Apocalipse 8.1-13 - O 7° Selo - parte 1

Por Ray Summers
Aqui, como noutras partes do Apocalipse, a última subdivisão da visão é transicional ou intermediária. Ela prepara o caminho para o que vem na visão seguinte. A seção intermediária é dividida em duas partes: o silêncio no céu (vv. 1 e 2) e o incenso da vitória (vv. 3 a 5).

1 - O SILÊNCIO NO CÉU

Apocalipse 8.1-2
1 - Quando o Cordeiro abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu cerca de meia hora.
2 - Então, vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus, e lhes foram dadas sete trombetas.
[O silêncio no céu] tem sido interpretado de dois modos. O primeiro acha que a meia hora de silêncio simboliza o juízo dilatado ou delongado; o juízo vem, mas é retardado; virá no tempo por Deus determinado. Esta ideia do retardamento do juízo já fora apresentada na retenção dos ventos (7:1-3), e tem aqui sua confirmação. (Milligran, op. cit., p. 135)

O segundo ponto de vista entende que o silêncio no céu é para efeito dramático. (Pieters, Richardson, Dana, Beckwith, D. Smith Moffatt, Swete e Kiddle, in loco) João tinha já visto os instrumentos do juízo, a necessidade do juízo, o terror dos maus em face do juízo iminente e a provisão feita para o povo de Deus durante o juízo.

Que virá agora? Até as hostes celestiais permanecem em silêncio, querendo ansiosamente ver o que vem agora.

Viram, como João também, sete anjos, cada um com uma trombeta na mão. O selo que vimos na última visão era para esconder as coisas; as trombetas eram usadas para reunir os exércitos, dar ordens que deviam ser cumpridas — eram para anunciar coisas.

Que anunciariam elas? Esta era a pergunta que estava no pensamento das hostes celestiais, à espera e em expectante silêncio.

Temos aqui um tom mui dramático de nenhuma significação profética ou doutrinal em si mesma; trata-se dum período de suspense (de expectativa), dum silêncio de reverência, de expectação e de oração, em que os exércitos celestiais aguardam, em profundo silêncio e com a respiração contida, que o espetáculo prossiga.

É provável que ambas as ideias estejam aqui simbolizadas, a da dramática expectação e a da retenção do juízo.

2 - O INCENSO DA VITÓRIA

Apocalipse 8.3-5
3 - Veio outro anjo e ficou de pé junto ao altar, com um incensário de ouro, e foi-lhe dado muito incenso para oferecê-lo com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro que se acha diante do trono;
4 - e da mão do anjo subiu à presença de Deus a fumaça do incenso, com as orações dos santos.
5 - E o anjo tomou o incensário, encheu-o do fogo do altar e o atirou à terra. E houve trovões, vozes, relâmpagos e terremoto.
Parece ser de explicação mais fácil. Um anjo veio para diante do altar com bastante incenso. Este foi adicionado às orações de todos os santos. O anjo tomou o incensário e o encheu do fogo do altar, que era uma mistura de incenso e orações, e lançou o fogo sobre a terra.
Assim, o incenso da vitória foi espalhado sobre as brasas vivas da intercessão cristã. Resultou disso que toda a terra ficou em grande agitação nas garras do juízo divino.

Pelo que se segue através do resto do livro, parece estar aqui simbolizado o fato de que o Cristo conquistador vem vindo para aplicar a retribuição de Deus aos opressores do seu povo.

A causa eficiente disso é a reunião das orações de "todos os santos". Os trovões, os relâmpagos e o terremoto que se seguiram são avisos duma grande visita destruidora.

Toda a cena dos versículos 3, 4 e 5 é um prelúdio das sete trombetas que começam a ser ouvidas.

Pode-se facilmente perder de vista a finalidade prática de João nesta passagem. O simbolismo desta visão pode ser percebido mais prontamente do que o de muitas de suas outras visões; por isso, há uma tendência mui forte para se concentrar a atenção nos detalhes do quadro. E o resultado disso tem sido, não poucas vezes, um desastre.

Por exemplo — tem-se vasculhado a significação das pragas, como se João estivesse aqui dando uma aula científica sobre as últimas coisas. Assim, não poucos comentadores têm proclamado haver descoberto no texto inconsistências e contradições.

