38 - A Reforma na Inglaterra

III. A REFORMA NA INGLATERRA

Influências que contribuíram para o a Reforma
Muito antes do rompimento de Henrique VIII com o papa, várias forças contribuíram para o preparo do povo inglês a fim de receber a Reforma.

A maior dessas forças foi a organização dos “Irmãos Lollardos” que conservou vivos os ensinamentos de Wycliff.

Além disso, havia a propaganda das idéias de reforma na igreja pelos humanistas, tais como Colet; a disseminação dos livros e ensinos de Lutero em alguns lugares e a circulação extensiva, embora proibida, do Novo Testamento de Tyndale, publicado em 1525.




A - HENRIQUE VIII

A questão do casamento de Henrique VIII
Não é justo afirmar como muitos o fazem, que Henrique VIII se revoltou contra o papa porque desejava uma nova esposa. Neste episódio estavam envolvidas graves questões de caráter nacional. 


Os estadistas ingleses muito se preocupavam com o fato de não haver um herdeiro do sexo masculino para a sucessão da coroa do país que nunca conhecera o governo de uma rainha. Havia também certa dúvida quanto à legalidade do casamento de Henrique com a rainha Catarina, segundo as leis eclesiásticas.

Desse modo houve alguma justificação para o seu pedido ao papa, de anulação de casamento. Antes, porém, de fazer o pedido, Henrique colocou-se numa situação indesejável por sua paixão súbita e ostensiva por Ana Bolena que era indigna de ser rainha do povo inglês.

Quando o papa, por motivos políticos, não atendeu ao pedido, Henrique, que jamais permitira que alguém lhe dobrasse á vontade, resolveu livrar a Inglaterra do domínio papal.

Conseguiu do arcebispo de Cantuária, uma declaração de ilegalidade do seu casamento com Catarina e da legalidade do seu novo consórcio com Ana Bolena. Tal desafio acarretou-lhe a ameaça de excomunhão por parte do papa.

A resposta de Henrique foi dada por meio de um ato do Parlamento pelo qual se declarava "Chefe Supremo da Igreja e Inglaterra", e por uma proclamação do clero que a ele se submetera, de que o papa não mais teria supremacia na Inglaterra.


Resultados de sua atitude
Não obstante, nada tinha sido feito até aqui no sentido de uma reforma real no terreno religioso. Durante o reinado de Henrique VII nenhum grande movimento reformador apareceu.

Quando ele morreu, em 1547 a Igreja da Inglaterra ainda conservava no seu credo as principais doutrinas romanistas. De um modo geral a situação da Igreja coincidia com os pontos de vista dos ingleses.

Jamais eles obedeceriam a um bispo italiano, no que se referisse aos negócios eclesiásticos da Inglaterra; todavia, não obstante o considerável desenvolvimento dos ensinos da Reforma, muita gente ainda conservava as antigas ideias religiosas.

A força dessas ideias, porém, tinha sido enfraquecida por dois acontecimentos ocorridos no reinado de Henrique. Um deles foi a ordem real para que cada igreja tivesse "uma Bíblia completa, de grande formato, na língua inglesa" e fosse colocada onde o povo a pudesse ler com facilidade.

A Bíblia usada pelo povo era principalmente de tradução feita por Tyndale, diretamente dos originais. Desde então, essa tradução tem sido a base de todas as Bíblias de língua inglesa que apareceram posteriormente, e grande parte do seu conteúdo ainda permanece nas versões recentes.

Outro ato hostil contra a religião medieval foi o fechamento dos mosteiros e o confisco das suas vastas propriedades.




B - EDUARDO VI

O progresso da Reforma
O reinado seguinte viu a igreja da Inglaterra tornar-se rapidamente protestante pela influência dos nobres que governaram no período da minoridade do rei Eduardo VI.

Dentro de cinco anos foram publicados um Primeiro e um Segundo "Livro Comum de Orações", modificando o culto da igreja de acordo com as idéias da Reforma.

O Parlamento decretou leis que exigiam que todas as pessoas assistissem ao culto reformado. Enquanto isto os ensinos da Reforma se divulgaram entre o povo, mas não tão rapidamente que impedissem as modificações feitas pelo governo.




