11 - O cristianismo em luta com o paganismo dentro da Igreja



[c] O cristianismo em luta com o paganismo dentro da Igreja

Devemos ter sempre presente que a Igreja durante esse período que consideramos, tinha no seu seio muita gente sem a conversão cristã; eram cristãos-pagãos.

Vejamos, resumidamente, as causas desta situação alarmante.

Uma delas foi a atitude dos imperadores romanos que tornaram o cristianismo a religião da moda, cujo patrono era o governo imperial e à qual aderiram grandes multidões. Outra causa foi o decreto do imperador Teodósio, que obrigava os súditos a professarem o cristianismo na forma ortodoxa.

Desse modo surgiu a política imperial do uso do poder para reprimir a idolatria e forçar o povo a se filiar à Igreja. 


Mais uma vez, os métodos missionários medievais resultaram na entrada para a Igreja, de multidões de germanas e de outros povos que nunca experimentaram a conversão cristã. O mal agravou-se quando certos governos e conquistadores obrigaram os seus povos aceitar o cristianismo.

A luta do cristianismo contra o paganismo teve de ser sustentada dentro e fora da Igreja, cuja grande tarefa na Idade Média era a conquista dos bárbaros do norte e do ocidente da Europa, os quais haveriam de ser os conquistadores do mundo, o que foram depois que entraram na Igreja.

Esta luta contra o paganismo dentro da Igreja ocidental foi tão dura que o cristianismo, por certo tempo, quase foi vencido na sua própria sede.

A tarefa do cristianismo tornou-se ainda mais difícil em virtude das circunstâncias contrárias no mundo de então.

Hoje vivemos numa civilização em que o Cristianismo vem agindo como fermento durante séculos, modificando os sentimentos dos homens, mesmo dos que, pessoalmente não se confessam cristãos.

Esta é a razão por que há governos que lutam a favor da justiça e de certos princípios que o cristianismo defende e procura estabelecer. Há, também, em muitos lugares uma opinião pública que, no que aprova e no que condena, de certo modo, concorda com os ensinos cristãos.

Mas naqueles tempos tenebrosos nada disto existia na Europa, ocidental. Seus povos estavam emergindo da barbárie e do paganismo.

Os governos, exceto poucos, como os de Carlos Magno e Oto I, consistiam no domínio de homens tiranos, indisciplinados e violentos, em muitos casos notoriamente perversos.

O cristianismo tinha tido tão pouco tempo para exercer a sua influência que não havia ainda formada uma opinião pública cristã. As tradições sociais eram oriundas, na sua totalidade, do paganismo.


1 - A VIDA NA IGREJA
A batalha que o cristianismo sustentou para sobreviver aparece no abismo em que a Igreja se precipitou, abismo de conduta e de moral.

Mesmo dentro do clero, a condição moral era incrivelmente ruinosa. Veja-se, por exemplo, o retrato da Igreja na França, no VIII século, antes de Bonifácio nela introduzir um pouco de decência.

"A maioria dos sacerdotes era constituída de escravos foragidos ou criminosos que alcançaram a tonsura sem qualquer ordenação. Seus bispados eram considerados como propriedades particulares e abertamente vendidos a quem desse mais... O arcebispo de Ruão não sabia ler; seu irmão de Trèves, nunca fora ordenado... Embriaguez e adultério eram os menores vícios de um clero que tinha apodrecido até à medula".

Não é exagero afirmar que, por toda a Europa, sacerdotes escandalosos superavam, numericamente, os de vida honesta.

Não somente a ignorância e o abandono dos deveres eram freqüentes, mas também a vida luxuriosa, grossa imoralidade, roubo e simonia, isto é, a venda dos ofícios eclesiásticos.

O alto clero não era melhor, talvez pior. A símonia era a maneira regular e, reconhecida de se obter um bispado; e para alguns deles havia preço fixo.

