Método de interpretação da continuidade histórica do apocalipse


Por Ray Summers

O segundo método de interpretação do livro do Apocalipse é este chamado da continuidade histórica. Ele é também conhecido como cada um de seus elementos separados — contínuo e histórico — mas os dois juntos calham melhor para caracterizar o método.

Tal método encara o Apocalipse como um prenúncio da História da Igreja por meio de símbolos. Estudiosos não católicos esposaram este método pouco tempo antes da Reforma.

Desde esse tempo, esta teoria tem sido essencialmente a mesma, tendo aparecido apenas grandes diferenças nos pormenores da interpretação.

O sistema acha que o livro do Apocalipse profetiza em pormenores a apostasia da Igreja Católica Romana. Alguns grandes nomes que se filiaram a esta escola de pensamento são: Wycliffe, Lutero, Bullinger, Brightman, Fox, E. B. Ellliott, Alberto Barnes, Guinness, Lord e Carroll.

A seguir damos um resumo que exemplifica a posição de Barnes (Alberto Barnes, Notes on the Book of Revelation [New York, Harper and Brothers, Publishers, 1864]):

O primeiro selo

Cumpriu-se no Estado do Império Romano, desde a morte de Domiciano, 96 A.D., até a ascensão de Cômodo, 180 A.D.

O segundo selo

Da morte de Cômodo, 193 A.D., em diante.

O terceiro selo

De Caracala, 211 A. D., para diante.

O quarto selo
De Décio até Galieno, 243-268 A.D.

O quinto selo

A Perseguição de Diocleciano, 284-304 A.D.

O sexto selo
A invasão dos bárbaros, 365 A.D.

O sétimo selo

Cumpriu-se nas trombetas

A primeira trombeta

A invasão dos godos, 395-410 A.D.

A segunda trombeta

A invasão de Genserico, 428-468 A.D.

A terceira trombeta
A invasão do huno Átila, 433-453 A.D.

A quarta trombeta
A conquista final do Império Ocidental por Odoacro, rei da Herúlia, 476-490 A.D.

A quinta trombeta
Os maometanos.

A sexta trombeta

Os turcos.

Capítulo 10
O grande anjo aí é a Reforma, e o pequeno livro aberto é a Bíblia que voltava a ser lida por todos, após ter ficado presa pelo papado e nela Vulgata. Os sete trovões ouvidos, mas não registrados, são os anátemas estendidos contra a Reforma pelo Papa. Não deviam ser registrados por escrito, porque neles nada havia digno de ser lido!

Capítulo 11
A medição do templo representa a determinação do que constituía a verdadeira igreja ao tempo da Reforma. As duas testemunhas representam os que protestaram contra os erros de Roma.

A sétima trombeta

O triunfo final da verdadeira Igreja. O que vem depois do capítulo 11 não é uma seqüência cronológica, e, sim, uma visão interna da Igreja. Isto diz respeito exclusivamente à Igreja Católica.

A mulher do capítulo 12 é a verdadeira Igreja. Sua fuga para o deserto representa a condição da Igreja enquanto o papado estiver no poder. A ira de Satã contra o remanescente de sua semente representa a tentativa do papado no sentido de acabar com indivíduos, quando já não campeia uma perseguição aberta e geral.

A primeira besta
É o poder eclesiástico do Papa que sustentou o papado.

A segunda besta

O poder eclesiástico do Papa.

As sete taças

São sete golpes desferidos contra o poderio papal, tais como a Revolução Francesa, captura de Roma pelos franceses, captura do próprio Papa,etc.

A grande prostituta

O papado.

A destruição de Babilônia

A queda do papado.

Esta interpretação de Barnes nos dá uma ideia geral de todo o método. Os intérpretes desta escola descem a inúmeros pormenores, no desenvolvimento destas ideias.

