Rei Davi e o Pastor Guerreiro: De Anônimo a Chefe de Estado – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

Textos básicos: 1 Samuel 16:6-13; 2 Samuel 5:1-5

Filho de Jessé, bisneto de Boaz e Rute (Rute 4:18-22; 1 Crônicas 2:10-12; Mateus 1:5), Davi era descendente da tribo de Judá e nasceu em Belém, provavelmente por volta de 1080 a.C. 

Ele foi escolhido por Deus e ungido rei de Israel durante o reinado de Saul, cujo governo já estava em declínio.

A natureza gentil e protetora de Boaz, assim como as virtudes de Rute, refletiram-se de forma notável no caráter de Davi. De acordo com 1 Samuel 18:1-7 e 2 Samuel 19:14, Davi era uma daquelas pessoas cujo caráter encantava desde o primeiro contato.

Como pastor de ovelhas, Davi desenvolveu o hábito da meditação e, em sua comunhão constante com Deus, aprendeu a extrair força e alegria para sua vida.

A) A TRIBO DE DAVI

1. A origem na tribo de Judá

Davi pertencia à tribo de Judá, que se originou de Judá, filho de Jacó e Lia (Gênesis 35:23). Apesar de seu bom caráter e formação, Judá também cometeu um pecado grave (Gênesis 38).

Quando seus irmãos, movidos por inveja, quiseram matar José, foi Judá quem os convenceu a não fazer isso, sugerindo que o vendessem aos ismaelitas (Gênesis 37:26-27).

Mais tarde, quando José, já como primeiro-ministro do Egito, fingiu que puniria seus irmãos (que ainda não o haviam reconhecido), foi Judá quem se ofereceu para ficar no lugar de Benjamim (Gênesis 44:33). Essas atitudes revelam, sem dúvida, seu bom caráter e a sólida formação de seu coração.

2. Uma tribo de homens valentes

Quando Moisés realizou o censo entre os israelitas, a tribo de Judá contava com cerca de 74.600 homens com vinte anos ou mais, aptos para a guerra (Números 1:26-27).

Calebe, um dos espias enviados para observar a terra, também era da tribo de Judá (Números 13:6).

Otoniel, um dos grandes juízes militares de Israel, também pertencia a essa tribo (Juízes 1:12-13 e 3:9).

A tribo de Judá era, portanto, uma tribo de homens valentes e dispostos a assumir grandes responsabilidades, que temiam a Deus e se dedicavam a levar adiante a Sua obra.

Embora pertencesse a uma família simples (1 Samuel 18:18-23 e 2 Samuel 7:18), Davi era herdeiro de virtudes e coragem que já haviam se manifestado muitas vezes em sua tribo. Conforme Atos 13:22, Davi era um homem segundo o coração de Deus.

3. O nascimento em Belém

Ao nascer em Belém, onde mais tarde nasceria Jesus, Davi, na providência de Deus, estabeleceu as bases concretas para as profecias que culminariam com o nascimento de Cristo, conforme pode ser visto em Isaías 11:1-10.

Alguém descreveu a personalidade de Davi da seguinte forma: 

"O comportamento excelente de Enoque e a fé triunfante de Abraão; a meditação de Isaque e a ousadia para lutar de Jacó; a paciência de José e seu talento como administrador; o patriotismo sublime de Moisés e sua genialidade; a energia guerreira de Josué; a coragem desafiadora de Gideão e o fervor santo de Samuel — tudo isso se encontrava, em grande medida, na personalidade de Davi".

De fato, à sua grandeza como rei, Davi somou as qualidades de um grande guerreiro e, ao seu talento poético, adicionou um profundo espírito religioso.

B) A VIDA DE DAVI

1. As cinco fases da vida de Davi

A vida de Davi pode ser dividida em cinco fases distintas:

  • a) Sua vida como pastor em Belém;
  • b) A fase que passou na corte de Saul, em Gibeá;
  • c) O período em que, perseguido, esteve no deserto de Judá e entre os filisteus;
  • d) A época em que esteve em Hebrom como rei de Judá;
  • e) Sua vida em Jerusalém, como rei de toda a nação.

