As características da literatura apocalíptica



Por Ray Summers

O trabalho de classificação das muitas características da literatura apocalíptica parece quase interminável. Alguns autores, buscando abranger toda essa literatura, apresentam uma classificação geral.

Já outros apresentam somente as características dos apocalípticos judaicos. Outros ainda apresentam uma lista das características da Revelação ou Apocalipse do Novo Testamento.

Parece haver quase tantas classificações de características quantas são as interpretações do livro,e estas são uma legião. A classificação aqui adotada é bastante arbitrária. A intenção principal é indicar todas as características maiores que se referem à Revelação.

1. SIGNIFICAÇÃO HISTÓRICA

O apocalíptico sempre teve uma significação histórica. sempre houve alguma situação histórica bem crítica a que o apocalíptico esteve associado. Os elementos dessa situação histórica são representados pelas imagens usadas no livro.

De modo que o conhecimento dessa situação que provocou o aparecimento do escrito apocalíptico facilita enormemente a sua interpretação.

Isto não pode ser realizado com perfeita segurança em todos os casos, mas as evidências como que apontam a perseguição de Domiciano como o elemento formativo ou como os bastidores do livro do Apocalipse.

É perfeitamente clara a verdade de que um conhecimento da situação histórica auxilia em muito a interpretação correta.

De início, se notou que o principal propósito da literatura apocalíptica era proporcionar conforto, segurança e coragem em dias difíceis.

De modo que conhecer tais dias é conhecer a coragem então precisa e é entender melhor a mensagem empregada com o fito de gerar essa coragem. Ignorar a situação histórica é desconhecer a peça principal do quadro da interpretação.

2. PSEUDÔNIMOS

No geral, a literatura apocalíptica é de autores que usaram pseudônimos. Os autores dessas obras geralmente escreveram usando o nome de grandes vultos do passado, assim como Enoque, Abraão ou Moisés, e quase nunca em seu próprio nome.

Sem dúvida, assim procederam por diversas razões que hoje mui dificilmente se compreendem em homens espirituais a quem se confia uma importante mensagem.

Para o escritor, por certo, nada havia que arranhasse a ética por agirem dessa forma, visto que empregavam muito material de fontes primitivas a que, em muitos casos, davam o devido crédito.

Assim, também o escritor hebreu como que se desvestia quase que totalmente do orgulho de ser o autor, e não se mostrava cioso de seus direitos literários.

Pouco se incomodava com sua fama pessoal, porque seu único objetivo era servir a Deus e beneficiar a nação.

Outra razão para se seguir este método é apresentada por Charles (Charles, Eschatology, p. 200 em diante.), após haver estudado toda a literatura apocalíptica judaica relacionada com as condições e atitudes que lhe subjazem.

Quando a lei atingiu a supremacia entre os judeus, não deixou ela lugar algum para a profecia, pois que se apresentava como a completa revelação de Deus.

Quando a ideia duma lei inspirada — adequada, infalível e válida para sempre — se tornou dogma para o judaísmo, como aconteceu no período pós-exílio, já não havia possibilidade de independentemente surgir um representante de Deus com uma mensagem divina.

Partindo deste dado ou desta base, Charles acha que o profeta que apresentasse uma profecia em seu próprio nome depois da época de Esdras e Neemias nunca seria ouvido.

A Lei embargava os passos à falsa verdade, a menos que o livro que a contivesse se apresentasse como de autoria de certos grandes nomes do passado. Daí, os representantes oficiais da Lei, ante as prerrogativas e autoridade de tais nomes, em parte ficariam reduzidos ao silêncio.

Assim, o legalismo, tornando-se absoluto, plasmou o caráter do judaísmo. A profecia e o apocalíptico, que haviam exercido influência determinante em muitas das grandes crises da nação, e que haviam dado vida e forma à superior teologia do judaísmo, perderam a sua posição de segunda autoridade, sendo mesmo banidas de modo absoluto ou arrastadas para os bastidores.

Desta forma, todos os apocalípticos judaicos, desde 200 anos antes de Cristo, necessariamente se escondiam atrás de pseudônimo, caso pretendessem influenciar realmente a nação.

