Israel e Judá em Guerra Fria: A História de um Conflito Fratricida – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

Textos básicos: 1 Reis 12-16; 2 Reis 14-16

O apóstolo João afirma que o mundo está sob o poder do maligno. Ficamos assustados ao ver a corrupção na sociedade, mas é ainda mais terrível ver a igreja se corromper e permitir que o pecado a domine. Isso acontece quando a Palavra de Deus é deixada de lado.

Interesses políticos, econômicos e pessoais têm, muitas vezes, assumido a direção da vida de igrejas e crentes. O resultado desse desvio é passageiro e, por fim, mortal. Quando a vontade humana tomou o lugar da vontade divina em Israel, a monarquia caiu em confusão e se destruiu.

1. ROBOÃO: A CAUSA DA DIVISÃO DO REINO

A. Uma Resposta Maligna

Após a morte de Salomão, todo o povo se reuniu em Siquém para proclamar Roboão, seu filho, como rei sobre Israel. Jeroboão também estava presente e, junto com o povo, disse a Roboão:

1 Reis 12:4
“Teu pai fez pesado o nosso jugo; agora, pois, alivia tu a dura servidão de teu pai e o seu pesado jugo que nos impôs, e nós te serviremos.”

A ostentação de Salomão realmente custou muito caro ao povo, que chegou a ser submetido a trabalhos forçados. O pedido dos líderes de Israel era razoável e justo.

Roboão pediu três dias para pensar. Ele consultou os homens idosos que viveram com Salomão, homens experientes que testemunharam a sabedoria do antigo rei. 

Eles eram uma fonte segura de aconselhamento. Sua resposta reflete essa qualidade: lembraram a Roboão que, no reino de Deus, a liderança é serviço, não dominação (Marcos 10:42-45), e o aconselharam a atender ao povo para ganhar sua lealdade.

No entanto, Roboão não soube valorizar esse conselho. Talvez por ter crescido no luxo, ou por ter visto apenas a fase corrupta de seu pai, ou por estar mais preocupado em agradar seus amigos jovens. 

De qualquer forma, ele não conseguiu perceber o valor de servir ao próximo. Ao contrário de seu pai no início do governo, Roboão queria servir a si mesmo, e não ao povo.

Roboão então chamou os jovens que cresceram com ele e lhes pediu conselho. Não podemos atribuir pura maldade a esses jovens. 

Além de inexperientes, eles provavelmente estavam acostumados a concordar com o príncipe e podem ter temido contrariá-lo, sabendo que ele já havia rejeitado o conselho dos anciãos.

Eles responderam de acordo com o coração de Roboão: ele deveria afirmar sua autoridade e ameaçar o povo. Ele seria ainda mais rígido e cruel que seu pai Salomão.

Quando o povo retornou, Roboão lhes falou duramente, como os jovens recomendaram:

1 Reis 12:14
“Meu pai fez pesado o vosso jugo, porém eu ainda o agravarei; meu pai vos castigou com açoites; eu, porém, vos castigarei com escorpiões.”

Essas palavras revelam uma arrogância imprudente sobre quão mais opressivo seria seu governo. Essa atitude não era apenas um erro político; vinha também do fato de que Deus estava agindo para dividir o reino, como havia sido anunciado pelo profeta Aías (1 Reis 11:26-40).

Como diz Provérbios 15:1: “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira.”

B. Consequências do Abandono da Verdade

As consequências do pecado são terríveis. Quando as pessoas rejeitam a verdade, Deus as entrega aos desejos pecaminosos de seus corações e a uma mentalidade reprovável, permitindo que acreditem na mentira (Romanos 1:24, 28-31; 2 Tessalonicenses 2:9-12).

Devemos estar sempre alertas e sensíveis aos princípios da Palavra e aos conselhos daqueles que temem ao Senhor. Essa precaução nos torna sábios para a salvação (2 Timóteo 3:14-16).

A resposta de Roboão irritou os líderes das tribos. Eles rejeitaram o governo da casa de Davi e voltaram para suas casas. Constituíram Jeroboão como rei sobre Israel, e somente as tribos de Judá и Benjamim reconheceram Roboão.

Roboão reuniu seu exército para recuperar o controle, mas Deus o proibiu por meio do profeta Semaías. O Senhor havia determinado a divisão, e o povo não deveria contrariar Seus desígnios.

O reino de Roboão, ao sul, passou a ser chamado de Judá. O reino de Jeroboão, ao norte, foi chamado de Israel ou Efraim.

2. JEROBOÃO TAMBÉM SE AFASTA DO SENHOR

A. Novo Culto, Velhos Pecados (1Rs 12:25-33)

Jeroboão fez de Siquém sua nova capital. No entanto, ele temeu que, se o povo fosse adorar em Jerusalém, eles voltariam a ser leais a Roboão e o reino retornaria à casa de Davi.

