O Reino Dividido e a Geopolítica: Uma Análise dos Motivos e Consequências da Ruptura – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

Texto básico: 1 Reis 12

A história da humanidade é marcada por conflitos. Nos últimos séculos, o planeta testemunhou golpes militares, guerrilhas, tensões geopolíticas e guerras mundiais. 

A lista é longa e as razões por trás das guerras nem sempre são claras, variando desde a deposição de ditadores e a expansão de territórios até a tentativa de provar uma suposta supremacia racial.

No caso de Israel, os motivos que levaram à divisão da nação são claramente apresentados no texto sagrado. Vamos analisar quais foram esses motivos e as consequências que trouxeram para o povo de Deus.

1. OS MOTIVOS DA DIVISÃO

A. Instabilidade Política

Com o reinado de Salomão, Israel atingiu o seu auge. Nunca antes em sua história a nação havia alcançado tamanha prosperidade. As fronteiras do reino foram expandidas, os inimigos subjugados e grandes projetos foram realizados. 

A prosperidade do reino, descrita em 1 Reis 4:20-28, incluía um povo numeroso, vivendo com alegria, domínio sobre as nações vizinhas, vasto suprimento para a corte, paz em todas as fronteiras, segurança e um grande poderio militar.

Como um reino tão próspero pôde chegar ao ponto de se dividir? A resposta está no alto preço que o povo pagou por essas vantagens. Vários fatores levaram o reino a essa instabilidade política.

1. Trabalhos forçados: Havia muitos escravos estrangeiros no reino (1 Reis 9:15). Embora Salomão não tenha escravizado nenhum israelita (1 Reis 9:22; 2 Crônicas 8:9), ele os submeteu a trabalhos forçados (1 Reis 4:6). Trinta mil homens foram convocados à força para a construção do templo (1 Reis 5:13), além de setenta mil carregadores e oitenta mil mineradores (1 Reis 5:15).

2. Impostos pesados: Para garantir a paz, era necessário manter um caro sistema militar e fortalecer as fronteiras. Além disso, havia o desenvolvimento de grandiosos projetos arquitetônicos. Esse cenário sobrecarregou o povo com pesados impostos (1 Reis 12:4,11).

3. Falta de justiça: A arrecadação de impostos e suprimentos era feita por um sistema de doze intendentes, cada um responsável por uma região. Cada região supria a corte de Israel durante um mês por ano (1 Reis 4:7, 22-23, 27-28). Curiosamente, não vemos intendentes sobre a região de Judá, o que pode indicar um privilégio concedido por Salomão à sua própria tribo.

Por tudo isso, após a morte de Salomão, um sentimento de alívio e expectativa se espalhou. O clamor por liberdade se transformou em um plano para pressionar o novo rei, Roboão (2 Crônicas 10:2-3).

Foi assim que Jeroboão, um oficial de Salomão que estava exilado no Egito, foi chamado para liderar uma comitiva e pedir ao novo rei um alívio da carga de trabalho e dos impostos.

B. Conselheiros Ímpios (vs. 6-11)

Um versículo do nosso texto básico resume o clamor do povo oprimido:

1 Reis 12:4
"Teu pai fez pesado o nosso jugo; agora, pois, alivia tu a dura servidão de teu pai e o seu pesado jugo que nos impôs, e nós te serviremos."

Roboão dispensou o povo por três dias e foi se aconselhar, primeiro com os anciãos experientes que viveram com Salomão e, depois, com seus amigos de infância. O que cada grupo aconselhou?

1. O conselho dos anciãos: O texto informa que eles "estiveram na presença de Salomão", provavelmente como seus conselheiros. Com grande sabedoria, os anciãos recomendaram que Roboão fosse humilde. Se ele se tornasse um servo do povo, um rei que os ajudasse, o povo se submeteria a ele com prazer (v. 7). O conselho dos idosos era muito relevante, mas foi totalmente ignorado por Roboão.

2. O conselho dos jovens: Talvez filhos de Salomão ou de outros nobres que cresceram com Roboão, eles o aconselharam a intimidar o povo: “Meu dedo mínimo é mais grosso do que os lombos de meu pai. Assim, se meu pai vos impôs jugo pesado, eu ainda vo-lo aumentarei; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões” (1 Reis 12:10-11). O termo "escorpiões" se refere a um tipo de chicote com farpas na ponta.

Roboão deu ouvidos ao conselho imprudente dos jovens, e isso foi fatal. Ele não atentou para as palavras do salmista: "Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios..." (Salmo 1:1). Os jovens erraram ao dar esse conselho, mas a responsabilidade de aceitá-lo foi de Roboão.

C. O Cumprimento da Profecia

O resultado da decisão de Roboão já era esperado, considerando a profecia da época de Salomão:

1 Reis 11:11
“Visto que assim procedeste e não guardaste a minha aliança, nem os meus estatutos que te mandei, tirarei de ti este reino e o darei a teu servo.”

O pecado da idolatria de Salomão não ficaria sem consequências (1 Reis 11:1-13).

Nosso texto aponta para a soberania de Deus como a causa final por trás da situação:

1 Reis 12:15
“O rei, pois, não deu ouvidos ao povo; porque este acontecimento vinha do SENHOR, para confirmar a palavra que o SENHOR tinha dito por intermédio de Aías, o silonita, a Jeroboão, filho de Nebate.”

Jeroboão é proclamado o novo rei de Israel, e o reino se divide. As tribos de Judá e Benjamim seguem Roboão (formando o Reino do Sul), enquanto as outras dez tribos seguem Jeroboão (formando o Reino do Norte).

