34 - Calvino - líder da Reforma em Genebra


B - CALVINO - LÍDER DA REFORMA EM GENEBRA

A mocidade de Calvino
Não muito depois da morte de Zuínglio surgiu um líder ainda maior para tomar a direção do protestantismo na Suíça. João Calvino (1509-1564) nasceu vinte e seis anos depois de Lutero, de modo que pertencia à segunda geração da Reforma. 

Era francês, pois nasceu em Noyon, na Picardia. Seu pai era um rico advogado ligado à nobreza e ao alto clero da sua terra.

Calvino teve a sua educação elementar no seio de uma nobre família francesa, em igualdade de condições com os filhos da casa; e esta sua refinada educação social fê-lo sempre o reservado, polido e nobre cavalheiro francês.

Destinado ao sacerdócio foi enviado a Paris quando tinha catorze anos de idade para realizar os estudos preparatórios para a sua carreira eclesiástica. Cinco anos depois, o pai decidiu que o filho estudasse Direito o que fez, em Orleans e em Bourges. 

Falecendo o pai em 1531, Calvino resolveu seguir sua própria vocação: enveredar pela cultura das letras. A isto resolvido, voltou a fim de estudar sob a direção dos mais eminentes humanistas.

Sua conversão ao protestantismo
Quando, onde e como Calvino se tornou protestante não se sabe ao certo. A sua mudança foi resultante das influências dos novos estudos e dos ensinos de Lutero e surgiu repentinamente, acompanhada de uma grande renovação de sua vida espiritual. 

Declarou-se protestante em 1533 e, ao fim de ano acompanhado de outros protestantes, teve de fugir de Paris em virtude de uma inesperada e feroz perseguição.



As Institutas
Apesar da sua vida inquieta esteve três anos em Basiléia e ali, aos vinte e seis anos, publicou um livro que lhe permitiu ganhar a posição de um dos líderes do protestantismo. 

Esse livro foi o seu famoso "Institutas". Na primeira edição o livro era pequeno, não era ainda o tratado de teologia que veio a ser depois; apenas uma declaração sistemática da verdade cristã sustentada e defendida pelos protestantes e destinado ao uso popular.

Até então nenhum livro desta natureza tinha sido publicado. 

O livro de Calvino foi muito útil aos protestantes como um instrumento da sua luta e dos seus esforços para alcançar novos conversos; e também como um instrumento na sua luta e dos seus esforços parar alcançar novos conversos; e também como uma vindicação das suas crenças contra as falsas acusações que lhes assacavam.




Genebra antes de Calvino
Em uma das suas viagens em 1536, Calvino passou uma noite em Genebra, cidade de cerca de treze mil pessoas. Era socialmente próspera, mas de baixo nível moral. 

Fazia muito pouco tempo que ali triunfara a Reforma sob a liderança do garboso pregador Guilherme Farel. A cidade conquistara sua independência, numa guerra contra seu bispo que era também senhor feudal. 

Nesse tempo a cidade declarou-se protestante. Mas Farei verificou que o que se tinha feito era apenas o início da luta e que a cidade, tendo a vida desorganizada, necessitava urgentemente de uma obra poderosamente construtiva, tanto no terreno moral como no religioso.

Reconheceu-se incapaz de levar avante semelhante tarefa. Perplexo sobre o que fazer, ouviu a notícia de que o notável reformador e culto francês estava na cidade, naquela noite. 

Os excelentes dons intelectuais de Calvino o assinalavam como o homem de quem a cidade necessitava. Mas seu grande desejo de continuar nas pesquisas intelectuais fê-lo recusar-se a ouvir os insistentes pedidos de Farel. 

E só por causa de uma oração na qual Farel afirmara que Deus amaldiçoaria Calvino se este recusasse o convite da cidade, conseguiu Farel que ele se dedicasse à grande obra que ali o esperava.



Seu primeiro ministério e deportação
Iniciadas as suas atividades, em pouco tempo o trabalho de Calvino resultou em desastre. Muita gente não estava com o coração predisposto à Reforma e a oposição dessa gente resultou na expulsão dele e de Farel. 

Calvino então passou três anos em Estrasburgo, como pastor de uma igreja de protestantes franceses, exilados pelas perseguições. Aqui identificou-se com muitos líderes da Reforma e foi reconhecido como um dos mais capazes entre eles.

Volta com novo propósito
Em Genebra as coisas iam de mal a pior. Os seus habitantes que reconheceram a capacidade e a dignidade de Calvino quando da primeira tentativa, insistiram para que ele voltasse. 

Depois de muita relutância aceitou, em 1541, um lugar entre outros pregadores da cidade, o único ofício que jamais exerceu.

Embora tivesse vindo sem muito desejo, a sua volta teve um propósito resoluto: tornar Genebra uma cidade cristã modelo, uma comunidade cuja vida fosse realmente dirigida pelo cristianismo. Isto não era somente e principalmente por amor a Genebra. 

