14 - A guerra da Igreja contra o Islamismo - As cruzadas


2. A guerra da Igreja Contra o Islamismo. As Cruzadas

As peregrinações a Santa Terra
Neste período do seu maior poder, a igreja ocidental desenvolveu continuado esforço com o propósito de ampliar cada vez mais seus territórios, tentando conquistar a Terra Santa que estava sob o poder dos maometanos.

Este esforço resultou numa série de guerras que tiveram o nome de Cruzadas, guerras que a Cristandade ocidental moveu contra o Islamismo, no oriente, durante dois séculos (1096-1291).

Esta grande luta ao ocidente contra o oriente foi de grande influência para a vida religiosa, política, comercial e intelectual dos povos Sua historia é repleta de cenas tocantes e personalidades notáveis que marcaram época.

Nenhuma outra parte da história é mais repleta de romance e de heroísmo. É quase impossível resumir toda a verdade a respeito das Cruzadas, especialmente se afirmarmos que este movimento foi uma grande tentativa da Igreja Romana para dilatar seus territórios, embora isto seja uma parte da verdade.

Não se pode dizer também que a Igreja provocou as Cruzadas. Como todos os grandes movimentos, as Cruzadas apareceram em virtude de várias causas que vinham operando desde muitos anos.

Uma dessas causas era o costume de há muito existente de peregrinações à Terra Santa ou Palestina. Milhares de pessoas tinham realizado essa penosa viagem para visitar e rezar nos lugares ligados à história da vida do Senhor Jesus, especialmente no Santo Sepulcro.

De tudo o que o homem pudesse fazer, ensinava-se, para ganhar os favores divinos, inclusive o perdão dos pecados, a viagem à Terra Santa era considerada a mais eficaz.

Os peregrinos, como eram conhecidos os visitantes que de lá regressavam, trazendo folhas de palmeiras, eram venerados como pessoas santificadas pelo resto da vida.

Onde quer que andassem eram reconhecidos pelas vestimentas especiais que os distinguiam, e eram convidados como hóspedes de todos os cristãos.

Às vezes os peregrinos iam sozinhos; outras vezes em grupos; e outras, em grande número. Ricos e pobres, servos e nobres, sacerdotes e leigos visitavam a Terra Santa. Este costume antigo e generalizado contribuiu, naturalmente, para as cruzadas, as quais, sob certo aspecto, outra coisa não foram senão grandes peregrinações organizadas.



O avanço do Islamismo. Os turcos
O perigoso avanço do Islamismo foi outra causa das Cruzadas. Já vimos no capítulo V até onde os árabes estenderam as suas conquistas e impuseram a sua religião.

Depois do século VIII, seu espírito combativo arrefeceu, e eles com sua religião não realizaram qualquer movimento importante.

Mas no século XI, os turcos seljucos, povo guerreiro e bárbaro da Ásia central, tomaram dos árabes o domínio do império maometano, imprimindo a sua doutrina, nova agressividade.

Conquistaram grande parte da Ásia menor e ameaçaram Constantinopla. Enquanto os árabes se mostraram relativamente tolerantes para com os cristãos, os turcos os odiaram ferozmente, praticando crueldades contra os peregrinos à Terra Santa.

O aparecimento e a atitude desse povo uniram a cristandade ocidental para derrubar esse grande inimigo do cristianismo e libertar, especialmente, o santo sepulcro das mãos dos infiéis.

O espírito de cavalaria, desejo de lutas
Uma terceira causa foi o amor ao combate, às aventuras guerreiras e heróicas, espírito que era muito forte naquela época, particularmente nas classes mais altas da sociedade.

A vida mais honrosa para os homens da época era a do legítimo cavaleiro, a vida de lutas em defesa do fraco, em defesa do direito e do cristianismo.

Embora muitos desses homens não fossem legítimos cavaleiros quanto ao caráter, todavia considerava-se o cavaleiro como o homem ideal.

É claro que as Cruzadas eram expedições contra os infiéis, pela posse da Terra Santa e oferecia uma oportunidade especial para a satisfação do espírito de cavalaria. Eis uma oportunidade para lutar, e lutar pelo que se julgava a mais nobre de todas as causas.

Reavivamento religioso
Provavelmente o maior fator no aparecimento das cruzadas foi o crescente entusiasmo religioso da época. Já observamos que houve um soerguimento da religião na Europa ocidental no século XI.

Este forte espírito religioso levou os homens a desejarem fazer alguma coisa a fim de espalhar o cristianismo. E nada mais convidativo, mais atraente que uma luta contra os infiéis. Pensavam que, agindo dessa maneira, provavam também o interesse pela salvação pessoal.

E o que mais contribuía para a salvação, pensavam eles, era uma viagem à Terra Santa, como destemidos soldados da Cruz.

Não eram somente os humildes e ignorantes os dominados por tais sentimentos, mas igualmente os nobres, os ricos e poderosos, os que tinham nas mãos a direção dos negócios do mundo.



