26 - Revolta dentro da igreja: João Wycliff e João Huss

V. REVOLTA DENTRO DA IGREJA – A AURORA DA REFORMA
As condições que acabamos de descrever deram origem a duas revoltas que a igreja não pôde reprimir nos séculos XIV e XV.




A - JOÃO WYCLIFF

Atitude e ensino de Wycliff
O espírito do nacionalismo que se vinha desenvolvendo na Inglaterra preparou o caminho para a obra de Wycliff. 

Quando ele entrou em luta com o papado em 1375, já a Inglaterra durante setenta e cinco anos, pelos seus reis, pelo seu parlamento e mesmo pelos bispos, resistira à interferência papal nos negócios da igreja inglesa.

Wycliff (nascido entre 1320 e 1330) já era famoso como o homem mais culto e mais destacado da universidade de Oxford. 

Ele também era padre de Lutterworth quando alcançou a extrema simpatia das classes pobres. Sua primeira investidura foi contra o suposto direito do papa de cobrar impostos ou taxas na Inglaterra.

O cisma papal muito contribuiu para espalhar os pontos de vista de Wycliff. Denunciou então o papado e toda a organização clerical, sustentando a tese de que não deveria haver distinções de classes dentro do clero. Indo além, chegou a negar fundamento bíblico à doutrina da religião medieval, a transubstanciação.

O apelo ao povo inglês Por causa desses ensinos Wycliff foi condenado por um concílio eclesiástico. Diante disto fez o seu grande apelo ao povo inglês. Em muitos tratados, escritos em linguagem accessível ao povo comum, atacou todo o sistema da igreja medieval.



A tradução da Bíblia
Surgiu, então, o seu maior trabalho, a tradução da Bíblia, da Vulgata (versão latina) para o inglês. Foi assim que Wycliff e seus auxiliares, os homens mais cultos de Oxford, abriram a Bíblia ao povo da Inglaterra pela primeira vez. 

Para espalhar entre o povo a Bíblia e os seus ensinos, ele organizou a ordem dos "sacerdotes pobres", conhecidos como os irmãos Lollardos, muitos dos quais eram estudantes de Oxford; a maioria, porém, era constituída de gente simples da sua paróquia.

Usando roupas grosseiras, andando descalços e de cajado na mão, dependendo de esmolas para o seu sustento, percorreram toda a Inglaterra. Conduziam manuscritos dos tratados de Wycliff, sermões e porções bíblicas e pregavam por toda a parte.

Cresceram de modo extraordinário e se constituíram uma força poderosa na disseminação da religião evangélica. Embora miseravelmente perseguidos no século XV, continuaram sua obra até ao tempo da Reforma. 

Quando seus missionários já enchiam as estradas, chegou o fim da vida de Wycliff. Tão forte era sua posição na Inglaterra que as autoridades eclesiásticas nada fizeram contra ele mais do que classificá-lo de herege. Foi assim que morreu em paz na sua paróquia.



B - JOÃO HUSS

João Huss, o líder da Boêmia
Os ensinos de Wycliff deram origem a outra revolta maior contra a igreja papal chefiada por João Huss (1373-1415). Entre os boêmios chefiados por Huss encontramos outra causa de forte espírito nacionalista.

Devido à sua origem, Huss era um homem muito respeitado pelo povo. Era muito culto e exercia poderosa influência na Universidade de Praga, além de sacerdote, pelo que foi escolhido para um lugar de destaque.

Era o grande pregador daquela cidade, onde se tornou o porta-voz nacional dos anseios políticos e religiosos do seu povo. 

Huss expressou então, com muito vigor a determinação de o povo manter seus direitos contra os alemães e o seu forte protesto para que o clero imoral e de atitude afrontosa à Boêmia, fosse reformado.

Conhecedor profundo da sua gente e por ela respeitado e estimado, em virtude da sua vida de pureza e caráter sincero, possuidor de uma eloqüência incomum, tornou-se um poderoso líder nacional.



Seu conflito com a igreja e consequente martírio
De posse dos livros de Wycliff avidamente bebeu-Ihe as idéias. Ensinando as doutrinas de um "herege" entrou em conflito com os chefes da igreja papal. Todavia defendeu seu direito de pregar a verdade de Cristo como a sentia e a entendia.

Excomungado pelo seu desafio ao papa João XXIII, em 1412, ao qual Huss compareceu. No intervalo escreveu o seu livro mais importante, no qual ensinava que a "Lei de Cristo", isto é, o Novo Testamento, era o guia suficiente para a Igreja, e que o papa só podia ser obedecido até onde suas ordens coincidissem com esta lei divina.

O julgamento de Huss em Constança foi uma farsa e um escárnio. O Concílio também condenou Wycliff como herege, morto havia trinta anos. 

Assim, o caso de João Huss foi logo decidido. Protestando sua fidelidade a Cristo, e desprezando a liberdade que lhe ofereciam em troca do abandono dos seus princípios, (além das falsas acusações), foi condenado à fogueira, em Constança, onde sofreu martírio.

