Sociais

1 João: A ordem para o julgamento (14)


Este sermão pertence a uma série.

1 João 4.1-6

Há um ditado que diz: “O mau ouvinte é responsável por aquilo que ouve”. Isso ensina o princípio de que a responsabilidade em relação àquilo que se prega é tanto de quem ensina quanto de quem é ensinado. O apóstolo João estava preocupado com isso e demonstra tal preocupação nestes versículos. 


Como já foi dito, as igrejas da Ásia estavam sofrendo com ensinos que poderiam comprometer a saúde espiritual. João, nessa passagem, deixa claro que o julgamento das mensagens tem grande importância na vida da igreja para a preservação da saúde doutrinária. Dos v. 1 a 6, o apóstolo mostra os porquês da necessidade de julgar o que se ouve. 

1. O julgamento é necessário porque os falsos mestres saíram da igreja (v.1). 
“Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora”. 

Dois elementos importantes nesse texto antes de mostramos o primeiro porquê do julgamento da mensagem. Primeiro, a construção no grego nos conduz à conclusão de que algumas pessoas das igrejas estavam começando a acreditar na mensagem daqueles falsos profetas. Segundo elemento, o julgamento é uma ordem – Provai. Assim como um metalúrgico deve testar a qualidade do metal através do fogo, a igreja deve testar a mensagem pregada. 

Neste primeiro ponto, João deixa claro o motivo pelo qual os cristãos deveriam estar atentos para o ensino daqueles homens. Os falsos mestres eram pregadores que haviam saído das igrejas e estavam propagando uma mensagem perigosa (2.19). 

Por isso João os chama de falsos profetas. Eram falsos profetas porque nem foram enviados por Deus e nem a mensagem pregada por eles era da parte de Deus. Qual é a relevância de tais palavras para a igreja nos dias de hoje? Apontamos algumas:

1. Esteja atento, pois ninguém, ainda que pertença a uma igreja histórica e de confissão bíblica, está isento de ser seduzido por tantos ensinos que têm sido disseminados por aí. Diante disso, a responsabilidade de cada um é se aprofundar no conhecimento da Escritura para não ser seduzido por heresias. 

2. Não se iluda com carisma e com a retórica. Seu referencial tem que ser o histórico e os frutos da pessoa que você está ouvindo. Quem é ele? De que igreja ele é? Como essa igreja surgiu? São perguntas importantes a serem feitas e isso auxiliar na identificação - se é cristão genuíno ou falso profeta.

3. Muitos pregadores que estão na mídia passam-se por pastores, por embaixadores de Cristo, entretanto são falsos profetas. Não foram enviados por Deus, muito menos a mensagem que pregam vem de Deus. Diante de tal constatação, cabe aos cristãos fazerem oposição frontal a estes falsos profetas diante do mundo. Isso porque tais falsos profetas estão passando por nossos representantes. 

2. O julgamento é necessário por causa do conteúdo da mensagem (vv. 2,3)
“Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo”.

Outro ponto importante que justifica o motivo pelo qual deve se julgar a mensagem é exatamente o seu conteúdo. Os falsos mestres pregavam que a matéria é má e o espírito é bom, por isso, o Cristo jamais poderia se tornar humano. Negar a encarnação é negar o próprio Cristo e o próprio Deus. João afirma que essas pessoas estão agindo influenciados por Satanás. 

O mesmo que agirá no anticristo, aquele que virá para fazer guerra contra o povo de Deus. Porém, se por um lado, o anticristo ainda virá, Satanás, por outro lado, já está agindo no mundo. O teólogo Matthew Henry afirma que o grande anticristo do final dos tempos está tendo o seu caminho preparado por anticristos menores. 

Quais são as implicações de tais orientações para a igreja de hoje?

1. Não se iluda com a pregação que fale de Deus ou de Cristo. Se ela se opõe frontalmente às verdades do Evangelho, então ela é procedente do Diabo, cujo objetivo é tão somente enganar. 

2. Não se iluda com o carisma, além do histórico e dos frutos os quais falamos acima, o conteúdo deve ser considerado o mais importante. Por mais carismático que seja o pregador e por mais que seja um orador excepcional, se o conteúdo se opõe às verdades do Evangelho, esse pregador tanto quanto sua mensagem devem ser rejeitados. Neste caso, você está diante de um anticristo.

3. O julgamento é necessário por causa da procedência dos falsos mestres (vv. 4,6) 
“Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido os falsos profetas, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Eles procedem do mundo; por essa razão, falam da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro”. 

Finalmente, João faz um contraste entre os cristãos verdadeiros e os falsos mestres. Este contraste determina a procedência de cada deles. Os cristãos são de Deus porque confessam Jesus encarnado e o Espírito do Senhor habita neles. Por serem guiados pelo Espírito Santo, os cristãos não são enganados (v. 4). 

Por outro lado, os falsos mestres são do mundo. Mundo aqui, se refere ao sistema corrompido de valores (v.4). João mostra que por serem do mundo, o mundo os ouve (v.5). Isso mostra o sucesso daqueles homens em conquistar discípulos. 

O mundo sem Deus se identifica com a mensagem de um falso mestre, por isso ele é atraído por tal mensagem. Uma mensagem inspirada por Satanás atrai mentes mundanas. Em contrapartida, esse mesmo mundo sem Deus resiste à mensagem do Evangelho (v.6). 

Esse, portanto, é outro motivo apresentado por João para julgar a mensagem pregada – a procedência do pregador – o mundo. Naturalmente, essas advertências têm implicações para nossos dias.

1. Aprendemos aqui uma importante lição sobre batalha espiritual. Para se vencer o diabo não é necessário marchas pela cidade, óleos ungidos, águas milagrosas e todo tipo de absurdo que tem sido criado. Mas a vitória sobre o Diabo se caracteriza por rejeitar qualquer ensino que não seja bíblico e obedecer os mandamentos do Senhor. E o Espírito que em nós habita, nos habilita para isso.

2. Não se iluda com as multidões que são arrastadas por certos “pregadores”. O referencial que devemos adotar não é sucesso deles, mas o conteúdo da pregação. Se ela não for bíblica, essa é a razão pela qual atraí tantas pessoas. O mundo sem Cristo não quer ser confrontado, antes deseja apenas ouvir aquilo que lhe agrada.

Conclusão
Ser cristão não significa ser ingênuo. Portanto, não somos obrigados a acreditar em tudo o que ouvimos. Devemos julgar – isso é uma ordem. E devemos julgar porque os falsos mestres saíram da igreja e de certa forma a representam. 

Devemos julgar a mensagem por causa do conteúdo. Finalmente, devemos julgar a mensagem considerando a procedência dos falsos mestres – mundo. Entendamos que isso não é opcional, mas uma responsabilidade de cada cristão. Por fim, entendamos que “Jesus morreu para remover os seus pecados e não sua inteligência” (Augustus Nicodemus).

------------------------------------
Carlos Eduardo Pereira de Souza  é pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Formou-se em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul em 2003 e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2012. Mestrado em Divindade com concentração no Novo Testamento pelo Centro de Pós Graduação Andrew Jumper em 2013. Pós-graduando em docência do ensino superior, pela Universidade Paulista.

Google Plus