Roboão ainda tentou reaver o poder à força, enviando Adorão para conter a revolta, mas ele foi apedrejado e morto, e Roboão teve que fugir. Frustrado, Roboão reuniu um exército de 180 mil homens, mas Deus não permitiu a guerra, reafirmando sua soberania: “...cada um volte para sua casa, porque eu é que fiz isto” (v. 24).

2. CONSEQUÊNCIAS DESASTROSAS

A. Conflitos entre o Reino do Norte e o do Sul

Por causa dessa divisão, durante quase toda a existência dos dois reinos, um clima de tensão constante se instaurou entre eles, mesmo nos intervalos das guerras declaradas.

O próprio Roboão guerreou contra Jeroboão (1 Reis 14:30), e o rei Abias, seu filho, chegou a matar meio milhão de soldados de Israel (2 Crônicas 13:17). Uma breve trégua ocorreu quando Acabe (rei de Israel) e Josafá (rei de Judá) fizeram uma aliança familiar (2 Crônicas 18:1).

B. Enfraquecimento de Ambos

Por causa dessas disputas constantes, ambos os reinos foram fragilizados, permitindo que fossem seriamente atingidos por reinos inimigos vizinhos. Judá foi invadida por Sisaque, rei do Egito, que levou todos os tesouros do templo de Jerusalém e do palácio real (1 Reis 14:25-26).

C. Idolatria

A divisão do reino trouxe um grande problema para Jeroboão: a religião. Como a vida religiosa das doze tribos girava em torno do templo em Jerusalém, era muito provável que seu reino fosse ameaçado pela lealdade religiosa de seus súditos.

Por isso, ele construiu um novo centro de adoração e mandou esculpir dois bezerros de ouro para servirem como deuses para Israel (1 Reis 12:25-33).

Como medida preventiva, os levitas foram expulsos do território de Israel para Judá (2 Crônicas 11:14). Nem mesmo a grande derrota militar para o rei Abias convenceu o Reino do Norte a se arrepender de seus pecados (2 Crônicas 13:8-11). No entanto, nem todos em Israel caíram na idolatria; os fiéis migraram para Judá (2 Crônicas 15:9).

Enquanto Israel nunca mais voltou a ser fiel a Deus até sua destruição pela Assíria, Judá alternou entre momentos de fidelidade e idolatria. Roboão, por exemplo, “fez o que era mau perante o SENHOR”, provocando o zelo de Deus com seus pecados, que foram piores que os de seus antepassados (1 Reis 14:22-24).

CONCLUSÃO

O episódio da divisão do reino aponta para a soberania de Deus sobre todas as coisas. Sua ação disciplinar tem sempre o objetivo de purificar e santificar seu povo.

Como diz o autor de Hebreus: “É para disciplina que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige?” (Hebreus 12:7). Diante dessa perspectiva, devemos andar de forma justa na presença do Senhor.

APLICAÇÃO

Talvez, assim como aconteceu em Israel, um processo de destruição esteja se instalando em sua vida ou na vida de sua família por causa do pecado. Com humildade, peça a Deus sabedoria e perdão. Procure viver a santidade da Palavra de Deus e obedecer-lhe em todas as coisas.

Autor: FERNANDO DE ALMEIDA


Lista de estudos da série

1. Rei Saul e a Liderança Fracassada: Como o Poder sem Caráter Destrói uma Nação – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

2. Rei Davi e o Pastor Guerreiro: De Anônimo a Chefe de Estado – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

3. Rei Salomão e a Sabedoria: O Auge Econômico e o Perigo da Corrupção pelo Luxo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

4. Rei Roboão e a Crise Fiscal: Quando a Opressão Estatal e Impostos Altos Dividem o Império – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

5. O Reino Dividido e a Geopolítica: Uma Análise dos Motivos e Consequências da Ruptura – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

6. Israel e Judá em Guerra Fria: A História de um Conflito Fratricida – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

7. Rei Jeroboão e a Religião de Estado: Usando a Fé como Manipulação Política para Manter o Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

8. Rei Abias e a Guerra Civil: O Conflito Sangrento nas Fronteiras e a Vitória pela Fé – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

9. Rei Asa e a Reforma Nacional: Limpeza Institucional e o Erro das Alianças Estrangeiras – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

10. Rei Josafá e a Estratégia de Estado: O Poder da Educação Nacional e o Perigo das Coligações Políticas – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

11. Rei Acabe e a Tirania: O Confisco de Propriedade Privada e o Abuso de Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

12. Rei Jeú e o Golpe Militar: O Banho de Sangue para Derrubar uma Dinastia Corrupta – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

13. Rei Joás e a Influência Política: Ascensão, Tutela Sacerdotal e Queda de um Governo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

14. Rei Uzias e o Orgulho Militar: Quando o Sucesso Tecnológico e Bélico Leva à Ruína – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

15. Rei Acaz e o Pragmatismo: Alianças Perigosas com Superpotências e o Declínio Moral – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

16. Rei Ezequias e o Colapso Iminente: Fé para Enfrentar a Guerra Mundial e a Doença Mortal – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

17. Rei Manassés e a Reviravolta: Do Totalitarismo Sanguinário ao Arrependimento no Cativeiro – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

18. Rei Josias e a Constituição Divina: A Reforma Radical Baseada no Livro da Lei – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

19. Reis Jeoacaz, Jeoaquim e Zedequias: O Colapso Final e a Perda da Soberania Nacional – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

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