Método de interpretação da formação histórica do apocalipse


Por Ray Summers

Anotamos previamente que este quinto método poderia ser considerado como uma parte do método preterista.

Parece desejável discutir isto em separado, por duas razões: primeira, porque o grupo esquerdista deixou apenso a todo o sistema preterista uma associação bastante indesejável; segunda, porque mesmo alguns direitistas, cujo método tem muito em comum com o da formação histórica, sustentam que o Apocalipse só tem mensagem para aqueles que primeiro o receberam.

Por isso, parece mui recomendável tratar o método da formação histórica como um método separado de interpretação, e não encará-lo como uma parte doutra divisão do método preterista. De fato, ele merece maior reconhecimento e deve ser tratado como método à parte.

Talvez o melhor modo de explicar o que vem a ser este método seja o de anotar os princípios de interpretação que ele segue.

Nenhum dos métodos de interpretação já referidos tem o monopólio da interpretação do Apocalipse. Cada escola tem tido no seu número de defensores alguns homens muito sábios e piedosos.

Quando estudamos os pontos de vista e buscamos escolher um que nos pareça correto, ficamos como que vendidos, porque em cada um deles há falácias mui patentes.

Os princípios que vão agora aqui apresentados talvez sugiram um método que reúna uma parte da ala direita do método preterista a uma parte do método da Filosofia da História.

1° PRINCÍPIO DE INTERPRETAÇÃO - Este método sustenta que o autor escreveu sua mensagem visando primeiramente encorajar e edificar os cristãos de seus próprios dias.


Quem adota este método deve, portanto, fazer um bom estudo da Igreja daqueles dias. Deve, quanto possível, conhecer o escritor do livro, as condições em que o escreveu e suas relações para com os que iam receber sua mensagem.

Deve saber a data aproximada em que foi escrito; deve enfronhar-se das condições morais, religiosas, sociais e políticas da época em que foi escrito o livro. Deve, ainda, conhecer a mente ou o espírito do povo que se via diante de tantas perplexidades e numa situação aparentemente desastrosa.

Um ponto de real importância para guiar o intérprete é perceber o propósito do livro e as circunstâncias históricas que lhe deram origem. 
O Apocalipse foi escrito em forma de carta dirigida a certas comunidades cristãs, e se inicia com um relato pormenorizado das condições e circunstâncias dessas comunidades. 
O livro parte de uma situação histórica bem definida, à qual se faz referência novamente no fim; e as visões intermediárias, que constituem o corpo da obra, não podem, por uma teoria razoável, ser divorciadas de sua montagem histórica. (H. B. Swete, The Apocalipse of John [II ed., Londres, Macmillan and Company, 1907], p. CCXIII.)

E o expositor continua a dizer que o livro surge de circunstâncias locais e temporárias, que é a resposta do Espírito Santo aos temores dos cristãos asiáticos sujeitos aos perigos do final do primeiro século, e que tudo quanto lança luz sobre a Ásia Menor do ano 70 ao ano 100 de nossa era e sobre a cristandade daquele período é de suma importância para o intérprete do livro do Apocalipse.

João não estava escrevendo sobre o século vinte, e nem sobre outro século qualquer, e, sim, sobre aquele em que estava vivendo... 
Para as igrejas em luta e perseguidas, às quais ele se dirigia, meros pormenores do futuro em nada interessavam; precisavam elas duma renovada certeza de que o cristianismo teria brilhante futuro na terra. 
Dispensações e quadros de épocas remotas nunca os teriam ajudado naquela sua posição desesperada; precisavam da luz da esperança cristã a brilhar em seus próprios dias. (Dana, op. cit., p. 86.)

William Peter King acrescenta seu conceito do Apocalipse aos de outros intérpretes, dizendo:

O propósito do livro é fortalecer o ânimo e a fé dos cristãos, mostrando-lhes a derrocada do Império Romano e o triunfo final do Reino de Deus e do Cristo vencedor. O autor escreve em meio a uma situação aparentemente desesperadora...
É de admirar como os adventistas chegaram a se convencer de que uma predição do aparecimento e queda de algum papa ou ditador moderno pudesse propiciar algum conforto e incentivo àqueles cristãos primitivos tão duramente provados. (William P. King, Adventism (Nashville, Abingdon-Cokesbury Press, 1941, p. 100 em diante.)

Outras autoridades que esposam estas idéias serão citadas na discussão da formação histórica do livro. As que citamos bastam para mostrar que o primeiro passo para a interpretação deste livro é compreender a sua formação histórica ou o seu fundo histórico.