Convocação para a primeira Cruzada
Todas essas forças e causas vinham operando na vida da Europa ocidental no século XI, preparando o povo para a empresa das Cruzadas.

A convocação feita pela Igreja, por intermédio dos papas, deu o impulso final e mobilizou as forças da cristandade para o grande movimento. A primeira Cruzada foi proclamada em 1095, pelo papa Urbano II.

O imperador do oriente, Aleixo, fortemente premido pelos turcos apelou para que o papa lhe enviasse auxílio.

Num concílio eclesiástico em Clermont, na França, onde comprimia uma grande multidão, Urbano, com um discurso inflamado lançou um apelo para que a Europa libertasse o Santo Sepulcro do maldito jugo dos infiéis.

A multidão vibrou de entusiasmo e grande número de pessoas "tomou a Cruz", isto é, pregavam sobre os vestidos uma cruz de fazenda escura, como sinal do voto que assumira de se juntarem à Cruzada.

O apelo do papa foi levado através de toda a França e pelo vale do Reno por pregadores ambulantes, chefiados por Pedro o Eremita. Onde quer que chegassem suas palavras inflamadas, levantavam-se multidões, como em Clermont, sob o grito de "Deus o quer"! (Deus vult).

Primeira Cruzada
No ano seguinte partiram os cruzados. Muitos bandos enormes de gente pobre, verdadeiras multidões fanatizadas, partiram para a Terra Santa. Naturalmente essas expedições nada conseguiram.

Duas delas, uma sob o comando de Pedro, atravessaram Constantinopla até a Ásia Menor e foram destruídas pelos turcos em Nicéia.

Mas três poderosos exércitos de cavaleiros chefiados por grandes nobres, marcharam através da Ásia Menor e depois de uma luta desesperada capturaram Jerusalém.

Aí estabeleceram o chamado "Reino Latino de Jerusalém", cujo primeiro rei foi o Conde Balduíno de Flandres. Estava, assim, o Santo Sepulcro nas mãos dos cristãos e a Palestina se tornara novamente uma parte da cristandade.

As últimas Cruzadas
Depois dessa cruzada houve mais outras sete, provocadas pelas vitórias dos maometanos, e outra depois de 1187, pelo fato de Jerusalém cair novamente nas mãos dos infiéis.

As primeiras foram convocadas pelos papas, por isso a Igreja as dirigia, unindo e conclamando para isto toda a Europa cristã.

Mas depois a liderança desse movimento passou às mãos dos reis. Com o passar dos anos o entusiasmo religioso, sem o qual as Cruzadas jamais se teriam organizado, foi arrefecendo.

Surgiram outros motivos: os de conquista e de apreensão de riquezas. Mas foi no segundo século das Cruzadas que o sentimento religioso que as caracterizava encontrou, talvez, a sua mais alta e maravilhosa expressão. Foi na emocionante Cruzada Infantil (1212).

A propaganda e pregação de dois rapazinhos inflamou a milhares de meninos e meninas da França e do vale do Reno, para libertarem o Santo sepulcro. Abandonaram seus lares e partiram para a Palestina, crendo que, com o auxilio de Deus, seriam mais felizes que os homens que falharam.

Multidões deles tomaram os navios em Marselha, em direção a Terra Santa. Mas os proprietários dos navios eram traficantes de escravos, e esses meninos meninas, mocinhas e rapazinhos foram vergonhosamente vendidos como escravos.

Por incrível que pareça esta historia, ela nos mostra como o estado de excitação religiosa na Europa criou tal fanatismo e levou à desgraça muitos milhões.



O resultado das Cruzadas
As Cruzadas falharam no seu grande e imediato objetivo. Ao fim dos dois séculos de lutas, Jerusalém continuou sob o domínio dos maometanos, e até 1919.

A maior tentativa jamais realizada, para estender os domínios da cristandade pela força, tornou-se infrutífera. Todavia, as Cruzadas trouxeram alguns resultados, entre os quais consideraremos somente os que se relacionam com o cristianismo.

Como resultado do sentimento religioso elas o asseguraram e fortaleceram. O poder extraordinário que o sentimento religioso exerceu na Europa ocidental, no apogeu da Idade Média, veio em parte dessa expressão de entusiasmo religioso, em que se uniram todas as nações.

As Cruzadas também fortaleceram o poder do papado, porque deram aos pontífices a oportunidade de realizar os mais fortes apelos às massas.

Uma das razões por que Inocêncio III conseguiu aproximar-se da realização do sonho de Hildebrando, a respeito do papado, foi que entre esses dois papas houve mais de um século de Cruzadas que aumentaram grandemente o poder papal.

As Cruzadas também contribuíram para aumentar o espírito de intolerância. Lutando contra os infiéis de longe, os homens ficaram predispostos a usar da força contra os que, estando mais próximos, não se submetiam aos ensinos da Igreja.

