Como cinco pães e dois peixes revelaram o segredo da provisão divina - Estudo Bíblico sobre Marcos 6


Marcos 6.31-44

Existem dois fenômenos que, pelo excesso, assumem proporções de casos patológicos, anomalias, enfermidades.  

O primeiro deles tem os nomes técnicos de bulimia e cinorexia, e é vulgarmente denominado fome canina. Este nome já é suficientemente descritivo do mal a que me refiro. A pessoa sente fome voraz e insaciável.

O outro fenômeno é o da inapetência, que a medicina chama de disorexia e anorexia. É falta de apetite.

A lição de hoje, por incrível que pareça à primeira vista, trata desses dois fenômenos. Sim, porque fala de multidões famintas de pão e doutras bênçãos materiais, terrenais, ou seja, padecendo de cinorexia física. 

E fala das mesmas multidões como apresentando inapetência para com o pão da vida, para com as bênçãos espirituais - multidões padecendo de anorexia espiritual.

Acima disso, porém, refulge o amor compassivo de Jesus - Sua compaixão pelos seres humanos em suas necessidades físicas e espirituais.

Estudemos o assunto, dividindo-o em alguns pontos importantes.

1. A MULTIDÃO FAMINTA E OS APÓSTOLOS FATIGADOS

(Mc 6.31-36)

a. Os apóstolos tinham regressado da missão que Jesus lhes dera (vers. 30). Estavam em Cafarnaum, e o movimento era tal, que não tinham tempo nem para comer. Podemos imaginar como as pessoas estavam entusiasmadas com as coisas que estavam acontecendo. 

Eram muitos "os que iam e vinham" - movidos pela curiosidade, ou pelo desejo de ouvir o Mestre, ou Lhe trazendo enfermos para serem curados por Ele.

b. Com tudo isso, os apóstolos estavam cansados e com fome. Jesus não descuidou disso. Ofereceu-lhes oportunidade para descanso em lugar distanciado, nas vizinhanças de Betsaida (Lc 9.10). "Então foram sós no barco para um lugar solitário" (Mc 6.32).

c. Mas o povo não lhes deu descanso. Enquanto Jesus e Seus discípulos navegavam nas águas do mar da Galiléia, a multidão foi a pé, pela margem do lago. 

A cidade de Cafarnaum fica na margem oeste do lago, ao norte. Seguindo a margem para o norte e depois para leste, atravessa-se o rio Jordão para encontrar Betsaida, no vale do Jordão, a leste. 

Embora a cidade mesma fique no lado leste do mar da Galiléia, o seu território abrange parte dos dois lados. Jesus saiu com os discípulos, procurando localizar um local solitário, e desembarcou um pouco ao norte, no lado oeste.

Note que, depois, Marcos informa que eles foram para o outro lado, isto é, foram para o lado leste, à cidade de Betsaida, indo aportar em Genesaré. Confira as seguintes passagens: Mc 6.32; Lc 9.10; Mc 6.45,53).

d. Voltemos ao "lugar solitário" e vejamos o que aconteceu. Quando desembarcaram, eis ali à espera deles uma grande multidão. Em vez de repreendê-la, porque não permitira o repousante retiro que Jesus buscava para os apóstolos, Jesus teve compaixão, "porque eram como ovelhas que não têm pastor" (Mc 6.34).

Ovelhas sem pastor! Que comparação vívida! Ovelhas sem a direção, a disciplina, a segurança e o cuidado amoroso de um pastor capaz e zeloso! Jesus teve compaixão daquelas ovelhas aturdidas, e, deixando o repouso para outra ocasião, "passou a ensinar-lhes muitas cousas".

E não parecem ovelhas sem pastor as multidões desarvoradas que pululam ao nosso redor? Qual a nossa atitude para com elas?

e. Foi passando o tempo e a tarde já chegava. Os discípulos ficaram preocupados. Como alimentar toda aquela gente? Estavam num lugar deserto. 

Não que não houvesse vegetação; havia. Ainda mais que estavam na primavera, e estava próxima a páscoa, festa da primavera. Note Mc 6.39 ("relva verde") e Jo 6.4 (proximidade da páscoa).

O lugar era deserto no sentido de estar longe da cidade e de não haver povoados ou habitações ali. Por isso os apóstolos deram uma sugestão razoável: Que a multidão fosse despedida antes da chegada da noite. Então as pessoas poderiam comprar alimento nos sítios e nas aldeias que encontrassem pelo caminho.

Os apóstolos tiveram amorosa preocupação pelo bem-estar da multidão. Faltou-lhes o exercício da fé. Eles, que tantas coisas tinham visto acontecer milagrosamente!

