Apocalipse 12.1-18 - A mulher e o dragão

Por Ray Summers 

Neste ponto Swete divide todo o livro do Apocalipse em duas seções. (Swete, op. cit, p. XXXIX e seguintes) 

Encara o trecho que vai do capítulo 1 ao 11 como o primeiro apocalipse, que revela Cristo como o cabeça da Igreja e o controlador do destino do mundo; e o trecho que vai do capítulo 12 a 22, como o segundo apocalipse, que revela as provações e os triunfos da Igreja.

Acha ele que o primeiro drama é completo em si e que, se perdesse a segunda parte, não perderia a primeira parte o seu sentido.

É verdade que o escritor faz como que um novo começo do capítulo 17 em diante; mas o leitor fora preparado para isso pelo versículo 11 do capítulo 10 em que se diz a João que devia ele profetizar muitas coisas mais a muitos povos. 

À luz de todas as evidências, parece melhor tomar esta como uma parte integrante da mensagem total.

Os selos levam às trombetas; estas, por seu turno, culminam na aparição do livrinho que contém a verdade do juízo sobre os homens. Esta mensagem deveria ser proclamada pelo profeta. Eis aqui a mensagem.

As características aqui são na essência as mesmas; o conflito é o mesmo, embora apresentado sob diferente aspecto; o resultado é o mesmo, e já de início foi dito qual é. É interessante anotar que, daqui até o fim do livro, as ações passam a ser muito mais rápidas do que até agora. 

Em sequencia gradativa, o juízo sobre Roma é seguido pelo juízo sobre todo o mal. Por fim, do conflito resulta a completa vitória de Deus e das forças da retidão.

As figuras apresentadas nesta visão não são uniformes como em algumas outras, como, por exemplo, os sete selos, as sete trombetas, as sete taças da ira. Nem são elas distintamente separadas no texto. São, muitas vezes, discutidas no mesmo parágrafo; mas uma ou outra absorve todo o interesse do parágrafo.

À entrada do conflito aparece uma Radiante Mulher e sua descendência. O dragão com seus aliados — a primeira e a segunda bestas — tudo fazem para destruir a mulher e seus filhos. Mas as forças de Deus — o Cordeiro e a foice (o julgamento) — saem vitoriosas. 

Quando acaba o conflito, já no capítulo 20, vemos o dragão e seus aliados presos no lago de fogo, para nunca mais importunar o Cordeiro e Seu povo. Este é o simbolismo.

Todas essas figuras devem ser identificadas para se conhecer o significado. Uma vez identificadas e explicado o ato todo, a mensagem do Apocalipse se torna perfeitamente clara.


A RADIANTE MULHER E SEUS FILHOS (ISRAEL, CRISTO, OS CRISTÃOS)

João viu um grande sinal no céu. Era uma mulher vestida com a radiância do sol. Tinha por pedestal a lua, e de doze estrelas era a sua coroa. Estava com dores de parto. A criança que ia nascer era varão, e destinado a governar as nações. 

Foi arrebatado para o céu, como medida de proteção, e a mulher fugiu para um lugar seguro no deserto. Isto se fez necessário porque o dragão vermelho punha em perigo não só a mulher como também seu filho, buscando tragá-lo.

Apocalipse 12.1-4
1 - Viu-se grande sinal no céu, a saber, uma mulher vestida do sol com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas na cabeça,
2 - que, achando-se grávida, grita com as dores de parto, sofrendo tormentos para dar à luz.
3 - Viu-se, também, outro sinal no céu, e eis um dragão, grande, vermelho, com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas.
4 - A sua cauda arrastava a terça parte das estrelas do céu, as quais lançou para a terra; e o dragão se deteve em frente da mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o filho quando nascesse.

Os exegetas diferem muito quanto ao que possa significar a mulher. Alguns (Pieters, Richardson, Kiddle, S. Smith, Beckwith, Stuart, Swete) acham que se trata da "Igreja", usando esta palavra mais para significar a comunidade messiânica da qual Cristo nasceu do que a Igreja no sentido comum do termo, visto ser difícil admitir-se a Igreja dando à luz o Cristo.

O que em geral o Novo Testamento nos ensina é que Cristo é quem produziu a Igreja. 

Outros (Dana, Moffatt) acham que a mulher simboliza Israel, que, na pessoa da virgem Maria, deu à luz Cristo.

A descendência da mulher, vemo-la em duas partes do capítulo: o filho varão (Cristo), versículo 5, e "o resto de sua semente" (os cristãos), no versículo 17. O filho varão certamente simboliza Cristo. 

