As condições do Império Romano no tempo em que foi escrito o apocalipse



Por Ray Summers 

Já que o Apocalipse trata do conflito do Estado Romano com a Igreja Cristã, bom é termos um conhecimento maior desse grande inimigo da Igreja. Durante a última parte do primeiro século de nossa era, o período em que foi escrito o Apocalipse, Roma estava quase no zênite de sua grandeza. 

Seus limites estendiam-se das Ilhas Britânicas até o deserto africano e do Oceano Atlântico até o Eufrates.

O autor de Apocalipse 17:1 descreve Roma como uma prostituta assentada "sobre muitas águas"; tais águas, como se vê em 17:15, são identificadas como "povos, multidões, e nações, e línguas". De fato, Roma dominava muitos povos. Para a gente daquela época parecia que Roma era o mundo todo.

O Império vivia coeso, graças a seu exército muito grande e mui bem aparelhado e disciplinado. As longínquas fronteiras caracterizavam-se por suas guarnições de soldados experimentados e formados na disciplina da vida militar romana.

Assim, por toda parte se temiam as legiões romanas, pois eram tidas como invencíveis. Graças a tais soldados tornara-se possível edificar e consolidar aquela cidade de riqueza e luxúria que era no tempo a capital do mundo.

Roma se fizera graças a duas coisas — a conquista e o comércio. O vasto sistema de estradas principais possibilitara o mui notável comércio do tempo. Temos disso uma amostra em Apocalipse 18:11-14, que menciona mais de trinta diferentes artigos de comércio, quando os mercadores da terra choram e lamentam a destruição da cidade. 

Tais artigos representam comércio com a Espanha, o Mar Vermelho, Tiro, o norte da África, a África central, a índia, a Ásia Oriental, a Arábia, o Egito, a Gália e as terras do Danúbio. Grande porção desse comércio consistia de artigos de luxúria ou de escravos, de coisas que só os ricos podiam comprar. 

Que quadro se nos oferece aqui da enorme riqueza da cidade de Roma! Os palácios dos ricos deslumbravam por sua beleza e suntuosidade. Os homens rivalizavam uns com os outros por suas extravagâncias. Calígula, só num banquete, gastou 25 milhões de cruzeiros! 

Um patriota realizou um jantar em homenagem a Nero e nele gastou, só em rosas, 8 milhões!

O salão dos banquetes oficiais do famoso Palácio de Ouro de Nero tinha a forma de círculo e girava dia e noite, imitando o movimento dos astros.

Escravos havia por toda parte para atender seus senhores e exibir as riquezas destes. Muitos desses escravos eram muito mais preparados e educados que seus senhores.

As mulheres não deviam ser sobrepujadas pelos homens. As elegantes romanas tinham diferentes escravas para aplicar cada colorido nas faces, nos lábios ou nos supercílios.

Usavam jóias tão caras que Sêneca — preceptor e amigo de Nero — cinicamente disse que algumas daquelas ricaças traziam suspensas em suas orelhas duas ou três províncias!

A mulher de Calígula usava um conjunto de esmeraldas avaliadas em cento e vinte milhões de cruzeiros.

Em contraste com aquela riqueza e loucas extravagâncias, notava-se por toda parte uma pobreza extrema. Não havia emprego, pois que os escravos faziam tudo.

Assim, os pobres necessitados e desocupados enxameavam a capital para alimentar-se através do enorme sistema de óbulos e para se divertirem com as inúmeras atrações da vida citadina.

Esse estado de coisas desembocava na imoralidade. Não há tintas, por mais carregadas que sejam, que nos dêem uma descrição exata das condições morais da vida no império. Os mestres da época contradiziam-se: ensinavam pureza de vida, mas tinham vida imoral. 

Sêneca pregava o desprezo das coisas materiais, e, no entanto, em poucos anos acumulou mais de 750 milhões de cruzeiros! Pregava a pureza de vida, mas foi abertamente acusado de adultério, e, pior, não procurou negar isso. Os discípulos eram em tudo semelhantes aos mestres. 

A depravação da época está perfeitamente descrita no primeiro capítulo da Carta aos Romanos, coisa que não desejamos ler em público.

Conforme seu próprio testemunho, os romanos jogaram fora tudo quanto era bom e honrado. Os crimes se multiplicavam; o vício já nem buscava ocultar-se; a luxúria e a iniquidade campeavam por toda parte em monstruosas competições.

O matrimônio tornara-se mera transação comercial, facilmente contraído e mais facilmente dissolvido.

Sêneca afirma que havia, então, mulheres que contavam seus anos não já pelo número de cônsules, mas pelo número de seus maridos. Dava-se tão pouca importância ao casamento que se chegou a votar leis contra o celibato. 

