Apocalipse 2.1-7 - Éfeso - fiel, mas em falta


Por Ray Summers 

Este estudo é feito admitindo-se que existiam de fato as sete igrejas da Ásia Menor. Baseia-se no principio já anunciado de que o livro deve ser interpretado de modo inteligível e proveitoso para os cristãos que primeiro receberam a sua mensagem.

Por isso, deixamos de lado a ideia mui difundida de que as sete igrejas representam sete estágios do desenvolvimento da apostasia da igreja.

Tal ideia de nada adiantará ao propósito do livro e entra em conflito direto com o ensino de Jesus. Aceitando o ponto de vista de que realmente aqui se trata de sete igrejas, de modo algum inculcamos que essas sete fossem as únicas igrejas estabelecidas na Ásia Menor daqueles tempos.

Havia, certamente, muitas igrejas naquela região, igrejas que representavam o ponto mais alto da atividade cristã dentro do Império Romano. 

Mas estas sete igrejas eram representativas e estavam estrategicamente situadas para espalhar a mensagem do Apocalipse por todas as partes da Ásia Menor. O número 7 sugere a idéia de completação, perfeição; por isso, a mensagem do livro é para todas as igrejas da Ásia Menor. 




As condições discutidas nessas cartas eram condições que caracterizavam e caracterizam ainda hoje muitas igrejas.

Uma das maravilhas acerca deste livro está no fato de vermos que as condições das igrejas de cada século, inclusive as do século XX, estão aqui ilustradas pelas condições destas sete igrejas.

Assim, a mensagem tem aplicação universal. Onde quer que existam essas condições, o corretivo aí indicado encontra fácil aplicação.

Compreendemos melhor tais cartas quando conhecemos o fundo histórico daquelas cidades em que estavam localizadas as sete igrejas. As condições das cidades se refletiam nas igrejas.

É por aqui que estudaremos as cartas. (Na bibliografia deste livro encontram-se fontes de inestimável ajuda neste particular — Dana, Hardy, Ramsay, Morgan e outros.)

Quando passamos a estudar essas cartas, notamos que devemos observar algumas coisas muito importantes, de caráter geral. Note-se, de início, que cada carta é endereçada ao "anjo" da igreja. Muitas interpretações têm aparecido para explicar o significado desta palavra. 

Acham vários intérpretes que significa o espírito ou a sorte da igreja, algum mensageiro talvez enviado para visitar João em Patmos, ou o "anjo da guarda" da igreja.

A ideia mais aceita é de que se trata do ancião, presbítero ou o pastor-chefe da igreja. O Novo Testamento nos lembra, e também outros escritos, que as igrejas às vezes tinham vários pastores incumbidos de diferentes deveres na vida da comunidade.

"O anjo da igreja", então, seria o pastor-chefe. Era ele que tinha o dever de apresentar a mensagem deste livro à igreja. Ele conduzia o "castiçal" que espalhava a luz de Cristo pelo mundo em trevas.

Há um modelo seguido em cada carta. A identificação do remetente (Cristo) em cada carta faz parte da descrição que do Cristo glorificado se nos dá no primeiro capítulo do livro. Ele revela possuir profundo conhecimento de cada igreja. 

Louva a igreja por aquilo que ela tem de elogiável. Demonstra seu desagrado pelo que ela tem de mau, e aconselha, vindo, a seguir, uma promessa para os que permaneceram firmes e fiéis.

O conteúdo e a ordem destes elementos variam de carta para carta, mas obedecem a um modelo que predomina em todas as cartas.

Éfeso — fiel, mas em falta

Apocalipse 2.1-7
1 - A o anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no meio dos sete candeeiros de ouro:
2 - Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos;
3 - e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer.
4 - Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.
5 - Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.
6 - Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.
7 - Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.

No tempo em que foi escrito este livro, Éfeso era uma grande e rica cidade de Jônia. Ali viviam representantes de todas as camadas sociais — ricos, letrados, pobres e analfabetos.