Aplicam com tanto sucesso os símbolos do Apocalipse ao curso da História que alguém já chegou a dizer que um estudo da obra de Gibbon (Decline and Fall of the Romam Empire) a par com o da obra de Barnes (Notes on Revelation) basta para provar a doutrina da inspiração das Escrituras!

Seja ou não este o verdadeiro método de interpretação, vemo-nos forçados a admitir que os expositores ajeitaram o livro à História em muitos lugares, e com admirável habilidade até.

Sucessos ocasionais, contudo, não podem ser tomados como prova concludente de idéias certas ou corretas, mormente quando podem ser apresentadas em contrário muitas objeções. Conjeturas e suposições podem, às vezes, atingir a verdade, mas é coisa perigosa segui-las in totum.

A) OBJEÇÕES

1 - O Apocalipse, considerado deste ponto de vista, deixa inteiramente de ter contato com a situação dos cristãos, aos quais o livro foi dedicado. Assim, precisamos aqui recordar um princípio já previamente firmado — o, de que nenhuma, interpretação pode ser tida como a correta, se não tiver significação para aqueles que primeiramente receberam o livro.


Nada seria tão inútil, no que respeita ao conforto e auxílio de que tanto necessitavam os perseguidos cristãos dos dias de João, como um tratado sobre a apostasia dum sistema eclesiástico que tomaria corpo só dali a centenas de anos.

É certo que os primitivos cristãos não entenderiam esse tratado, e muito menos este faria alguma coisa no sentido de minorar-lhes os sofrimentos e aflições.

Não nos é possível entender que o aprisionamento do Papa, séculos depois, pudesse trazer esperanças aos espezinhados cristãos, que viam seus amados conduzidos em levas ao anfiteatro ou às fogueiras.

Se quisermos conhecer o significado do Apocalipse, temos que lê-lo e interpretá-lo em relação à Ásia Menor do primeiro século.

2 - Este método dá uma desmedida importância à apostasia da Igreja Católica Romana. Na verdade, o romanismo se caracterizou por muitos males e desvios, e a Reforma não é o fato único e todo importante dos que tiveram lugar desde o tempo de Constantino.

Não é o Papa o único inimigo da verdadeira religião, e nem o propósito capital do Apocalipse é fornecer-nos armas para as controvérsias eclesiásticas. Esta é, na essência, a posição de Lutero, de Barnes, de Elliott e de outros mais que esposam estas ideias.

3 - Os horizontes deste método de interpretação são mui estreitos. Os acontecimentos do livro do Apocalipse daí ficam confinados aos países dominados pelo Catolicismo Romano.

O livro, então, não terá aplicação nem significado para os países que desconhecem o sistema romanista? E não haverá, em suas páginas, nenhuma mensagem de caráter universal? Esse modo de interpretar a situação poderia convir para os que viveram logo após a Reforma, mas certamente perdeu sua importância nos dias em que vivemos.

4 - Este método de interpretação desce a pormenores tão absurdos como os da escola futurista. Por exemplo, Elliott acha que aquela meia hora de silêncio no céu significa os setenta anos decorridos entre a vitória, de Constantino sobre Licínio, 324 A.D., e a revolta e invasão do império por Alarico no ano 395 A.D.

Ele calcula que meia hora no céu equivale precisamente a setenta anos na historia romana, e que a ausência de guerra na terra explica esse silêncio no céu. Elliott não se abalança a explicar como é que isso se dá. (E. B. Elliott, Commentary on Revelation (Londres, Seeley, Burnside and Seeley, 1844), I, pp. 292-297.)

Outro exemplo desse sistema de interpretação já foi citado antes. Ali vimos que Barnes entende que os sete trovões não registrados são os anátemas do Papa contra a Reforma e diz que não foram escritos porque não havia neles coisa alguma digna de registro.

Este talvez seja um exemplo clássico do humorismo não católico, e mui dificilmente podemos tomá-lo como exegese séria.

É preciso uma imaginação muitíssimo elástica para se descobrir que espécie de conforto tal interpretação propiciaria aos sofredores cristãos da Ásia Menor no ano 95 de nossa era.

