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1 João: O crente, sua comunhão e sua relação com o pecado (2)



Este sermão pertence a uma série.

1 João 1.5-7

Conforme já foi visto, João escreveu essa carta para combater os erros do gnosticismo. Uma das características desse movimento era a afirmação de que o espírito é bom, mas carne é má, portanto, pecado cometido não interferia no espírito.


Por isso João, nesses versículos ensina princípios de grande importância a respeito do verdadeiro significado de comunhão e o procedimento do crente diante do pecado.

1. A verdadeira comunhão (vv. 5-7). 
Para falar sobre isso, João inicia seu argumento deixando claro que a mensagem anunciada por ele e os demais apóstolos não era dele, mas sim de Cristo (v.5). Portanto, não se tratava de posição pessoal. 

A seguir, ele fala do caráter de Deus. “Deus é luz”. Essa definição indica duas qualidades. Primeira, Deus é absolutamente santo. Segunda, sua santidade tornam evidentes os pecados dos homens. 

Com base nisso (ensino de Cristo e santidade de Deus), ele começa a falar de comunhão.

Primeiramente ele escreve: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade ”(v.6). O apóstolo tem como objetivo atacar os falsos mestres que acreditavam ter um conhecimento especial de Deus, através de experiências místicas (visões, sensações etc.). 

Mas, de nada vale afirmar que se tem conhecimento de Deus, se a pessoa andar “nas trevas”. Andar nas trevas significa tanto pregar e crer num ensino errado, quanto viver sem santidade. Lembrando que os falsos mestres combatidos por João ensinavam que uma pessoa pode pecar à vontade que isso não interfere em sua alma. 

Em segundo lugar, João adverte: “Se porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros.” (1 Jo 1.7).

“Andar na luz” significa admitir que se é pecador. Quem assim procede, usufrui de dois benefícios. O primeiro é desfrutar de verdadeira comunhão (com Deus e com o próximo) e o segundo, é ser purificado pelo sangue de Jesus. 

O que esses versículos ensinam sobre comunhão? A comunhão verdadeira somente é possível por meio de uma vida de santidade, de quebrantamento diante dos pecados e de fidelidade à doutrina do evangelho.

Quais as implicações disso para nossa vida?

a) Não adianta nada movimentos para unificação dos irmãos se não houver verdadeiro arrependimento dos pecados seguido pela sua confissão. A suposta unidade sem a consciência do pecado e da necessidade de perdão, é mero ajuntamento religioso sem proveito algum. Sem a consciência do pecado, o homem ainda é escravo de suas paixões. 

No primeiro sinal de problemas de relacionamento, o ciúme, a falta de paciência, o orgulho, o desejo de vingança vão se manifestar com força e aquilo que parecia com um povo unido, logo se torna uma multidão dispersa e amarga. Augustus Nicodemus escreve: “O pecado se constitui em barreira real à comunhão”. 

b) Conforme já foi dito, de nada adianta trabalhos para unir os irmãos, se isso não for feito a partir da fidelidade e obediência ao Evangelho. Lembremo-nos da igreja em Atos. O que unia seus membros era a perseverança na doutrina dos apóstolos (At 2.42). 

2. O procedimento do crente diante do pecado (vv.8-10).

Na época de João, conforme já foi dito, havia um descaso para com o pecado. Segundo os falsos mestres, como a carne é má e o espírito é bom, o que a carne fazia não interferia no espírito. Existiam até mesmo aqueles que afirmavam que o pecado não existia. João, para combater isso, mostra qual deve ser o procedimento do crente diante do pecado.

Primeiro, ele deixa claro que aceitar o ensino de que o pecado não existe ou de que ele não interfere na alma é um engano. Aceitar essa doutrina é ser enganado pelos falsos mestres e por si mesmo. Em segundo lugar, quem aceita tal ensino, é evidência de não foi convencido pela verdade. 

A seguir, João, começa, mais especificamente, demonstrar qual deve ser a relação do crente com o pecado. O crente deve confessar o pecado. Confessar significa admitir, concordar com o que Deus fala a nosso respeito – que somos pecadores. Uma vez feito isso, João diz que Deus é “fiel é justo para nos perdoar e nos purificar de toda injustiça” (v.9). Ser fiel significa ser confiável. Deus fez uma aliança na qual Ele sempre perdoará os que verdadeiramente se arrependem. 

Além de Deus ser fiel, Ele é também justo. Isso tem ligação com a morte de Cristo pelos nossos pecados. Jesus recebeu a culpa pelos nossos pecados e por isso morreu na cruz. Sendo assim, Deus não nos condenará e nos limpará porque nossa culpa foi paga por Jesus. 

Deus é fiel e justo para nos perdoar e nos purificar de toda a injustiça. Perdoar significa que Deus manda para longe de nós os nossos pecados (Mq 7.19). Purificar de toda injustiça significa que ele remove as manchas e as consequências (perdição) do pecado da vida do crente.

Por fim, João encerra com a seguinte advertência: Se dissermos que não temos pecado, fazemos Deus mentiroso. A Bíblia deixa claro que o homem é um ser caído. Negar isso é negar esse diagnóstico de Deus. Isso é o mesmo que fazê-lo mentiroso. Negar a realidade do pecado é a evidência de que não houve transformação pela palavra.

Qual é o significado desse ensino pra nós?

a. É uma pena que há aqueles que afirmam que não se pode falar muito de pecado na igreja, pois isso poderá assustar os visitantes. Deixar de falar do pecado é o mesmo que pregar a palavra pela metade. Somente é possível falar da graça de Deus, quando isso é feito à luz da realidade do pecado.

b. É uma pena que muitos tem abandonado a confissão de pecados de suas liturgias. Esse momento tem como objetivo confrontar o homem com seu pecado, fazê-lo refletir e, ao mesmo tempo levá-lo à esperança de perdão por meio de Cristo.

c. O perdão de Deus é garantido para os crentes. Isso porque Deus é fiel é justo. Portanto, ao se arrepender dos pecados e ao confessá-lo, ninguém precisa sentir que foi perdoado. É preciso entender que Deus é fiel ao que prometeu, e ele não pode falhar. 

d. A promessa do perdão não deve ser desculpa para pecar. Paulo escreveu: “Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós o que para ele morremos”? (Rm 6.1,2) Augustus Nicodemus afirma: O perdão prometido por Deus através da confissão não é um encorajamento para continuarmos a pecar. A manifestação do perdão e a graça de Deus visa uma vida sem pecado. Quem abusa da confissão como válvula de escape para o pecado, com certeza nunca foi realmente perdoado por Deus e está se enganando.

Conclusão
Todo cristão deve entender o sentido bíblico de comunhão e de sua relação com o pecado. A comunhão somente é possível por meio da fidelidade à sã doutrina e através da consciência do pecado. Da mesma forma, o homem diante de seu pecado, deve confessá-lo na esperança de receber o perdão do Senhor.

Que Deus nos conduza para sermos fiéis ao Evangelho e para que sejamos conscientes de nossa miséria. Sem tais coisas, a igreja (instituição) pode ser reduzida apenas a um ajuntamento religioso ou a um clube cujos únicos objetivo serão programações de distração e sessões para massagear o ego.

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Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Possui Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013.

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