C - MARIA

Tentativa da rainha para restaurar a Igreja Romana na Inglaterra
Surgiu, então, a reação tremenda chefiada pela Rainha Maria. Seu único objetivo era fazer a Inglaterra voltar ao que tinha sido antes de Henrique VIII, isto é, fazer o país voltar ao domínio da Igreja Romana.

Com este propósito anulou todos os atos dos reis seus predecessores. Atacou cruel e miseravelmente o protestantismo, especialmente nas pessoas dos seus líderes.

O povo inglês, que não estava habituado a estas perseguições, como o estavam alguns povos do continente, viu muito dos seus melhores e mais eminentes homens experimentarem a morte por causa da fé que professavam. Entre as vítimas destacam-se o arcebispo Cramer e os bispos Ridley e Latimer.

Resultado da perseguição
Esta perseguição realizou o que as leis e os livros de orações não conseguiram; fortaleceu substancialmente o protestantismo na Inglaterra. "Coragem, Mestre Ridley", dizia Latimer, enquanto as chamas subiam ao redor deles, em Oxford, “acenderemos neste dia uma luz tão grande na Inglaterra, pela graça de Deus, que ninguém jamais poderá apagar".

E foi isto realmente uma profecia. A maioria dos ingleses rejeitou esta forma de religião que oferecia semelhantes espetáculos de selvageria, em nome de Cristo.

A Inglaterra tornou-se consideravelmente muito mais protestante, após a morte da rainha Maria, em virtude da sua cruel batalha para tornar o país católico romano.




D - ISABEL

O protestantismo estabelecido
A sucessora da rainha Maria, a Grande Isabel, demonstrou seu propósito de seguir o protestantismo, sendo logo organizada uma igreja nacional protestante. Foi organizado também um "Livro Comum de Orações" ainda hoje adotado sem modificações substanciais.

Adotou-se em seguida um Credo Protestante. Os Trinta e Nove Artigos, que mais se inclinavam para o calvinismo do que para o luteranismo.


Não se modificou o governo da igreja; a organização episcopal continuou, vinda desde o tempo da igreja medieval. A igreja da Inglaterra era, naturalmente, uma igreja oficial, uma igreja do Estado.

Todas as modificações até então introduzidas foram sancionadas pelo Parlamento, e a rainha tornou-se Chefe da igreja.

Com sua igreja protestante e seu rápido desenvolvimento político e econômico, a Inglaterra tornou-se um dos principais baluartes da causa protestante na Europa e, depois, no mundo.





E – OS PURITANOS

Na organização da igreja da Inglaterra a ideia predominante era não introduzir outras modificações além das requeridas pelas ideias fundamentais do protestantismo.

Isso foi devido a atitude da rainha Isabel que, interferindo em tudo quanto se fazia, procurou manter uma situação intermediária entre os extremos, a fim de agradar o maior número de pessoas.

A Reforma inglesa foi dessa modo, conservadora, guardando o velho sistema de governo da igreja e muitas das antigas formas de culto.

Anseio por uma reforma mais radical
Mas havia um partido muito forte na Inglaterra profundamente desejoso de alcançar mudanças mais radicais.

Muitos dos seus membros fugiram durante as perseguições da rainha Maria, para Genebra e outros lugares do continente e, ali, experimentaram a influência de movimentos protestantes que tinham se afastado mais das doutrinas tradicionais do que o movimento da Inglaterra.

Estes homens foram apelidados de “Puritanos”. Insistiam para que o culto da igreja inglesa se libertasse de muitas coisas que os desagradavam, vestimentas e aparatos cerimoniais que tinham sido conservados da velha ordem medieval.

Opunham-se ao governo da igreja pelos bispos. Muitos deles pugnavam pela forma de governo presbiteriana.

Alguns queriam que cada congregação de cristãos fosse independente, sem estar sujeita a qualquer governo geral, pelo que foram chamados independentes e, depois, Congregacionalistas.

Os puritanos também pretendiam que se introduzisse uma estrita disciplina na igreja da Inglaterra para libertá-la de clérigos e leigos indignos.