Alguns exegetas da escola da continuidade histórica negam isto. Acham que a mulher é a Igreja e o filho varão são os filhos e filhas nascidos da gestação da Igreja.

Tais filhos e filhas tornam-se mártires, mas são arrebatados para o céu, para estarem eternamente a salvo. Isto parece boa saída, mas não corresponde às necessidades daqueles a quem primeiro foi endereçado o Apocalipse. 



Os leitores de João não precisavam de informes a respeito dos acontecimentos que sobreviriam à Igreja na Idade Média.

Eles compreenderiam aquilo de que estavam necessitados — uma visão do cristianismo desde o seu início que lhes trouxesse a certeza do triunfo final. Desde sua implantação, a religião cristã vinha sendo objeto da oposição de Satã, mas estava destinada a triunfar sobre todos os inimigos.

"O resto de sua semente", de que nos fala o versículo 17, deve ser uma referência aos cristãos. Note-se que são eles identificados com os que "guardam os mandamentos de Deus e conservam o testemunho de Jesus Cristo". Esta última parte é muito importante.

Apocalipse 12.17
17 - Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com os restantes da sua descendência, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus; 

A primeira parte poderia referir-se somente aos judeus, mas a segunda parte identifica de modo definitivo esse povo com os cristãos. Eles também provam a enfurecida oposição de Satã e de seus exércitos, mas estão destinados à vitória com Cristo.

AS FORÇAS DO MAL EM GUERRA

Voltamos nosso olhar agora para os exércitos que se chocam nesta guerra, a favor e contra a mulher e sua descendência. Talvez nos ajude bastante uma breve identificação, como prefácio ao que se segue. 

As forças do mal são chefiadas pelo dragão, identificado como o diabo. Seus aliados são a primeira besta (13:1), que simboliza o imperador de Roma, Domiciano, e a segunda besta (13:11), que simboliza a comissão ou junta instalada na Ásia Menor para propagar e exigir de todos o culto ao imperador. 

As forças do bem são comandadas por Deus, que também conta com dois aliados: o Cordeiro (14:1), que simboliza o Cristo redentor, e a foice (14:14), que simboliza o juízo eterno. A batalha é coisa terrível e furiosa, mas a vitória pende para o lado de Deus, com o seu Cristo Redentor e o juízo eterno.


AS FORÇAS DO MAL SÃO COMANDADAS PELO DRAGÃO

[O dragão] vem descrito com expressões sinistras. De cor vermelha, a cor do sangue, tem sete cabeças, que simbolizam grande sabedoria; dez chifres, que quer dizer grande poder. Traz na cabeça sete diademas, iguais aos usados pela realeza — que querem dizer grande autoridade. 

É tão enorme que com um movimento de sua cauda pode derribar as estrelas do céu. Este dragão horrendo, temível e poderoso se põe diante da mulher em dores de parto para devorar o produto de suas entranhas logo que nasça. 

Que podem fazer essa desvalida mulher e uma Criança recém-nascida para conjurar tal forte oposição? Parece que tudo está perdido. Mas lembremos que João nos disse no versículo 5 que essa Criança está destinada a governar o mundo!

Apocalipse 12.5
5 - Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono.

Nascida a Criança, o dragão fez tudo possível para arrebatá-la e devorá-la, mas Deus interveio com seu protetor cuidado e a Criança foi arrebatada para o céu, lugar seguro. Assim, em poucas palavras, vemos o cuidado providencial que cercou a Cristo durante os dias de sua peregrinação sobre a terra. 

Desde os primeiros dias de sua infância, o diabo tentou destruí-Lo. E, pelos dias do seu ministério a dentro, o diabo multiplicou seus esforços. Afinal, pareceu sair vitorioso, quando crucificaram Cristo e, morto, o levaram para o silêncio do túmulo.

Mas o poder de Deus lhe concedeu vitória sobre a própria morte. Saiu triunfante da sepultura e foi elevado ao próprio trono de Deus. O diabo perdeu a primeira batalha dessa terrível guerra!

Esta é imaginação essencialmente apocalíptica: trava-se a batalha, as ações ora se desenrolam na terra, ora no céu, depois voltam para a terra e tomam o curso comum dos acontecimentos.

Em todo o seu aparato, vemos o diabo nada conseguindo; na fúria de destruir Cristo na terra, tenta, se possível, invadir o próprio céu para devorar a criança.

Apocalipse 12.7-12
7 - Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos;
8 - todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles.
9 - E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos.
10 - Então, ouvi grande voz do céu, proclamando: Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus.
11 - Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida.
12 - Por isso, festejai, ó céus, e vós, os que neles habitais. Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta.

