Rei Saul e a Liderança Fracassada: Como o Poder sem Caráter Destrói uma Nação – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

Texto básico: 1 Samuel 10:17-27

A história do povo de Israel começa com o patriarca Abraão, vivendo sob o governo direto de Deus. Nesse sistema, conhecido como teocracia, a nação viveu durante séculos.

Por meio de Moisés, Deus libertou o povo da escravidão no Egito e entregou a Lei, que se tornou a base de sua estrutura política, religiosa, social e econômica.

Através de Josué, sucessor de Moisés, Deus estabeleceu o povo na Terra Prometida. Após a morte de Josué, seguiu-se um longo período em que a nação viveu sob o regime dos juízes.

A) A MUDANÇA DE REGIME

1. Liderados pelos juízes militares

Liderados por juízes militares como Otoniel, Eúde, Débora (com Baraque), Gideão, Jefté e Sansão — homens que Deus levantou em diferentes épocas e circunstâncias — os israelitas conseguiram repelir os mesopotâmios, moabitas, cananeus, midianitas, amonitas e filisteus, que diversas vezes invadiram seu território.

Isso pode ser visto nos seguintes textos:

  • Juízes 3:7-11;
  • Juízes 3:15-31;
  • Juízes 4:4-16;
  • Juízes 6:11 a 8:35;
  • Juízes 11:1 a 12:7;
  • Juízes 13:1 a 16:31.

Apesar de o sistema de governo dos juízes ser bom para o povo de Israel, conforme as palavras do próprio Samuel em Gilgal (1 Samuel 12:1-25), eles insistiram em pedir um rei.

2. O ministério de Samuel

Com a morte de Samuel, o período de governo dos juízes em Israel chegou ao fim. No entanto, o ministério de Samuel foi tão rico e multifacetado que é difícil classificá-lo apenas como um juiz militar.

Samuel se diferenciava dos outros juízes até no uso de armas. Enquanto eles usavam lanças, adagas, espadas e até uma queixada de jumento, a principal arma de Samuel em suas batalhas pela justiça era a oração. Houve, contudo, uma ocasião em que ele usou uma arma de guerra (1 Samuel 15:32-35).

Nascido em um tempo de decadência espiritual em Israel, Samuel, por meio de seu ministério produtivo e de sua fidelidade a Deus, tornou-se uma fonte de segurança e inspiração para os israelitas. 

Ele governava com sabedoria e energia, residindo em Ramá, mas visitando frequentemente Betel, Gilgal e Mispá para exercer suas funções de juiz (1 Samuel 7:15-17).

3. O pedido por um rei

Já idoso, Samuel nomeou seus filhos, Joel e Abias, como juízes em Berseba. Infelizmente, eles não seguiram o exemplo do pai.

1 Samuel 8:3
“...seus filhos não andaram pelos caminhos dele; antes se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos e perverteram o direito.”

Esse comportamento serviu de base para o povo pedir a Samuel que lhes desse um rei (1 Samuel 8:5). Deus orientou Samuel a atender ao pedido, mas também ordenou que ele alertasse o povo sobre os sacrifícios e obrigações que um rei exigiria da nação (1 Samuel 8:11-18).

Fascinado pelo luxo e pela glória dos reis das nações vizinhas, o povo de Israel ouviu o aviso, mas não se importou com ele (1 Samuel 8:20). Assim, um rei lhes foi dado, e o regime de governo foi alterado.

B) SAUL, O PRIMEIRO REI DE ISRAEL

1. A escolha de Saul

Enquanto buscava as jumentas perdidas de seu pai, Saul, pela providência de Deus, recebeu um reino.

A descrição bíblica de Saul é muito positiva, apresentando-o como um jovem tão belo que não havia outro igual entre os israelitas; ele era mais alto que todos, dos ombros para cima (1 Samuel 9:2 e 10:23).

É fácil imaginá-lo cheio de energia, forte e decidido, correndo pelos montes e vales em busca dos animais. Também é fácil imaginá-lo surpreso com o destino que Samuel lhe revelou. Ungido por Samuel e escolhido pelo povo, Saul começou a governar Israel.

As campanhas militares lideradas por Saul como rei podem ser resumidas em sete: contra os amonitas, os filisteus, os moabitas e edomitas, os amalequitas, novamente os filisteus, contra Davi e, por fim, mais uma vez contra os filisteus.

2. A desobediência de Saul

Embora tenha começado bem seu governo, Saul se desviou das normas divinas que Samuel lhe havia transmitido em nome de Deus (1 Samuel 10:25 e Deuteronômio 17:18-19). Ele enveredou pelo caminho da insensatez e passou a agir contra as determinações divinas.

Ele usurpou as funções do profeta Samuel (1 Samuel 13:8-23) e, de forma imprudente, ofereceu sacrifício ao Senhor. Além disso, desobedeceu a Deus no que dizia respeito aos amalequitas, poupando aquilo que o Senhor havia ordenado destruir.

Repreendido por Samuel, Saul admitiu: “Pequei, pois transgredi o mandamento do Senhor e as tuas palavras; porque temi o povo e dei ouvidos à sua voz” (1 Samuel 15:24). Essa confissão de Saul revela a falsidade do famoso provérbio: “Vox populi, vox Dei” (“A voz do povo é a voz de Deus”).

3. A justificativa do erro

É importante notar que, ao tentar justificar suas ações, Saul disse a Samuel: “...porque o povo poupou o melhor das ovelhas e dos bois para sacrificar ao Senhor teu Deus” (1 Samuel 15:15,21).

Por que Saul não disse “para sacrificar ao Senhor nosso Deus”? Se ele ainda temesse a Deus, saberia que não é possível agradá-Lo com os frutos da desobediência.

Em 1 Samuel 15:22, vemos que o Senhor tem mais prazer na obediência à Sua palavra do que em sacrifícios e holocaustos, especialmente quando estes são oferecidos com os resultados da desobediência. Isso é reforçado em passagens como Salmos 50:8-10, Provérbios 21:3 e Isaías 1:11,16-17.

C) O FRACASSO DE SAUL

1. O medo e o desespero

Ao se afastar de Deus por sua desobediência, Saul começou a usar meios questionáveis para escapar das consequências de seus atos. Ao ver os filisteus acampados em Suném, “Saul foi tomado de medo, e muito se estremeceu o seu coração” (1 Samuel 28:5).

Ele consultou o Senhor, mas não obteve resposta, nem por sonhos, nem pelo Urim, nem por profetas (1 Samuel 28:6).

O que o levou a buscar o Senhor não foi o amor ou o arrependimento, mas o medo dos filisteus. Saul sabia que era culpado, e isso lhe tirava a paz e a segurança.

Em vez de se arrepender sinceramente, Saul recorreu a uma atitude que comprometeu ainda mais sua posição diante de Deus: ele foi, disfarçado, consultar uma médium em En-Dor.

2. A consulta à médium e a morte

A Bíblia não nega a existência da mediunidade, mas a condena severamente (Levítico 20:27; Deuteronômio 18:9-14; 1 Samuel 28:3b). Saul, que em nome de Deus havia expulsado os médiuns da terra, agora, em desespero, buscava a ajuda de um deles. Que resultado esse recurso poderia trazer? Nenhum de bom.

Essa atitude serviu apenas para selar definitivamente sua derrota. Conforme Isaías 8:19, a consulta à médium de En-Dor não mudou em nada seu destino. Cercado pelos filisteus em Gilboa, Saul tirou a própria vida para não ser capturado e humilhado por eles.

No entanto, a humilhação que ele temia em vida recaiu sobre todo o Israel quando seus restos mortais e os de seus filhos foram expostos no muro de Bete-Seã (1 Samuel 31:10). As armas de Saul foram colocadas no templo de Astarote. Foi a humilhação do povo refletida na infidelidade de seu rei.

