Apocalipse 14.1-20 - As forças da retidão chefiadas por Deus


Por Ray Summers

O ato que se findou no drama da redenção foi uma visão espantosa, que deixava poucas esperanças para os cristãos. Havia, é verdade, por sobre tudo a certeza de que o sucesso daqueles três elementos iníquos seria coisa temporária — pois só duraria três anos e meio, simbolicamente. 

Mas essa sugestão encorajadora faltou muito para dar-lhes ânimo, e por isso foi bondosamente dado aos cristãos um outro quadro para os confortar e encorajar. Este quadro era tão brilhante e glorioso como fora escuro e portentoso o anterior.

Assim, o último ato ou cena que vimos é como que o prisma pelo qual os cristãos enxergavam os fatos; agora, nesta nova cena, veremos os fatos pelo prisma de Deus e das hostes celestiais.

Assim, não há dúvida alguma sobre o resultado final da grande guerra travada. O diabo tem dois instrumentos para pôr a campo: a primeira besta e a segunda. Deus põe em ação também dois instrumentos: o Cordeiro — Cristo — e a foice, o juízo divino.

O Cordeiro sobre o monte de Sião
[Esta] é a primeira das forças da retirada de que Deus lança mão. Não padece discussão o significado desta figura. Refere-se ao Cristo triunfante. 

Após a cena triste e ameaçadora dos dois últimos capítulos, ergue-se o pano para revelar o Cordeiro, a salvo no Monte de Sião, juntamente com o número perfeito (144.000) desses remidos.

Apocalipse 14.1
1 - Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião, e com ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o seu nome e o nome de seu Pai.

Estes, por sua vez, também trazem um sinal que os identifica como pertencentes ao Cordeiro, como se dava com os adeptos do culto ao imperador. A marca que trazem na testa é o "seu nome (nome do Cordeiro) e o nome de Seu pai".

Calculava-se que esta cena de triunfo levaria o coração dos cristãos a saltar de alegria. O Cordeiro Redentor, como o campeão deles, aparece comandando no alto do Monte de Sião um exército completo — as forças da justiça e do bem.

Os que estão junto ao Cordeiro entoam um cântico — um novo cântico de vitória — cujo significado só pode ser conhecido pelos remidos que estão junto ao Cordeiro.

Apocalipse 14.2-5
2 - Ouvi uma voz do céu como voz de muitas águas, como voz de grande trovão; também a voz que ouvi era como de harpistas quando tangem a sua harpa.
3 - Entoavam novo cântico diante do trono, diante dos quatro seres viventes e dos anciãos. E ninguém pôde aprender o cântico, senão os cento e quarenta e quatro mil que foram comprados da terra.
4 - São estes os que não se macularam com mulheres, porque são castos. São eles os seguidores do Cordeiro por onde quer que vá. São os que foram redimidos dentre os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro;
5 - e não se achou mentira na sua boca; não têm mácula.

Estão junto dele, e vitoriosos, porque não se contaminaram com "mulheres", coisa que simboliza o não terem eles cometido infidelidade espiritual através do culto idólatra. "Seguem o Cordeiro para onde quer que ele vá" — permaneceram fiéis, e continuam absolutamente fiéis ao Cordeiro. "Em suas bocas não se achou a mentira" — nunca negaram a supremacia de Cristo.

Não se pode duvidar do resultado da batalha, quando se retrata desta forma o Cordeiro — vivo sobre o Monte de Sião, acompanhado de um número perfeito de remidos. Sim, não falharão nunca. Com o Cordeiro, os cristãos sairão mais que vencedores.

A par desta certeza da vitória, apresenta-se um outro símbolo da vitoriosa campanha do Cordeiro. Os versículos 6 e 7 nos descrevem um anjo voando pelos céus, a anunciar "eternas boas-novas". 

Estas boas-novas são proclamadas a todos quantos habitam a terra. São "as boas-novas" ou "o Evangelho Eterno" da vitória de Deus, e veem acompanhadas de um convite a todos os homens para que "temam a Deus e lhe deem glória".

Apocalipse 14.6-7
6 - Vi outro anjo voando pelo meio do céu, tendo um evangelho eterno para pregar aos que se assentam sobre a terra, e a cada nação, e tribo, e língua, e povo,
7 - dizendo, em grande voz: Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas.

É ele o Criador Todo-poderoso que fez os céus, e a terra, e o mar, e os mananciais de águas. E, mais do que isto — "a hora do seu juízo está próxima". 

Tudo isto indica que a vitória do Cordeiro é tão certa que um anjo anuncia já o triunfo e a vitória, antes mesmo de se travar a batalha. Já se observou que João usa este método muitas vezes no livro do Apocalipse.

