Por que Jesus quebrou as regras para nos dar vida nova - Estudo Bíblico sobre Marcos 2 e 3


Marcos 2.18-22; 3.1-6

Temos no estudo de hoje uma excelente oportunidade para compreender de uma vez por todas a relação que existe entre o cristão e a lei. 

Através da história da igreja têm surgido verdadeiras aberrações, entre as quais, estas: 

  • Num extremo, há os que exigem dos cristãos a observância de leis passageiras que a própria Bíblia declara que foram abolidas (exemplo: quanto à alimentação, ver 1 Co 10.23-32; 1 Tm 4.3); 
  • No outro extremo há aqueles que afirmam que os cristãos não estão obrigados a cumprir nenhuma lei da Bíblia, porque a justificação é pela fé (ver, porém, Mt 5.19; Ef 2.8-10; Tg 2.14-19).

No decurso da história, os que negavam qualquer grau de obrigatoriedade da lei para os cristãos, receberam o nome de antinomianos, que quer dizer contrários à lei.

É notável que no Novo Testamento os malfeitores, iníquos e transgressores são chamados ánomoi, que literalmente quer dizer sem lei. São os fora da lei. Ver Mc 15.28; At 2.23; 1 Tm 1.9.

Também é importante observar que "o homem da iniquidade" de que fala Paulo em 2 Ts 2.3 é literalmente "o homem da anomia", "o homem sem lei".

Tudo isso põe em relevo a importância do assunto desta lição.

1. BANQUETE OU JEJUM?

(Mc 2.18)

Jesus estava participando de um banquete que Mateus (Levi) Lhe oferecera, assunto da lição anterior (Mc 2.15-17; Lc 5.29). Participavam com Ele da mesa os Seus discípulos e muitos "publicanos e pecadores" que tinham resolvido segui-lo.

Enquanto eles estavam no festivo e agradável ambiente do banquete na casa de Mateus, João Batista curtia a prisão, no cárcere de Maquereus (ou Maqueros) e seus discípulos jejuavam.

No Velho Testamento o jejum era praticado em ocasiões de calamidade, perigo e tristeza. No Novo Testamento as referências a jejum também estão relacionadas com situações difíceis e pesarosas. 

Menos na referência à prática do jejum imposta pela norma dos fariseus. Jejuavam duas vezes por semana, tornando-se naturalmente uma prática habitual e rotineira. 

Mesmo assim, muitos procuravam ligar o jejum à ideia de tristeza, como se pode facilmente inferir da recomendação de Jesus registrada em Mt 6.16-18.

Na mesma ocasião do banquete na casa de Mateus, "os discípulos de João e os fariseus estavam jejuando". 

Pelas palavras de Jesus em Mc 2.19,20, pode-se concluir que os discípulos de João Batista não estavam jejuando apenas para cumprir uma exigência da tradição dos judeus. Jejuavam porque o seu caro mestre estava no cárcere, por ordem de Herodes (Lc 3.18-20).

A atitude dos discípulos de Jesus, não jejuando com os discípulos de João e com os fariseus, causou estranheza, e "alguns" foram ter com Jesus para pedir explicação. Era de fato de chamar a atenção o pouco caso dos discípulos de Jesus por certas práticas religiosas tradicionais dos judeus.

2. CARÁTER TRANSFORMADO

(Mc 2.19-22)

Aqueles procedimentos tão diferentes - banquete de uns e jejum de outros - e a pergunta que certamente incluía uma censura, "Por que... os teus discípulos não jejuam?", deram oportunidade a Jesus para ensinar verdades importantes sobre a vida religiosa. 

E, como frequentemente fazia, ensinou essas verdades por meio de três ilustrações, três parábolas pequeninas: a dos convidados, a do remendo de pano novo em veste velha e a do vinho novo em odres velhos. Vejamo-las:

a. Ilustração dos convidados. Os convidados para a festa de casamento só tinham que manter-se alegres enquanto o noivo estivesse presente.

Assim também os discípulos de Jesus. Só tinham que manter-se alegres enquanto desfrutavam da presença do seu amado Mestre e Senhor. Jejuar, como? 

O jejum era sinal de tristeza. Chegaria o dia em que Jesus seria tirado do meio deles, e eles se encheriam de tristeza. 

E para eles - como para os que confiamos em Jesus e O amamos - não pode haver maior tristeza do que a de estarem separados de Jesus. Então eles teriam motivo para jejuar. Nenhuma prática cerimonial seria necessária para produzir essa tristeza. Nem tampouco seria capaz disso.

Além disso, o jejum não era uma imposição da lei. Era voluntário. Os discípulos de Jesus podiam estar irritando os que jejuavam, mas não estavam transgredindo a lei do Senhor.

Se simplesmente imitassem os religiosos da época, como demonstrar a superioridade do cristianismo sobre o judaísmo? Por isso mesmo Jesus foi adiante com o Seu ensino.

b. A ilustração do remendo de pano novo em veste velha. A superior resistência do pano novo forçaria demais a resistência já enfraquecida do tecido muito usado. Assim também o tecido novo do cristianismo não podia servir de remendo para a velha roupagem do judaísmo, tão dominado pelo farisaísmo.

Cristo não veio para remendar os defeitos do judaísmo legalista e farisaico. Veio recuperar as glórias da Lei Moral dada por Deus mediante Moisés, e as glórias das promessas dadas pelo Senhor mediante os profetas. Mais que isso: veio cumprir a lei e as profecias. 

Veio para satisfazer as exigências da lei e da justiça de Deus, e veio para cumprir a promessa de redenção.

c. A ilustração do vinho novo em odres velhos. O odre era um vasilhame fabricado com pele de cabrito. A fabricação garantia grande durabilidade. Mas acontecia o seguinte: a pele do animal durante algum tempo conservava certa elasticidade. 