Sim, porque a Lei era tudo, e a crença na inspiração estava morta entre os judeus, e o cânon deles já estava encerrado. Charles sustenta que isto não é exato com referência ao apocalipse do Novo Testamento, como veremos quando discutirmos a autoria do livro do Apocalipse.

Allen (Allen, op. cit., p. 18.) sugere uma terceira razão para que se tenha ocultado a autoria da literatura apocalíptica.

Trata-se dum motivo inteiramente pessoal referente ao autor dos livros em questão. Já se anotou que os livros deste tipo livremente profetizavam a derrocada do poder político então dominante.

O anonimato conduziria, certamente, a investigações e poderia acarretar males ao suposto escritor, caso o livro viesse a cair nas mãos das autoridades imperantes.

Agora, entendendo-se que o escritor do livro já não estava vivo ou vivera havia muitos anos, nada poderia ser feito contra ele; o que poderiam as autoridades pagãs fazer era apenas tratar de apreender o livro, já que não podiam prender o autor.

A primeira vista este motivo parece não ter muita base e valor. Mas, considerando-se todas as circunstâncias, inclusive o bem proporcionado por uma obra que o povo mui dificilmente conseguiria obter, vemos que tal crítica não cabe.

3. VISÕES

A terceira característica da literatura apocalíptica é a apresentação da mensagem por meio de visões. Tal método era constantemente empregado pelos profetas; mas, nos escritos apocalípticos, torna-se o principal método de expressar a verdade.

Tais visões variam de cenas no céu para cenas na terra. Abundam em mensagens ou anjos celestiais, que são os agentes de Deus em assegurar essas revelações ao vidente.

Discutiu-se muito se os escritores dessa literatura realmente viram as visões que descrevem.

Alguns se inclinam a aceitar que o escritor viu a verdade a ser transmitida e que, então, de sua experiência e condições e com a literatura da época à mão, formou as imagens e visões que descreve. Os eruditos divergem sobre este assunto.

Todos, porém, concordam em que a questão principal é o valor religioso do ensino e não a forma empregada na apresentação da verdade.

Um estudo mais profundo do Apocalipse do Novo Testamento deixa-nos uma impressão mui forte de que as visões relatadas por João são objetivamente reais.

Tal impressão decorre da natureza dos símbolos e figuras no curso das visões, bem como das referências feitas por João, nas quais parece que ele afirma diretamente terem sido objetivas as suas visões. (Veja-se Apocalipse 1:1, 12; 4:1; 5:1,2, 11; 22:8,9 e muitas outras passagens)

Talvez seja isto matéria que pouco importa. Sejam objetivas ou subjetivas, o fato é que elas apresentam a mesma verdade.

A visão bastante elaborada é a feição mais distintiva da forma da literatura apocalíptica. O assunto é atribuído a uma revelação especial, comumente dada em visões, êxtases ou raptos para o mundo invisível.

A visão ou transporte, nos escritos apocalípticos, é uma forma literária elaborada com grande abundância de pormenores, amiúde com estranhos simbolismos e com fantásticas imagens. É essa maneira de trazer à luz coisas ocultas nesses escritos que lhes deu o nome de apocalípticos.

4. PREDIÇÃO

Como quarta característica da literatura apocalíptica, achamos nela o elemento de predição. Uma revisão das condições que provocaram o aparecimento desse tipo de literatura nos mostra a verdade de que no apocalíptico se trata de coisas futuras.

Como já foi anotado, apocalíptico era a palavra para um dia ou uma condição negra, de aflição.

Tanto que ele pinta o presente como época de males, de inquietação, de perseguição, de revolução, mas prediz o futuro como um período glorioso de vingança, de triunfo e de libertação de todos os males que aqui nos afligem.

Assim, observa-se que a predição do futuro é feita, dum modo geral, nas coisas principais, e se refere mais ao caráter dos eventos do que a seus pormenores. Por isso, na interpretação desses pontos deve haver muita cautela e nenhum dogmatismo.

5. SÍMBOLOS

Uma das principais características dos apocalípticos é o emprego de símbolos. Entre os escritores deste tipo de literatura desenvolveu-se um elaborado sistema de símbolos secretos e de figuras de linguagem para expressarem suas idéias espirituais.