Como pastor nas campinas de Belém, Davi acumulou experiências que, mais tarde, durante as dificuldades de seu governo, se refletiriam na beleza de muitos Salmos que ele compôs. No contato com a natureza, Davi aprendeu a ver e a cantar sobre o poder, a bondade e a glória de Deus.

Na batalha contra o gigante Golias, o campeão filisteu que humilhava Israel, Davi demonstrou não apenas um patriotismo saudável, mas, acima de tudo, uma profunda confiança no poder, na direção e no propósito de Deus (1 Samuel 17:45-51).

2. A fé e a humildade de Davi

A grande lição desse evento está na fé que Davi demonstrou ao se dispor a enfrentar aquele guerreiro valente e experiente. Sabendo que sua força vinha do Senhor, Davi não se exaltou, mas manteve sua humildade, como vemos nos Salmos 18:32, 28:7 e 68:28.

Ao se defender de Saul, que tentou matá-lo pelo menos cinco vezes (1 Samuel 19:1, 10, 15, 20, 23-24), Davi revelou uma nobreza de caráter excepcional e um profundo respeito pelas determinações de Deus.

Ao poupar a vida de Saul pela segunda vez, Davi explicou sua atitude:

1 Samuel 26:10
“Tão certo como vive o Senhor, este o ferirá, ou o seu dia chegará em que morra, ou em que, descendo à batalha, será morto.”

3. A perseguição e a providência divina

Durante as perseguições movidas por Saul, Davi exercitou não apenas suas qualidades de guerreiro, mas, principalmente, sua fé em Deus.

O mesmo Deus que ordenou a Samuel que o ungisse como sucessor de Saul, também providenciou oportunidades para que Davi demonstrasse o vigor de sua fé nas determinações divinas. Davi sabia que o governo de Israel chegaria às suas mãos, apesar de todos os obstáculos que Saul criava.

Colocado pela providência de Deus no caminho de Saul, Davi se tornou, sem querer, alvo do ódio e da inimizade do rei. No entanto, Davi não era inimigo de Saul.

Pelo contrário, Davi demonstrou estima e respeito pelo rei e seus filhos quando soube de suas mortes. Suas palavras incluem a famosa lamentação: “A tua glória, ó Israel, foi morta sobre os teus altos! Como caíram os teus valentes!” (2 Samuel 1:19). Veja também o contexto em 2 Samuel 1:1-16.

O Senhor o havia ungido para suceder a Saul e, através de tantas provações, o estava treinando para os difíceis desafios do governo de Israel.

C) DAVI COMO REI

1. O início do reinado em Hebrom e Jerusalém

Aos trinta anos, Davi iniciou seu governo como rei de Judá. Sua capital era a cidade de Hebrom, protegida por sua geografia e com um significado histórico ligado ao patriarca Abraão.

Ali, Davi governou Judá por sete anos e meio (2 Samuel 5:5). Depois de ser aclamado rei de todo o Israel e capturar Jerusalém, ele transferiu a sede do governo para lá, onde reinou por trinta e três anos.

O reinado de Davi durou, portanto, quarenta anos e meio. Jerusalém tornou-se, ao mesmo tempo, a capital civil e religiosa de Israel.

2. As conquistas e o grande pecado

Após derrotar os filisteus, Davi trouxe a Arca do Senhor para Jerusalém (2 Samuel 6:12-23).

Ele lutou contra moabitas, edomitas e sírios e, ao vencê-los, conseguiu dar a Israel, pela primeira vez, toda a terra que o Senhor havia prometido a Abraão (Gênesis 15:18). Davi também foi generoso com os descendentes de Saul (2 Samuel 9:1-13).

No auge de sua grandeza, quando sua fama se espalhava, Davi cometeu um pecado gravíssimo contra Deus ao adulterar com Bate-Seba e, em seguida, ordenar a morte de seu marido, Urias, para encobrir seu ato (2 Samuel 11:1-27).