Consequencia do testemunho de Huss
A ira e a revolta dos boêmios pelo assassínio do seu herói nacional não tiveram limites. Levantou-se um grande partido que iniciou a guerra pela independência. 

Derrotaram o imperador alemão, devastaram parte da Alemanha e perturbaram grandemente os negócios da Europa em geral.

Depois dessa revolta de caráter político, apareceram os "Irmãos Boêmios", uma poderosa organização religiosa fora da Igreja, cuja atividade empolgou toda a Boêmia e a Morávia, como também algumas partes da Alemanha, com o cristianismo evangélico. 

Em outras partes da Europa o martírio de Huss fortaleceu o espírito de revolta contra a Igreja papal.

Por Robert Hastings Nichols

ÍNDICE


A preparação para o Cristianismo

01 - A contribuição dos Romanos, Gregos e Judeus
02 - Como era o mundo no surgimento do cristianismo

A fundação e expansão da Igreja
03 - Jesus e sua Igreja
04 - A Igreja Apostólica Até o Ano 100

A Igreja antiga (100 - 313) 
05 - O mundo em que a Igreja vivia (100 - 313)
06 - Características da Igreja Antiga (100-313)

A Igreja antiga (313- 590) 
07 - O mundo em que a Igreja vivia (313 - 590)
08 - Características da Igreja Antiga (313-590)

A Igreja no início da Idade Média (590 - 1073) 
09 - O mundo em que a Igreja vivia (590-1073)
10 - Características da Igreja no início da Idade Média 
11 - O cristianismo em luta com o paganismo dentro da Igreja

A Igreja no apogeu da Idade Média (1073 - 1294) 
12 - A Igreja no Ocidente - O papado Medieval - Hildebrando
13a - Inocêncio III
13b - A Igreja Governa o Mundo Ocidental
14 - A guerra da Igreja contra o Islamismo - As cruzadas 
15 - As riquezas da Igreja
16 - A organização da Igreja
17 - A disciplina e a lei da Igreja Romana
18 - O culto da Igreja
19 - O lugar da Igreja na religião
20 - A vida de alguns líderes religiosos: Bernardo, Domingos e Francisco de Assis
21 - O que a Igreja Medieval fez pelo mundo
22 - A igreja Oriental

Decadência e renovação na Igreja Ocidental (1294 - 1517)

23 - Onde a Igreja Medieval falhou
24 - Movimentos de protesto: Cataristas, Valdeneses, Irmãos
25 - A queda do Papado
26 - Revolta dentro da igreja: João Wycliff e João Huss
27 - Tentativas de reforma dentro da Igreja
28 - A Renascença e a inquietude social como preparação para a Reforma

Revolução e reconstrução (1517 - 1648) 
29 - A Reforma Luterana
30 - Como Lutero se tornou reformador
31 - Os primeiros anos da Reforma Luterana
32 - Outros desdobramentos da Reforma Luterana
33 - A Reforma na Suíça - Zuínglio
34 - Calvino - líder da Reforma em Genebra
35 - A Reforma na França
36 - A Reforma nos Países Baixos
37 - A Reforma na Escócia, Alemanha e Hungria


O cristianismo na Europa (1648 - 1800)
43 - A França e a Igreja Católica Romana
44 - A Igreja Católica Romana e a Revolução Francesa
45 - O declínio religioso após a Reforma
46 - O Pietismo
46 - A Igreja Oriental
47 - A Regra Puritana
48 - Restauração
49 - Revolução
50 - Declínio Religioso no começo do século 18
51 - O Reavivamento do Século 18 e seus resultados
52 - Os Pactuantes (Covenanters)
53 - O Século 18 na Escócia
54 - O Presbiterianismo na Irlanda

O Século 19 na Europa
55 - O Catolicismo Romano
56 - O Protestantismo na Alemanha, França, Holanda, Suíça, Escandinávia e Hungria
57 - O Movimento Evangélico na Inglaterra
58 - O Movimento Liberal
59 - O Movimento Anglo-Católico
60 - As Igrejas Livres
61 - As Igrejas na Escócia: despertamento, descontentamento e cisão
62 - As missões e o cristianismo europeu

O Século 20 na Europa
63 - História Política até 1935
64 - O Catolicismo Romano
65 - O Protestantismo no Continente
66 - A Igreja da Inglaterra
67 - As Igrejas Livres 
68 - A Escócia
69 - A Igreja Ortodoxa Oriental
70 - Outros países orientais
71 - O Movimento Ecumênico

O cristianismo na América
72 - As primeiras tentativas
73 - As Treze Colônias
74 - Reconstrução e reavivamento após a Guerra da Independência
75 - O Século 19 até 1830
76 - 1830 - 1861
77 - 1861 - 1890
78 - 1890 - 1929
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