2° PRINCÍPIO DE INTERPRETAÇÃO - O que devemos ter em mente é que o livro foi escrito em sua maior parte numa linguagem simbólica. 


A palavra "símbolo” vem do grego σύμ, que significa "com", mais o infinito βάλλειν, que quer dizer "lançar" "atirar", e daí "reunir", "ajuntar". Símbolo então é aquilo que sugere algo mais por causa de sua relação ou associação.

É um sinal visível de algo invisível, assim como uma ideia ou uma qualidade. No Apocalipse empregam-se símbolos para retratar ou representar idéias abstratas que o escritor desejou apresentar a seus leitores.

O livro do Apocalipse (logo depois de seus três primeiros capítulos) é um livro de quadros divinos, um livro de desenhos espirituais, uma representação ilustrada, através de símbolos de certas forças que subjazem ao desenvolvimento histórico da Igreja Cristã e aos seus incessantes conflitos. (Pieters, op. cit., p. 69.)

Justamente por isto não podem ser seguidas aqui as regras ordinárias de interpretação. Costumeiramente, devemos tomar as palavras de qualquer passagem bíblica em seu sentido claro e natural, a menos que haja alguma razão para tomá-las em sentido figurado.

Sempre nos inclinamos paca o sentido literal, e, quando agimos doutro modo, deve aparecer a causa disso. Já não é este o caso do livro do Apocalipse.

Neste livro, apresentado em forma ilustrada, devemos notar que os símbolos, devem ser entendidos figuradamente, a menos que haja razão forte para tomá-los literalmente.

Poucos são os lugares em que se usa a linguagem literal no meio da linguagem simbólica, e tais lugares facilmente os descobrimos, pois são como palavras gregas num livro em inglês.

O intérprete do Apocalipse tem diante de si dois deveres, e não um apenas. Ao ler a história de Davi e Golias, vemos aí um rapaz, um gigante, a armadura, a funda e a vitória. Esta é toda a história.

Agora, quando vemos,no capítulo 12 do Apocalipse, a luta de Miguel e seus anjos contra o dragão e os dele, não devemos ver só uma história, e, sim, também aquilo que isso simboliza.

Não devemos tomar isso como uma informação duma batalha no céu em que Satã perdeu sua posição no céu em tempos pré-históricos, mas ver que a cena simboliza algum fato ou verdade da vida ou da experiência espiritual da cristandade.

O intérprete que deseja conhecer o Apocalipse e começa por tomá-lo literalmente principia pelo lado errado, e, quanto mais avançar nessa direção, menos entenderá o livro.

O escritor usa símbolos para comunicar o seu pensamento aos iniciados que desejam ler os símbolos, mas ao mesmo tempo também para esconder suas idéias dos que não pertencem ao círculo cristão.

Na época atual, este segundo objetivo parece não ser de grande importância. Mas as condições dos dias em que o livro foi escrito revelam que tinha importância capital.

O significado da maior parte do simbolismo do Apocalipse é bastante claro para o leitor moderno que realmente queira compreendê-lo.

Há, é verdade, alguns símbolos que não são facilmente compreendidos e cuja interpretação enseja grande diversidade de opiniões.

Nesses pontos ninguém deve dogmatizar. O caminho mais sábio é honestamente buscar descobrir o que é que os primitivos cristãos entendiam por este ou aquele símbolo, e tomar a opinião deles como a interpretação mais correta.

O simbolismo do Apocalipse é freqüentemente fantástico e esquisito. Bestas-feras, com características mui naturalmente inverossímeis, são empregadas para representar os poderes mundiais do paganismo. Por que um animal tem sete cabeças, ou dez chifres, ou pés de urso e boca de leão? (13:1,2).

É certo que nunca existiu um animal assim. Todos os poderes imaginativos de P. T. Barnum, juntamente com os de Roberto Ripley, jamais criariam uma tal criatura!

Apresenta-se um animal assim para simbolizar um antagonista poderoso e perverso que a causa da retidão tem de enfrentar nas batalhas espirituais. Nenhum método de interpretação chegará a descobrir a mensagem real do Apocalipse sem admitir, seguir e obedecer a esse seu simbolismo.

3° PRINCÍPIO DE INTERPRETAÇÃO – Muito importante é lembrar que o Apocalipse usa a terminologia do Velho Testamento com significado neotestamentário.


Expressões e imagens do Velho Testamento permeiam completamente o livro do Apocalipse. Alguns expositores têm caído no erro de interpretar essa linguagem como sendo a mesma usada no Velho Testamento.