Nem o papado ficou isento. Seu estado por mais de 150 anos, a partir de 890, era vergonhoso, vil ao último grau.

O ofício que tinha sido tão elevado por Gregório I e Nicolau, passou por toda a sorte de desgraças. Competições políticas se estenderam a vários pontificados. Alguns ocupantes da cadeira papal foram notoriamente culpados de toda a sorte de crimes.

Durante anos, uma família de mulheres infames dominou o papado, as quais entregavam a quem elas o desejassem dar. Foi quando o imperador Oto I, no propósito de salvar o pontificado dessa degradação, sujeitou-o a si próprio.

Durante 40 anos, os imperadores, elevavam ou depunham os papas! E escolheram homens melhores do que os que haviam usado a tiara.

Depois disso, o papado veio às mãos de uma nobre família italiana, os condes Tusculum. Esse domínio terminou com Benedito IX cuja depravação, roubos e assassínios finalmente provocaram uma revolta do povo romano que o expulsou.

O fato de o papado se restaurar de toda essa vergonha e alcançar maior prestígio e poder do que dantes, mostra como era forte o seu domínio no espírito do povo da Europa.

Mesmo os que se supunham separados do mundo para se dedicarem a uma vida cristã mais consagrada, isto é, os monges e freiras, foram envolvidos e arrastados pela degradação da época.

De fato, alguns dos piores registros sobre a imoralidade da época dizem respeito aos mosteiros, cuja situação interna era o reflexo da podridão externa.

Quando os chefes religiosos, mesmo os que se encontravam nos lugares mais eminentes, davam tais exemplos, é desnecessário falar sobre o caráter do povo da Igreja.

Ao fim do século X, numa grande parte da Europa ocidental, praticamente todo o povo pertencia à Igreja tinha o título de cristão, mas só o era quanto às cerimônias religiosas.

O ensino moral cristão quase não tinha efeito na vida humana. Embora houvesse alguns indivíduos cujas vidas apresentassem algum sentimento cristão, a sociedade, como um todo, quase nada demonstrava da obra transformadora do cristianismo.

O deão Church, dando a razão por que tantos homens e mulheres nessa época entraram para a vida monástica, diz:

"Procure alguém lançar-se na sociedade daqueles dias e sentir-se-á num ambiente para o qual a religião verdadeira, a religião do auto-domínio, do domínio das paixões, a religião do amor, era simplesmente uma coisa estranha e incompreensível e da qual ninguém queria cogitar. Aquela era uma sociedade esmagada sob o peso de atividades que transformavam a vida em pugnas amargas com que uns esmagavam os outros, impiedosamente, tripudiando por cima do princípios e freios que a própria moralidade impõe". 

A maldade e a miséria da massa humana daqueles dias eram simplesmente de estarrecer.

Tal estado de coisas era devido unicamente ao paganismo que, invadindo a Igreja, tornara-se invencível. Esta sociedade corrupta era na realidade uma sociedade pagã, embora nominalmente cristã.

Se quisermos ter uma ideia do que era viver no mundo de então, devemos lembrar que, além de a sociedade ser dominada, quase totalmente, pela imoralidade do paganismo, o mundo era varrido quase incessantemente por guerras de toda a sorte.

Guerras grandes e pequenas, entre reis e nobres, e incessante ataques dos bárbaros, enchiam a Europa ocidental de selvageria e destruição. Além de tudo, era o mundo da mais crassa ignorância.

A antiga cultura greco--romana tinha sido quase afogada pelo dilúvio da invasão bárbara. Conhecimentos, mesmo os mais rudimentares eram posse apenas de uns poucos.

O que Carlos Magno fez para acender a cultura foi apenas um pontinho luminoso num estado de coisas que tornou aqueles tempos conhecidos como a "Idade das Trevas". Em um mundo assim o cristianismo tinha a tarefa de fazer com que seus ensinos morais, fossem aceitos e seguidos.


