Apocalipse 9.1-21 - O 7° Selo - parte 2

Por Ray Summers 

Ao soar da quinta trombeta, surgiu a praga dos gafanhotos. Personifica-se uma enorme estrela, que cai do céu e deixa aberto um hiante abismo. 


A princípio só se veem grandes nuvens de fumaça, que escurecem o próprio sol. Aos poucos, a fumaça deixa ver gafanhotos, ou aquilo que a princípio parecia fumaça se transforma em gafanhotos. Estes eram uma praga comum naqueles dias. 

Apocalipse 9.1-12
1 - O quinto anjo tocou a trombeta, e vi uma estrela caída do céu na terra. E foi-lhe dada a chave do poço do abismo.
2 - Ela abriu o poço do abismo, e subiu fumaça do poço como fumaça de grande fornalha, e, com a fumaceira saída do poço, escureceu-se o sol e o ar.
3 - Também da fumaça saíram gafanhotos para a terra; e foi-lhes dado poder como o que têm os escorpiões da terra,
4 - e foi-lhes dito que não causassem dano à erva da terra, nem a qualquer coisa verde, nem a árvore alguma e tão-somente aos homens que não têm o selo de Deus sobre a fronte.
5 - Foi-lhes também dado, não que os matassem, e sim que os atormentassem durante cinco meses. E o seu tormento era como tormento de escorpião quando fere alguém.
6 - Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a acharão; também terão ardente desejo de morrer, mas a morte fugirá deles.
7 - O aspecto dos gafanhotos era semelhante a cavalos preparados para a peleja; na sua cabeça havia como que coroas parecendo de ouro; e o seu rosto era como rosto de homem;
8 - tinham também cabelos, como cabelos de mulher; os seus dentes, como dentes de leão;
9 - tinham couraças, como couraças de ferro; o barulho que as suas asas faziam era como o barulho de carros de muitos cavalos, quando correm à peleja;
10 - tinham ainda cauda, como escorpiões, e ferrão; na cauda tinham poder para causar dano aos homens, por cinco meses;
11 - e tinham sobre eles, como seu rei, o anjo do abismo, cujo nome em hebraico é Abadom, e em grego, Apoliom.
12 - O primeiro ai passou. Eis que, depois destas coisas, vêm ainda dois ais. 

Mas os gafanhotos desta visão são dum tipo todo especial e incomum. Segue-se, então, uma descrição dramática dos mesmos.

Eles têm ferrões iguais ao do escorpião e são parecidos com cavalos de guerra; os seus rostos eram como rostos de homens; seus cabelos como de mulher; e têm dentes como de leões; o ruído de suas asas era como o ruído de carros, quando muitos cavalos correm ao combate. 



Ordenou-se-lhes que não fizessem dano à erva da terra, nem à verdura, que é sua comida própria, mas que passassem cinco meses — o tempo de duração duma praga de gafanhotos — atormentando os homens, até que estes pedissem a morte, por não suportarem mais a vida. 

Feririam só os inimigos da causa de Deus; não fariam dano algum aos que estivessem assinalados como homens de Deus. Os gafanhotos aqui têm um rei cujo nome é muito apropriado — "Destruição". 

Devemos compreender que esta linguagem é simbólica, e que também isto é um espetáculo, em que se usam os detalhes para tornar mais impressionante a representação. Não devemos nos interessar tanto pelos detalhes que esqueçamos a ação dos atores. 

Muitos têm buscado determinar o sentido exato de cada pormenor do quadro.

Não adianta nada. Estes gafanhotos, que vêm de dentro da terra e são chefiados pelo que se chama "Destruição", nome inúmeras vezes associado ao do diabo, que é que simbolizam? Alguns entendidos os colocam em paralelo com os cavaleiros do parágrafo seguinte. 

Mas a distinção feita entre os dois restantes ais anunciados em 8:13 parece proibir tal paralelismo. Outros estudiosos acham que isto não importa, e passam por cima, sem interpretar.

A melhor interpretação, à luz do fundo histórico, parece ser a que Hengstenberg (Hengstenberg, op. cit., I, p. 429) e Dana (Dana, The Epistles and Apocalipse of John, p. 126) nos oferecem. 

Acham que esta visão simboliza o espírito infernal que penetra na terra (Hengstenberg) ou as forças da decadência ou corruptoras, que Deus tem em suas mãos para castigar a desafiadora Roma (Dana). Está simbolizada aí a podridão infernal, a decadência interna do império Romano. 

De fato, uma das coisas que levaram Roma ao colapso foi toda uma sucessão de governadores e líderes corruptos. Esse espírito de podridão interna vem pintado aqui como provindo de dentro do Império (para fora da terra) para levá-lo à destruição.

Essa triste condição de decadência prejudicou Roma. Mas em nada molestaria os cristãos de Deus, perseguidos, visto que não pactuavam das imoralidades e descaminhos dos romanos pagãos. 

Assim, Deus, por estes meios, já indicara dois instrumentos que poderia empregar para aniquilar os opressores de seu povo: as calamidades da natureza e a decadência interna. O terceiro instrumento que ele poderia usar contra Roma aparece na visão seguinte. 