Eles próprios eram homens de moral severa, muito firmes em suas convicções e grandes estudioso da Bíblia. Na teologia, seguiam a Calvino.


O puritanismo nos reinados de Isabel, Tiago I e Carlos I
Os puritanos não pretendiam abandonar a igreja do seu país e, de fato, não podiam fazê-lo, visto como a lei exigia que todas as pessoas assistissem ao culto da igreja nacional. O que deles desejavam era remodelar a igreja segundo as suas idéias.

Durante o reinado de Isabel propagaram vigorosamente seus pontos de vista e se fortaleceram bastante.

Tinham muita esperança no próximo reinado de Tiago I. Dele, porém, só conseguiram a ordem para uma revisão da Bíblia, da qual resultou a maravilhosa "Versão do Rei Tiago" (King James Version) de 1611.

Durante os últimos anos do reinado de Tiago e durante o do seu filho Carlos I, a política do governo nos assuntos da igreja era ditada pelo arcebispo Laud.

Este cria que o governo da igreja por intermédio dos bispos era divinamente autorizado. Insistia no estabelecimento, em todo o país, de uma forma de culto que conservasse muitos dos elementos medievais que eram odiosos aos puritanos.

O arcebispo era um homem intolerante e tirano, e tudo fez para suprimir o puritanismo, não hesitando mesmo em lançar mão de torturas e de prisão. Muitos puritanos perdendo a esperança de verem uma igreja nacional como aspiravam, emigraram para a América à procura de liberdade religiosa.

Crescimento do puritanismo
Mas os puritanos avançavam resolutos. Uma das causas desse avanço foi a leitura generalizada da Bíblia, movimento que, iniciando-se em 1580, cresceu ininterruptamente por mais de cinquenta anos. "A Inglaterra tornou-se o povo de um livro, e este livro era a Bíblia'.

Naquela era quando não havia jornais nem revistas e os livros eram muito poucos, a Bíblia tornou-se um livro de texto para a leitura nos estudos do povo.

Em virtude disto desenvolveu-se na vida do povo inglês um sentimento religioso profundo e sincero. O espírito nacional, o caráter do povo, cada. mais se aproximava do ideal dos puritanos.

Outra razão do crescimento do ideal puritanista foi a grande luta do povo contra a tirania de Tiago I e Carlos I, a fim de estabelecer um governo constituicional representativo.

Revolta da Escócia contra a política religiosa de Carlos I
A sucessão dos eventos que levaram o puritanismo ao controle da Inglaterra começou na Escócia. Carlos I governava ambos os países como o fizera Tiago I.

Em virtude da influência de Laud, o rei tentou forçar na igreja da Escócia o uso de um livro de orações, como o da igreja da Inglaterra, contendo muitas coisas que os escoceses odiavam e consideravam como "papismos". Por isto a Escócia uniu-se para resistir-lhe.

Foi então redigido o famoso Acordo ou Concerto, em que todos os signatários pediam que se mantivesse a igreja nacional como fora estabelecida na Reforma.

O Acordo foi assinado em 1638, numa grande assembleia em Edinburg, no meio de grande entusiasmo, e enviado depois por todo o país para angariar mais assinaturas.

Em consequência disto, a Assembleia Geral da Igreja da Escócia depôs, naquele ano, os bispos que Tiago I impusera à igreja, e foi assim restaurado o puro presbiterianismo.

Organizou-se então um exército escocês que atravessou as fronteiras em direção à Inglaterra, em rebelião aberta. Assim agindo conseguiram os escoceses a grande vitória para a liberdade inglesa.

Pois o rei Carlos, dispondo de dinheiro para guerrear os rebeldes, foi forçado, depois de ter governado ilegalmente por muitos anos sem parlamento, a convocar uma tal assembleia.

Os puritanos governam a Inglaterra
O "Grande Parlamento", que se reuniu em 1640 representou a Inglaterra daquela época, com uma maioria decididamente puritana.

Desse modo tiveram eles, naquela oportunidade de remodelar a igreja inglesa como desejavam. Adiante veremos como os puritanos usaram do poder para alcançar o seu objetivo.