Após a angélica proclamação da vitória, da glória e do juízo de Deus, aparece em cena um segundo anjo, que voa anunciando o colapso do Império Romano (v. 8). A Babilônia — que para o judeu representava tudo quanto de mais agourento e repulsivo houvesse — simboliza aqui Roma.

Apocalipse 14.8
8 - Seguiu-se outro anjo, o segundo, dizendo: Caiu, caiu a grande Babilônia que tem dado a beber a todas as nações do vinho da fúria da sua prostituição.

Por causa de sua compelidora fornicação espiritual, do seu culto idolátrico, ela caiu. O tempo aqui usado é o aoristo constativo, que toma todo o processo da queda de Roma como um ato rápido, momentâneo. 

Quer-se dizer que a queda de Roma na mente e no propósito de Deus é coisa tão certa que aqui já se apresenta como fato consumado, como fato do passado.

Do versículo 9 ao 12, surge um terceiro anjo, anunciando a destruição daqueles todos que adoraram o imperador. Isto reflete bem a aversão que os cristãos do primeiro século tinham pelo culto ao imperador. Aquele que adora a besta, ou a sua imagem, ou que recebeu o seu sinal, provaria a total ira de Deus — "beberá do vinho da ira de Deus, que está preparado sem mistura no cálice da Sua ira".

Apocalipse 14.9-12
9 - Seguiu-se a estes outro anjo, o terceiro, dizendo, em grande voz: Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão,
10 - também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro.
11 - A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos, e não têm descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua imagem e quem quer que receba a marca do seu nome.
12 - Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.

Este provar da ira não diluída, ou não misturada, de Deus, é o tormento com fogo e enxofre ardentes. Não é um tormento rápido ou de pequena duração, pois que "a fumaça do seu tormento sobe para todo o sempre e eles não têm repouso de dia nem de noite". 

É de fato um castigo mui terrível, quando contrastado com aquele infligido aos mártires. 

O mártir cristão fora queimado na fogueira, e isto durara alguns minutos, e ele, assim, fora ao encontro da vida eterna na presença de Deus. Os que adoraram o imperador sofrem agora o juízo divino e encontram uma vida de eterno suplício, queimados em fumos sulfurosos.

O versículo 12, que diz — "Aqui está a paciência dos santos; eles guardam os mandamentos de Deus (não as ordens da Concilia Romana), e a religião de Jesus (não a de Domiciano) " - é uma espécie de louvor e de encorajamento em face das durezas e perseguições que ainda estão para vir sobre os cristãos.

O versículo 13 nos apresenta mais um dos frequentes contrastes que João insere para tornar mais vívida a cena. "Uma voz do céu", uma voz investida de autoridade divina, ordenou-lhe que escrevesse a beatitude aqui proclamada. 

Apocalipse 14.13
13 - Então, ouvi uma voz do céu, dizendo: Escreve: Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham.

Trata-se, pois, duma afirmação de Deus, e não do apóstolo: "Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. 

Sim, diz o Espírito, para que descansem dos seus trabalhos, para que as suas obras os sigam." Esta bem-aventurança é pronunciada não sobre todos os que morrem, mas sobre os cristãos que morrem.

Desde o momento de sua morte são abençoados com uma bênção dupla: a primeira, "descansam dos seus trabalhos". A palavra [grega] aqui usada para descanso literalmente significa "serão refrescados, revigorados". A palavra [grega] empregada para trabalhos literalmente quer dizer "labuta sob grande adversidade".

Assim, os cristãos serão refrigerados depois de grande luta. Jesus se referiu a isto em seus ensinos, quando disse: "Vinde a mim todos que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei" (Mateus 11:28).

Thomas Gray, em sua "Elegy Written in a Country Churchyard", revelou ter apanhado por antecipação o sentido desse refrigério após as labutas da vida crista, quando escreveu este verso: "O lavrador, de volta da labuta diária, caminha a passos tardos para o lar amigo." 

Ele espera encontrar no lar o refrigério para as duras lides do dia. O cristão encontra a morte no portal de um lar onde o aguarda o refrigério, após os tremendos quefazeres e trabalhos deste mundo.

A segunda bênção é esta: "suas obras os seguem." Os esforços que ele fez constituem uma parte do grande séquito de realizações que conduzem à vitória final. (Dana, The Epistles and Apocalipse of John, p. 138)

Isto é verdade; mas, parece que na passagem se quer dizer mais do que isto. 