2 - O CULTO E A RELIGIÃO POPULAR
No capítulo anterior, vimos o culto cristão, de certo modo, corrompido pelo paganismo. Neste período, em virtude de haver grande elemento pagão na Igreja, seu culto refletiu esta influência pagã em alto grau.

E não somente o culto, mas igualmente todo o ritual religioso e os hábitos sociais, viram testemunhada, de modo decisivo, a presença da religião pagã.

O que o deão Milman chamou "Mitologia Cristã", desenvolveu-se e veio se constituir o cristianismo de muita gente. Seria mais certo dizer, da massa ou da totalidade do povo.

O Deus revelado por Cristo não era o único objeto de culto. Grande número de outros seres foi alvo desse culto e na mente do povo esses outros seres tinham um lugar maior que o do próprio Deus.

Parece que os santos e a Virgem demonstravam mais amor e simpatia para com o homem e estavam mais perto dele do que Deus mesmo.

Entre os santos, quem ocupava, como ainda ocupa, o lugar de destaque, era a Virgem Maria, cujo culto já estava muito desenvolvido.

O ano eclesiástico se encheu de grandes festas em sua honra. Faziam-lhe orações contínuas por sua intercessão junto ao Pai.

Invocava-se a proteção dos santos, cujo número já era grande, como também dos mártires, dos monges e de outros santos homens e mulheres.

Certos indivíduos, lugares e sociedades, tinham seus santos protetores. Os santos tinham seus dias especiais de culto; desse modo crescia o calendário da Igreja. A canonização, isto é, a elevação à santidade, era realizada por um processo regular e dependente das decisões papais.

O costume de viagens ou peregrinações aos lugares ditos sagrados, sepulcros de santos, etc, desenvolveu-se extraordinariamente.

Estas viagens, dizia-se, conferiam aos peregrinos as graças divinas. A mais meritória das peregrinações, naturalmente, era à Terra Santa. Esta viagem, como se cria, alcançava o perdão para todos os pecados.

As relíquias ocuparam um lugar de destaque na religião popular. Objetos como ossos dos apóstolos e as cadeias com que Pedro foi algemado, por exemplo, eram tesouros para os possuidores; e cria-se que tinham o poder de operar milagres.

Gregório I que foi um líder intelectual, procurava relíquias com devoto entusiasmo e narrava com verdadeira fé, histórias dos poderes miraculosos de tais relíquias.

A missa tornou-se o elemento central do culto. A Ceia do Senhor era agora conhecida pelo nome de missa. Este sacramento era considerado um sacrifício continuamente oferecido a Deus pelos pecados do mundo.

Firmava-se cada vez mais a crença de que o pão era a verdadeira carne e o vinho, o verdadeiro sangue do Senhor, embora a crença não tivesse sido definida e declarada pela Igreja.

A crença do povo era de temor como nas religiões pagãs que o cristianismo destronara. Pensava-se que o mundo era cheio de maus espíritos, de demônios cuja obra era destruir as almas. Para anular a obra dos demônios apelava-se para a intercessão dos santos e para as virtudes mágicas das santas relíquias.

Nesse período atribuiu-se espantosa santidade aos templos, aos elementos da missa, às relíquias e às pessoas do clero, tudo no propósito de se infundir temor nas massas.

Contavam-se histórias que eram cridas piedosamente a respeito de certos atos irreverentes praticados nas igrejas, de desacato aos sacerdotes, atos que eram seguidos de calamidades ou morte instantânea.

O poder do cristianismo sobre o povo era o poder do medo, como no paganismo. À primeira vista parece incrível que o cristianismo chegasse a tal ponto, apresentasse tal caricatura das suas belas doutrinas e ficasse tão longe daquela simplicidade, espiritualidade e alegria e confiança da religião de Jesus.