Por Robert Hastings Nichols

ÍNDICE


A preparação para o Cristianismo

01 - A contribuição dos Romanos, Gregos e Judeus
02 - Como era o mundo no surgimento do cristianismo

A fundação e expansão da Igreja
03 - Jesus e sua Igreja
04 - A Igreja Apostólica Até o Ano 100

A Igreja antiga (100 - 313) 
05 - O mundo em que a Igreja vivia (100 - 313)
06 - Características da Igreja Antiga (100-313)

A Igreja antiga (313- 590) 
07 - O mundo em que a Igreja vivia (313 - 590)
08 - Características da Igreja Antiga (313-590)

A Igreja no início da Idade Média (590 - 1073) 
09 - O mundo em que a Igreja vivia (590-1073)
10 - Características da Igreja no início da Idade Média 
11 - O cristianismo em luta com o paganismo dentro da Igreja

A Igreja no apogeu da Idade Média (1073 - 1294) 
12 - A Igreja no Ocidente - O papado Medieval - Hildebrando
13a - Inocêncio III
13b - A Igreja Governa o Mundo Ocidental
14 - A guerra da Igreja contra o Islamismo - As cruzadas 
15 - As riquezas da Igreja
16 - A organização da Igreja
17 - A disciplina e a lei da Igreja Romana
18 - O culto da Igreja
19 - O lugar da Igreja na religião
20 - A vida de alguns líderes religiosos: Bernardo, Domingos e Francisco de Assis
21 - O que a Igreja Medieval fez pelo mundo
22 - A igreja Oriental

Decadência e renovação na Igreja Ocidental (1294 - 1517)

23 - Onde a Igreja Medieval falhou
24 - Movimentos de protesto: Cataristas, Valdeneses, Irmãos
25 - A queda do Papado
26 - Revolta dentro da igreja: João Wycliff e João Huss
27 - Tentativas de reforma dentro da Igreja
28 - A Renascença e a inquietude social como preparação para a Reforma

Revolução e reconstrução (1517 - 1648) 
29 - A Reforma Luterana
30 - Como Lutero se tornou reformador
31 - Os primeiros anos da Reforma Luterana
32 - Outros desdobramentos da Reforma Luterana
33 - A Reforma na Suíça - Zuínglio
34 - Calvino - líder da Reforma em Genebra
35 - A Reforma na França
36 - A Reforma nos Países Baixos
37 - A Reforma na Escócia, Alemanha e Hungria

O cristianismo na Europa (1648 - 1800)
43 - A França e a Igreja Católica Romana
44 - A Igreja Católica Romana e a Revolução Francesa
45 - O declínio religioso após a Reforma
46 - O Pietismo
46 - A Igreja Oriental
47 - A Regra Puritana
48 - Restauração
49 - Revolução
50 - Declínio Religioso no começo do século 18
51 - O Reavivamento do Século 18 e seus resultados
52 - Os Pactuantes (Covenanters)
53 - O Século 18 na Escócia
54 - O Presbiterianismo na Irlanda

O Século 19 na Europa
55 - O Catolicismo Romano
56 - O Protestantismo na Alemanha, França, Holanda, Suíça, Escandinávia e Hungria
57 - O Movimento Evangélico na Inglaterra
58 - O Movimento Liberal
59 - O Movimento Anglo-Católico
60 - As Igrejas Livres
61 - As Igrejas na Escócia: despertamento, descontentamento e cisão
62 - As missões e o cristianismo europeu

O Século 20 na Europa
63 - História Política até 1935
64 - O Catolicismo Romano
65 - O Protestantismo no Continente
66 - A Igreja da Inglaterra
67 - As Igrejas Livres 
68 - A Escócia
69 - A Igreja Ortodoxa Oriental
70 - Outros países orientais
71 - O Movimento Ecumênico

O cristianismo na América
72 - As primeiras tentativas
73 - As Treze Colônias
74 - Reconstrução e reavivamento após a Guerra da Independência
75 - O Século 19 até 1830
76 - 1830 - 1861
77 - 1861 - 1890
78 - 1890 - 1929

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