Rei Acabe e a Tirania: O Confisco de Propriedade Privada e o Abuso de Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

Texto básico: 1 Reis 21:1-11

Quando se perde o temor de Deus, a razão se torna incapaz de ajudar o ser humano a controlar seus instintos descontrolados. 

O homem que não teme a Deus perde a afeição natural, como descreveu o apóstolo Paulo em Romanos 1:31.

Acabe, como veremos neste estudo, não temia a Deus e, por isso, praticou atos terríveis que ofenderam a Deus, no plano espiritual, e ao próximo, no plano social.

A) O MAU CASAMENTO DE ACABE

1. O caráter influenciável de Acabe

Ao lermos os textos bíblicos que falam sobre Acabe, notamos que ele era um homem de caráter fraco, facilmente influenciado por qualquer pessoa que tivesse alguma autoridade sobre ele. 

Se ele tivesse se casado com uma mulher que temesse a Deus, sua história certamente teria sido diferente. Assim como Jezabel o influenciou para o mal, uma mulher temente a Deus poderia tê-lo influenciado para o bem.

A influência da esposa sobre o marido é um fato inegável:

Provérbios 14:1
“A mulher sábia edifica a sua casa, mas a insensata, com as próprias mãos a derruba.”

2. A influência de Jezabel

Quem era a mulher de Acabe? Ela se chamava Jezabel e era filha de Etbaal, rei dos sidônios, um povo fenício. Onri, pai de Acabe, havia começado a fazer alianças com nações estrangeiras. Ao se casar com Jezabel, Acabe fortaleceu a aliança que seu pai iniciara com Etbaal.

O texto que registra a união de Acabe com Jezabel (1 Reis 16:29-34) sugere que todos os pecados que Acabe cometeu seguindo os caminhos de seu pai foram poucos em comparação com as consequências desse casamento. 

O problema não estava no casamento em si, mas nas profundas implicações que ele traria para o rei e para todo o povo.

3. O governo de Jezabel

O governo de Israel, na prática, foi exercido por Jezabel. Ela exterminou os profetas do Senhor (1 Reis 18:4) e sustentava 450 profetas de Baal e 400 profetas do poste-ídolo (1 Reis 18:19).

Em vez de agir como rei de Israel, Acabe agia como um servo de sua esposa idólatra, sendo muitas vezes um mero executor de suas ordens. Quando o profeta Elias, no monte Carmelo, exterminou os profetas de Baal (1 Reis 18:40), Acabe relatou o fato a sua esposa (1 Reis 19:1). 

Indignada, ela moveu uma perseguição cruel contra Elias, sem que o rei tomasse qualquer medida para proteger o servo de Deus, cujo poder ele mesmo havia presenciado. Jezabel mandava e desmandava no governo, com o aplauso do infiel rei Acabe.

B) ACABE E A VINHA DE NABOTE

1. O desejo de Acabe

A perversidade, a prepotência e a arbitrariedade de Jezabel se manifestam de forma clara no caso da vinha de Nabote. Este incidente também mostra a total influência que Jezabel tinha sobre seu marido. Acabe desejou a vinha de Nabote, que ficava ao lado de seu palácio em Jezreel (1 Reis 21:1).

Embora Acabe tivesse oferecido a Nabote outra vinha ou dinheiro por sua propriedade, Nabote recusou, alegando razões de herança. Ele disse ao rei:

1 Reis 21:3
"Guarde-me o Senhor de que eu dê a herança de meus pais."

Desgostoso e indignado, Acabe foi para casa e, como um menino contrariado, “deitou-se na sua cama, voltou o rosto e não comeu pão” (1 Reis 21:4).

2. A conspiração de Jezabel

Zombando do marido e ridicularizando sua autoridade, Jezabel, ao saber o motivo da tristeza de Acabe, perguntou: “Governas tu, com efeito, sobre Israel?” (1 Reis 21:7). Depois de dizer a Acabe para se animar, Jezabel afirmou: “Eu te darei a vinha de Nabote, o jezreelita” (1 Reis 21:7).

Ela não ia comprar a vinha nem trocá-la, pois Nabote, respeitando os princípios de herança, não podia dispor da propriedade. 

Para dar a vinha a seu marido, Jezabel tramou um plano perverso: acusou Nabote falsamente do crime de blasfemar contra Deus и contra o rei. Por este crime que não cometeu, Nabote foi apedrejado e morto. O incidente é narrado em 1 Reis 21:8-16.

3. A fraqueza de Acabe

Sendo filho de um povo com noções mais nobres de moral e religião, Acabe conhecia o Deus que se revelara aos patriarcas. 

Provavelmente, por conta própria, ele não teria tomado a vinha de Nabote. A Bíblia, já no Antigo Testamento, ensina o respeito à propriedade alheia. Nabote tinha o direito de se negar a vender sua herança.