Mas podemos entender como isso aconteceu, quando nos lembramos que a maioria esmagadora do povo entre o qual esse cristianismo se desenvolveu, conservava ideias pagãs a respeito da religião


[d] A alvorada após a Idade das Trevas
Cada vez mais na história da Igreja, o cristianismo parece quase aniquilado, desfigurado pela imperfeição humana. Jesus Cristo, cabeça da Igreja, entretanto, mostrou mais uma vez o seu poder.

No século XI apareceu na igreja do ocidente um reavivamento religioso compatível com a natureza daqueles tempos.

A partir do ano 1000, começamos a notar uma mudança para melhor em toda a vida da Europa ocidental.

Depois de séculos de guerra e anarquia começaram a surgir vagarosamente a ordem e a paz. Os povos germânicos desde muito já se tinham estabelecido nas suas conquistas e se desenvolviam em civilização.

O forte governo então estabelecido na Alemanha por Oto I, tinha ampliado os seus territórios para o leste e repelido todos os invasores desse lado.

Os normandos e dinamarqueses, os últimos bárbaros a atacarem a Europa ocidental e do sul, tinham paralisado as suas investidas, e muitos normandos se tinham estabelecido no noroeste da Franca.

Os árabes tinham cessado as suas agressões e se fixaram ao sul da Espanha. A Europa gozava um pouco de descanso e teve tempo para pensar. Um sopro de vida nova passava pelo mundo. Apareceu um despertamento intelectual.

Surgiram grandes mestres nos mosteiros e nas escolas. Homens de letras viajavam por toda a parte pesquisando, indagando, desenvolvendo a cultura. Escreviam-se incontáveis livros. A arte reviveu, especialmente a arquitetura que entrava então no seu maravilhoso desenvolvimento medieval.

Esse geral fortalecimento para uma vida humana mais elevada deu ao cristianismo oportunidade excepcional.

Desde há muito, vivendo e lutando, a despeito de todos os obstáculos de um mundo em desordem, tinha agora o cristianismo uma oportunidade de mostrar o seu poder, como de fato o fez.

Talvez, o que mais nos entristeceu nas condições gerais que vimos considerando, foi a corrupção invadir os mosteiros ou conventos, dantes considerados os lugares da mais sincera consagração.

Um verdadeiro ressurgimento tinha de começar a sua obra nestas instituições e assim aconteceu, O início desse movimento regenerador teve lugar no século X.

Naquele tempo fundou-se no sudeste da França o mosteiro de Cluny. Nele observava-se a regra beneditina na sua severidade primitiva, e os monges viviam realmente como deviam viver os que assumiam aqueles votos.

De Cluny, espalhou-se, pela França e pela Alemanha, a consciência do domínio do mal no mundo e o propósito de corrigir a vida, até que um grande número de conventos fosse purificado. Foram também organizados novos conventos que personificavam o espírito da reforma que se verificara em Cluny.

Foi organizada, então, o que se chamou a congregação de Cluny. Um grupo de conventos na França, sob o controle do abade de Cluny. Todos esses mosteiros viviam segundo as rigorosas regras e o bom exemplo de Cluny.

No começo do século XI, surgiu um partido reformista com o propósito de levantar a Igreja da sua decadência. Era composto principalmente de homens que tinham sido treinados no zelo e na vida rigorosa de Cluny, ou nos mosteiros que estavam sob sua influência.

A ideia geral da sua política reformadora era libertar a Igreja dos laços que a prendiam aos poderes e interesses mundanos.

Um dos itens do seu programa, foi a abolição da simonia, isto é, a compra dos ofícios eclesiásticos. Este mal era resultante da grande riqueza da Igreja.



Bispados e mosteiros possuidores de enormes riquezas, compraram grandes extensões de terras valiosas, sobre as quais os bispos e abades governavam, exatamente como os grandes senhores da nobreza feudal.

Como os nobres, esses oficiais eclesiásticos eram subordinados aos reis dos vários países, em virtude do controle que exerciam sobre as terras que ficavam nos domínios desses reis.