Ele se aconselhou e decidiu fazer dois bezerros de ouro, colocando-os em Betel e em Dã — lugares sagrados do período dos patriarcas e juízes (Gênesis 35:1-15; Juízes 18:14-31). Ele proibiu os israelitas de irem a Jerusalém e afirmou que aqueles bezerros eram os deuses que os tiraram do Egito.

Com isso, Jeroboão repetiu o terrível pecado do povo de Israel no deserto. Ele também construiu santuários nos lugares altos e nomeou sacerdotes que não eram da tribo de Levi. Todos esses atos foram uma clara afronta ao Senhor.

Por razões políticas, Jeroboão criou um culto conforme sua própria vontade e, assim, desviou o povo de sua comunhão com Deus. Isso serve de alerta para que as práticas da igreja hoje sejam guiadas pela vontade de Deus, e não apenas por estratégias humanas para atrair ou manter pessoas.

B. Deus Rejeita o Culto de Jeroboão (1Rs 13:1-10)

Um profeta de Judá foi enviado para amaldiçoar o altar de Betel. Ele profetizou que um descendente de Davi, chamado Josias, profanaria e destruiria aquele altar (2 Reis 23:15-20). Como sinal, o altar se fendeu.

Ao ouvir isso, Jeroboão estendeu a mão para mandar prender o profeta, mas sua mão secou e ele não pôde recolhê-la. O rei pediu que o profeta orasse por ele, e sua mão foi restaurada.

Jeroboão ofereceu riquezas ao profeta, tentando suborná-lo para que apoiasse seu reino. Mas o profeta recusou, pois Deus o havia proibido de comer, beber ou ter qualquer contato naquela terra. 

Deus havia rejeitado completamente aquele reino. Jeroboão não abandonou seu mau caminho e, por isso, sua casa foi condenada à destruição.

C. Deus Rejeita a Casa de Jeroboão (1Rs 14:1-20)

Quando seu filho, Abias, adoeceu, Jeroboão mandou sua mulher se disfarçar e consultar o profeta Aías. O Senhor avisou Aías da visita. A mensagem do Senhor foi dura: Jeroboão foi escolhido por Deus, mas não guardou a aliança como Davi. 

Pelo contrário, fez outros deuses, provocando a ira do Senhor. Por isso, todos os homens da casa de Jeroboão seriam mortos, e sua descendência, eliminada. O sinal seria a morte do menino assim que sua mãe chegasse em casa.

De toda a família, somente o menino teria um sepultamento digno, pois Deus achou algo de bom nele. Deus já estava levantando um novo rei para destruir a casa de Jeroboão. Israel também seria ferido e espalhado por ter se afastado do Senhor.

3. DOIS REINOS DISTANTES DO SENHOR

Os livros de 1 e 2 Reis são repletos de informações cronológicas. O autor sincroniza os reinados dos reis de Judá e Israel e fornece detalhes sobre a idade de ascensão ao trono e o nome da mãe dos reis de Judá. 

Coordenar essas informações com registros extrabíblicos (assírios, babilônicos) é uma tarefa complexa, mas algumas datas-chave, como a queda de Israel (722 a.C.) e de Judá (586 a.C.), nos ajudam a estabelecer uma cronologia aproximada.

A. O Reino de Israel

A história de Israel após a divisão foi marcada por maldade, traições e assassinatos. O refrão constante era: “fez o que era mau perante o Senhor”. Foram 20 reis, de nove famílias diferentes, que, com altos e baixos, nunca retornaram a servir verdadeiramente ao Senhor.

Eles pecaram, adoraram outros deuses, seguiram os costumes das nações pagãs e cometeram atos que provocaram a ira do Senhor. Embora Deus os advertisse por meio dos profetas, eles não deram ouvidos e se tornaram ainda mais obstinados, chegando a sacrificar seus próprios filhos.

A busca pelo poder levou a uma série de golpes de estado sangrentos. Os reis que se sucediam eram maus e seguiam o caminho de Jeroboão. O destaque bíblico é para Acabe, que foi pior que todos os reis antes dele (1 Reis 16:29-34). 

Quem reinava, de fato, era sua esposa, Jezabel, filha do rei dos sidônios e adoradora de Baal. Ela perseguiu o profeta Elias, que, junto com seu sucessor Eliseu, marcou fortemente a presença de Deus em Israel.

Todos esses pecados e a constante apostasia levaram o Senhor a rejeitar o reino de Israel e destruí-lo. Em 722 a.C., Senaqueribe, rei da Assíria, invadiu Samaria e deportou seus habitantes. Sem o temor de Deus e sem identidade nacional, esse povo nunca mais retornou à sua terra.