Aqui há agora guerra no céu. Como o diabo tenta invadir o céu para destruir o Cristo, é barrado por Miguel e seus anjos.

Miguel é anjo combativo, e traz na mão uma espada! Empenha-se tanto na defesa do céu, que o diabo e seus exércitos não conseguem ali firmar pé e acaba sendo expulso para baixo, para a terra.



Vozes celestiais proclamam a vitória do povo de Deus sobre todas as tentativas do diabo. Alcançam vitória por causa de sua fidelidade ao Cristo redentor; ainda que essa fidelidade lhes acarrete a morte, eles permanecem fiéis.

Devemos interpretar este parágrafo com o seu contexto do Apocalipse, e não em relação com as obscuras passagens do Velho Testamento ou com as afirmativas de Milton em seu "Paraíso Perdido". 

Aqui não se tem um relato histórico do estado original do diabo e de sua queda. Temos, sim, a representação apocalíptica, que nos dá uma ideia dos esforços do diabo no sentido de destroçar a Cristo e ao seu povo. 

Assim, vemos que o diabo já perdeu duas batalhas desta guerra: não conseguiu destruir Cristo quando esteve na terra, e não conseguiu invadir o céu, para lá destruir o Cristo. Agora ele se mete numa terceira batalha, e descarrega sua fúria sobre a mulher que deu à luz o Cristo.

Apocalipse 12.6
6 - A mulher, porém, fugiu para o deserto, onde lhe havia Deus preparado lugar para que nele a sustentem durante mil duzentos e sessenta dias.

No versículo 6 vemos a mulher fugindo para o deserto. Foge, para se escapar da ira do dragão. Será protegida por espaço de 1.260 dias, ou melhor dizendo, por três anos e meio.

Esta mesma ideia se repete no versículo 14, no símbolo — "um tempo, e tempos, e metade de um tempo", ou três tempos e meio. Lembre-se que nos escritos apocalípticos judaicos este é um número que simbolizava coisa vaga, incerta, indefinida, e também desordem, perturbações. 

Apocalipse 12.13-16
13 - Quando, pois, o dragão se viu atirado para a terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho varão;
14 - e foram dadas à mulher as duas asas da grande águia, para que voasse até ao deserto, ao seu lugar, aí onde é sustentada durante um tempo, tempos e metade de um tempo, fora da vista da serpente.

À mulher (Israel) se dão asas de águia, para fugir do dragão, que a persegue e redobra seus esforços, vendo que dispõe de pouco tempo.

Apocalipse 12.13-16
15 - Então, a serpente arrojou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, a fim de fazer com que ela fosse arrebatada pelo rio.
16 - A terra, porém, socorreu a mulher; e a terra abriu a boca e engoliu o rio que o dragão tinha arrojado de sua boca. 

Em seus esforços para destruí-la, o dragão vomitou água como um rio, para que pela correnteza conseguisse arrebatá-la; mas, a terra ajudou a mulher, e abriu a sua boca, e tragou o rio que o dragão lançara de sua boca, e a mulher conseguiu livrar-se. O dragão não conseguiu destruí-la.

Aqui novamente vemos a imaginação apocalíptica. Alguns intérpretes veem nisto um símbolo da desintegração nacional de Israel. O clímax dessa desagregação foi a destruição de Jerusalém no ano 70 de nossa era. 

Embora Israel fosse espalhado pela terra, conseguiu preservar sua integridade racial. Todos os esforços feitos para desintegrá-lo, como raça, de fato falharam.

Esta é uma ideia interessante, e pode mesmo ser o que aí esteja simbolizado. No entanto, desta ideia se têm tirado muitas ilações de natureza duvidosa. 

Devemos conservar sempre em nossa mente que no livro do Apocalipse, como em qualquer outra parte da profecia neotestamentária, o centro do plano e do propósito de Deus é Jesus, e não os judeus. 

O escopo capital desta cena não é nos mostrar o destino dos judeus, mas revelar os esforços do diabo nessa guerra tremenda. E esta é a terceira batalha que ele perde. 

Apocalipse 12.17-18
17 - Irou-se o dragão contra a mulher e foi pelejar com os restantes da sua descendência, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus;
18 - E se pôs em pé sobre a areia do mar. 

Agora ele se atira à quarta batalha. Esta é dirigida contra os cristãos, e ele acha alguns aliados já prontos para ajudá-lo nesta quarta batalha da terrível guerra. (Continua...)

ÍNDICE

23 - A Mulher e o Dragão - Apocalipse 12.1-18
Tecnologia do Blogger.