Por meio do profeta Natã, Deus repreendeu Davi, dizendo:

2 Samuel 12:10
“Agora, pois, não se apartará a espada jamais da tua casa, porquanto me desprezaste, e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para ser tua mulher.”

Como consequência desse pecado, Davi não pôde edificar o templo do Senhor, e a paz se afastou de sua casa. É verdade que Deus o perdoou, mas ele sofreu as consequências de seu crime até o fim da vida.

3. O abuso de autoridade

Percebemos que, quando Deus concede poder a uma pessoa para governar, Ele não lhe dá o direito de abusar de sua autoridade para agir de forma arbitrária, movida por suas paixões ou caprichos.

O Novo Testamento ilumina o aspecto fundamental da autoridade governamental: a autoridade é serva de Deus para o bem (Romanos 13:1-7). Davi agiu de forma perversa, desprezando os princípios de justiça sobre os quais a verdadeira autoridade se baseia.

Situações parecidas já ocorreram em nosso país, e as consequências de atos injustos sempre aparecem. Assim como Davi, colhemos os frutos das injustiças que semeamos.

Como cidadãos e como cristãos, devemos estar vigilantes contra abusos que possam ser praticados por autoridades.

CONCLUSÃO

O cristão como indivíduo, e a igreja como comunidade, precisam exercer em nossos dias a função do profeta Natã.

Existem grandes riscos nesse tipo de ministério, mas é necessário realizá-lo. Para isso, no entanto, é preciso que o cristão e a igreja estejam revestidos do poder que somente o Espírito de Deus pode conceder.

Com coragem e firmeza, Natã repreendeu Davi em nome de Deus, denunciando sua ação criminosa.

O que Davi fez a Urias e sua esposa não se enquadrava no princípio da autoridade legítima atribuída ao rei; pelo contrário, manifestava um claro desrespeito do rei pela autoridade que ele mesmo representava.


Lista de estudos da série

1. Rei Saul e a Liderança Fracassada: Como o Poder sem Caráter Destrói uma Nação – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

2. Rei Davi e o Pastor Guerreiro: De Anônimo a Chefe de Estado – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

3. Rei Salomão e a Sabedoria: O Auge Econômico e o Perigo da Corrupção pelo Luxo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

4. Rei Roboão e a Crise Fiscal: Quando a Opressão Estatal e Impostos Altos Dividem o Império – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

5. O Reino Dividido e a Geopolítica: Uma Análise dos Motivos e Consequências da Ruptura – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

6. Israel e Judá em Guerra Fria: A História de um Conflito Fratricida – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

7. Rei Jeroboão e a Religião de Estado: Usando a Fé como Manipulação Política para Manter o Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

8. Rei Abias e a Guerra Civil: O Conflito Sangrento nas Fronteiras e a Vitória pela Fé – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

9. Rei Asa e a Reforma Nacional: Limpeza Institucional e o Erro das Alianças Estrangeiras – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

10. Rei Josafá e a Estratégia de Estado: O Poder da Educação Nacional e o Perigo das Coligações Políticas – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

11. Rei Acabe e a Tirania: O Confisco de Propriedade Privada e o Abuso de Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

12. Rei Jeú e o Golpe Militar: O Banho de Sangue para Derrubar uma Dinastia Corrupta – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

13. Rei Joás e a Influência Política: Ascensão, Tutela Sacerdotal e Queda de um Governo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

14. Rei Uzias e o Orgulho Militar: Quando o Sucesso Tecnológico e Bélico Leva à Ruína – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

15. Rei Acaz e o Pragmatismo: Alianças Perigosas com Superpotências e o Declínio Moral – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

16. Rei Ezequias e o Colapso Iminente: Fé para Enfrentar a Guerra Mundial e a Doença Mortal – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

17. Rei Manassés e a Reviravolta: Do Totalitarismo Sanguinário ao Arrependimento no Cativeiro – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

18. Rei Josias e a Constituição Divina: A Reforma Radical Baseada no Livro da Lei – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

19. Reis Jeoacaz, Jeoaquim e Zedequias: O Colapso Final e a Perda da Soberania Nacional – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

Semeando Vida

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