As condições gerais de vida faziam dela uma cidade abastada, culta e corrompida. Não se revela por que é apresentada Éfeso em primeiro lugar, antes das outras. 

Talvez pelo fato de ser ela o natural ponto de partida no continente, que daria melhor circulação à mensagem que provinha da ilha de Patmos.

Concedendo que o livro foi mesmo escrito por João, o filho de Zebedeu, acharemos mais sentido na tradição que sustenta ter sido João o líder principal das forças cristãs na região de Éfeso por espaço de um quarto de século. 

Nos capítulos de 18 a 20 do livro dos Atos dos Apóstolos, podemos ver o histórico da fundação e dos primeiros empreendimentos desta igreja. A igreja vinha já lutando pelo Reino de Deus por cerca de quarenta ou quarenta e cinco anos, quando lhe foi endereçada esta mensagem.

1 - IDENTIFICAÇÃO (2:1)
O Senhor se apresenta à Igreja de Éfeso como o que tem em sua destra as sete estrelas e como o que anda por entre os sete castiçais de ouro.

Isto aclara tão bem sua posição que não deixa dúvida alguma quanto ao que vem a seguir sobre o conhecimento que ele tem das igrejas — ele está aí, e sabe o que acontece.

Ele está cuidando de cada caso, tendo em sua forte destra a sorte dela, que envolve o pastor. Anota cada uma de suas virtudes e falhas e revela tudo em sua mensagem.

2 - LOUVOR (2:2, 3, 6)
É interessante notar nestas cartas que quando há algo a louvar ou elogiar na vida da igreja, o Senhor trata primeiro disso. A igreja em Éfeso tinha muitas coisas que mereciam louvor.

a) Fidelidade na vida de cada dia.
"Conheço as tuas obras, e o teu trabalho, e a tua paciência." A palavra "obras" certo refere-se aos bons serviços que a igreja estava prestando.

Era, de fato, uma congregação ativa e agressiva. "Trabalho" é mais que "obras". A palavra aqui traduzida "trabalho" refere-se ao esforço que produz serviço à custa de sofrimento. 

Eles — os membros da igreja em Éfeso — estavam testemunhando sob grandes dificuldades.

A palavra lembra o eco do bater sobre o peito, com exclamações de angústia, quando se avança para a realização dum fim desejado. Era uma igreja que trabalhava. A palavra "paciência" revela a atitude de persistência no esforço que produz obras. 

Não significa em o Novo Testamento essa atitude passiva que hoje em dia se expressa pela palavra paciência. Não é em nada esse cruzar de braços, à espera de algum acontecimento. Literalmente significa "persistir sob". 

Quer dizer aguentar, quando a carga é pesada, ou ser senhor de si diante de qualquer dificuldade. As três palavras reunidas nos dão uma impressão mui forte de fidelidade na vida prática. Constituem fato profundamente significativo, dado que tal louvor partiu dos lábios do Cristo soberano.

b) Fidelidade na doutrina.
"Não podes sofrer os maus" indica que os mestres gnósticos tinham conquistado algum terreno em Éfeso. Eles chegaram lá proclamando-se verdadeiros apóstolos e missionários, mas a igreja em Éfeso os provou, viu-os falsos e os rejeitou. 

Os efésios tinham resistido bastante em sua fidelidade para com o nome de Cristo. Não esmoreceram em meio das mil e uma dificuldades criadas pela perseguição e pelas invasões de falsas doutrinas.

Aos volúveis gálatas, o apóstolo Paulo certa vez dissera — "não nos cansemos de fazer bem" (Gálatas 6:9). Os efésios, porém, possuíam grandes reservas de energias e fortaleza, e podiam dispensar tal exortação.

A atuação dos nicolaítas foi recebida pelos efésios com tal reação que só podemos descrevê-la com ódio — ódio santo contra toda a iniquidade.

E o Cristo redivivo participa dessa atitude dos efésios para com os nicolaítas. Ele igualmente revela sua contínua aversão e desaprovação ao mal, seja de que ordem for. Não foi feita a verdadeira identidade dos nicolaítas. 