De modo que os governadores civis tinham nas mãos o poder de indicar os indicar os bispos e abades; e sendo esses governadores muitas vezes homens irreligiosos, vendiam esses cargos a peso de dinheiro.

Tal prática era, naturalmente, prejudicial à vida espiritual da Igreja. Homens que compravam cargos religiosos não podiam ser as pessoas indicadas para exercerem esses ofícios.

Outro aspecto do programa de reforma foi um ataque à violação geral do celibato clerical. Embora, que de há muito fosse esta a lei da Igreja, era comumente desobedecida e muitos bispos e sacerdotes eram casados.

Esses reformadores se opunham ao casamento dos clérigos porque parecia que os homens casados, em virtude das preocupações familiares, não podiam dedicar-se plenamente aos interesses da Igreja.

Se isto fosse conseguido e fosse abolida a simonia, criam eles, a Igreja muito cresceria moralmente e se livraria do domínio dos interesses seculares.

Um terceiro ponto do programa era uma rigorosa purificação da vida do clero. Os reformadores de Cluny sendo homens de vida austera, odiavam a imoralidade que então prevalecia, e juraram aniquilá-la.

Como um meio de atingir esses objetivos, o partido reformista pretendia aumentar a autoridade do papa e assegurar-lhe um grande poder em benefício desses objetivos restauradores.

Esses reformadores conseguiram sua primeira oportunidade de realizarem os seus objetivos, em 1049, quando um deles se tornou papa, com o nome de Leão IX, por influência do grande imperador Henrique III, que interferiu para salvar o papado da degradação, quando o ignominioso papa Benedito IX vendeu o seu ofício.

Leão IX e alguns dos seus sucessores esforçaram-se por levar avante o plano do partido reformista, conseguindo melhorar muito a situação geral da Igreja. Este papas eram controlados pelo homem que se tornou o líder dos reformadores e que veio a ser o maior de todos os papas, Hildebrando.

Hildebrando era italiano de nascimento humilde. Apesar de não ter sido monge, estava cheio do espírito dos monges de Cluny. Servindo numa pequena igreja, ele era realmente o poder por trás do trono do papado, desde o tempo de Leão IX, até a sua própria eleição em 1073.

Na realidade foi ele quem escolheu os papas e moldou-lhes a política, elaborando vagarosamente um grande plano para a reforma da Igreja, plano que estava claramente delineado em sua mente e que, também, estava de acordo com o pensamento do seu partido, mas foi tornado ainda maior pela grandeza do intelecto e do caráter de Hildebrando.

Assim, ele esperou pacientemente, dando forma aos seus planos, de modo que em se tornando ele próprio papa teve a maior e a mais completa oportunidade de realizar os seus propósitos.

Em 1073, quando se celebravam as exéquias do papa Alexandre II, na Igreja de S. Pedro, o povo repentinamente exclamou: "Hildebrando! O bem-aventurado Pedro escolhe Hildebrando".

Imediatamente os cardeais o escolheram, e ele veio a ser o papa Gregório VII. Quais foram os seus grandes planos e como os executou, veremos no próximo capítulo.


[e] A vida e o pensamento da Igreja Oriental
A separação final das igrejas do oriente e do ocidente ocorreu somente poucos anos antes de se encerrar este período.

Mas por dois séculos, como já vimos, as duas partes da Igreja estavam separadas. Anteriormente, ainda no VI século, a parte oriental da Igreja começou a dirigir sua vida bem diferentemente e distanciada da Igreja do ocidente.

O grande interesse do pensamento grego pelas discussões teológicas revelou-se na continuação aas disputas sobre a pessoa de Cristo, muito depois de a questão ter sido definida, como se supunha, pelo Concílio de Calcedônia. Já falamos dos monofisitas e das igrejas separadas que eles organizaram.

Depois deles, no VII século, apareceram os monotelitas, sustentando que havia duas naturezas em Cristo, mas somente uma governava a sua vida.

