Apocalipse 5.1-14 - O Cordeiro Redentor

Por Ray Summers 

No capítulo 4 vimos o poder de Deus como Criador. Neste capítulo, vemos o amor de Deus como Redentor. O cristão crê no Deus Criador, onisciente e onipotente; crê igualmente no Deus que ama e prova o seu amor, redimido o homem do seu pecado. Este é o tema da cena seguinte.
Apocalipse 5.1

1 - Vi, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, de todo selado com sete selos.

Aquele que está sobre o trono tem em sua forte destra um livro, escrito por dentro e por fora, e selado com sete selos. Era um rolo de papiro, o material então usado para livros. O fato de estar coberto de palavras por dentro e por fora quer dizer que se trata dum livro de grande importância e significado — os julgamentos nele contidos são tantos que quase não sobrou espaço! 

O livro estava "selado" com sete selos. O particípio perfeito do passado, ligado ao número perfeito (7) é para indicar que o livro estava muito bem fechado.

Variam as interpretações a respeito desse livro.

  • Alguém disse que é o livro da Justiça. (Dana. ibid., p. 116) 
  • Outro acha ser o livro dos Eternos Conselhos de Deus, dos seus predeterminados propósitos. (Smith, The Disciple's Commentary, p. 624) 
  • Já outro acha ser o protótipo do livro de que nos fala o profeta Ezequiel (2:9,10), e, então, um livro de lamentações, de tristeza e de ais. (Hengstenberg, op. cit., p. 277) 
  • Um outro ainda acha que se trata do livro dos Destinos. (Richardson, op. cit., p. 71)

Esta ideia e a de justiça estão intimamente relacionadas. O livro, na verdade, parece conter o destino dos homens à vista das visitações da justa ira de Deus sobre seus pecados.

O fato de o livro estar fechado de maneira muitíssimo segura indica a impossibilidade de qualquer outro explicar o destino do homem.

Aqui está esse destino na mão de Deus. Os cristãos sentem o coração pular dentro do seu peito, vendo que o livro vai ser aberto e pensando já nas coisas que vão ouvir. 

Mas o livro está hermeticamente selado e fechado para eles. Ali estão contidos os providenciais feitos de Deus para com o mundo, mas não podem ser revelados; é desconhecido ainda o resultado da batalha.

Ali está o futuro da cristandade em seus fortes atritos com o culto do imperador, mas está selado e não pode ser conhecido. 

Apocalipse 5.2-4
2 - Vi, também, um anjo forte, que proclamava em grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de lhe desatar os selos?
3 - Ora, nem no céu, nem sobre a terra, nem debaixo da terra, ninguém podia abrir o livro, nem mesmo olhar para ele;
4 - e eu chorava muito, porque ninguém foi achado digno de abrir o livro, nem mesmo de olhar para ele.



Não admira, portanto, que João começasse a "chorar muito" — o verbo no imperfeito, que significa "chorar de modo audível", como se tratasse duma criança decepcionada ou ferida, é empregado aqui — quando ele viu que ninguém respondia ao convite feito: "Quem é moralmente digno de abrir o livro?"

Não havia ninguém digno de abri-lo. Parecia que o mistério ficaria sem solução, e João, pensando nas tristes condições das igrejas e ansiando saber no que daria aquilo, caiu em audível pranto, espiritualmente desapontado e pesaroso. 

Apocalipse 5.5
5 - Todavia, um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, venceu para abrir o livro e os seus sete selos.

Mas foi dito a João que parasse de chorar, porque aparecera alguém que era digno de abrir o livro e revelar o propósito de Deus para com os homens.

Isto indica que o livro era o modo pelo qual se introduziria na cena, como a figura central deste capítulo, o Cristo triunfante. A descrição do Cordeiro e da tarefa que se Lhe dá não deixa dúvida alguma de que a figura aqui retratada é o Cristo redentor. 

Um dos anciãos diz a João que "o Leão da tribo de Judá", que "venceu", se tornou digno de abrir o livro. João parou de chorar e olhou para ver o Leão, mas em vez de Leão viu um Cordeiro — um "pequeno cordeiro" — palavra só empregada neste livro e em João 21:15. 

Apocalipse 5.6
6 - Então, vi, no meio do trono e dos quatro seres viventes e entre os anciãos, de pé, um Cordeiro como tendo sido morto. Ele tinha sete chifres, bem como sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra.

Assim como as figuras mudam rapidamente de forma nos sonhos, elas mudaram na visão de João. Um leão rapidamente tornou-se um cordeiro.

Sem dúvida, há significado neste simbolismo. O leão representa absoluto poder e bravura; o cordeiro, símbolo religioso, representa absoluta bondade. 



As características do cordeiro são mui significativas. Aparece "como havendo sido morto". A expressão indica os ferimentos recebidos quando se corta a garganta dum cordeiro novo, sacrificado sobre o altar.

Retrata-se Cristo aqui em seu sacrifício expiatório. Ele foi morto, mas agora está vivo para todo o sempre. 