Calvino queria que a cidade fosse de tal modo cristianizada que se tornasse uma fonte de inspiração e poder para o protestantismo em toda a parte.

Ele viu que a Igreja Romana tentaria uma luta tremenda para readquirir o que já, há tanto tempo, havia perdido, e sentiu-se como um general à frente de grande campanha, com a responsabilidade do êxito da causa inteira.

Reorganização da Igreja
Os meios pelos quais se propusera tornar Genebra uma comunidade cristã foram: uma igreja totalmente reorganizada; leis que expressassem a moral bíblica; um sistema educacional de primeira ordem.

Quanto à Igreja, devemos lembrar que a igreja protestante de Genebra incluía toda a população. Antes da chegada de Calvino a cidade toda tinha decidido aceitar o protestantismo. Assim a reorganização da igreja afetaria toda a comunidade.

Os planos de Calvino para a igreja incluíam ministério educado e cuidadosamente escolhido, fiel aos deveres claramente indicados para o mesmo. Assim Calvino criou o ofício do moderno ministro protestante. 

Cuidou também do exercício efetivo da disciplina na igreja por meio do Consistório, que era composto dos presbíteros, cujo dever era vigiar a conduta do povo, e dos ministros. Logo após, cuidou da administração da beneficência na cidade por intermédio dos diáconos.

Sistema educacional
Os planos de Calvino quanto à educação foram inspirados por sua convicção de que a verdadeira religião e a educação estão inseparavelmente associadas. 

A preservação e segurança da fé reformada, viu ele, requeriam um povo educado tanto quanto um ministério educado. 

Seus planos resultaram no estabelecimento de um sistema escolar livre e completo, culminado pela Academia, Instituição de grau universitário a que não faltassem os cursos de teologia.

Calvino foi incansável nos seus esforços em conseguir os melhores mestres para as escolas de Genebra, os quais, em pouco tempo, se tornaram famosos. Muitíssimos estrangeiros vieram à Academia para estudar teologia e voltaram como ministros protestantes.



O êxito de Calvino
Durante o ministério de Calvino, de vinte e três anos, ele viu que seu ideal para a cidade fora em grande parte realizado. 

Aquela cidade dantes turbulenta e dissoluta tornou-se notável por sua ordem, por sua cultura, por seu cristianismo ardoroso e pelas condições morais excelentes.

Estes resultados não foram alcançados por Calvino e seus colaboradores sem dificuldades. Surgiu muita oposição por causa da estrita disciplina do Consistório.

Houve mesmo um tempo quando a obra de Calvino parecia arruinar-se, mas sua persistência e coragem férrea não falharam. 

Sua vitória final foi devida parcialmente a muitos protestantes refugiados de perseguições, vindos de outros países, que se tornaram cidadãos de Genebra. Nos últimos nove anos da sua vida ele foi o governador da cidade.




Calvino e Serveto
A parte de Calvino na execução de Serveto, médico espanhol, por motivo de heresia, tem contribuído para que muitas pessoas deixem de fazer justiça à grande obra desse reformador. 

Por negar a doutrina da Trindade, Serveto foi condenado à fogueira, sendo Calvino um dos juízes que o condenaram. Como quase todas as pessoas do seu tempo, Calvino herdou da Idade Média a crença de que a heresia deveria ser punida com a morte.

Trairíamos a nossa consciência cristã se deixássemos de condenar com todas as forças o ato de Calvino neste caso. Todavia devemos nos lembrar de que naquele tempo sua atitude foi geralmente aprovada em Genebra e pelos protestantes de quase toda a parte.

A liberdade de consciência foi, em grande parte resultado do espírito e do movimento reformador, mas essa liberdade surgiu muito lentamente. De entre os grandes líderes protestantes do século de Calvino somente um, Guilherme de Orange, cria plenamente na liberdade religiosa.

Benefícios da obra de Calvino
Por sua obra em Genebra, Calvino alcançou três benefícios para o protestantismo em geral. A vida moral da cidade foi um exemplo do que a fé reformada podia realizar, e daí o poder de sua propaganda. 

Genebra foi a cidadela de refúgio para os perseguidos por causa da Reforma. Para esta cidade livre, veio gente da França, Holanda, Alemanha, Escócia e Inglaterra. Os refugiados nela encontraram um lar apropriado.

Foi também um lugar de preparo sólido para os líderes do protestantismo. Na sua Academia e no ambiente da cidade, foram preparados ministros devotados, instruídos e destemidos que se espalharam como missionários da Reforma, pelos países onde esta ainda não havia entrado. 

Muitos dos refugiados voltaram aos seus países de origem, fortalecidos por sua estada em Genebra e por seu contacto com Calvino. Um deles foi João Knox.



Outros serviços
Pelo que fez em Genebra e por outros aspectos da sua obra, Calvino inspirou o protestantismo em toda a parte e exerceu poderosa influência para o seu desenvolvimento. 