O escritor viu-se face a face com a necessidade de ver o invisível, de pintar o que se não podia pintar e de expressar o indescritível.

Daí o fato de seus livros virem cheios de imagens, comparações e símbolos de difícil entendimento, o que torna a tarefa do intérprete hodierno bastante difícil e arriscada.

O simbolismo é um sistema no qual as qualidades, as ideias, os princípios e outras coisas mais aparecem representadas por coisas concretas.

Tais símbolos têm um significado para o iniciado, mas constituem verdadeira algaravia para quem não conhece esses termos.

Allen chama a atenção para a expressão — um homem foi preso porque "despachou um sujeito no Alabama" e para o fato de que a "sopa" (gíria norte-americana, que significa nitroglicerina) que um "gatuno" usa para abrir um cofre muito dificilmente poderia ser oferecida num jantar. (D. W. Richardson The Revelation of Jesus Christ [Richmond: John Knox Press, 1939], p. 20.)

Estas são ilustrações do baixo tipo de linguagem simbólica — linguagem de dupla significação.

Os escritores apocalípticos, obrigados a viver num meio que não simpatizava com eles e que até mesmo às vezes lhes era hostil, e hostil também a seus leitores, elaboraram um sistema de símbolos, figuras e códigos, que passaram a usar para que suas mensagens pudessem circular com relativa segurança.

Isto nos mostra que não se pode interpretar escritos simbólicos assim como se interpreta um trecho em prosa, pois que nesta o significado está, por assim dizer, bem à vista.

O escritor emprega os símbolos como um meio de comunicar seus pensamentos àqueles que estão familiarizados com esse processo e ao mesmo tempo os emprega para esconder suas idéias dos que não pertencem ao seu círculo.

Os símbolos, na mor parte das vezes, são mais arbitrários que naturais, como acontecia com as ilustrações usadas pelos profetas. O significado da mor parte dos símbolos é claro. Mas há certos símbolos que dão lugar a opiniões bem diversas.

Quanto a tais símbolos é que não se pode dogmatizar de modo algum. Parece que o melhor caminho a seguir na interpretação dos símbolos é obedecer ao mesmo método de interpretação das parábolas, i. é., descobrir a verdade central que está sendo apresentada ou descrita e deixar que os pormenores se ajustem de modo natural.

Encontra-se no simbolismo dos números um dos usos principais do símbolo, nesta espécie de literatura. A leitura, ainda que casual, do Apocalipse, chama logo a atenção de qualquer pessoa para o frequente aparecimento de certos números.

Isto também se dá na outra literatura deste tipo. Por causa deste fato, parece coisa sábia incluir-se um estudo do simbolismo dos números nesta discussão. Muito do que se encontrará aí é um sumário tomado de Wishart, com algumas referências ocasionais a outras obras. (Wishart, op. cit., pp. 19 e 20.) 

O simbolismo dos números

O íntimo significado dos números é uma espécie de ardil que sempre exerceu forte fascinação sobre a mentalidade oriental. Naqueles primeiros dias, quando a linguagem era ainda primitiva, e pobre, o vocabulário, uma palavra hebraica muitas vezes tinha que ter vários significados.

Nessas condições, os homens naturalmente começaram a empregar números como nós usamos palavras.

Eram tais números símbolos da verdade moral e espiritual. Certo número representava uma ideia definida. E os conceitos surgiam mui naturalmente através de certas associações primitivas.

Assim como o som duma certa palavra por longo hábito lembra a ideia correspondente, também um certo número, por uma adquirida associação de ideias, traz a lembrança de um conceito exato.

Tais números tornam-se símbolos e não podem ser lidos com aquela exatidão literal que empregamos quando interpretamos fórmulas matemáticas.

Número 1

Assim sendo, os homens viram um só objeto e passaram a associar ao número "1" a idéia de unidade ou de existência independente.

Ficou sendo, assim, a expressão daquilo que era único e só. Esta palavra não aparece simbolicamente no livro do Apocalipse. No entanto, está na idéia básica de outros números que aparecem — alguns frequentemente.