Depois de um século de Cruzadas veio a terrível e ignominiosa guerra contra os albigenses, considerados hereges, os quais habitavam no sul da França. Esse espírito de intolerância deu lugar também ao estabelecimento e ao desenvolvimento do sistema inquisitorial.

[1] Em todos os tempos sempre houve a tendência de reduzir o Reino de Deus a formas temporais, sociais e políticas. Os judeus esperavam um reino assim. Jesus decepcionou-os. O Romanismo ainda o identifica com a Igreja visível, sob o domínio do papa. Mas o Reino é o governo de Deus nos corações realmente cristãos. É um reino espiritual cujo governo, o Espírito de Deus, dirige pelo poder e influência que exerce nos corações livres que obedecem por amor ao Grande Rei. Suas leis são celestiais e espirituais. É assim que a Igreja de Deus, coluna e firmeza da verdade, exerce seu domínio neste mundo. É reino da graça na alma livre do homem salvo por Cristo. – Nota do Tradutor.

Por Robert Hastings Nichols

ÍNDICE

A preparação para o Cristianismo

01 - A contribuição dos Romanos, Gregos e Judeus
02 - Como era o mundo no surgimento do cristianismo

A fundação e expansão da Igreja
03 - Jesus e sua Igreja
04 - A Igreja Apostólica Até o Ano 100

A Igreja antiga (100 - 313) 
05 - O mundo em que a Igreja vivia (100 - 313)
06 - Características da Igreja Antiga (100-313)

A Igreja antiga (313- 590) 
07 - O mundo em que a Igreja vivia (313 - 590)
08 - Características da Igreja Antiga (313-590)

A Igreja no início da Idade Média (590 - 1073) 
09 - O mundo em que a Igreja vivia (590-1073)
10 - Características da Igreja no início da Idade Média 
11 - O cristianismo em luta com o paganismo dentro da Igreja

A Igreja no apogeu da Idade Média (1073 - 1294) 
12 - A Igreja no Ocidente - O papado Medieval - Hildebrando
13a - Inocêncio III
13b - A Igreja Governa o Mundo Ocidental
14 - A guerra da Igreja contra o Islamismo - As cruzadas 
15 - As riquezas da Igreja
16 - A organização da Igreja
17 - A disciplina e a lei da Igreja Romana
18 - O culto da Igreja
19 - O lugar da Igreja na religião
20 - A vida de alguns líderes religiosos: Bernardo, Domingos e Francisco de Assis
21 - O que a Igreja Medieval fez pelo mundo
22 - A igreja Oriental

Decadência e renovação na Igreja Ocidental (1294 - 1517)

23 - Onde a Igreja Medieval falhou
24 - Movimentos de protesto: Cataristas, Valdeneses, Irmãos
25 - A queda do Papado
26 - Revolta dentro da igreja: João Wycliff e João Huss
27 - Tentativas de reforma dentro da Igreja
28 - A Renascença e a inquietude social como preparação para a Reforma

Revolução e reconstrução (1517 - 1648) 
29 - A Reforma Luterana
30 - Como Lutero se tornou reformador
31 - Os primeiros anos da Reforma Luterana
32 - Outros desdobramentos da Reforma Luterana
33 - A Reforma na Suíça - Zuínglio
34 - Calvino - líder da Reforma em Genebra
35 - A Reforma na França
36 - A Reforma nos Países Baixos
37 - A Reforma na Escócia, Alemanha e Hungria
O cristianismo na Europa (1648 - 1800)
43 - A França e a Igreja Católica Romana
44 - A Igreja Católica Romana e a Revolução Francesa
45 - O declínio religioso após a Reforma
46 - O Pietismo
46 - A Igreja Oriental
47 - A Regra Puritana
48 - Restauração
49 - Revolução
50 - Declínio Religioso no começo do século 18
51 - O Reavivamento do Século 18 e seus resultados
52 - Os Pactuantes (Covenanters)
53 - O Século 18 na Escócia
54 - O Presbiterianismo na Irlanda

O Século 19 na Europa
55 - O Catolicismo Romano
56 - O Protestantismo na Alemanha, França, Holanda, Suíça, Escandinávia e Hungria
57 - O Movimento Evangélico na Inglaterra
58 - O Movimento Liberal
59 - O Movimento Anglo-Católico
60 - As Igrejas Livres
61 - As Igrejas na Escócia: despertamento, descontentamento e cisão
62 - As missões e o cristianismo europeu

O Século 20 na Europa
63 - História Política até 1935
64 - O Catolicismo Romano
65 - O Protestantismo no Continente
66 - A Igreja da Inglaterra
67 - As Igrejas Livres 
68 - A Escócia
69 - A Igreja Ortodoxa Oriental
70 - Outros países orientais
71 - O Movimento Ecumênico

O cristianismo na América
72 - As primeiras tentativas
73 - As Treze Colônias
74 - Reconstrução e reavivamento após a Guerra da Independência
75 - O Século 19 até 1830
76 - 1830 - 1861
77 - 1861 - 1890
78 - 1890 - 1929
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