Texto básico: 1 Reis 12:1-11
Filho de Salomão e Naamá (1 Reis 14:31), uma de suas muitas mulheres, Roboão era o sucessor legal de seu pai. Após a morte de Salomão, Roboão foi a Siquém, onde todo o Israel se reuniu para proclamá-lo rei (1 Reis 12:1).
É fácil imaginar como a educação de Roboão na corte de seu pai foi deficiente, não apenas pelos maus exemplos que eram comuns, mas também pela influência prejudicial de sua mãe, uma amonita, e sua prática persistente de idolatria.
A) A INSENSATEZ NO GOVERNO
1. O peso do reinado de Salomão
Para manter o luxo de sua corte, Salomão aumentou os impostos sobre o povo, tornando a vida diária pesada para eles (1 Reis 12:4).
Ao orientar o povo sobre a escolha de um futuro rei, Deus, através de Moisés, instruiu que não escolhessem um estrangeiro, mas alguém dentre os filhos de Israel.
Esse rei não deveria multiplicar cavalos, mulheres ou riquezas para si (Deuteronômio 17:14-17). No entanto, qualquer rei teria direitos legítimos que o povo deveria reconhecer e respeitar (1 Samuel 8:9-18).
2. O apelo do povo a Roboão
Salomão, mais do que qualquer outro rei, multiplicou cavalos, mulheres e riquezas, tornando-se um fardo pesado para o povo. Quando Salomão morreu, o povo viu uma oportunidade de diminuir a carga de impostos, apelando a seu sucessor.
Roboão, que sucedeu seu pai, revelou-se completamente incapaz e profundamente insensato no governo. Com uma inteligência limitada e muito orgulhoso, ele se mostrou irresponsável no exercício de suas funções administrativas.
Ele ignorou o conselho de homens experientes, que haviam assessorado seu pai, para seguir as sugestões imprudentes dos jovens de sua convivência.
Aliás, os próprios erros de Salomão no fim de seu governo mostram que nem mesmo ele dava atenção à prudência aconselhada por seus sábios auxiliares.
3. A resposta dura de Roboão
Roboão era tão pouco inteligente que nem sequer soube fingir interesse pelo povo. Sua resposta aos filhos de Israel foi dura e cruel, revelando o claro propósito de oprimi-los ainda mais. Ele disse:
1 Reis 12:11
“Se meu pai vos impôs jugo pesado, eu ainda vo-lo aumentarei; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões.”
Quando começou a reinar, Roboão tinha quarenta e um anos (1 Reis 14:21). Se não era uma criança em idade, era na falta de amadurecimento psicológico, em sua mentalidade imatura e no espírito vingativo que demonstrou.
Este estranho procedimento de Roboão, contudo, estava nos planos de Deus. Este fato, no entanto, não o isenta da responsabilidade que lhe cabia pelo desmantelamento do reino unido de Salomão (1 Reis 12:15; 2 Crônicas 10:15).
B) A DIVISÃO DO REINO
1. A rebelião das tribos
A consequência natural da atitude de Roboão era inevitável: o povo se rebelou contra medidas tão extremas.
Lideradas por Jeroboão — que ocupara um cargo importante no reino de Salomão e fugira para o Egito para escapar da morte (1 Reis 11:26-28,40) — dez tribos se rebelaram, dividindo o Reino de Israel em dois.
A tribo de Judá e parte de Benjamim permaneceram sob o governo de Roboão, no Sul, enquanto as outras dez tribos formaram o Reino do Norte. Roboão, que não soube evitar a divisão, tentou reunir o reino sob seu comando, enviando Adorão às dez tribos.
No entanto, o povo, revoltado, apedrejou Adorão até a morte. Roboão conseguiu fugir para Jerusalém (1 Reis 12:18; 2 Crônicas 10:18).
2. A idolatria em Judá
Durante os primeiros três anos de seu reinado em Judá, Roboão não praticou a idolatria (2 Crônicas 11:17). Contudo, logo depois, Judá "fez o que era mau aos olhos do Senhor, edificando altos, estátuas, colunas e postes-ídolos no alto de todos os elevados outeiros, e debaixo de todas as árvores verdes" (1 Reis 14:23-24).
Como herdeiro de uma mentalidade profundamente idólatra, era inevitável que Roboão a manifestasse em seu governo. Ele não podia oferecer a Judá uma estrutura religiosa que ele mesmo não possuía.
Servir a um Deus exigente como o de Israel não era fácil nem agradável para quem estava acostumado a servir divindades feitas à imagem e semelhança dos homens.
3. O juízo através de Sisaque
1 Reis 14:25-26
"No quinto ano do rei Roboão, Sisaque, rei do Egito, subiu contra Jerusalém, e tomou os tesouros da casa do Senhor e os tesouros da casa do rei; tomou tudo. Também levou todos os escudos de ouro que Salomão tinha feito." (Ver também 2 Crônicas 12:2-4).
O profeta Semaías explicou a Roboão e aos príncipes de Judá a razão da invasão: “Assim diz o Senhor: Vós me deixastes a mim, pelo que eu também vos deixei no poder de Sisaque” (2 Crônicas 12:5).
Diante do arrependimento de Roboão, Deus não permitiu que Sisaque os destruísse, mas disse: “Porém, serão seus servos, para que conheçam a diferença entre a minha servidão e a servidão dos reinos da terra” (2 Crônicas 12:8).