3. Um fim trágico

Quando uma pessoa íntegra enfrenta uma morte trágica e injusta, seu legado pode ser fortalecido. No entanto, quando alguém se desvia por meio de suas próprias escolhas, uma morte trágica não redime suas ações. Conforme disse Agostinho, o que faz o mártir não é a morte, mas a causa pela qual ele morre.

É muito raro que uma pessoa desmoralizada por seus próprios excessos tenha uma morte honrosa, embora possa acontecer.

Saul poderia ter tido um fim como mártir, mas, em vez disso, tomou um caminho de desgoverno, extrapolando suas funções e desobedecendo a Deus. Seu coração se afastou do Senhor, e desejos estranhos passaram a controlá-lo.

Assim, com o coração endurecido, Saul insistiu em seu mau caminho e, de fracasso em fracasso, bebeu o cálice amargo da derrota final. Foi um triste fim para um rei que tinha todas as condições para ser vitorioso em sua vida.

CONCLUSÃO

Isso tudo nos mostra objetivamente que, embora o sistema de governo seja importante para uma nação, não é ele que determina, em última análise, a felicidade e a grandeza do povo.

Um sistema de governo pode ser o melhor possível, mas se as pessoas responsáveis por sua implementação não forem leais aos seus princípios, a excelência do sistema não adiantará nada.

Israel teve momentos bons e ruins tanto no governo teocrático, sob Moisés e Josué, quanto no regime dos juízes e durante o reinado de Saul.

O que fazia Israel prosperar, nos três sistemas de governo, era sua obediência a Deus e às diretrizes de justiça que o Senhor estabeleceu. O que o levava ao fracasso era sua desobediência. Como dizia Cícero, matar o monarca não é eliminar a monarquia.

Em outras palavras: mudar o sistema de governo não significa, necessariamente, melhorar as pessoas.


Lista de estudos da série

1. Rei Saul e a Liderança Fracassada: Como o Poder sem Caráter Destrói uma Nação – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

2. Rei Davi e o Pastor Guerreiro: De Anônimo a Chefe de Estado – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

3. Rei Salomão e a Sabedoria: O Auge Econômico e o Perigo da Corrupção pelo Luxo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

4. Rei Roboão e a Crise Fiscal: Quando a Opressão Estatal e Impostos Altos Dividem o Império – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

5. O Reino Dividido e a Geopolítica: Uma Análise dos Motivos e Consequências da Ruptura – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

6. Israel e Judá em Guerra Fria: A História de um Conflito Fratricida – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

7. Rei Jeroboão e a Religião de Estado: Usando a Fé como Manipulação Política para Manter o Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

8. Rei Abias e a Guerra Civil: O Conflito Sangrento nas Fronteiras e a Vitória pela Fé – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

9. Rei Asa e a Reforma Nacional: Limpeza Institucional e o Erro das Alianças Estrangeiras – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

10. Rei Josafá e a Estratégia de Estado: O Poder da Educação Nacional e o Perigo das Coligações Políticas – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

11. Rei Acabe e a Tirania: O Confisco de Propriedade Privada e o Abuso de Poder – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

12. Rei Jeú e o Golpe Militar: O Banho de Sangue para Derrubar uma Dinastia Corrupta – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

13. Rei Joás e a Influência Política: Ascensão, Tutela Sacerdotal e Queda de um Governo – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

14. Rei Uzias e o Orgulho Militar: Quando o Sucesso Tecnológico e Bélico Leva à Ruína – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

15. Rei Acaz e o Pragmatismo: Alianças Perigosas com Superpotências e o Declínio Moral – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

16. Rei Ezequias e o Colapso Iminente: Fé para Enfrentar a Guerra Mundial e a Doença Mortal – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

17. Rei Manassés e a Reviravolta: Do Totalitarismo Sanguinário ao Arrependimento no Cativeiro – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

18. Rei Josias e a Constituição Divina: A Reforma Radical Baseada no Livro da Lei – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

19. Reis Jeoacaz, Jeoaquim e Zedequias: O Colapso Final e a Perda da Soberania Nacional – Estudo Bíblico sobre os reis de Israel

Semeando Vida

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