O cristão que morre triunfantemente no Senhor percebe que não perdeu suas obras, seus esforços; percebe que não foi "salvo, todavia, como pelo fogo". Ele realiza uma entrada, por assim dizer, abundante, levando consigo todas as suas obras legítimas que realizou para a glória do Senhor. 

Não entra no céu de mãos vazias, como o servo de um único talento, mas como quem aproveitou cada oportunidade que se lhe concedeu para investir, o que é, e o que tem, em benefício da causa do Senhor.

A foice
A foice é a segunda arma da retidão que Deus empunha para se opor às forças do mal. A afirmativa aqui é de tal natureza que não deixa dúvidas sobre o que a foice simboliza. Representa o juízo divino. Usa-se em inúmeras passagens da Bíblia justamente com este significado. (Ver Joel 3:13 e Mateus 13:39)

Cristo aparece como Rei (tem sobre a cabeça uma coroa de ouro) e como Juiz (tem na mão uma foice aguda). Quando foi dado o sinal divino, ele meteu a sua foice à terra para realizar a colheita, pois que a seara já estava madura e pronta para a ceifa. 

A um segundo sinal, meteu a foice à terra para ceifar os cachos maduros da vinha da terra, e lançou-os no grande lagar da ira de Deus. Quando pisados no lagar, saiu sangue do lagar, numa torrente de mil e seiscentos estádios, torrente tão profunda que chegava até aos freios dos cavalos.

Apocalipse 14.14-20
14 - Olhei, e eis uma nuvem branca, e sentado sobre a nuvem um semelhante a filho de homem, tendo na cabeça uma coroa de ouro e na mão uma foice afiada.
15 - Outro anjo saiu do santuário, gritando em grande voz para aquele que se achava sentado sobre a nuvem: Toma a tua foice e ceifa, pois chegou a hora de ceifar, visto que a seara da terra já amadureceu!
16 - E aquele que estava sentado sobre a nuvem passou a sua foice sobre a terra, e a terra foi ceifada.
17 - Então, saiu do santuário, que se encontra no céu, outro anjo, tendo ele mesmo também uma foice afiada.
18 - Saiu ainda do altar outro anjo, aquele que tem autoridade sobre o fogo, e falou em grande voz ao que tinha a foice afiada, dizendo: Toma a tua foice afiada e ajunta os cachos da videira da terra, porquanto as suas uvas estão amadurecidas!
19 - Então, o anjo passou a sua foice na terra, e vindimou a videira da terra, e lançou-a no grande lagar da cólera de Deus.
20 - E o lagar foi pisado fora da cidade, e correu sangue do lagar até aos freios dos cavalos, numa extensão de mil e seiscentos estádios.

Concorda-se em geral que esta visão representa o juízo. Há divergências apenas sobre os dois símbolos. Alguns acham que a colheita do trigo simboliza o julgamento dos retos, e que a vindima dos cachos de uvas simboliza o julgamento dos iníquos. (Richardson, D. Smith, Milligan e Swete, in loco)

Outros acham que não se deve fazer aqui distinção alguma e que os dois símbolos retratam apenas o fato de estar o julgamento nas mãos de Deus como um instrumento para desbaratar as forças do mal. Há evidências que favorecem estas duas interpretações. (Stuart, Ramsay, Dana, Kiddle, Moffatt e Beckwith, in loco)

O contexto, porém, parece favorecer esta segunda ideia - a do julgamento como um instrumento ou arma nas mãos de Deus para derrocar as forças do mal.

Nenhuma das autoridades citadas, que sustentam haver diferença entre os dois símbolos, defende o conceito de que este trecho bíblico ensina dois julgamentos distintos ou separados. Só os futuristas é que gostam de achar na Bíblia numerosos julgamentos.

Este símbolo é um modo dramático de se retratar a grande verdade do juízo de Deus. O horror deste julgamento está refletido na imensa torrente de sangue de que fala o versículo 20. Os futuristas e os restauracionistas passam mal aqui, nesta passagem, com o seu literalismo.

Não podem encontrar um lugar na Palestina em que caiba um rio de duzentas milhas de comprimento, seja de água, seja de sangue! Alguns deles chegam a tentar isso! (Larkin, op. cit., p. 173)

As forças do mal são mui fortes: o diabo e seus dois aliados, o Anticristo e a Concilia Romana. Mas as forças da retidão são mais fortes ainda: Deus com seus dois aliados, o Cristo vitorioso e o juízo divino. 

Quando desce o pano, no final deste ato, há um grande regozijo no coração daqueles que assistiram a este espetáculo.

ÍNDICE

24 - O sinal da Besta 666 - Apocalipse 13.1-18
25 - As forças da retidão chefiadas por Deus - Apocalipse 14.1-20
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