Ele tem "sete pontas". Pontas ou chifres, na literatura apocalíptica, simbolizam poder. O Cordeiro tem "7" chifres, o número perfeito. Está ele, portanto, perfeitamente aparelhado para destruir a oposição que fazem ao seu Reino. Tem "sete olhos", que são os sete Espíritos de Deus, enviados a toda a terra. Isto, sem dúvida, representa a vigilância incessante e perfeita a favor do seu povo. Representa a perfeita essência espiritual de Deus assim empenhada no bem-estar do homem. (Beckwith, op. cit., p. 510)

Apocalipse 5.7
7 - Veio, pois, e tomou o livro da mão direita daquele que estava sentado no trono;

A ação seguinte expressa uma vivacidade tal que dificilmente pode ser traduzida noutras línguas. O Cordeiro "vem" — o aoristo aqui retrata toda a ação com a rapidez dum relâmpago — "e toma o livro".

O último verbo aqui, no grego, é ἔρχομαι, que quer dizer "alcançar e tomar". Beck-with (Ibid., p. 511) chama a este o perfeito aoristo. Dana (Ibid., p. 118), mais chegado ao ponto, chama de "o perfeito dramático". 

Expressa o verbo uma atitude decidida, sem hesitação, e um espírito de firme determinação da parte do Cordeiro, que podemos descrever assim — "a primeira coisa que você sabe é que Ele tomou num repente o livro da destra dAquele que estava assentado sobre o trono".

Somente Cristo pode abrir o livro e executar os juízos de Deus sobre os iníquos. O destino dos homens está nas fortes mãos do Cordeiro que foi morto.

Apocalipse 5.8
8 - e, quando tomou o livro, os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do Cordeiro, tendo cada um deles uma harpa e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos,

Este ato produz viva alegria em todos quantos rodeiam o trono. E, sem dúvida, alegraria imenso aos cristãos perseguidos, vendo que o seu Salvador Leão-Cordeiro se fazia agora o campeão deles. Seja como for, temos aqui o registro de como reagiram aqueles que se achavam ao redor e para além do trono. 

O Cordeiro foi adorado pelas quatro criaturas viventes que adoraram a Deus na última cena. O Cordeiro foi também adorado pelos vinte e quatro anciãos. "Com harpas e salvas de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos", que eles representam, prostram-se diante do Cordeiro e entoam o Cântico da Redenção. 

O cântico que entoaram é novo; não novo em relação ao tempo, mas novo quanto à qualidade. É um cântico singular, único. Nada existe igual a isto — homens remidos pela morte de Deus na carne. 

Apocalipse 5.9-10
9 - e entoavam novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação
10 - e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra.
No cântico (5:9,10) louva-se a Cristo porque foi digno de abrir os selos — digno é o Cordeiro! Ele é digno por causa de sua obra redentora. Esta obra é descrita com suas quatro qualidades específicas:

Primeiraé para Deus, primariamente — "compraste para Deus". Esta mesma idéia aparece em Efésios 1:1-14. A redenção do homem é antes de tudo para o bem de Deus.

Segunda é pelo sangue de Cristo — "foste morto... e com o Teu sangue compraste". Esta referência é direta, e somente à morte sacrificial de Cristo na cruz.

Terceira — é ilimitada — "homens de toda tribo, e língua, e povo, e nação". A graça de Deus por Cristo não está limitada a esta ou àquela nação, mas é para todas as nações.

Quarta faz dos remidos um reino. "E para o nosso Deus os fizeste um reino e sacerdotes, e reinarão sobre a terra." Tornando-se os homens participantes da obra redentora de Cristo, tornam-se parte também do Reino de Deus; tornam-se sacerdotes, para servi-Lo aqui neste mundo.

Apocalipse 5.11-14
11 - Vi e ouvi uma voz de muitos anjos ao redor do trono, dos seres viventes e dos anciãos, cujo número era de milhões de milhões e milhares de milhares,
12 - proclamando em grande voz: Digno é o Cordeiro que foi morto de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor.
13 - Então, ouvi que toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo: Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos.
14 - E os quatro seres viventes respondiam: Amém! Também os anciãos prostraram-se e adoraram.

Por esta obra redentora, os anciãos louvam o Cordeiro. Uma multidão de anjos junta-se a eles, para cantar a dignidade e excelência do Cordeiro.

A criação natural também toma parte no louvor, cantando "ações de graças, e honra, e glória, e poder, e domínio" Àquele que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro.

A primeira visão de João se fecha com esta eletrizante cena dos santos em triunfo e do universo todo adorando, cantando louvores e homenageando o Cristo triunfante.

Calculava-se que esta cena traria novo alento, e coragem, e renovada esperança ao coração dos que primeiro lessem este livro de João — os cristãos perseguidos da Ásia. 

Ela traz a mesma mensagem eletrizante e dinamizadora aos corações cristãos de qualquer época. Crendo no poder de Deus (capítulo 4) e no Seu amor redentor (capítulo 5), o cristão não deve temer nenhum inimigo, nenhum poder maligno. 

Pode entrar na luta e suportar todo o mal, sabendo que Deus permanece no seu trono, que não deixou o seu cetro, que não abandonou o seu trono para qualquer outro. Ele é mais poderoso que todos os exércitos que se reúnem para combater e perseguir o seu povo. A fé nele propicia ao homem a apropriada avaliação da vida, de seus sucessos e do seu resultado final.

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