Número 2

Por entre os perigos da vida primitiva, temendo as bestas--feras ou o ataque hostil de seus inimigos, o homem ganhou coragem no companheirismo. Dois sempre eram mais fortes e mais eficientes do que um só. Daí, o número "2" passou a significar fortaleza, confirmação, coragem e energia redobrada.

Há um significado simbólico no fato de Jesus enviar seus discípulos de dois em dois. Duas testemunhas confirmam a verdade, e o testemunho deles, que doutra forma poderia ser tomado como fraco, se fortalece quando estão em dois. Este número sempre significa força aumentada, energia redobrada, poder confirmado.

Assim, no livro do Apocalipse (Ver Apocalipse 11:3-12.) a verdade de Deus é confirmada por duas testemunhas que são mortas e de novo se levantam e sobem ao céu.

Isto simboliza uma forte testemunha que se avoluma e depois parece derribada por terra, mas unicamente para se erguer novamente em celestial triunfo.

Semelhantemente, (Ver Apocalipse 13, v. 1 em adiante.) há duas bestas-feras que mutuamente se testemunham e sustentam à medida que guerreiam a causa da retidão.

Constituem um inimigo formidável. Mas Deus tem, para combatê-los, um instrumento "duplo" de peleja — o Cristo vencedor e a foice do juízo. Estes se mostram demais poderosos para serem vencidos pelos dois animais bravios. Assim, simbolicamente, vemos a causa da retidão triunfar sobre o mal.

Número 3

Wishart acha que o homem encontrou em seu lar primitivo a coisa mais divina que a vida lhe poderia oferecer — o amor paterno, o amor materno e o amor filial.

Achou um reflexo de Deus na influência recíproca do amor, da bondade e do afeto dentro de sua família; e, assim, começou a pensar no número "3" como um símbolo do divino.

Nos momentos de pensamento profundo e sério, ele ligou esta idéia ao seu conceito de Deus. É, sem dúvida, esta a razão de aparecerem vislumbres de uma trindade não só na teologia dos hebreus, como também nos sonhos dos gregos.

As coisas mais divinas da vida eram três e a origem divina da vida era também tripla. Aqui, em última instância, temos o amor paterno, o amor materno e o amor filial. Aqui também estão os traços dos grandes mistérios que expressamos nas palavras "Pai", "Filho" e "Espírito Santo". As três nos fazem pensar no divino.

Número 4

Quando o homem saiu de casa e olhou a seu redor, não tinha idéia alguma do mundo moderno como o conhecemos agora.

Não havia um Copérnico para lhe abrir os olhos para ver o vasto significado do universo. Para ele o mundo era uma vasta superfície rasa com quatro confins — o norte, o sul, o leste e o oeste. Assim, quatro eram os ventos, provindos dos quatro cantos da terra.

Pensou que havia quatro anjos que tinham poder sobre os quatro ventos. Na cidade, achava que estava limitado por quatro muros. Assim, ao pensar no mundo, sempre pensava no número quatro, e este número se tornou um número cósmico.

No Apocalipse aparecem quatro criaturas vivas, que simbolizam as quatro divisões da vida animal no mundo. Surgem quatro cavaleiros, simbolizando os poderes destruidores do mundo em guerra. O mundo em que os homens vivem, labutam e morrem era, assim, convenientemente simbolizado pelo número 4.

Números 5 e 10

Depois do estudo de seu lar e do mundo, o homem voltou suas vistas para si mesmo. Talvez o nosso sistema decimal se tenha originado dum estudo intensivo que o homem fez dos dedos de seus pés e mãos.

Aqueles tempos eram difíceis e bárbaros, e havia muita gente aleijada e mutilada por doenças, acidentes e guerras. Homem perfeito e bem apessoado era o que tinha intactos todos os seus membros.

Assim, o número 5, cujo dobro é 10, era tido como símbolo da perfeição humana. Todos os deveres do homem se resumem em 10 mandamentos. O poder absoluto de governo é representado por um animal de dez chifres.