O rei e os príncipes que não quiseram se submeter às exigências de um Deus justo teriam agora de se submeter às exigências de homens injustos. Esse é o resultado da idolatria.
C) A INFELICIDADE DO POVO
1. A crueldade da idolatria
Conduzido pelos descaminhos de uma idolatria grosseira, o povo de Israel sofreu terríveis reveses. A idolatria, seja qual for sua natureza, degrada e desumaniza aqueles que a praticam.
Quando a divindade cultuada é do tipo de Moloque, deus dos amonitas, essa degradação assume características verdadeiramente selvagens. Essa divindade é conhecida por vários nomes: Milcom (1 Reis 11:5,33), Malcã (Jeremias 49:1-3) e Moloque (Levítico 18:21; 20:1-5).
A infidelidade e o mau exemplo de Salomão, que no fim de seu governo construiu um altar a Moloque, estimularam a idolatria em seu filho Roboão, levando-o a difundir entre o povo o culto odioso a essa divindade.
2. O sacrifício de crianças
Vários textos bíblicos falam sobre a infidelidade e a crueldade dos filhos de Israel, que chegaram a sacrificar seus próprios filhos a essa e outras divindades pagãs (Salmo 106:37-38; Jeremias 7:31; Ezequiel 16:21). Acaz, um rei profundamente ímpio, queimou seus filhos como sacrifício (2 Crônicas 28:1-4). Manassés fez o mesmo, sacrificando pelo menos um de seus filhos (2 Reis 21:6).
Historiadores descrevem a estátua de Moloque como sendo oca, feita de latão e com os braços estendidos.
O fogo era colocado em seu interior e, quando a estátua ficava incandescente, uma criança era colocada em seus braços, onde morria queimada. É uma prática chocante e cruel, e parece incrível que os israelitas tenham se entregado a ela.
3. As consequências sociais da idolatria
A idolatria em Israel, que se tornou oficial no governo decadente de Salomão e se generalizou nos governos seguintes, inevitavelmente refletiu-se na organização social e na estrutura política do povo. O obscurecimento espiritual de uma nação sempre afeta todas as áreas da vida.
A vida econômica também é atingida pelo desmantelamento da vida espiritual. Como a economia condiciona o bem-estar da sociedade, os desmandos econômicos não são a causa, mas a consequência das injustiças sociais.
Um povo que teme a Deus — o Deus revelado em Jesus Cristo — é servo de Deus e, como tal, não é dono de sua própria economia, mas a administra como um mordomo fiel.
A degradação espiritual leva o ser humano a perder a noção de próximo, como na parábola do bom samaritano, e a inverter os valores reais da vida.
CONCLUSÃO
Este estudo nos mostra a grande responsabilidade que os governantes têm. Se Roboão temesse a Deus e lhe fosse fiel, teria conservado unido o reino que herdou de seu pai.
Teria impedido o avanço da idolatria, não só pelo seu exemplo, mas por meio de medidas que lembrassem ao povo os fatos testemunhados por seus antepassados.
A autoridade existe para governar e dirigir, não para ser governada ou dirigida. Daí sua grande influência sobre os governados.
Essa influência pode ser boa e construtiva, ou má e negativa, como ocorreu com Roboão. Ou o povo cresce e se fortalece com seus governantes, ou se atrofia e se corrompe.
Lista de estudos da série
1. Rei Saul e a Liderança Fracassada: Como o Poder sem Caráter Destrói uma Nação – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
2. Rei Davi e o Pastor Guerreiro: De Anônimo a Chefe de Estado – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
3. Rei Salomão e a Sabedoria: O Auge Econômico e o Perigo da Corrupção pelo Luxo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
4. Rei Roboão e a Crise Fiscal: Quando a Opressão Estatal e Impostos Altos Dividem o Império – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
5. O Reino Dividido e a Geopolítica: Uma Análise dos Motivos e Consequências da Ruptura – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
6. Israel e Judá em Guerra Fria: A História de um Conflito Fratricida – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
7. Rei Jeroboão e a Religião de Estado: Usando a Fé como Manipulação Política para Manter o Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
8. Rei Abias e a Guerra Civil: O Conflito Sangrento nas Fronteiras e a Vitória pela Fé – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
9. Rei Asa e a Reforma Nacional: Limpeza Institucional e o Erro das Alianças Estrangeiras – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
10. Rei Josafá e a Estratégia de Estado: O Poder da Educação Nacional e o Perigo das Coligações Políticas – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
11. Rei Acabe e a Tirania: O Confisco de Propriedade Privada e o Abuso de Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
12. Rei Jeú e o Golpe Militar: O Banho de Sangue para Derrubar uma Dinastia Corrupta – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
13. Rei Joás e a Influência Política: Ascensão, Tutela Sacerdotal e Queda de um Governo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
14. Rei Uzias e o Orgulho Militar: Quando o Sucesso Tecnológico e Bélico Leva à Ruína – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
15. Rei Acaz e o Pragmatismo: Alianças Perigosas com Superpotências e o Declínio Moral – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
16. Rei Ezequias e o Colapso Iminente: Fé para Enfrentar a Guerra Mundial e a Doença Mortal – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
17. Rei Manassés e a Reviravolta: Do Totalitarismo Sanguinário ao Arrependimento no Cativeiro – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
18. Rei Josias e a Constituição Divina: A Reforma Radical Baseada no Livro da Lei – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
19. Reis Jeoacaz, Jeoaquim e Zedequias: O Colapso Final e a Perda da Soberania Nacional – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel
