Apocalipse 4.1-11 - O Deus reinante


Por Ray Summers 

Começa aqui a parte principal do Apocalipse. Até aqui o material apresentado constituiu uma preparação para o que vem agora. João vai agora presenciar o "Drama da Redenção". (O tratamento de Dana, ver sua obra The Epistles and Apocalipse of John, p. 112.)

O caminho já foi preparado pela visão do Cristo redivivo e vitorioso no capítulo primeiro. O auditório, para cujo benefício se produziu este drama, foi já apresentado, com seus vícios e virtudes, nos capítulos dois e três. 

Agora chegou a hora de fazer subir o pano e mostrar o palco preparado para o desenrolar do drama. Daqui para diante, em rápida seqüência, surgirão cenas cujo objetivo é dar aos cristãos perseguidos a certeza de que a Causa de Cristo em nada é uma causa perdida. 

Impressionante e bem forte será o espetáculo. Mas quando descer o pano, no final da apresentação (22:21), estará demonstrada a perfeita segurança da vitória.

O capítulo 4 prepara o ambiente e o caminho para tudo quanto vem a seguir. O capítulo 5 completa essa preparação, apresentando a soberania de Deus, reivindicada pela obra de Cristo.

O capítulo 4 diz, na linguagem de João, capítulo 14 — "Crede em Deus"; o capítulo 5, com Cristo a comandar a cena, diz — "Crede também em Mim." (Veja Richardson, op cit., p. 67.) 

Então, do capítulo 6 ao 18 teremos apresentação da ira de Deus contra os inimigos de sua causa. Do capítulo 19 ao 22, veremos a vitória de Deus, final e completa, e o destino eterno dos homens. Com tal apresentação é claro que esta visão (caps. 4 e 5) prepara o caminho para a mensagem total. Duas idéias se destacam nesta visão.

O DEUS REINANTE (4:1-11)


Apocalipse 4.1a
1 - Depois destas coisas...

A expressão "depois destas coisas" se refere aos assuntos preliminares contidos nos capítulos de 1 a 3. É um artifício para introduzir as visões em sua seqüência. Com esta declaração João inicia o relato das visões que teve e que mostram a libertação por Deus, de seu povo, livrando-o do perigo da perseguição de Domiciano. 

Fazia-se necessária uma visão do Cristo triunfante antes da apresentação das visões, para que estas tivessem significado. Também era necessário mostrar as condições atuais das igrejas, para que se conhecesse o real significado daquilo que vem a seguir.

Tudo isto prova que o livro se propõe levar a necessitada coragem aos que primeiro iriam recebê-lo, e não revelar acontecimentos da consumação dos séculos, ou duma época que viria a centenas ou milhares de anos daquela em que João viveu.

Apocalipse 4.1b
1 - ... olhei, e eis não somente uma porta aberta no céu, como também a primeira voz que ouvi, como de trombeta ao falar comigo, dizendo: Sobe para aqui, e te mostrarei o que deve acontecer depois destas coisas.



A primeira coisa que João vê é uma porta aberta no céu. Por ela João pode ver o que se passa no céu.

É convidado, pela primeira voz que ouviu (1:10, a voz de Cristo), a encaminhar-se para um lugar mais alto, de onde poderá ver as coisas do ponto de vista de Deus. Do posto de observação de João, em Patmos, só se podia ver tudo escuro e sem esperança.

Apocalipse 4.2-3
2 - Imediatamente, eu me achei em espírito, e eis armado no céu um trono, e, no trono, alguém sentado;
3 - e esse que se acha assentado é semelhante, no aspecto, a pedra de jaspe e de sardônio, e, ao redor do trono, há um arco-íris semelhante, no aspecto, a esmeralda.
Mas, agora que se lhe concede ver as coisas do ponto de vista de Deus, as cores se mudam num repente.

Pode agora dali ver o eterno trono de Deus, trono que não se abala às ameaças de Domiciano e doutros mais do seu quilate. Vistas as coisas daquele ângulo celestial, já não há a menor dúvida sobre o resultado da batalha em que estão empenhados todos os cristãos. 

Num repente, intensificou-se a experiência espiritual, e João viu a primeira garantia da vitória — Deus no seu trono.

Os cristãos estavam precisando de certeza e segurança. Pois, eis aí: Deus não abdicou a favor de Domiciano ou a favor de qualquer outro, não. Bem no centro daquela visão está o soberano Deus assentado no seu trono.

O nome de Deus só aparece no versículo 8, mas não padece dúvida a identidade da pessoa aqui referida. Ele tem a aparência duma "pedra de jaspe e sardônica". Talvez a pureza alvinitente da pedra de jaspe simbolize a santidade de Deus, e o vermelho sanguíneo da pedra de sardo simbolize justiça.