Assim, acham que uma palavra ou expressão que significa tal coisa numa parte da Bíblia deve inevitavelmente significar o mesmo todas as vezes que aparecer no texto sagrado. É uma falsa premissa que leva a erros sem conta.

Uma expressão, ou símbolo, significa aquilo que o autor intentou significar no lugar em que a usou. João fala em certos animais que achamos também em Daniel, e emprega muitos termos de Ezequiel; mas isso não quer dizer que tenham a mesma interpretação. Ele os adaptou a sua mensagem.

Muito do dispensacionismo que tem tumultuado o avanço da interpretação repousa na crença de que o Apocalipse profetiza a "septuagésima semana" de Daniel só porque alguns dos termos são os mesmos.

O Novo Testamento é essencialmente um livro cristão, e não um livro do judaísmo. Tem uma mensagem propriamente sua, sem cogitar de saber se sua linguagem se assemelha ou não à do Velho Testamento, à dos livros apócrifos ou se é totalmente de João.

4° PRINCÍPIO DE INTERPRETAÇÃO - Para compreendermos o verdadeiro significado do Apocalipse, devemos tomar as visões, ou séries de visões, como um todo e sem forçar os pormenores do simbolismo. 


Já se observou previamente que muitos dos pormenores são apresentados para efeito dramático, e não para descer a minuciosos significados da passagem. Os pormenores duma visão podem ter significado, mas a maior parte das vezes são usados apenas para completar ou encher o cenário.

Este mesmo princípio tem aplicação na interpretação das parábolas e, a miúdo, nos livros de poesia. Como exemplo, notemos o Salmo 91:

Não temerás espanto noturno,
Nem seta que voe de dia;
Nem peste que ande na escuridão,
Nem mortandade que assole ao meio-dia.

Pieters diz sobre isto:

Visto em conexão com todo o propósito do Salmo e como uma idéia construída sobre detalhes concretos, tal conceito de que o crente está sempre sob o protetor cuidado de Deus é muito lindo e mui verdadeiro.
Agora, se tomarmos isto em seus pormenores, veremos que estes nem sempre são verdade, porque crentes morrem em batalhas e apanham doenças contagiosas, como os mais. 
Não se dá ênfase aqui ao pormenor; os detalhes surgem apenas para, num efeito cumulativo, assegurar aos homens que Deus cuida dos que nEle confiam. (Pieters, op. cit., p. 73.)

De modo semelhante, no Apocalipse os pormenores aparecem para produzir tremenda impressão no quadro descrito. No Apocalipse 6:12-17 temos terrível impressão duma ruína iminente e de terrores em toda a humanidade.

Isto é o suficiente, não havendo necessidade de se buscar saber minuciosamente o que significa a queda de cada estrela ou o desaparecimento do céu e de cada montanha. A melhor política, no caso, é encontrar a verdade central e deixar que os pormenores se ajustem de modo natural.

5° PRINCÍPIO DE INTERPRETAÇÃO - Este princípio é sugerido por Pieters, quando salienta o fato de que o Apocalipse é dirigido especialmente à imaginação.


Os livros da Bíblia são dirigidos a diferentes faculdades do homem. Assim, a Carta aos Romanos é dirigida à razão, os Salmos à sensibilidade, etc. De modo semelhante, o Apocalipse dirige-se à imaginação do homem.

À medida que o expositor lê o livro, deve procurar ver mentalmente os vários episódios do grande drama, assim como se estivesse na ilha de Patmos, na companhia de João vendo essas visões.

Deve representar para si mesmo a majestade da cena em que Cristo caminha entre as suas sangrantes igrejas com o remédio para os seus males.

Se o leitor não fizer assim, certo deixará de apreender as maiores mensagens do Apocalipse. A pessoa que não tiver uma imaginação fértil, ou que a tem, mas se recusa a usá-la, agirá bem deixando de lado este livro.

O livro foi escrito para transmitir sua mensagem, criando impressões, e tais impressões se firmam e consolidam à medida que o leitor vai tomando parte no drama que se desenrola a seus olhos no palco da Ásia Menor nos anos de 90 a 96 de nossa era.

Quando termina o drama e desce o pano de boca, após a reverente oração do escritor — "Amém! Ora vem, Senhor Jesus!" — sentimo-nos possuídos dum sentimento de majestade, de reverência e de respeitoso temor.

Sentimos a certeza da vitória, a respeito das disparidades aparentemente invencíveis. E ficamos com a segurança de que, indubitavelmente, aconteça o que acontecer, Cristo reina soberano, e de que poder algum jamais lhe arrebatará das mãos a vitória que por direito lhe pertence.

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