5 - Outra forte objeção a este método de interpretação é a de que ele nos leva à cálculos de tempos e períodos que constantemente hão sido desmentidos pelos acontecimentos, o que tem acarretado enormes prejuízos para o Reino. 


Tais cálculos, como se dá com a escola futurista, são calculados sobre a teoria de que um dia nas profecias sempre significa mil anos. Assim, a besta que deverá reinar 42 meses deverá realmente reinar 1260 anos.

E este deletério poder terá fim depois desses muitos anos. Mas o papado, que muitos acham ser a besta, já está no poder há muito mais tempo.

Em base semelhante, Lord sustenta que um dia na profecia equivale a mil anos e calcula que o milênio durará 360.000 anos. (D. N. Lord, Exposition of Apocalipse [N. York, Harper and Bro-thera 1847], p. 515.) 

Embora seja fraca a base escriturística deste conceito, muitos expositores o defendem, e é a ideia favorita até de estudiosos que esposam ideias contrárias no que respeita à interpretação do Apocalipse.

As seguintes passagens das Escrituras são em geral citadas na defesa deste conceito:


  • Números 14:34, que registra que os israelitas deveriam passar um ano no deserto para cada dia dos quarenta dias da jornada dos espias.

  • Ezequiel 4:4-6, onde se diz ao profeta que deveria deitar-se sobre o lado um certo número de dias e que os dias correspondem a anos.

  • Daniel 9:25, que profetiza as setenta semanas. Praticamente todos os expositores acham que a referência aqui é a um período de 490 anos. Se as semanas forem tomadas como períodos de sete dias, temos então uma profecia em que um dia equivale a um ano.
Mesmo que isto fosse verdade, não se conclui que seja esta uma regra geral no terreno da profecia. Por exemplo:


  • Isaías 7:8 profetiza que Efraim será destruído em 65 anos — não significa dias.

  • Isaías 16:14 profetiza que em três anos a glória de Moabe se transformará em desprezo — não significa dias.

  • Isaías 23:15 diz que Tiro será esquecida por 70 anos — não significa dias.

  • Jeremias 29:10 diz que Judá será sujeito a Babilônia por 70 anos — não significa dias.

  • Daniel 9:2 "entendeu pelos livros" que os 70 anos do cativeiro estavam quase cumpridos — não entendeu dias.

  • Mateus 20:19 registra que Jesus profetizou que seria crucificado e enterrado, mas que ressuscitaria ao terceiro dia — isto é profecia, mas não quer dizer que o corpo dele ficaria no túmulo três anos.

Alford parece estar com a razão quando afirma: "Nunca vi provar-se nem mesmo demonstrar-se a probabilidade de que vamos tomar um dia por um ano na profecia apocalíptica." (Henry Alford, The Greek Testament [Londres, Rivingtons, Waterloo].

Este cálculo do dia=anos incitou a expectativa muitas vezes unicamente para conduzir ao desapontamento.

Foi por causa desse tal método que Miller predisse que o fim do mundo seria em 1843, predição essa que causou não pequena inquietação e que levou mesmo à fundação da Igreja dos Adventistas do Sétimo Dia.

Diferentes autores têm marcado outras datas. Tais dias já passaram, e os expositores mudaram a data para um futuro mais seguro. Mas a verdade é que não existe um "futuro mais seguro" para tal sistema.

B) PONTOS FORTES

Todo o método da continuidade histórica, dando importância capital à apostasia da Igreja Católica Romana, foi desmascarado pelos próprios acontecimentos históricos e tido na conta de um princípio falso que conduz a especulações infindáveis e infrutíferas.

Ele se esboroa todo ao peso de suas falácias mui conhecidas. Aparentemente, não apresenta ele nenhum ponto forte, a não ser o de evitar a interpretação literal do livro e admitir a completa derrota do mal.

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