Apocalipse 1.9-20 - O Cordeiro


Por Ray Summers 

O parágrafo que começa com o versículo 9 e vai até o versículo 20 é uma apresentação do Cristo — o Cordeiro redentor — que ocupa a ação deste livro.

Talvez nada poderia ter servido melhor para despertar as esperanças dos amargurados cristãos do que esta visão do Cristo exaltado e triunfante. Serviu igualmente para João.

Apocalipse 1.9-20
9 - Eu, João, irmão vosso e companheiro na tribulação, no reino e na perseverança, em Jesus, achei-me na ilha chamada Patmos, por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus.
10 - Achei-me em espírito, no dia do Senhor, e ouvi, por detrás de mim, grande voz, como de trombeta,
11 - dizendo: O que vês escreve em livro e manda às sete igrejas: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodicéia.
12 - Voltei-me para ver quem falava comigo e, voltado, vi sete candeeiros de ouro
13 - e, no meio dos candeeiros, um semelhante a filho de homem, com vestes talares e cingido, à altura do peito, com uma cinta de ouro.
14 - A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve; os olhos, como chama de fogo;
15 - os pés, semelhantes ao bronze polido, como que refinado numa fornalha; a voz, como voz de muitas águas.
16 - Tinha na mão direita sete estrelas, e da boca saía-lhe uma afiada espada de dois gumes. O seu rosto brilhava como o sol na sua força.
17 - Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém ele pôs sobre mim a mão direita, dizendo: Não temas; eu sou o primeiro e o último
18 - e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno.
19 - Escreve, pois, as coisas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas.
20 - Quanto ao mistério das sete estrelas que viste na minha mão direita e aos sete candeeiros de ouro, as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candeeiros são as sete igrejas.

João estava na ilha de Patmos, exilado por causa de sua fidelidade à Palavra de Deus e por causa do seu testemunho acerca de Jesus Cristo. Isto significa que era ele um sentenciado do império pelo fato de desobedecer às exigências do culto ao imperador. A tradição cristã primitiva confirma isto. 




Assim, participava ele com os cristãos asiáticos da tribulação que lhes sobreviera, e participava do Reino de Deus, e ainda da paciência que vem da parte de Jesus Cristo.

Estas três coisas são aí referidas como realidades presentes na vida de João e de seus leitores — e não como algo que experimentariam mais tarde.

João estava "no Espírito". Isto, sem dúvida, se refere à natureza daquela sua experiência. Via-se rodeado de grande turbação e tribulação, mas ainda conservava sua comunhão com o Espírito de Deus e percebia o Seu poder e direção. 

A palavra aqui usada para tribulação é um termo que lembra o triturar do trigo no moinho ou o esmagar das uvas no lagar.

De início, parece tratar-se da pressão exterior que esmaga e arruína, mas o resultado é a farinha e o vinho. Assim se dava com João e seus amigos: a perseguição parecia esmagadora e destruidora, mas, na realidade, era a preparação deles para um serviço mais efetivo. 

Na experiência cristã de cada dia, quão a miúdo o povo de Deus tem encontrado dificuldades e sofrimentos quando isto se dá! Esta é uma das mais lindas verdades do Novo Testamento.

Esta experiência de João foi em "o dia do Senhor" — o dia de culto para o povo cristão, o domingo.

Assim, no dia do culto, quando o coração de João sentia saudades daqueles cristãos que dele tinham recebido, por muitos anos, conforto e direção espiritual, e enquanto meditava nas terríveis circunstâncias que rodeavam a ele e a seus irmãos e no que resultaria daquilo tudo, eis que ouviu uma voz que, em resumo, como que lhe dizia: "Não podes estar junto do teu povo, mas podes mandar a eles uma mensagem; sim, uma mensagem que Eu te darei."

João descreve a voz como a duma grande trombeta. Assim, a nota de triunfo se fez ouvir mesmo antes de João descobrir quem lhe falava.

Voltou-se para ver quem era, e eis ali junto dele o Cristo vivo, a Quem fazia mais de sessenta anos que não via, pois da última vez O vira no Monte das Oliveiras, antes de subir para o Pai que O enviara! 

O Senhor aparecera noutras épocas difíceis da vida de João. Aparecera no cenáculo na tarde da ressurreição. Quando os discípulos regressavam duma noite de pesca — derrotados, de mãos vazias e de ânimo quebrado — Jesus aparecera na praia com peixe assado e pão, para lhes mostrar que ainda podia acudir Seus seguidores como o fizera nos dias de Sua carne, multiplicando peixe e pão para as suas necessidades.

Agora, de novo, quando João lutava com aquele trágico desânimo, Jesus aparece com uma mensagem de esperança. Diferente é agora o seu aspecto.

Ouvindo aquela voz como de trombeta, João se voltou para contemplar o Cristo sublime e triunfante.

Achava-se vestido de uma roupagem comprida até os pés e cingido com um cinto de ouro — vestes de sacerdote e de rei.

Os cabelos dEle eram "brancos como a alva lã. .. brancos como a neve" — símbolo de Sua santidade. Os olhos, penetrantes como "chama de fogo" — símbolo de acurada visão, o que significa onisciência.

Os pés, como "latão reluzente" — símbolo de fortaleza; o latão nos dias de João era conhecido como o mais resistente dos metais.



A voz dEle era "a voz de muitas águas" — símbolo de Sua autoridade sobre povos e nações (compare-se o uso disto noutras partes do livro).

O rosto dEle tinha o brilho "do sol, quando resplandece em toda a sua força", i.é., ao meio-dia — símbolo de sua majestade. Em sua forte destra, tinha "sete estrelas" — símbolo da sorte das igrejas entregue a seus pastores. 

De sua boca "saía uma aguda espada de dois fios" — símbolo de julgamento esmerado e penetrante dos feitos dos homens (alguns interpretam isto como significando a habilidade dele na proteção dos seus). 

Ele estava de pé no meio de "sete castiçais de ouro" — que simbolizam as igrejas (este simbolismo é uma condensação do pensamento de Beckwith, Dana, Hengstenberg, Richardson, Smith e muitos outros in loco.)

É certo que não vamos pensar seja esta a aparência literal de Cristo hoje em dia, pois que seria isso um aspecto mui grotesco. É pela significação do simbolismo que percebemos o inteiro significado da visão e a gloriosa certeza outorgada a João e aos seus companheiros de sofrimento. 

Eis o significado da visão: O Cristo redivivo, santo, majestoso, onisciente, cheio de autoridade, e poderoso, está de pé no meio das igrejas, tem a sorte delas em sua mão e diz: "Não temais! Eu morri, mas vivo para sempre.

E, mais do que isto, tenho em minhas mãos as chaves da morte e do túmulo. Não deveis temer de ir para o lugar do qual Eu tenho a chave. Podereis ser perseguidos até a morte, mas eu sou ainda o vosso Rei." 

A construção gramatical proíbe a continuação duma ação já em progresso. Eles estavam atemorizados já a ponto de desesperar.

Diz-se-lhes, então, que parem com aqueles temores. E, a seguir, se lhes apresenta a razão: Cristo está vivo, e está na direção de tudo quanto acontece.

Este Cristo glorificado e triunfante domina a movimentação de todo o livro do Apocalipse. Poderá haver dúvidas no pensamento de alguns dos pretensos "mestres da profecia" de nossos dias a respeito do resultado da luta do mal contra o bem. 

Nunca, porém, houve a menor dúvida no pensamento dAquele que concedeu a João esta revelação. Cristo — O Cordeiro Redentor — é o vitorioso em todos os sentidos deste termo.

Esta verdade é o cabeçalho da história da luta, e nós sabemos qual será o resultado, ainda quando haja períodos em que nos pareça que as forças do mal sobrepujam as do bem.

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