2. O AMOR COMPASSIVO E ONIPOTENTE DE JESUS

(Mc 6.37-44)

a. É possível dar-se o caso de uma pessoa chorar, com o coração enternecido e transbordando de misericórdia diante de cenas de miséria e sofrimento no cinema ou no teatro e, contudo, não dar a mínima atenção a sofredores em sua vizinhança! 

Como também pode acontecer que uma pessoa fique realmente comovida, e cheia de dó diante do sofrimento alheio, sem nada fazer para amenizá-lo.

b. Com Jesus Cristo não aconteceu nem uma coisa, nem outra. O sofrimento que Ele viu foi concreto, foi real, não foi uma representação teatral; e a compaixão que sentiu não foi passageira, nem foi inativa.

c. Jesus não se satisfez com a sugestão dos discípulos: despedir oportunamente o povo para que este procurasse alimento. Não seria um ato propriamente impiedoso. Se não houvesse outro recurso, estaria bem.

Mas os discípulos poderiam contar com os recursos da fé; e Jesus dispunha dos recursos inesgotáveis da onipotência divina e do Seu amor infinito. 

E os utilizou. Tomou as providências cabíveis e, utilizando-se da única provisão alimentar encontrada, multiplicou pães e peixes e saciou a fome de cinco mil homens, além de mulheres e crianças (Mt 14.21).

Glorioso Senhor, Salvador e Pastor é Jesus Cristo! Como é grandioso o Seu poder e imenso o Seu amor! Quantos tiveram disso experiência no passado! Quantos o têm experimentado no presente!

Bendito aquele que crê no Senhor Jesus Cristo! Ainda que os montes se abalem e o mundo desmorone, ele conta com a mão poderosa e benigna do Pastor divino, a conduzi-lo, a consolá-lo, a fortalecê-lo e, por fim, a travessar com ele o vale da sombra da morte, a introduzi-lo na Jerusalém celestial!

3. COLABORADORES DE JESUS

(Mc 6.37,38,41)

a. Jesus precisava de colaboradores? Precisava de ajudantes Aquele por meio de quem foi feito o universo? Aquele que dominou temporais, dominou demônios, venceu o tentador e comunicou vida a mortos?

Precisar mesmo, não precisava. Mas Ele valorizava as pessoas e as suas possibilidades de ação e de prestação de serviços. Por isso, Aquele que alimentou milhares dispondo apenas de uns pães e uns peixes, utilizou-se de coisas e do serviço de pessoas.

b. O primeiro, Jesus desafiou à fé os discípulos com esta ordem: "Dai-lhes vós mesmos de comer" (37). Era um desafio à fé obediente, como o que Deus fez a Moisés quando o povo de Israel ficou preso entre o mar e o exército egípcio: "Dize aos filhos de Israel que marchem" (Êx 14.15). - Como foi pobre a reação dos discípulos! Pensaram que Jesus sugeria que comprassem alimento para o povo!

c. Depois, Jesus procurou obter qualquer provisão que porventura alguém tivesse (38). A pergunta foi dirigida aos discípulos. Eles investigaram, e voltaram com cinco pães e dois peixes.

d. Jesus estabeleceu um método racional de trabalho. Ordenou que a multidão se dividisse em grupos de cem e de cinquenta, e que se assentassem sobre a relva (39,40).

e. Até aqui, eram coisas que as pessoas podiam fazer. E Jesus exigiu que as fizessem. Agora, porém, é o momento do grande desafio: Como alimentar milhares de pessoas com cinco pães e dois peixes?

Os homens não poderiam fazê-lo. Jesus o fez. Orou, e partiu os pães. Outra vez ordenou aos discípulos que os distribuíssem. E todos comeram. Não um pouquinho cada um, mas o bastante para saciar a fome (41,42).

f. Finalmente, Jesus valorizou ainda algo que muitos desprezam: as sobras (43). Até as coisas e as pessoas geralmente consideradas desprezíveis Deus valoriza, transforma, dignifica e utiliza em Seu reino. Leia 1 Co 1.26-31.

CONCLUSÃO

Jesus interessou-se pelas necessidades temporais e pelas necessidades espirituais dos homens. - Como nós também devemos interessar-nos.

Jesus deu valor prioritário imprescindível à solução espiritual, às necessidades espirituais dos seres humanos. Leia o texto central (Jo 6.35). Medite igualmente nesta exortação aos que foram alimentados miraculosamente:

João 6:26-27
... Em verdade, em verdade vos digo: Vós me procurais não porque viestes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo.

Autor Original: Erasmo Braga (1928)
Adaptação: Odayr Olivetti (1985)

Semeando Vida

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