Os ortodoxos contenderam com eles ferozmente. No sexto Concílio Geral, em 680, em Constantinopla, foram condenados os ensinos monotelitas.

Apesar de a parte ocidental da igreja ter pouco interesse nessas disputas, o papa Honório I interveio na controvérsia dos monotelitas e aprovou os pontos de vista destes. Daí o Concílio de Constantinopla ter pronunciado um anátema contra este papa por sua heresia.

Enquanto a Cristandade no oriente estava miseravelmente dividida em discussões vazias e inúteis, sobre minudências doutrinárias, caiu sobre ela um ataque tremendo dos muçulmanos.

Nos séculos VII e VIII, os conquistadores árabes haviam dominado a Síria, Palestina, parte da Ásia Menor, Mesopotâmia e Egito.

O império oriental sofreu, desse modo, uma perca irreparável. Nunca mais a Igreja do Oriente chegou a ser tão forte quanto o fora no passado.

Apenas o resto da Ásia Menor, a península dos Balcans e a Grécia foram mantidas pelo império, de modo que a igreja ainda pôde se defender contra a maré do Islamismo.

Os governos árabes eram, em comparação, tolerantes para com os cristãos. Estes foram obrigados a pagar tributo, expostos à desonra de várias maneiras.

Foram proibidos de construir novos templos e podiam apenas realizar o seu culto. Não obstante, a igreja era muito fraca onde tinha de viver sob o poder muçulmano.

Depois das conquistas árabes, a igreja do oriente começou a enfraquecer e a cair em estagnação. No VIII século ela teve seu último pensador notável, João de Damasco, que escreveu uma declaração doutrinaria segundo seus credos.

Depois dele, a igreja no oriente sustentou com muita energia sua interpretação dessa expressão de fé cristã.

Houve pequena modificação em virtude do declínio da vida cristã dos seus membros. Em outras relações essa igreja manifestou seu conservantismo, guardando zelosamente o que era antigo só porque era antigo, atitude que a tem caracterizado desde então.

A igreja foi, depois, ainda mais enfraquecida nos séculos VIII e IX em virtude das controvérsias resultantes das tentativas de certos imperadores fortes, desejosos de abolir a veneração das imagens de Cristo e dos santos.

Essas imagens eram gravuras ou pinturas, não estátuas. A veneração desses objetos de culto tinha-se tornado em grosseira superstição. Mas os imperadores foram vencidos pelo povo apoiado pelos monges.

Mesmo alguns intelectuais defendiam o culto dessas gravuras ou efígies contra a opinião dos imperado alegando que o Estado queria dominar a Igreja e que essas efígies ensinavam a vida real e humana de Cristo.

Não obstante os imperadores estarem determinados a manter seu ponto de vista, usando até de perseguição, não conseguiram, todavia, forçar o povo a abandonar o culto das imagens.

Em 869, um sínodo em Constantinopla declarou-se a favor delas e, desde então, as imagens dominaram o culto da oriental, na religião do povo.

Depois de concluída a separação nos meados do século IX, teve lugar um reavivamento em ambas as igrejas, nos respectivos impérios.

Foi despertado em grande escala o espírito missionário da Igreja. Nessa época é que Constantino e Metódio foram à Morávia. Mais tarde foram enviados os missionários que espalharam o cristianismo entre os Sérvios e Búlgaros e também da Rússia.

Houve, igualmente, um soerguimento intelectual na Igreja e apareceram muitos homens de notável ilustração. Não obstante, o caráter conservador do cristianismo oriental permaneceu inalterável.

Nesse período a Igreja Nestoriana desenvolveu seu trabalho missionário na Ásia. Certamente houve cristãos na China ocidental e na índia, no século VII.