Ao redor do trono deste Deus santo e justo vê-se um arco-íris "semelhante à esmeralda". É símbolo de esperança ou graça. Verde, duma cor "viva", é a característica predominante desse arco--íris.

No Gênesis (9:12-17) vemos que nos foi dado o arco-íris como símbolo de esperança no meio do julgamento. Aqui também, ele aparece para representar uma viva esperança no meio do julgamento; é esperança baseada na fidelidade de um Deus que fez pacto com os homens. 

Assim, o esplendor de Deus, esplendor que inspira medo ou temor, vem acompanhado, aqui, dos fortes tons de esperança e misericórdia. A retidão punitiva de Deus irá haver-se com aqueles que intentam destruir sua causa; mas sua graça e misericórdia para sempre estarão com o seu povo.

Apocalipse 4.4
4 - Ao redor do trono, há também vinte e quatro tronos, e assentados neles, vinte e quatro anciãos vestidos de branco, em cujas cabeças estão coroas de ouro.
Vinte e quatro tronos (4:4) estão ao redor do trono principal, e sobre eles João viu vinte e quatro anciãos. Muitas são as opiniões acerca desses vinte e quatro anciãos. 

Carroll acha que representam o sacerdócio eterno do povo de Deus. (Carroll. op. cit., vol. sobre o Apoc., p. 111.) Dana acha que simbolizam o vitorioso destino dos santos martirizados na Ásia Menor. (Dana, ibid., p. 114.)

Outros, que representam os doze patriarcas de Israel e os doze apóstolos do Novo Testamento, visto que reúnem os remidos dos dois períodos num destino comum de triunfo e de glória com Deus. (Hengstenberg, Richardson Allen, Pieters, D. Smith e J. Smith, in loco.) Parece ser esta a melhor interpretação. 

O número é o dobro de 12, que simboliza religião organizada. Todo este quadro simboliza conforto para os cristãos perseguidos. Eles estavam encarando a morte.

E, então? Depois da morte, eles se sentiriam perfeitamente a salvo na presença de Deus, trajando vestidos brancos, símbolo de estarem isentos da infidelidade espiritual do culto ao imperador, e com coroas de ouro, símbolo de sua vitória sobre o inimigo. 

O Senhor por duas vezes encorajou os doze (Mateus 19:28 e Lucas 22:30), garantindo-lhes que reinariam com ele; agora, isto aparece aqui significando que isto se dará com todos os fiéis.

Apocalipse 4.5
5 - Do trono saem relâmpagos, vozes e trovões...

Os símbolos seguintes são as manifestações da ira divina (4:5a). Do trono de Deus saíam "relâmpagos e trovões, e vozes", mostrando a insatisfação de Deus para com os inimigos da cruz. 

Em Êxodo (19:16) encontramos expressão semelhante a respeito da presença e da sentença de Deus.

Estes sinais assustadores e aterrorizadores da presença e do poderio de Deus são apresentados com o propósito de revelar os latentes poderes de sua onipotência, prometendo vingança sobre os inimigos dos vinte e quatro anciãos. Deus não abandonou o seu servo nas mãos de seus inimigos, não.

Apocalipse 4.5b
5 - ... e, diante do trono, ardem sete tochas de fogo, que são os sete Espíritos de Deus.

As sete lâmpadas de fogo, interpretadas como os sete Espíritos de Deus, abrangem outro simbolismo (4:5b). As lâmpadas alumiam; sete é o número da perfeição.

Sete Espíritos retratam Deus em sua essência espiritual perfeita. Portanto, devemos ver simbolizada aqui, como um indício da soberania de Deus, a perfeita operação do Espírito Santo em sua obra de iluminar e revelar aos homens as coisas divinas.

Apocalipse 4.6a
6 - Há diante do trono um como que mar de vidro, semelhante ao cristal...

O mar de cristal (4:6a) diante do trono impossibilita chegar-se perto dEle. Isto simboliza a transcendência de Deus. O mar estava separando João de suas igrejas. O mar de cristal separava o Deus transcendente do povo.

No Apocalipse 21:1, veremos que "o mar não mais existe", e os homens gozarão da companhia de Deus. Agora os cristãos perseguidos estavam separados de Deus; mas não seria para sempre assim.

Apocalipse 4.6b-8
6 - ... e também, no meio do trono e à volta do trono, quatro seres viventes cheios de olhos por diante e por detrás.
7 - O primeiro ser vivente é semelhante a leão, o segundo, semelhante a novilho, o terceiro tem o rosto como de homem, e o quarto ser vivente é semelhante à águia quando está voando.
8 - E os quatro seres viventes, tendo cada um deles, respectivamente, seis asas, estão cheios de olhos, ao redor e por dentro; não têm descanso, nem de dia nem de noite, proclamando: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Todo-Poderoso, aquele que era, que é e que há de vir.

As quatro criaturas viventes (4:6-8) formam, a seguir, o símbolo da soberania de Deus. Estão no meio, e ao redor do trono.

Cheias de olhos, por diante e por detrás, ao redor e por dentro. Tinham diferentes feições: uma semelhante a um leão; outra, semelhante a um bezerro; a terceira tinha o rosto como de homem; e a quarta era semelhante a uma águia. Cada animal tinha seis asas. 

Dia e noite, sem cessar, dizem palavras de interpretação do simbolismo das "quatro criaturas viventes" — não "bestas" ou "brutos" como vemos no capítulo 13, v. 1. 

A palavra aqui é outra. Representa atributos de Deus, frisando sua eterna vigilância a favor de seu povo. (Dana, ibid., p. 115.) Por esta teoria, o leão representa a bravura, o bezerro representa a força, o homem representa a inteligência, e a águia a ligeireza ou velocidade.

Juntas simbolizam a eterna vigilância de Deus; ele não esqueceu o seu povo, e é ligeiro e forte para vingá-lo. Esta é uma visão adicional, dado o fato de no versículo 8 se pintar as quatro criaturas viventes adorando a Deus e no capítulo 5, versículo 8, prostrarem-se para adorá-Lo. Isto parece estar um bocado fora da linha de seus deveres e atributos. 

A outra corrente de interpretação acha que representam a quádrupla divisão da vida animal, de modo que todas as criaturas de Deus o adoram. (D. Smith, J. Smith, Hengstenberg, Richardson, e outros, in loco) 

O leão representa a vida dos animais bravios; o bezerro representa a vida dos animais domésticos; o homem, a vida humana; e a águia, a vida dos pássaros. Todos são aí representados como em constante vigilância para adorar e cultuar a Deus.

Toda a criação — o homem, as feras e os pássaros — aqui se retrata como glorificada com ele, como parte de sua soberania.

Cada criatura vivente tem seis asas, e, se isto está de algum modo ligado com os serafim de seis asas de que nos fala Isaías (6:2), entendemos que com um par de asas mostram reverência; com outro, humildade; e, com o terceiro par, pronta obediência à ordem de Deus. 

Estão "no meio e ao redor do trono". Smith, em seu American Commentary (Smith, op. cit., p. 80), parece nos dar a explicação mais lógica, dizendo que os animais estão dispostos ao redor do trono de tal modo que um deles fica no ponto central — "no meio" de cada lado do trono. Os olhos "na frente e atrás" possibilitam a cada um deles se verem ao redor do trono, seja qual for o lugar em que se coloquem.

Assim, estão sempre alerta e vigilantes para prestar louvor e adoração a Deus. Todo o quadro visa a encorajar aquele que obedece e aterrorizar o desobediente. É isso, na realidade, o que a soberania de Deus faz.

Apocalipse 4.9-11
9 - Quando esses seres viventes derem glória, honra e ações de graças ao que se encontra sentado no trono, ao que vive pelos séculos dos séculos,
10 - os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante daquele que se encontra sentado no trono, adorarão o que vive pelos séculos dos séculos e depositarão as suas coroas diante do trono, proclamando:
11 - Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.

Conclui-se a visão de Deus em seu trono com um cântico de louvor (4:9-11). O louvor é duplo. Primeiramente, as quatro criaturas vivas dão glória, honra e ações de graças à eterna soberania de Deus. Assim se simbolizam todas as criaturas adorando o Deus eterno, e não o temporal e efêmero Domiciano. 

Em segundo lugar, os vinte e quatro anciãos, que representam a humanidade redimida, se prostram diante do trono de Deus, lançam suas coroas diante do trono e o louvam por seu grande poder criador. Só ele é moralmente digno de receber glória, e honra, e domínio, porque todas as coisas são suas por criação. 



Este "Cântico da Criação" é dirigido a Deus como louvor. No capítulo 5 vemos que se dirige a Cristo, em seu louvor, um "Cântico de Recriação" (Redenção).

Resumo

Resumindo, vemos que este capítulo, que dá início às visões, apresenta a verdade da soberania de Deus. Ele é eterno; é o Criador; protege seu povo; visita, com o castigo, ao desobediente.

Ele está no seu trono. Os inimigos da cruz podem ranger os dentes contra ele, que ele continuará inabalável.

O invencível e soberano Deus, como o centro de todas as atividades, é a verdade que se sublinha neste capítulo.

Este é o encorajamento que de início se proporciona aos massacrados cristãos da Ásia Menor — tanto àqueles do primeiro século como a todos os cristãos de qualquer século. O sofrimento e as provações são coisas temporárias, dado que Deus é o nosso defensor.

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