02 - Como era o mundo no surgimento do cristianismo

II. O MUNDO AO SURGIR O CRISTIANISMO



[a] As Condições Religiosas
A velha religião dos deuses e das deusas da Grécia e de Roma, que conhecemos através da história da mitologia clássica, tinha perdido quase toda a sua vitalidade e influência ao tempo do advento do Cristianismo. 

Não obstante as formas do seu culto serem, então, de certo modo, ainda conservadas, os homens cultos geralmente não mostravam crença nessa religião; nem mesmo entre o povo comum exercia ela muita influência.

O imperador Augusto que reinava ao tempo quando Cristo nasceu, muito se preocupou com esse declínio da velha e tradicional religião e envidou esforços extra-ordinários para revivê-la, sendo quase tudo em vão. Todavia, não se pode afirmar que esta época se caracterizava pela irreligiosidade.

Augusto também estabeleceu a religião do Estado. Conforme o seu desenvolvimento posterior veio ela a se constituir em veneração de imagens e estátuas dos imperadores que então reinavam e dos que os antecederam, como símbolos do poder de Roma. O Estado foi endeusado como nos modernos regimes totalitários.

Tomaram vitalidade considerável certos cultos primitivos e a adoração de divindades associadas a certas localidades, ocupações ou profissões, aspectos da vida, etc.

Os antigos mistérios helênicos exerciam grande atração nas massas. Esses mistérios eram cerimônias secretas e dramáticas que realçavam certas idéias concernentes à perpetuação da vida.

O orfismo, antigo movimento grego de religião mística que ensinava doutrinas de salvação e vida depois da morte, era representado por muitas irmandades. 

Mais poderosas e mais influentes, porém, eram as religiões orientais que sei espalharam nas margens do Mediterrâneo, tendo conseguido muitos adeptos.

Da Frígia, veio o culto da Mãe dos deuses e o culto de Attis. Do Egito, veio o culto de Isis com Serápis ou Osíris! 

Essas religiões exerciam influência no começo da era cristã. Mais tarde, a mais popular das religiões orientais, a deusa Mitras, veio do leste da Ásia Menor e era a deusa mascote do exército romano por onde ele ia.


Essas religiões misteriosas tinham uma semelhança superficial com o Cristianismo, por organizarem sociedades agrupando indivíduos independentemente de raça ou posição social, os quais faziam refeições em comum, por praticarem certas abluções que eram consideradas como purificação espiritual e, em muitos casos, pelo culto de divindades que supostamente tinham sofrido a morte e ressuscitado, comunicando, assim, vida imortal aos seus seguidores.

Em aspectos mais profundos essas religiões muito se distanciavam do Cristianismo.

Foi uma era de religiosidade aquela em que o Cristianismo alcançou as suas primeiras conquistas. Nesse tempo havia muito interesse no conhecimento das várias formas de religião e muita ansiedade por ideias e crenças que trouxessem mais satisfação à alma. O mundo estava cheio de curiosidade e anseios espirituais. 

É significativo que em relação ao Cristianismo houvesse três coisas preeminentes: uma crença progressiva num Deus universal; um sentimento de culpa, de pecado, muito generalizado e, em consequência, um anseio, um desejo intenso de purificação, e, por fim, um grande interesse nos problemas do além túmulo.

Já dissemos que antes do aparecimento do Cristianismo a melhor religião existente era o judaísmo. Mas este não podia satisfazer plenamente às necessidades do mundo.

Mesmo enquanto Jesus vivia, o judaísmo deu provas de que não era capaz de se constituir uma religião universal. Isto se verifica no caráter dos seus líderes que eram os sacerdotes, os saduceus e os mestres, os fariseus.

Subestimamos o valor dos fariseus em virtude da oposição deles a Jesus. Mas apesar do seu vigor moral, entre os fariseus da Palestina desenvolvia-se um estreito preconceito racial com o objetivo de limitar a religião judaica exclusivamente ao povo judeu e, por isso, se opunham à obra missionária entre os gentios, obra que tinha sido iniciada durante o cativeiro.


[b] As condições intelectuais
O grande movimento filosófico grego chegou a seu fim no que se relaciona com a pesquisa da verdade, muito tempo mesmo antes da era cristã. Quando surgiu o Cristianismo, o pensamento grego não fazia mais progresso. 

Duas filosofias gregas, o Epicurismo e o Estoicismo, tinham alcançado considerável crédito, ou melhor, estavam muito em voga no império romano, durante os primeiros anos do Cristianismo.

Mas nenhuma delas satisfazia a mente dos homens no que respeitava às questões fundamentais e urgentes, como as do pecado e da vida futura que, por assim dizer os preocupavam. Ambas essas filosofias eram falhas como método de vida. O Epicurismo era muito superficial, interesseiro, egoísta!

O Estoicismo, não obstante seus nobres ensinos de moral exercerem larga influência, era muito falho no que respeitava à simpatia humana. Entre os homens de raciocínio profundo havia um forte sentimento de insatisfação e um desejo ardente de encontrar solução para os problemas cruciais da vida.

Por ocasião da morte da filha, Plínio, o Moço, escreve a um amigo:

"Dá-me algum alívio, algum conforto que seja grande e forte, tal que eu nunca tenha ouvido ou lido. Porque tudo o que tem chegado ao meu conhecimento e de que me posso lembrar não me ajuda, pois minha tristeza é por demais profunda para ser removida pelo que sei”



[c] As Condições Morais
Tem-se pintado, habitualmente, o estado moral do mundo civilizado durante os primeiros tempos do Cristianismo com as mais negras cores, como se não existisse qualquer coisa boa digna de menção. Os fatos que conhecemos não justificam, de todo, esse julgamento. 