No Apocalipse, o dragão, (Apocalipse 12) o primeiro animal, (Apocalipse 13.) e o animal escarlate (Apocalipse 17) têm, cada um, dez chifres, e, em se tratando deste último, os dez chifres são chamados dez reis — um absoluto poderio mundial que pertence a Roma com o seu sistema de províncias.

Como múltiplo, o número 10 também aparece em muitos dos elevados números do Apocalipse. Assim, 70 é igual a um número muito sagrado; 1.000 é igual à última completação de tudo, à perfeição elevada à última potência, etc.

Número 7 = 4+3

Quando o homem começou a analisar e combinar os números, passou a formular outros símbolos mui interessantes. Somou o 4 — o número do mundo perfeito — ao 3 — o número da perfeição divina, e obteve o 7 — o número mais sagrado para os hebreus.

Era a terra coroada pelo céu — a terra de quatro confins mais a perfeição de Deus. Assim, o 7 significa perfeição ou completação pela união da terra com o céu.

Este número aparece em muitas partes do Apocalipse. Sete são os Espíritos, sete as igrejas, sete são os castiçais de ouro, sete estrelas, sete são as partes do livro, cada uma delas, exceto a última, dividida em sete porções.

O número sagrado, multiplicado pelo número completo, que é o 10, significa o que é supinamente sagrado: 70. Setenta eram os membros da alta corte judaica (o sinédrio); Jesus enviou setenta trabalhadores já por ele preparados.

Numa outra figura interessante, o 70 representa a idéia do ilimitado perdão que o cristão deve estender a quem o ofende, dado que Jesus disse que se deve perdoar a um irmão setenta vezes sete.

Número 12 = 4x3

Ainda no campo das multiplicações, o 4 multiplicado pelo 3, dando 12 como resultado, tornou-se este um símbolo mui conhecido.

No pensamento religioso hebreu era o 12 o símbolo da religião organizada no mundo. Doze eram as tribos de Israel; doze os apóstolos; doze as portas da Cidade Santa, no Apocalipse.

Este número foi reduplicado para 144.000, quando o escritor do Apocalipse desejou transmitir a certeza do número perfeito dos que foram selados, para que sobre eles não recaísse a ira de Deus ao visitar Ele a terra.

Número 3,5 = 7/2

No terreno da divisão, o número da perfeição — o 7 — foi cortado em dois. Daí, o 3 e meio passou a significar coisa incompleta, aquilo que é imperfeito. Passou, então, a simbolizar anseios profundos ainda não satisfeitos, aspirações não realizadas.

Quando o escritor do apocalíptico quis descrever essa condição, ante à necessidade de representar o mundo à espera de alguma coisa que ainda não aparecera, ao ver homens em desespero e confusão, buscando paz e luz, empregou o três e meio.

Daí, toma várias formas: um tempo, de tempos e metade de um tempo. Assim, três e meio, quarenta e dois meses e 1.260 dias têm todos o mesmo significado.

No Apocalipse, duas testemunhas pregaram três anos e meio, isto é, um tempo indefinido; a corte do Templo foi espezinhada pelos pagãos três anos e meio; os santos foram perseguidos 42 meses; a igreja esteve no deserto "1.260 dias".

Sempre o três e meio, ou seu equivalente, significa o indefinido, o incompleto, o não satisfeito. Mas, em tudo estão presentes a esperança e a paciente expectação de um dia melhor, quando do patíbulo se libertará a verdade, para colocá-la no trono que o mau houvera usurpado.

Número 6

Neste estudo do simbolismo ainda trataremos dum outro número. Para o judeu, o número seis tinha um significado sinistro. Sendo 7 o número sagrado, o 6 não o alcança, e, portanto, significa falha, queda.

Assim, o seis passou a significar o ataque que encontra a derrota, quando o sucesso estava já ao seu alcance. Traz em seu bojo a sua própria ruína. Tem habilitações para ser grande, mas falha nas medidas.

O 6 era, para o judeu, o que é hoje o 13 para muita gente: um número mau, de azar. Alguns edifícios não têm o décimo terceiro andar porque este não daria boa renda! Muitos hotéis têm o quarto 12 e o 12A, em vez de 13, porque, se tivesse o 13, ninguém se arriscaria a dormir nele!