A fermentação do vinho novo provocava dilatação, suportada pela elasticidade do odre novo. Já não acontecia isso quando se colocava vinho novo num odre velho. Não tendo elasticidade, rompia-se o odre, em consequência da fermentação do vinho.

Assim, os odres velhos e ressequidos do judaísmo não poderiam resistir à vigorosa e dinâmica "fermentação" do Evangelho.

Aplicava-se a lição destas duas parábolas ao judaísmo em relação ao cristianismo, e se aplica hoje: não se deve recorrer à religião apenas como recurso para reformas superficiais e externas. Também não se deve usar parcialmente a religião cristã sem eliminar práticas, conceitos e crenças interiormente aceitos.

Tudo isto se resume nesta verdade: o que atesta a veracidade da fé e da religiosidade é a transformação profunda e completa do caráter. Somente quando há esta reforma radical é que a observância externa de normas e práticas cerimoniais tem real valor.

3. VIDA BENÉFICA

(Mc 3.1-6)

Jesus curou um homem que tinha uma das mãos ressequida - a mão direita, segundo o registro do médico Lucas (Lc 6.6). Deu-se o fato na sinagoga, que Jesus costumava frequentar (Lc 4.16), e num sábado. Esta circunstância é que dá um interesse especial ao fato, propiciando a Jesus mais uma oportunidade de corrigir erros e ministrar ensinamentos positivos.

Notemos na passagem estes pontos:

a. A atitude dos inquisidores presentes. Esses inquisidores eram escribas e fariseus. Se você duvida, leia Mc 2.16,24; 3.6; Mt 12.2,14; Lc 6.7. O grande defeito dos inquisidores é que ficam com ideias fixas sobre a guarda da letra da lei, a ponto de ficarem cegos para as belezas da verdade e da graça e insensíveis face ao sofrimento alheio. 

Se essa estreiteza já é grave quando eles ficam presos à letra da lei de Deus, quanto mais quando ficam presos a leis e tradições humanas - que eles acabam pondo acima da lei de Deus!

Às vezes a cegueira é tanta, que os inquisidores acabam contrariando as suas próprias regras, como aconteceu no caso que estamos estudando, como veremos adiante.

Por isso tudo, os escribas e fariseus estavam na sinagoga, não para adorar a Deus, nem para estudar a Palavra de Deus, nem para aproveitar a presença do Mestre para receber os Seus ensinamentos - e muito menos para exercer misericórdia. Estavam ali para ver se Jesus ia quebrar uma das regras deles, se Jesus ia fazer curas no sábado. Vigiavam-no para acusá-lo.

b. A atitude do homem deficiente. Inteiramente passiva, submissa, mansa e obediente. Note-se o tremendo contraste entre a situação dele com relação aos fariseus e com relação a Jesus. 

Os fariseus, insensíveis, só viam naquele homem um instrumento que poderia facilitar-lhes a acusação que queriam lançar contra Jesus. Jesus viu nele alguém que precisava do Seu socorro. E o homem necessitado aguardou calado os acontecimentos.

c. A atitude de Jesus. Interessou-se pelo bem-estar do homem necessitado e o curou; reagiu à estreiteza dos fariseus, baseando-se em regras deles mesmos. 

Por quê? 

Havia regras contraditórias, ditadas pela mais rigorosa escola de rabinos, tão do gosto daqueles escribas e fariseus. Havia, por exemplo, esta contradição: Uma regra proibia realizar cura de enfermos no dia de sábado. 

Outra regra dizia: "Aquele que deixa de salvar a vida de alguém por negligência, é réu de morte". Esta regra era extensão até às últimas consequências deste belo preceito dos judeus: "Aquele que negligenciar preservar a vida, tendo em suas mãos este poder, é um assassino".

Jesus fez uma aplicação singela destes princípios, (e, segundo Mateus, utilizou uma ilustração objetiva), perguntando aos fariseus: "É lícito nos sábados fazer bem ou fazer mal? salvar a vida ou tirá-la?" Calaram-se. Por que se calaram? Por duas razões fortíssimas:

  • - Sentiram a força do argumento de Jesus, apoiado nos próprios preceitos dos Judeus;
  • - Eles próprios estavam ali com intenção assassina; queriam acusá-lo e levá-lo à morte. Como ficaram sem poder acusá-lo ali, retiraram-se e "conspiravam contra ele, em como lhe tirariam a vida".

d. A lição de como viver bem. Não se trata aqui de viver bem no sentido do usufruto egocêntrico de uma vida cômoda. Trata-se de viver de maneira benéfica, benfazeja, como instrumentos nas mãos de Deus para beneficiar outras vidas. 

Não há restrições para a prática do bem. Sejamos, pois, amigos do bem (Tt 1.8), "não nos cansemos de fazer o bem ... enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos..." (Gl 6.9,10). Fazer o mal não é lícito nunca; fazer o bem é lícito - e preciso, e desejável - sempre.

CONCLUSÃO

Vimos no estudo de hoje o perigo de pessoas religiosas ficarem limitadas a exterioridades sem fundamento na vida interior da fé, e de ficarem presas a regrinhas que às vezes nem fundamento bíblico têm, vindo essas pessoas a tornar-se verdadeiras negações na vida espiritual e no testemunho pessoal. Mas, nesta mesma lição, Jesus mostra vividamente o caminho que devemos seguir, e como devemos agir.

Autor Original: Erasmo Braga (1928)
Adaptação: Odayr Olivetti (1985)

Semeando Vida

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