Por Robert Hastings Nichols

ÍNDICE

A preparação para o Cristianismo

01 - A contribuição dos Romanos, Gregos e Judeus
02 - Como era o mundo no surgimento do cristianismo

A fundação e expansão da Igreja
03 - Jesus e sua Igreja
04 - A Igreja Apostólica Até o Ano 100

A Igreja antiga (100 - 313) 
05 - O mundo em que a Igreja vivia (100 - 313)
06 - Características da Igreja Antiga (100-313)

A Igreja antiga (313- 590) 
07 - O mundo em que a Igreja vivia (313 - 590)
08 - Características da Igreja Antiga (313-590)

A Igreja no início da Idade Média (590 - 1073) 
09 - O mundo em que a Igreja vivia (590-1073)
10 - Características da Igreja no início da Idade Média 
11 - O cristianismo em luta com o paganismo dentro da Igreja

A Igreja no apogeu da Idade Média (1073 - 1294) 
12 - A Igreja no Ocidente - O papado Medieval - Hildebrando
13a - Inocêncio III
13b - A Igreja Governa o Mundo Ocidental
14 - A guerra da Igreja contra o Islamismo - As cruzadas 
15 - As riquezas da Igreja
16 - A organização da Igreja
17 - A disciplina e a lei da Igreja Romana
18 - O culto da Igreja
19 - O lugar da Igreja na religião
20 - A vida de alguns líderes religiosos: Bernardo, Domingos e Francisco de Assis
21 - O que a Igreja Medieval fez pelo mundo
22 - A igreja Oriental

Decadência e renovação na Igreja Ocidental (1294 - 1517)

23 - Onde a Igreja Medieval falhou
24 - Movimentos de protesto: Cataristas, Valdeneses, Irmãos
25 - A queda do Papado
26 - Revolta dentro da igreja: João Wycliff e João Huss
27 - Tentativas de reforma dentro da Igreja
28 - A Renascença e a inquietude social como preparação para a Reforma

Revolução e reconstrução (1517 - 1648) 
29 - A Reforma Luterana
30 - Como Lutero se tornou reformador
31 - Os primeiros anos da Reforma Luterana
32 - Outros desdobramentos da Reforma Luterana
33 - A Reforma na Suíça - Zuínglio
34 - Calvino - líder da Reforma em Genebra
35 - A Reforma na França
36 - A Reforma nos Países Baixos
37 - A Reforma na Escócia, Alemanha e Hungria

O cristianismo na Europa (1648 - 1800)
43 - A França e a Igreja Católica Romana
44 - A Igreja Católica Romana e a Revolução Francesa
45 - O declínio religioso após a Reforma
46 - O Pietismo
46 - A Igreja Oriental
47 - A Regra Puritana
48 - Restauração
49 - Revolução
50 - Declínio Religioso no começo do século 18
51 - O Reavivamento do Século 18 e seus resultados
52 - Os Pactuantes (Covenanters)
53 - O Século 18 na Escócia
54 - O Presbiterianismo na Irlanda

O Século 19 na Europa
55 - O Catolicismo Romano
56 - O Protestantismo na Alemanha, França, Holanda, Suíça, Escandinávia e Hungria
57 - O Movimento Evangélico na Inglaterra
58 - O Movimento Liberal
59 - O Movimento Anglo-Católico
60 - As Igrejas Livres
61 - As Igrejas na Escócia: despertamento, descontentamento e cisão
62 - As missões e o cristianismo europeu

O Século 20 na Europa
63 - História Política até 1935
64 - O Catolicismo Romano
65 - O Protestantismo no Continente
66 - A Igreja da Inglaterra
67 - As Igrejas Livres 
68 - A Escócia
69 - A Igreja Ortodoxa Oriental
70 - Outros países orientais
71 - O Movimento Ecumênico

O cristianismo na América
72 - As primeiras tentativas
73 - As Treze Colônias
74 - Reconstrução e reavivamento após a Guerra da Independência
75 - O Século 19 até 1830
76 - 1830 - 1861
77 - 1861 - 1890
78 - 1890 - 1929

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