Talvez essa ideia seja o resultado da leitura generalizada dos escritos satíricos daquela época que vergastavam os vícios da "sociedade", e dos escândalos referidos pelos biógrafos da aristocracia.

As classes mais altas, sem dúvida, estavam tremendamente corrompidas. Entre as classes média e baixa, todavia muitos homens e mulheres levavam vida virtuosa com alguns gestos de nobreza e de bondade.

Quando, porém reunimos os elementos favoráveis e os desfavoráveis o resultado é, realmente, negro. A época era decadente Os homens tinham seus espíritos perturbados e dessatisfeitos. 


As religiões e filosofias então existentes exerciam pouca influência sobre a vida. Como resultado disso, o nível moral era baixo. Nada existia que pudesse melhorar a situação até que o Cristianismo começou a exercer a sua influência.

A tendência da sociedade era para um constante declínio moral. Em consequência de tudo isso havia um sentimento de cansaço e de vácuo entre muitos homens e especialmente entre os melhores e mais inteligentes deles. 

Foi a um mundo entenebrecido, sem esperança e muito corrompido que os primeiros missionários cristãos trouxeram suas boas novas de Salvação.

Por Robert Hastings Nichols


ÍNDICE

A preparação para o Cristianismo

01 - A contribuição dos Romanos, Gregos e Judeus
02 - Como era o mundo no surgimento do cristianismo

A fundação e expansão da Igreja
03 - Jesus e sua Igreja
04 - A Igreja Apostólica Até o Ano 100

A Igreja antiga (100 - 313) 
05 - O mundo em que a Igreja vivia (100 - 313)
06 - Características da Igreja Antiga (100-313)

A Igreja antiga (313- 590) 
07 - O mundo em que a Igreja vivia (313 - 590)
08 - Características da Igreja Antiga (313-590)

A Igreja no início da Idade Média (590 - 1073) 
09 - O mundo em que a Igreja vivia (590-1073)
10 - Características da Igreja no início da Idade Média
11 - O cristianismo em luta com o paganismo dentro da Igreja

A Igreja no apogeu da Idade Média (1073 - 1294) 
12 - A Igreja no Ocidente - O papado Medieval - Hildebrando
13 - Inocêncio III
13 - A Igreja Governa o Mundo Ocidental
14 - A guerra da Igreja contra o Islamismo - As cruzadas
15 - As riquezas da Igreja
16 - A organização da Igreja
17 - A disciplina e a lei da Igreja Romana
18 - O culto da Igreja
19 - O lugar da Igreja na religião
20 - A vida de alguns líderes religiosos: Bernardo, Domingos e Francisco de Assis
21 - O que a Igreja Medieval fez pelo mundo
22 - A igreja Oriental

Decadência e renovação na Igreja Ocidental (1294 - 1517)

23 - Onde a Igreja Medieval falhou
24 - Movimentos de protesto: Cataristas, Valdeneses, Irmãos
25 - A queda do Papado
26 - Revolta dentro da igreja: João Wycliff e João Huss
27 - Tentativas de reforma dentro da Igreja
28 - A Renascença e a inquietude social como preparação para a Reforma

Revolução e reconstrução (1517 - 1648) 
29 - A Reforma Luterana
30 - Como Lutero se tornou reformador
31 - Os primeiros anos da Reforma Luterana
32 - Outros desdobramentos da Reforma Luterana
33 - A Reforma na Suíça - Zuínglio
34 - Calvino - líder da Reforma em Genebra
35 - A Reforma na França
36 - A Reforma nos Países Baixos
37 - A Reforma na Escócia, Alemanha e Hungria

O cristianismo na Europa (1648 - 1800)
43 - A França e a Igreja Católica Romana
44 - A Igreja Católica Romana e a Revolução Francesa
45 - O declínio religioso após a Reforma
46 - O Pietismo
46 - A Igreja Oriental
47 - A Regra Puritana
48 - Restauração
49 - Revolução
50 - Declínio Religioso no começo do século 18
51 - O Reavivamento do Século 18 e seus resultados
52 - Os Pactuantes (Covenanters)
53 - O Século 18 na Escócia
54 - O Presbiterianismo na Irlanda

O Século 19 na Europa
55 - O Catolicismo Romano
56 - O Protestantismo na Alemanha, França, Holanda, Suíça, Escandinávia e Hungria
57 - O Movimento Evangélico na Inglaterra
58 - O Movimento Liberal
59 - O Movimento Anglo-Católico
60 - As Igrejas Livres
61 - As Igrejas na Escócia: despertamento, descontentamento e cisão
62 - As missões e o cristianismo europeu

O Século 20 na Europa
63 - História Política até 1935
64 - O Catolicismo Romano
65 - O Protestantismo no Continente
66 - A Igreja da Inglaterra
67 - As Igrejas Livres
68 - A Escócia
69 - A Igreja Ortodoxa Oriental
70 - Outros países orientais
71 - O Movimento Ecumênico

O cristianismo na América
72 - As primeiras tentativas
73 - As Treze Colônias
74 - Reconstrução e reavivamento após a Guerra da Independência
75 - O Século 19 até 1830
76 - 1830 - 1861
77 - 1861 - 1890
78 - 1890 - 1929
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