Pode ser que se começou a temer o número 13, desde aquela triste noite em que treze pessoas partiram o pão à mesma mesa, saindo depois dali uma delas para perpetrar a mais hedionda das traições, e outra, para realizar o maior sacrifício de que a história tem conhecimento.

Assim, o 6 era um número ruim para o judeu. É importante termos isto na memória para quando chegarmos ao número 666, no Apocalipse.

Destas breves notas sobre o uso simbólico dos números podemos ver que os números que aparecem no livro do Apocalipse não podem ser tomados em seu real valor numérico, e nem mesmo como números redondos.

São puramente simbólicos, e devemos deixar de lado nossos conhecimentos matemáticos e procurar descobrir o seu simbolismo.

Grande parte dessa ânsia de marcar as épocas e as dispensações, no passado como no presente, tem por base essa incompreensão do valor dos números usados pelo escritor.

A parte desse simbolismo de números no Apocalipse, aparece nele grande abundância de outras figuras de linguagem. Muitos objetos são usados simbolicamente.

Aves, animais, pessoas, cidades, elementos da natureza, armas, fenômenos (como a luz e as trevas,etc.), pedras preciosas — tudo isto e muitas outras coisas servem ao propósito do escritor à medida que ele nos dá a conhecer o seu pitoresco livro que descreve a vitória da retidão sobre a iniquidade.

"Neste esquisito mundo de fantasia, que uma imaginação oriental muito rica povoou de formas espectrais e de insólitas figuras, de anjos que voam, de águias e altares que falam, de monstros que sobem do mar e da terra, sim, num mundo como este muitos cristãos asiáticos daquela época realmente se sentiam como que em casa, e, por certo, a mensagem do profeta os alcançou." (James Moffatt, The Expositores Greek Testament [Grand Rapids], vol. V, p. 301.) 

Não é possível vislumbrar a correta interpretação do Apocalipse ignorando-se esta sua característica central.

6. O ELEMENTO DRAMÁTICO

Um dos instrumentos mais eficientes de qualquer escritor — é outra característica dos apocalípticos. Um dos propósitos principais da literatura apocalíptica era tornar bem viva e convincente a verdade a ser ensinada.

Assim, com frequência se apresentam figuras cheias de vivacidade para produzir a impressão desejada. Os pormenores têm significado unicamente sob este ponto de vista, e não se lhes deve dar demasiada ênfase.

Este princípio é verdadeiro para muitas das visões e figuras do livro. Impressiona mais vividamente, e também mais dramaticamente, o leitor, por meio de símbolos grotescos e terríficos.




  • Rios de sangue; 
  • Pedras de granizo que pesam cem libras; 
  • Um dragão tão enorme que com uma só rabanada põe abaixo um terço das estrelas; 
  • A Morte cavalgando um cavalo, com o Túmulo que lhe vem atrás; 
  • Uma mulher, vestida do sol e tendo a lua por seu escabelo; 
  • Animais com várias cabeças e chifres; 
  • Um dragão que faz sair de sua boca um rio de águas para destruir uma mulher que voa pelo ar; 
  • Um dragão, um animal e um falso profeta, cada um deles vomitando uma rã, que se agrega a um exército.
Tudo isto é simbólico; mas são mais do que meros símbolos. São símbolos exagerados, para efeito dramático.

Discerne--se a significação da figura, encarando-a em sua larga perspectiva como um todo, e não buscando determinar o significado de cada pormenor. Não nos devemos interessar tanto pelo ator a ponto de nos esquecermos do enredo e do seu significado.

Este escorço das características da literatura apocalíptica nos ajuda a ver logo que não estamos lidando com literatura comum e que não podemos por isso empregar os métodos comuns de interpretação. Esta literatura foi preparada para revelar uma mensagem.

E tal mensagem só se aclarará para nós quando interpretarmos devidamente os símbolos em sua relação com a formação do livro e quando estendermos a mensagem de tais símbolos para aqueles que primeiro receberam esse livro. O significado que têm para aqueles é o mesmo que para nós. Portanto, urge encontrar esse significado para tornar útil o livro aos nossos dias.

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