B. O Reino de Judá

O reino de Judá não foi diferente. Roboão fez o que era mau, e o povo o seguiu na infidelidade (1 Reis 14:21-31). Por isso, Sisaque, rei do Egito, os atacou e levou os tesouros do Templo e do palácio.

A maioria dos reis de Judá, descendentes de Davi, também foi má. Mas, por amor a Davi e por fidelidade à sua promessa, Deus manteve sua descendência no trono, e alguns bons reis proporcionaram momentos de fidelidade. 

Dos 20 reis de Judá, apenas oito fizeram o que era reto perante o Senhor. Entre eles, destacam-se Josafá, Ezequias e Josias.

A maioria (12 de 20) foi má, seguindo a idolatria de Jeroboão. Acaz chegou a queimar seus filhos em sacrifício. Houve bons reis que pecaram no fim da vida, como Asa e Uzias, e reis maus que se arrependeram, como Manassés.

A Bíblia registra que mesmo os bons reis não conseguiram desviar completamente o povo de seus maus caminhos. 

Na ausência do Rei eterno, Judá também se desviou. Profetas como Isaías, Jeremias e Miqueias foram enviados para falar de juízo e restauração, mas o povo não ouviu. Por isso, seriam temporariamente retirados da terra.

A terra ficaria deserta por 70 anos. Depois, o povo voltaria, e Deus continuaria seu plano de redenção. Em 586 a.C., Nabucodonosor destruiu Jerusalém e o Templo, levando todo o povo para o exílio na Babilônia. Assim terminou a história do reino dividido de Israel.

CONCLUSÃO

A história do reino dividido é um claro exemplo da incapacidade humana de se manter nos caminhos de Deus por conta própria. Bênçãos e promessas não foram suficientes para garantir a fidelidade do povo. Muito menos a força e o poder humano puderam sustentar aqueles reinos.

Somente aqueles que atenderam à Palavra de Deus puderam se libertar da prisão do pecado. Ainda assim, na ausência do Rei Redentor, o povo se corrompeu até ser expulso da terra.

APLICAÇÃO

Nenhum reino, igreja ou família pode subsistir sem atender à Palavra de Deus. Que lugar a leitura e o estudo da Bíblia têm em sua vida? Que inovações têm sido introduzidas sem que Deus seja consultado? Em que direção você tem andado?

Autor: DÁRIO DE ARAÚJO CARDOSO


Lista de estudos da série

1. Rei Saul e a Liderança Fracassada: Como o Poder sem Caráter Destrói uma Nação – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

2. Rei Davi e o Pastor Guerreiro: De Anônimo a Chefe de Estado – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

3. Rei Salomão e a Sabedoria: O Auge Econômico e o Perigo da Corrupção pelo Luxo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

4. Rei Roboão e a Crise Fiscal: Quando a Opressão Estatal e Impostos Altos Dividem o Império – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

5. O Reino Dividido e a Geopolítica: Uma Análise dos Motivos e Consequências da Ruptura – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

6. Israel e Judá em Guerra Fria: A História de um Conflito Fratricida – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

7. Rei Jeroboão e a Religião de Estado: Usando a Fé como Manipulação Política para Manter o Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

8. Rei Abias e a Guerra Civil: O Conflito Sangrento nas Fronteiras e a Vitória pela Fé – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

9. Rei Asa e a Reforma Nacional: Limpeza Institucional e o Erro das Alianças Estrangeiras – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

10. Rei Josafá e a Estratégia de Estado: O Poder da Educação Nacional e o Perigo das Coligações Políticas – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

11. Rei Acabe e a Tirania: O Confisco de Propriedade Privada e o Abuso de Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

12. Rei Jeú e o Golpe Militar: O Banho de Sangue para Derrubar uma Dinastia Corrupta – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

13. Rei Joás e a Influência Política: Ascensão, Tutela Sacerdotal e Queda de um Governo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

14. Rei Uzias e o Orgulho Militar: Quando o Sucesso Tecnológico e Bélico Leva à Ruína – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

15. Rei Acaz e o Pragmatismo: Alianças Perigosas com Superpotências e o Declínio Moral – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

16. Rei Ezequias e o Colapso Iminente: Fé para Enfrentar a Guerra Mundial e a Doença Mortal – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

17. Rei Manassés e a Reviravolta: Do Totalitarismo Sanguinário ao Arrependimento no Cativeiro – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

18. Rei Josias e a Constituição Divina: A Reforma Radical Baseada no Livro da Lei – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

19. Reis Jeoacaz, Jeoaquim e Zedequias: O Colapso Final e a Perda da Soberania Nacional – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

Semeando Vida

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