Afirmam que no capítulo 8, versículo 7, João declara que toda a erva verde foi queimada, e, no entanto, no versículo 4 do capítulo 9, se ordena aos gafanhotos que não danifiquem a dita erva verde.

Esquecem-se de que João afirma, no versículo 7 do capítulo 8, que o que se queimou foi a erva verde da terça parte da terra destruída pelo fogo e pela saraiva.

João não sublinha esses pormenores, usando-os apenas para avivar o quadro geral que está apresentando. Ele está interessado é no que o quadro geral significa, e isto é o que ele está querendo transmitir aos cristãos.

A revelação que João comunica fora ocasionada por uma forte opressão dos cristãos, movida pelo mundo pagão representado por Roma.

Assim, espera-se que tal revelação trate da destruição desse poder inimigo e da vitória dos cristãos. A esta luz é que deve ser interpretada a visão introdutória do anjo com o incenso (8:3-5).

O pensamento fundamental, então, aqui, é o de que Deus ouvirá as ferventes orações do seu povo em luta e aflição, e exercitará o seu juízo contra os seus inimigos.

Por isso, na "visão das trombetas" só estas coisas podem ser aqui admitidas, pois que anunciam a libertação dos cristãos e a destruição do secular poder opressor.

Isto era o que naturalmente se estava esperando, e é o que achamos quando interpretamos as trombetas do ponto de vista histórico.

As trombetas são anúncios de que o juízo vem, são chamadas para o arrependimento. Quando elas se fazem ouvir, as forças da vingança começam a cair sobre Roma.

Apocalipse 8.6
6 - Então, os sete anjos que tinham as sete trombetas prepararam-se para tocar.

Representam-se as quatro primeiras trombetas como forças que desencadearão sobre a natureza males terríveis, (Dana, The Epistles and Apocalipse of John, p. 124) ou a destruição parcial do mundo. (Kiddle, op. cit., p. 148)


São calamidades naturais de quatro espécies. Eis os elementos da natureza que serão terrivelmente atingidos: a terra, o mar, as fontes das águas, os corpos celestes.

Parte deste simbolismo é tirado das pragas do Egito; outra parte, dos acontecimentos históricos dos próprios dias de João.

Não devemos tomar isto literalmente, como profecia de acontecimentos de natureza física que então se dariam e que destruiriam um terço da terra. É simplesmente um quadro dos juízos premonitórios de Deus contra os maus. (Ver Apocalipse 9:21.)

Não se trata aqui do juízo final, pois que só uma terça parte do todo é destruída. É um julgamento parcial para avisar, ou alertar, os iníquos. "Um terço" é um meio convencional de expressar "uma grande parte".

Tais aflições, terríveis e horrendas, não devem ser de caráter universal; se o fossem, nenhuma carne se salvaria; e são enviadas sobre a terra com o claro propósito de dar, aos que delas se escaparem, avisos tão inteligíveis que os tornarão inescusáveis, se não se arrependerem. Não se perde uma única oportunidade de levar os homens ao arrependimento (ver de novo Apoc. 9:20.21).

a) O soar da primeira trombeta desencadeou calamidades sobre a terra

Apocalipse 8.7
7 - O primeiro anjo tocou a trombeta, e houve saraiva e fogo de mistura com sangue, e foram atirados à terra. Foi, então, queimada a terça parte da terra, e das árvores, e também toda erva verde.
Teve lugar, então, uma horrível tormenta de enxofre em chamas, misturado com saraiva e sangue, que descia do céu. Disso resultou que uma terça parte da terra foi arrasada e queimada pelo incêndio das florestas.
b) Ao toque da segunda trombeta, seguiu-se uma erupção vulcânica que atirou no mar uma enorme montanha flamante. Morreu a terça parte dos peixes, e perdeu-se a terça parte das naus.

Apocalipse 8.8-9
8 - O segundo anjo tocou a trombeta, e uma como que grande montanha ardendo em chamas foi atirada ao mar, cuja terça parte se tornou em sangue,
9 - e morreu a terça parte da criação que tinha vida, existente no mar, e foi destruída a terça parte das embarcações.

c) O soar da terceira trombeta fez cair do céu uma enorme estrela, que ardia como uma tocha. Caindo ela sobre a terça parte dos rios e sobre as fontes das águas, tornou as suas águas em amargo veneno, e muitos, bebendo delas, morreram.