Por sua relação com aqueles que esposavam as doutrinas de Balaão (2:14, 15), parece que a periculosidade deles consistia em serem promotores duma certa espécie de antinomianismo (crença de que os cristãos não precisavam mais guardar a lei moral, uma perversão monstruosa da doutrina bíblica da justificação pela fé).

Fosse o que fosse esse ensino falso, recebeu ele o ódio comum de Cristo e dos cristãos de Éfeso.

Este franco elogio nos leva a perguntar se não era perfeita esta igreja, pois parece não haver nela nada errado. Mesmo no meio de grandíssimas dificuldades, ela cumpria com o seu dever cristão, realizava seus cultos, repelia os falsos doutores, odiava o pecado e não esmorecia na obra do Senhor. 

Era, de fato, o que se poderia esperar duma igreja que tinha sido grandemente abençoada através das atividades de grandes líderes, como Paulo, Apolo, Priscila e Áquila, Timóteo e João — o discípulo amado. Mas o Senhor examina tudo com olhar penetrante e descobre uma grande falha.

3 - QUEIXA (2:4)
"Tenho, porém, contra ti que deixaste o teu primeiro amor." Esta breve declaração inclui tudo. Certo estudante, com muita habilidade e talvez irrefletidamente, quando se lhe deu uma lição sobre este passo bíblico, exclamou — "Acabara-se a lua de mel!"

Sim, a igreja em Éfeso já não conservava mais aquele amor fervoroso e caloroso que caracterizara suas primeiras experiências da vida cristã.

Estavam levando avante um programa de atividades que revelava uma igreja bem agressiva, mas tinham deixado de parte o verdadeiro motivo ou espírito do serviço cristão.

Quando o amor de Cristo deixa de ser o motivo capital da vida e do culto cristão, as atividades e esforços do cristão significam muito pouco.

4 - O CONSELHO (2:5, 7A)
A recomendação que Cristo faz à igreja em Éfeso pode resumir-se em três verbos — lembrar, arrepender-se, voltar. Lembrar da alegria e entusiasmo que dantes tínheis em vosso amor por Cristo e sua obra; lembrar da poderosa força daquele vosso amor. 

Arrepender-vos de um serviço feito sem amor, anomalia que deixastes crescer em vossa vida interior. De fato, isto é um inimigo mortal — como um câncer — do serviço efetivo no Reino do Senhor. Voltar àquele primitivo espírito de serviço, que brota dum coração cheio de amor. 

Cristo avisa que, se eles não voltarem ao seu primeiro amor, estarão perdendo o direito de existir como igreja.

Ameaça tirar o castiçal do lugar em que se acha. O castiçal é a igreja (1:20), e ela já não terá mais o direito de existir, uma vez que não satisfaz ao propósito e programa que Cristo tem para com ela. Que aviso solene para toda e qualquer igreja cristã!

A primeira parte do versículo 7 serve de transição do conselho para a promessa. "Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." Aqueles que têm percepção espiritual são aqui aconselhados a escutar.

Não se trata da mensagem de um homem, não. E o Deus eterno quem está falando e alertando Seu povo, para que se ponha em guarda contra esse inimigo mortal que é a apatia espiritual.

5 - A PROMESSA (2:7B)
"Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do jardim de Deus." A idéia de vitória é uma das principais em todo o livro do Apocalipse.

Significa sair vitorioso das circunstâncias em que nos encontramos. 

No contexto que tem, neste livro, parece significar viver uma vida de serviço para Deus, serviço esse prestado com o coração cheio de amor. A quem estiver vivendo uma vida assim, o Senhor promete os frutos do jardim de Deus. 

Simbolicamente, ele está dizendo: "Ao que for fiel a mim lhe darei alimento e sustento." Deus nunca deixa de acudir ao seu povo nos tempos de sua necessidade. Ele pode atender a todas as suas necessidades, mas espera da parte de seu povo uma vida vitoriosa.

ÍNDICE

Tecnologia do Blogger.