Apocalipse: introdução



Por Ray Summers

Negligenciado, mal interpretado e grosseiramente torcido, o Livro do Apocalipse permanece quase que isolado dentro do Novo Testamento. Muitos leitores da Bíblia contentam-se em passar por cima dele, como a dizer — "Não há quem o entenda." 

Já para muitos outros é um livro de extraordinária fascinação. Fascina e atrai a estes por motivo religioso; quando já a outros eletriza pela esquisitice do seu conteúdo.

As opiniões sobre o significado do Apocalipse são tão contrárias que não poucos se convencem de que jamais o interpretaremos de maneira segura e compreensiva.

Muitas interpretações
O Apocalipse tem sido citado por indivíduos, e mesmo por grupos, para provar quase tudo que é inventado acerca dos símbolos nele contidos. E, por esse motivo, centralizam sua atenção no Apocalipse, fazendo deste a base de seus esdrúxulos sistemas de interpretação.

Agir por essa forma bem revela condenável desprezo dum dos princípios básicos da Hermenêutica, o qual assim pontifica — "os trechos obscuros devem ser interpretados à luz que nos vem dos trechos claros." Seguir método contrário é fechar deliberadamente os olhos para uma interpretação real e eficiente.

Basta um exame dessa multidão de livros escritos sobre o Apocalipse para se ter uma ideia de como ele tem sido desapiedadamente mal interpretado pelos que não se enfronharam de seu possível significado para aqueles a quem o Senhor o deu em primeiro lugar.

E, mesmo entre os que se esforçaram por obter informes mais certos, lavra uma controvérsia tal que muitos pensadores sinceros desistiram de buscar a verdade contida no Apocalipse.

Deixar de estudá-lo? Não!
Encarando a rigor este fato, vemo-nos diante de dois problemas muito sérios. Deixaremos, então, no abandono um dos livros do cânon do Novo Testamento?! Muitos de nós cremos que o Espírito Santo não só inspirou os livros da Bíblia, como também os conservou para nosso uso.

Assim crendo, achamos que pôr de lado qualquer livro inspirado não é atitude própria, nem defensável, para um cristão.

De modo algum concordamos com o reformador Martinho Lutero, que recusou lugar no cânon para o Livro do Apocalipse só por achar impossível entendê-lo.

Já que o Espírito Santo o inspirou e por meios devidos no-lo conservou, deve certamente o Apocalipse ter algum significado para os homens de todos os séculos — tanto para os que primeiro o receberam, como para quantos o lerem noutras gerações. É certo que não devemos pô-lo de lado ou relegá-lo ao esquecimento.

Buscar encontrar o verdadeiro significado
O segundo problema refere-se ao nosso estudo do Apocalipse. Se não devemos pô-lo de lado, não é dever nosso, diante de Deus e dum mundo em caos, buscar sinceramente encontrar o verdadeiro significado deste Livro?!

É verdade que para muitos cristãos o Apocalipse é um livro fechado. Acham alguma ajuda nas mensagens às Sete Igrejas da Ásia — no início do Livro. Em ocasiões de tristeza, encontram conforto nas palavras muito bonitas dos capítulos 21 e 22.

Mas o trecho que vai do capítulo 4 ao capítulo 20 deixa-os como que no ar ou como dentro dum mui estranho labirinto.

Já outros cristãos tomam o extremo oposto, e então interpretam de tal maneira todos os pormenores das admiráveis visões, que para eles não existe segredo nenhum nos acontecimentos futuros. Assim, de contínuo elaboram vastas cronologias que, para eles, chegam a precisar até o dia do fim do mundo.

E as datas marcadas vieram, e se foram, e suas profecias em nada se cumpriram. É certo que o erro deles serve de aviso para nós, para que não nos aventuremos a tanto. Tal sistema de interpretação só tem conseguido iludir o leitor de medianos conhecimentos.

O objetivo deste estudo
O objetivo deste nosso estudo é apresentar um método de tratamento que possibilite ao leitor conhecer um bocado melhor o problema da exegese do Apocalipse. É nosso propósito precisar as verdades fundamentais que subjazem a este Livro estranho.

Vamos procurar esclarecer o significado do Apocalipse para aqueles cristãos que inicialmente o receberam, i.e., para os sofredores cristãos da Ásia Menor, e também o seu significado posterior, aplicando-o às condições do século em que vivemos.

Abordagens
No estudo que então se segue, consideraremos a natureza da literatura apocalíptica. Visto que o Apocalipse pertence a esse distinto corpo ou tipo de literatura, não podemos ignorar a natureza geral de tais obras.

Juntamente com as características de toda a literatura apocalíptica, estudaremos as condições que possibilitaram o aparecimento e o crescimento de tais obras.

O passo seguinte será o exame dos métodos de interpretação do Apocalipse. Pertencem a quatro classes gerais, contando-se o método apresentado na presente obra como, talvez, um quinto método.

Este quinto método é aqui apresentado como o que mais se aproxima da verdade, anotando-se, não obstante, o oportuno aviso de Wishart (C. F. Wishart, em The Book of Day [New York Oxford Press], 1935), p. VII.) que acha que cada nova apresentação do Apocalipse deve ter como prefácio alguma coisa semelhante a estas palavras — "E, aquele que não tiver sua interpretação favorita que atire a primeira pedra!"

Partindo deste ponto, a formação histórica será tratada de um modo um tanto intenso. Isso incluirá a discussão de todas as coisas que se relacionam com a autoria, a data, os receptores e a ocasião, no que se referem à interpretação do livro.

O livro retrata uma atitude de fé em Deus e no seu propósito, que é coisa inigualável em o Novo Testamento.

Tal retrato pode ser melhor compreendido quando conhecemos as condições dos primeiros leitores do livro.

O objeto desta obra, portanto, é apresentar uma sólida interpretação do Apocalipse como um todo, tendo em mente que o objetivo principal é criar o espírito de confiança no Cordeiro vivo, vitorioso e redentor, que se movimenta em majestosos passos por toda esta ascendente revelação que nos vem de Deus.

Este Cristo — Cordeiro, que se revelou vitorioso sobre as caóticas condições mundiais do primeiro século, alcançará vitória igualmente sobre as condições similares de quaisquer outros séculos, até que "o reino do mundo se torne o reino de nosso Senhor, e do seu Cristo: e ele, então, reinará pelos séculos dos séculos".

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