Se Acabe desejasse a vinha para um serviço público que beneficiasse o Estado, ele, como autoridade constituída, teria o direito de desapropriá-la, pagando a devida indenização. O que ocorreu, porém, foi algo completamente diferente. Ele queria a vinha para si, para transformá-la em uma horta particular (1 Reis 21:2).

C) A PROPRIEDADE COMO DOM DE DEUS

1. O direito à propriedade

Já no Decálogo, os Dez Mandamentos (Êxodo 20:17 e Deuteronômio 5:21), vemos estabelecido o direito à propriedade privada legítima. 

O mandamento proíbe cobiçar a casa do próximo, sua mulher, seus servos, seus animais ou qualquer outra coisa que lhe pertença. A propriedade privada, portanto, é um direito legítimo que Deus conferiu ao homem.

No entanto, ao mesmo tempo em que estabelece esse direito, a Bíblia, especialmente o Novo Testamento, condena o abuso do poder econômico e a exploração que muitas vezes surgem a partir da propriedade.

2. A condenação da cobiça

No Antigo Testamento, Miqueias 2:2 não poupa aqueles que “cobiçam campos, e os arrebatam, e casas, e as tomam; assim fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa и à sua herança.” Habacuque 2:9 condena vigorosamente aquele que “ajunta em sua casa bens mal adquiridos, para pôr em lugar alto o seu ninho, a fim de livrar-se das garras do mal”.

No Novo Testamento, Jesus diz:

Lucas 12:15
“Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que possui.”

Entre os males que não devem ser nem mencionados entre os cristãos, Paulo coloca a avareza (Efésios 5:3).

3. A raiz da injustiça

O grande responsável pelas injustiças sociais é o próprio homem. Pecador e egoísta, o homem monopoliza as fontes de riqueza e, em vez de administrá-las para o bem comum, as usa em favor de si mesmo, sem se importar com os direitos legítimos de seus semelhantes. 

Em qualquer regime político, o ser humano sempre procura tirar vantagem para seus próprios interesses.

CONCLUSÃO

Em uma de suas cartas, o filósofo Sêneca, referindo-se à riqueza, diz: "Na verdade, que importa quanto tenha o homem em seus cofres ou celeiros, quantos rebanhos possua ou quanto lucro tenha, se anda a cobiçar as riquezas alheias e não leva em conta as coisas já adquiridas, mas vive a pensar naquelas que deseja adquirir?"

A ambição sem limites e a cobiça insaciável do ser humano são responsáveis pelas grandes injustiças que afligem a humanidade. Alienado de Deus, como diz o ditado, "o homem é o lobo do homem."


Lista de estudos da série

1. Rei Saul e a Liderança Fracassada: Como o Poder sem Caráter Destrói uma Nação – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

2. Rei Davi e o Pastor Guerreiro: De Anônimo a Chefe de Estado – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

3. Rei Salomão e a Sabedoria: O Auge Econômico e o Perigo da Corrupção pelo Luxo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

4. Rei Roboão e a Crise Fiscal: Quando a Opressão Estatal e Impostos Altos Dividem o Império – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

5. O Reino Dividido e a Geopolítica: Uma Análise dos Motivos e Consequências da Ruptura – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

6. Israel e Judá em Guerra Fria: A História de um Conflito Fratricida – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

7. Rei Jeroboão e a Religião de Estado: Usando a Fé como Manipulação Política para Manter o Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

8. Rei Abias e a Guerra Civil: O Conflito Sangrento nas Fronteiras e a Vitória pela Fé – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

9. Rei Asa e a Reforma Nacional: Limpeza Institucional e o Erro das Alianças Estrangeiras – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

10. Rei Josafá e a Estratégia de Estado: O Poder da Educação Nacional e o Perigo das Coligações Políticas – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

11. Rei Acabe e a Tirania: O Confisco de Propriedade Privada e o Abuso de Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

12. Rei Jeú e o Golpe Militar: O Banho de Sangue para Derrubar uma Dinastia Corrupta – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

13. Rei Joás e a Influência Política: Ascensão, Tutela Sacerdotal e Queda de um Governo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

14. Rei Uzias e o Orgulho Militar: Quando o Sucesso Tecnológico e Bélico Leva à Ruína – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

15. Rei Acaz e o Pragmatismo: Alianças Perigosas com Superpotências e o Declínio Moral – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

16. Rei Ezequias e o Colapso Iminente: Fé para Enfrentar a Guerra Mundial e a Doença Mortal – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

17. Rei Manassés e a Reviravolta: Do Totalitarismo Sanguinário ao Arrependimento no Cativeiro – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

18. Rei Josias e a Constituição Divina: A Reforma Radical Baseada no Livro da Lei – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

19. Reis Jeoacaz, Jeoaquim e Zedequias: O Colapso Final e a Perda da Soberania Nacional – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

Semeando Vida

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