Apocalipse 9.13-21
13 - O sexto anjo tocou a trombeta, e ouvi uma voz procedente dos quatro ângulos do altar de ouro que se encontra na presença de Deus,
14 - dizendo ao sexto anjo, o mesmo que tem a trombeta: Solta os quatro anjos que se encontram atados junto ao grande rio Eufrates.
15 - Foram, então, soltos os quatro anjos que se achavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano, para que matassem a terça parte dos homens.
16 - O número dos exércitos da cavalaria era de vinte mil vezes dez milhares; eu ouvi o seu número.
17 - Assim, nesta visão, contemplei que os cavalos e os seus cavaleiros tinham couraças cor de fogo, de jacinto e de enxofre. A cabeça dos cavalos era como cabeça de leão, e de sua boca saía fogo, fumaça e enxofre.
18 - Por meio destes três flagelos, a saber, pelo fogo, pela fumaça e pelo enxofre que saíam da sua boca, foi morta a terça parte dos homens;
19 - pois a força dos cavalos estava na sua boca e na sua cauda, porquanto a sua cauda se parecia com serpentes, e tinha cabeça, e com ela causavam dano.
20 - Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos, deixando de adorar os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de pau, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar;
21 - nem ainda se arrependeram dos seus assassínios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos. 

O som da sexta trombeta traz o segundo ai sobre os homens. O sexto anjo tocou sua trombeta, e se ouviu uma voz, vinda do altar, que lhe ordenou que soltasse os quatro anjos que estavam presos junto ao grande rio Eufrates. 

Soltaram-se os quatro anjos, que comandaram um enorme exército de cavaleiros preparados para destruir. Eles tinham sido preparados de modo todo especial para essa obra destruidora. 

O simbolismo desta visão é pletórico de pormenores dramáticos. O exército era de 200 milhões de cavaleiros, ou 20 mil vezes 10 mil, número que designa um exército enorme, de número completo.

Em formação regular, era uma tropa de cavalaria que ocuparia o espaço de uma milha de largura por oitenta e cinco milhas de comprimento! 

Tais soldados usavam couraças de fogo. Seus cavalos tinham cabeças como de leão, e de suas bocas saíam fogo, fumo e enxofre ardente.

Em vez de caudas comuns, tais cavalos tinham serpentes por rabo, de modo que com eles podiam picar e matar os homens. Uma terça parte da humanidade foi destruída por essa cavalaria. 

Novamente aqui os detalhes são adicionados com o propósito de dramatizar a visão. Em si mesmos, tais detalhes são destituídos de qualquer significado profético ou doutrinário. O quadro todo nos apresenta a cavalaria dos Partos, (Smith, Dana, J. Smith, Kiddle, Moffatt, Swete, Charles e Stuart, in loco.) que procede das terras do Eufrates. 

Este povo era o inimigo número um de Roma, constituindo constante ameaça para os seus limites orientais.

Como já atrás anotamos, eles nunca foram completamente vencidos por Roma. A descrição aqui feita nesta passagem é tal que aterroriza qualquer que se oponha a essas forças. 

Imagine-se um cavalo com cabeça de leão, de cuja boca saem fogo, fumo e enxofre ardente, e com serpente venenosa no lugar da cauda! Combinando a fértil imaginação de P. T. Barnum com a de Roberto Ripley não chegaríamos a ter como produto um animal tão esquisito assim! 

Agora, multiplique-se isso por 200 milhões, e veja-se em imaginação esse exército marchando sobre Roma.

Pinta-se todo este quadro para simbolizar a invasão externa que nas mãos de Deus serviria de instrumento de punição aos opressores do seu povo. 

Isto completa os três instrumentos. Correndo como um verdadeiro filete por toda a obra de Gibbon — A Decadência e a Queda do Império Romano — encontramos a verdade de que três forças se juntaram para a derrocada do Império Romano. Elas, em parte, já estavam em ação nos dias de João. 

As três eram: as calamidades naturais, a podridão interna e a invasão externa. Estas três forças estão aqui no Apocalipse simbolizadas como instrumentos já preparados para que Deus os empregasse na libertação do seu povo. 

As calamidades naturais (enchentes, terremotos, erupções vulcânicas), a podridão interior (uma longa série de governadores corruptos) e a invasão por inimigos vindos de fora (da parte de inimigos novos e velhos) se congregaram numa frente única para derrocar de vez aquele império que parecia invencível. 

Os versículos 20 e 21 nos mostram que tais juízos acima referidos eram julgamentos contra o poder mundano, secular, e não contra os cristãos.

Estes poderiam sofrer injúrias e perseguições desse poder, mas o juízo não. Podiam tais injúrias e perseguições fazer parte de suas provações, uma vez que estavam misturados com o mundo em sua peregrinação terrestre; mas provação não é julgamento. 

A visão era um meio de reafirmar aos cristãos a verdade de que Roma nunca triunfaria sobre a cristandade. Os juízos de Deus mui logo viriam como medidas punitivas sobre os maus e opressores, e ao mesmo tempo como um chamado ao arrependimento. 

Isto se vê claro, quando notamos nestes versículos que o restante dos punidos, os que escaparam das pragas, não se arrependeram e voltaram a praticar suas depravações — voltaram à idolatria, aos assassínios, às feitiçarias, aos roubos e pilhagens, à fornicação. 

Mesmo depois desse sêxtuplo julgamento, continuaram em seu mau caminho. Nada conseguiu trazê-los ao arrependimento. Daí, só lhes restava um julgamento ainda mais rigoroso da parte de Deus.

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