Os filhos eram considerados como carga indesejável, e os escravos é que cuidavam deles, ou então eram vendidos também como escravos.

É fato que a cristandade não podia ver com bons olhos tais condições, e esse estado de coisas eles aborreciam e condenavam.

Viam agora sua religião quase que esmagada pelo horrendo sistema romano e temiam o que estava por vir. Assim sendo, o Apocalipse era livro de que precisavam muitíssimo para lhes dar a certeza da vitória do bem.

Roma não era apenas o centro do governo e da riqueza. Era também ali que estava estabelecido o quartel-general da religião.

A religião dominante era uma mistura de temor, superstição e cerimonialismo. A maioria do povo cria na existência dos deuses, mas, quando estes não os ajudavam, recebiam o seu desprezo.

O formalismo e o cerimonialismo ocupavam grande parte de sua religião. Por muitos anos, o colapso da religião deles praticamente os havia levado a romper com as velhas religiões. Assim sendo, o cristianismo vinha encontrar um terreno fértil e passou a obter grandes colheitas da sementeira feita. 

Mas nos bastidores da lei romana permanecia o fato de considerar-se divino o imperador. Alguns imperadores tiraram partido disso; outros não.

No período imperial que mais nos interessa, esta velha idéia estava ganhando notável ênfase. Domiciano se comprazia em ser tomado como divino e em receber o culto do povo. Para os cristãos isso era idolatria crassa e clara negação da fé em Cristo. 

Os romanos, por sua vez, achavam que quem se recusasse a cultuar o imperador era desleal para com o Estado e praticava crime de traição. Exigia-se dos cristãos que cultuassem o imperador, a fim de pôr à prova a sua fidelidade para com o Estado.

A princípio exigiu-se dos cristãos a prática das cerimônias do culto e do serviço imperial — atirar uma pitada de incenso ao altar. Negar-se a isto era deslealdade, e realizá-lo era prova de que o ofertante não era cristão. 

Muitos cristãos não viam nessa insignificante prática nenhuma desconsideração à fé cristã, e, então, faziam isso para escapar ao castigo. Outros cristãos daí passaram a ostracizar seus irmãos que se submetiam à tal prática, achando que estavam negando a Cristo.

Avolumando-se a exigência do culto ao imperador, os cristãos como um só corpo foram colocados fora da lei. Publicaram-se, então, instruções pormenorizadas para fazer que todos respeitassem a religião do Estado e para punir os cristãos.

Em cada cidade havia um certo corpo de oficiais, conhecido pelo nome de "praefectus urbi", cuja função era prestigiar e impor o dito culto. Tinham igualmente o direito de castigar os rebeldes das várias cidades duma mesma província.

O grupo investido de maior autoridade tinha o nome de "concília", e era composto de deputados de várias cidades ou divisões duma província. 

O dever deles era construir imagens do imperador, altares para o dito culto, e por todos os meios fazer cumprir a religião do Estado e torná-la vitoriosa. Forçavam o povo a cultuar o imperador, tomavam nota de todos quantos se submetiam e puniam de várias formas todos que se recusavam. 

Assim, muitos cristãos fiéis foram decapitados, outros exilados e ainda outros perdiam todas as suas propriedades, pois, o Estado as confiscava, e então ficavam reduzidos à pobreza. (Hardy, op. ext., p. 73.) 

Tudo isto talvez esteja contido em Apocalipse 13:5. O propósito ou alvo do Apocalipse está por detrás de tudo quanto aqui foi dito com relação aos cristãos, às suas condições e às suas necessidades.

Ele foi escrito para mostrar que aquele grande poderio de Roma estava destinado à destruição e que, no final, o Reino de Deus triunfaria e Cristo reinaria soberano e supremo. Foi escrito também para despertar os cristãos no sentido de a todo custo se conservarem fiéis à Fé Cristã, ainda que isso os levasse ao martírio.

Esta mensagem do Apocalipse tem hoje importância e relevo especiais.


  • Ela nos convida a escolher o eterno, em vez do temporal; 
  • a resistir à tentação, a não nos comprometermos com o secularismo pagão, a colocar os reclamos da consciência acima de todas as gratificações do século; 
  • a acalentar no fundo de nosso coração a confiança e a certeza da vitória final do Reino de Deus, não só no reinado de Domiciano, mas também em qualquer outro período caótico da História da Humanidade, inclusive neste nosso conturbado século XXI.
(Esta parte pertence em sua mor parte a Alken, op. cit., pp. 21-53, a E. G. Hardy — Christianity and the Roman Government [Macmillan Co., 1925], pp 68-77, e W. M. Ramsay — The Church in the Roman Empire [G. P. Putnam's Sons 1912],pp. 274-290.)

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