Um segundo aspecto do seu trabalho foi o do contato pessoal com os lideres protestantes de muitos lugares, mantido principalmente por meio da sua enorme correspondência. Ele era a cabeça dirigente da Reforma na França, embora lá não tivesse ido havia vinte e sete anos.

Realizou trabalho semelhante em outros países. A terceira faceta do seu trabalho foram os seus livros, especialmente as "Institutas", livro que teve grande circulação.

Foi assim que as ideias de Calvino predominaram nos movimentos da Reforma na França, Holanda, Escócia e em muitas partes da Alemanha, como também na Inglaterra. 

Quando pensamos de quanto o mundo deve aos protestantes desses países, somos levados a pensar também no que devemos a João Calvino.

Por Robert Hastings Nichols

ÍNDICE


A preparação para o Cristianismo

01 - A contribuição dos Romanos, Gregos e Judeus
02 - Como era o mundo no surgimento do cristianismo

A fundação e expansão da Igreja
03 - Jesus e sua Igreja
04 - A Igreja Apostólica Até o Ano 100

A Igreja antiga (100 - 313) 
05 - O mundo em que a Igreja vivia (100 - 313)
06 - Características da Igreja Antiga (100-313)

A Igreja antiga (313- 590) 
07 - O mundo em que a Igreja vivia (313 - 590)
08 - Características da Igreja Antiga (313-590)

A Igreja no início da Idade Média (590 - 1073) 
09 - O mundo em que a Igreja vivia (590-1073)
10 - Características da Igreja no início da Idade Média 
11 - O cristianismo em luta com o paganismo dentro da Igreja

A Igreja no apogeu da Idade Média (1073 - 1294) 
12 - A Igreja no Ocidente - O papado Medieval - Hildebrando
13a - Inocêncio III
13b - A Igreja Governa o Mundo Ocidental
14 - A guerra da Igreja contra o Islamismo - As cruzadas 
15 - As riquezas da Igreja
16 - A organização da Igreja
17 - A disciplina e a lei da Igreja Romana
18 - O culto da Igreja
19 - O lugar da Igreja na religião
20 - A vida de alguns líderes religiosos: Bernardo, Domingos e Francisco de Assis
21 - O que a Igreja Medieval fez pelo mundo
22 - A igreja Oriental

Decadência e renovação na Igreja Ocidental (1294 - 1517)

23 - Onde a Igreja Medieval falhou
24 - Movimentos de protesto: Cataristas, Valdeneses, Irmãos
25 - A queda do Papado
26 - Revolta dentro da igreja: João Wycliff e João Huss
27 - Tentativas de reforma dentro da Igreja
28 - A Renascença e a inquietude social como preparação para a Reforma

Revolução e reconstrução (1517 - 1648) 
29 - A Reforma Luterana
30 - Como Lutero se tornou reformador
31 - Os primeiros anos da Reforma Luterana
32 - Outros desdobramentos da Reforma Luterana
33 - A Reforma na Suíça - Zuínglio
34 - Calvino - líder da Reforma em Genebra
35 - A Reforma na França
36 - A Reforma nos Países Baixos
37 - A Reforma na Escócia, Alemanha e Hungria


O cristianismo na Europa (1648 - 1800)
43 - A França e a Igreja Católica Romana
44 - A Igreja Católica Romana e a Revolução Francesa
45 - O declínio religioso após a Reforma
46 - O Pietismo
46 - A Igreja Oriental
47 - A Regra Puritana
48 - Restauração
49 - Revolução
50 - Declínio Religioso no começo do século 18
51 - O Reavivamento do Século 18 e seus resultados
52 - Os Pactuantes (Covenanters)
53 - O Século 18 na Escócia
54 - O Presbiterianismo na Irlanda

O Século 19 na Europa
55 - O Catolicismo Romano
56 - O Protestantismo na Alemanha, França, Holanda, Suíça, Escandinávia e Hungria
57 - O Movimento Evangélico na Inglaterra
58 - O Movimento Liberal
59 - O Movimento Anglo-Católico
60 - As Igrejas Livres
61 - As Igrejas na Escócia: despertamento, descontentamento e cisão
62 - As missões e o cristianismo europeu

O Século 20 na Europa
63 - História Política até 1935
64 - O Catolicismo Romano
65 - O Protestantismo no Continente
66 - A Igreja da Inglaterra
67 - As Igrejas Livres 
68 - A Escócia
69 - A Igreja Ortodoxa Oriental
70 - Outros países orientais
71 - O Movimento Ecumênico

O cristianismo na América
72 - As primeiras tentativas
73 - As Treze Colônias
74 - Reconstrução e reavivamento após a Guerra da Independência
75 - O Século 19 até 1830
76 - 1830 - 1861
77 - 1861 - 1890
78 - 1890 - 1929
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