo Romano
56 - O Protestantismo na Alemanha, França, Holanda, Suíça, Escandinávia e Hungria
57 - O Movimento Evangélico na Inglaterra
58 - O Movimento Liberal
59 - O Movimento Anglo-Católico
60 - As Igrejas Livres
61 - As Igrejas na Escócia: despertamento, descontentamento e cisão
62 - As missões e o cristianismo europeu

O Século 20 na Europa
63 - História Política até 1935
64 - O Catolicismo Romano
65 - O Protestantismo no Continente
66 - A Igreja da Inglaterra
67 - As Igrejas Livres 
68 - A Escócia
69 - A Igreja Ortodoxa Oriental
70 - Outros países orientais
71 - O Movimento Ecumênico

O cristianismo na América
72 - As primeiras tentativas
73 - As Treze Colônias
74 - Reconstrução e reavivamento após a Guerra da Independência
75 - O Século 19 até 1830
76 - 1830 - 1861
77 - 1861 - 1890
78 - 1890 - 1929
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