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1 João: Quem é o cristão (21)


Este sermão pertence a uma série.

1 João 5.20-21

O apóstolo João chega ao final de sua carta em que rechaça as idéias dos mestres gnósticos. Estes homens ensinavam que Cristo tinha apenas um corpo aparente, que o corpo era mau e a alma boa, que não havia a necessidade de socorrer ao próximo e chegavam a negar a existência do pecado. 


No encerramento dessa carta, João discorre breve e significativamente sobre alguns traços da identidade do cristão. Qual a sua concepção de mundo? Onde está? O que deve fazer nesse mundo? João demonstra isso nessa passagem. Vejamos:

Qual a sua concepção de mundo?


1. O cristão é aquele que possui correto entendimento (v.20 a). 
“Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro”.

O correto entendimento passa pela compreensão a respeito de Cristo Jesus. Jesus é o Messias prometido e o filho de Deus. Ao falar que o Filho de Deus é vindo, João tem como objetivo dizer que o Messias não apenas veio mas sua presença continua entre nós. 

Cristo é aquele que promove discernimento espiritual para reconhecer o que é o “verdadeiro”. O verdadeiro aqui diz respeito a Deus revelado na Escritura e através de Cristo. Aqui João estabelece um contraste com o falso deus pregado pelos gnósticos que negavam a encarnação de Cristo. 

Tal afirmação do apóstolo tem implicações preciosas para o ser humano e para a vida dos crentes de todas as épocas. Vejamos algumas delas:

1.1. A verdade está apenas em Cristo. Por mais que a ciência, a filosofia deem importantes contribuições para a sociedade, é preciso entender que a verdade absoluta a respeito do significado da existência do homem está em Jesus. 

O homem foi criado para desfrutar de Deus e fazê-lo conhecido. Entretanto, para isso ocorra é necessário percorrer o caminho correto. E necessário crer na verdade infalível. Essa verdade não está em fórmulas, enunciado, mas numa pessoa, a saber, Jesus. Ele declarou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). 

1.2. Cristo é a própria revelação de Deus. Não existe outro meio de compreender o ser de Deus senão por meio da pessoa de Jesus. Qualquer tentativa fora da pessoa de Cristo constitui-se no mais terrível e fatal engano. Paulo escreveu: “Este [Jesus] é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” (Cl. 1.15). O próprio Jesus disse: “Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9).

1.3. A manifestação de Cristo é contínua na vida do crente. Jesus não é apenas um objeto de fé que está distante da vida do crente. Pelo contrário, Ele interage com o cristão e se faz presente em sua vida. Ao enviar seus discípulos para pregar, declarou: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). 

Ao se referir à pratica da disciplina na igreja, ele anunciou: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20). Jesus promete habitar no crente por meio do Espírito Santo quando disse: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.18).

Onde o cristão está?

2. O cristão é aquele que está em Cristo (v. 20 b); 
...”e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”. 

Com essas palavras, João mostra que os cristãos não apenas possuem conhecimento do verdadeiro Deus, mas que estão nele. Em outras palavras, o cristão está plenamente unido com o seu Senhor. Paulo, por diversas vezes usou a expressão “em Cristo” para ensinar esse princípio. Um exemplo disso são suas palavras na sua carta para a igreja de Corinto. 

E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura (2 Co 5.17). Isso significa que o crente faz parte do corpo de Cristo, a igreja, e está unido espiritualmente com seu Senhor. Isso não significa que o cristão seja absorvido por Deus, ou inverso. 

O que ocorre é que Cristo está com aqueles que nele creem e são beneficiados pela sua morte e ressurreição. Paulo escreve: “Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos” (Rm 6.8).

Essa declaração de João nos faz refletir sobre nossa nova condição em Cristo Jesus. Segundo ele, estamos unidos com Deus por meio de Jesus. 

1. Só há um modo de estar com Deus. Não existe outra forma para estar com Deus senão por meio de Jesus. Isso não significa apenas ter conhecimento histórico ou religioso de que Jesus veio ao mundo. 

É necessário crer nele como Senhor, como divino e como aquele que morreu pelos pecados. Qualquer tentativa de se unir a Deus senão pela pessoa de Jesus é a mais terrível mentira. Citando novamente João 14.6, Jesus disse: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). 

2. A união com Cristo não é cancelada. É uma união que não pode ser anulada ou interrompida. Não existe divórcio entre o Senhor e seus filhos. Não existe separação entre o Senhor da igreja com sua igreja. O Senhor é o noivo que jamais abandonará sua noiva no altar; é o esposo que jamais divorciará de sua esposa, a igreja. 

O que deve fazer nesse mundo? 

3. O cristão é aquele que deve guardar-se dos ídolos (v. 21). 
“Filhinhos, guardai-vos dos ídolos”. 

Dentre algumas das coisas que o cristão deve fazer nesse mundo é guardar-se dos ídolos. Os ídolos aos quais João aqui se refere são as falsas idéias apregoadas pelos gnósticos que apresentavam um falso Deus, um falso Cristo. O Jesus apresentado por eles era destituído de corpo – tinha apenas a aparência de um corpo. 

Ao ensinarem isso, proclamavam uma concepção errada de Deus. Ao negarem a encarnação, eles também negavam a divindade de Cristo. Ao negarem a Cristo, negavam ao próprio Deus. Portanto, os cristãos não podiam receber tais ensinos como se os mesmos fossem verdadeiros.

Esse ensino não foi fundamental apenas para os cristãos da época dessa carta, mas também é para a igreja de todas as épocas. A igreja sempre enfrentará o perigo das heresias. Muitas dessas heresias vêm acompanhada de supostos milagres. É bom que nos lembremos da frase emblemática de Lutero: “Qualquer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias”. 

Jesus alertou seus discípulos para o fato de que viriam muitos em seu nome, mas que não foram enviados por ele. Ele disse: “Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.24). 

Paulo alertou Timóteo sobre a dificuldade de se transmitir a sã doutrina. “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos” (2 Tm 4.3). A sã doutrina é incômoda pois ela fala do pecado, da necessidade do arrependimento. Ela tem como centro a pessoa de Jesus e sua soberana vontade. 

Os não convertidos não suportam essa pregação. Eles desejam ouvir mensagens que massageiam seu ego, que não sejam confrontadora, que não falem de pecado, muito menos de arrependimento. São essas mensagens que atraem o mundo. Isso por uma razão lógica – elas procedem do mundo e por isso, o mundo ouve que pregam tais mensagens (1 Jo 4.5). Augustus Nicodemus Lopes escreveu: “Pensamentos satanicamente inspirados são atraentes para as mentes mundanas”.

Diante desse cenário, os cristãos verdadeiros são aqueles que devem ser críticos quanto ao que ouvem, que devem rejeitar os ensinos que não são bíblicos e que devem ter a Bíblia como palavra final em toda questão de doutrina e de vida.

Conclusão. 
Qual é a concepção de mundo dos cristãos? Onde eles estão? O que devem fazer nesse mundo? Os cristãos tem correto discernimento espiritual. Eles estão em Cristo e devem se guardar de todo ensino que não seja bíblico. Que tais características nos façam refletir se nos enquadramos dentro da descrição sobre um verdadeiro cristão.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013. Pós-graduando em docência do ensino superior, pela Universidade Paulista.

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