Apocalipse 8.10-11
10 - O terceiro anjo tocou a trombeta, e caiu do céu sobre a terça parte dos rios, e sobre as fontes das águas uma grande estrela, ardendo como tocha.
11 - O nome da estrela é Absinto; e a terça parte das águas se tornou em absinto, e muitos dos homens morreram por causa dessas águas, porque se tornaram amargosas.
d) Ao som da quarta trombeta, a terça parte do sol, da lua e das estrelas se escureceu, deixando a terça parte do dia escura como a noite, e a terça parte da noite mais escura ainda.

Apocalipse 8.12-13
12 - O quarto anjo tocou a trombeta, e foi ferida a terça parte do sol, da lua e das estrelas, para que a terça parte deles escurecesse e, na sua terça parte, não brilhasse, tanto o dia como também a noite.
13 - Então, vi e ouvi uma águia que, voando pelo meio do céu, dizia em grande voz: Ai! Ai! Ai dos que moram na terra, por causa das restantes vozes da trombeta dos três anjos que ainda têm de tocar!

Tudo isto são descrições de calamidades naturais como um agente de destruição contra Roma, a inimiga do povo cristão.

Uma das causas principais da ruína do Império Romano foi uma série de calamidades naturais, que, de fato, levaram o império ao colapso; uma série de terremotos, de erupções vulcânicas e enchentes e outros mais fenômenos da natureza.




Estaria, por certo, na memória de João e de seus leitores, a lembrança de muitas destas coisas. Deus usou estes fenômenos relativos ao ambiente para revelar por meio deles a destruição de seus inimigos.

Poucos anos antes de se escrever o Apocalipse, dera-se a erupção do Vesúvio (no mês de agosto do ano 79 de nossa era), cujas ardentes lavas sepultaram as cidades de Herculano e Pompeia e muitos vilarejos, deixando nos habitantes do império uma pavorosa e triste recordação.

Plínio, o Moço, escrevendo a Tácito, narrou alguns episódios desse horrível acontecimento que tirou a vida ao seu ilustre tio, Plínio, o grande naturalista. Cinzas do vulcão foram cair sobre navios que estavam no mar, à enorme distância dali, e sobre as longínquas praias do Egito e da Síria.

Plínio conta que primeiro houve um terremoto, depois veio a erupção do vulcão, que enviou uma avalanche de fogo para dentro do mar. Muitos que conseguiram fugir das torrentes de lava morreram sufocados pelos gazes sulfurosos que se estenderam por uma zona muito vasta.

Os céus se escureceram tanto que Plínio chegou a dizer que aquilo "foi de dia, mas escureceu muito mais do que a noite mais escura".

Doutra feita, o vulcão da ilha Santorim entrou em erupção, e parecia uma montanha flamante. Os fugitivos contaram que viram rajadas de fogo destruindo a vegetação, os vapores sulfurosos matando os peixes do mar, e as águas tornando-se vermelhas como sangue.

Essas coisas certo estavam ainda na lembrança dos leitores de João. Sem dúvida, Deus faz sua revelação através de coisas que os homens podem entender.

Assim, Deus lhes estava como que dizendo: "Tenho em minhas mãos os meios para destruir os meus inimigos." E, justamente por meio dessas coisas convidava os inimigos a se arrependerem e a deixarem de praticar o mal.

Em cada uma destas três séries de símbolos (selos, trombetas e taças) o plano do escritor é dividir as mesmas em quatro, duas e uma, deixando que uma delas atue como agente de transição.

Aqui notamos que as quatro primeiras trombetas pronunciam calamidades sobre a natureza; as duas seguintes apresentam as calamidades que sobrevirão à humanidade.

João ouviu uma águia — ave de rapina — clamando, à medida que voava pelos ares, que a próxima trombeta traria calamidades sobre o homem.

As últimas tinham trazido destruição à natureza, mas "o pior estava ainda por vir". Era superstição corrente que a águia era ave de mau agouro e, assim sendo, constituía apropriado presságio dos males que se seguiriam.

Essa proclamação tem grande efeito dramático, visto que os leitores, uma vez passada a tormenta, têm agora diante de seus olhos como que um deserto de cinzas.

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