O princípio divino que anula a religiosidade vazia - Estudo Bíblico sobre Marcos 7


Marcos 7.1-13

"Faça o que eu digo mas não faça o que faço" é um ditado popular com triste força de autoridade. Autoridade baseada em dois fundamentos importantíssimos: A concreta experiência da vida e a Palavra de Deus.

Sim, pois a realidade da experiência humana quanto a essa discordância entre o falar e o fazer comprova esta dolorosa advertência de Jesus quanto aos catedráticos da lei mosaica - os escribas e os fariseus. Disse Jesus:

Mateus 23:3
Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem.

É do antagonismo entre o dizer e o fazer, entre a sinceridade e a hipocrisia, que trata a lição de hoje. Acompanhemos o estudo do assunto em suas divisões e em suas aplicações práticas.

1 - JESUS, OS SEUS DISCÍPULOS E OS COSTUMES DA ÉPOCA

(Mc 7.1-5)

a. Primeiro, uma palavra sobre o cenário e a ocasião. Os fatos descritos deram-se em Cafarnaum, no terceiro ano do ministério público de Jesus, o ano em que a oposição movida contra Ele se tornou definida e se foi avolumando. Estava próxima a data da celebração da páscoa - a mais importante e mais significativa festa religiosa dos judeus.

Cafarnaum ficava na parte norte da Palestina, acima de Samaria, quase no extremo norte do mar da Galiléia. Pois, apesar da distância, lá compareceram alguns escribas e fariseus, procedentes de Jerusalém (Mt 15.1; Mc 7.1).

b. Marcos registra uma explicação pormenorizada das tradições dos judeus quanto às purificações cerimoniais. O evangelista fala da purificação antes das refeições, e da purificação feita depois de a pessoa voltar da rua.

c. Essas práticas não se referiam à higiene propriamente dita, coisa recomendável sempre. Referiam-se, sim, à purificação cerimonial, com sentido religioso e espiritual. No caso das refeições, as mãos cerimonialmente impuras tornavam impuro o alimento e quem o comia.

d. No caso do retorno da rua, o inadvertido contato com algum gentio ou com alguma coisa cerimonialmente impura contaminava o judeu zeloso. Daí a necessidade de lavar-se, não apenas para limpeza física, mas para limpeza cerimonial, religiosa, espiritual.

No Velho Testamento havia prescrições de diferentes abluções e aspersões para simbolizar a purificação espiritual. Mas os mestres de Israel foram acrescentando exigências e mais exigências, muito além das que constam na lei bíblica.

e. Por isso os escribas e fariseus logo notaram que os discípulos de Jesus estavam desrespeitando "a tradição dos anciãos", comendo sem fazer aquela purificação cerimonial das mãos. E perguntaram a Jesus a razão dessa atitude. 

Poderia ser uma preocupação válida: Nós aprendemos essas tradições; nós ensinamos essas tradições; nós as praticamos. Por que será que os discípulos de Jesus não as praticam? Vamos ver que explicação Jesus vai dar. A resposta de Jesus mostra, porém, que a atitude dos escribas e fariseus não era singela assim. Vejamos.

2 - JESUS E OS PRINCÍPIOS DE CONDUTA

(Mc 7.6-9)

a. Na resposta de Jesus há uma tríplice acusação lançada contra aqueles mestres de religião.

Primeiro, Jesus citou uma contundente profecia de Isaías e a aplicou àqueles homens (Is 29.13). É acusação de hipocrisia, falsidade. Hipocrisia que torna vã, inútil a adoração a Deus:

Marcos 7:6-7
Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens.

Segundo, Jesus os acusou de negligência quanto ao necessário e importante, e de diligência culposa quanto ao desnecessário e não importante: "Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens" (vers. 8). - Como esta inversão de valores tem ocorrido através da história! Quão dolorosamente real e atual! Negligenciar é descuidar, é não ter zelo.

No original grego aparece o mesmo verbo no versículo 9, traduzido por "negligenciando" e "rejeitais". O verbo grego quer dizer "negligenciar" e "abandonar". Se a negligência persiste, acaba dando em abandono ou rejeição. 

Por outro lado, a negligência já pode ser resultado da rejeição. Em ambos os casos, é atitude mais que condenável negligenciar ou rejeitar o mandamento de Deus, trocando-o por tradições humanas.

Terceiro, Jesus agravou a culpa daqueles homens quando disse que eles não só estavam sendo atraídos pela "tradição dos homens" (8), pela tradição ensinada ou imposta por outros, mas estavam colocando a tradição deles mesmos acima do preceito de Deus (9, "vossa própria tradição").

b. Mas, a resposta de Jesus não se restringe a acusar. Também ministra ensinamento positivo, implícito nos próprios termos das referidas acusações.

No versículo 6 está o ensino de que devemos honrar a Deus de coração, devemos ter o coração perto de Deus. Noutras palavras, aí está o grande e primeiro mandamento: Amar a Deus com todo o ser e acima de tudo mais (Mt 22.37).

No versículo 7 estão estes dois ensinamentos importantes:

(1) Devemos ensinar as doutrinas que são preceitos de Deus, dando aos preceitos dos homens o lugar secundário e subordinado que lhes cabe;

(2) Ensinar preceitos de homens como se fossem de Deus é adorar a Deus em vão, é anular a religião.

No versículo 8 aprendemos que nos compete colocar os valores na ordem certa: primeiro Deus e as Suas exigências; depois o homem e as suas. E que estas últimas jamais prejudiquem a nossa zelosa fidelidade ao mandamento de Deus.

No versículo 9 há uma advertência contra o perigo de querermos "fabricar uma religião nossa, de acordo com os nossos sentimentos, tendências e preconceitos, e de colocá-la acima da religião de Deus, revelada.

Em tudo isso ressalta o valor que Jesus dá à sinceridade, à correspondência harmoniosa que deve existir entre o que dizemos e o que fazemos e entre o que fazemos e o que temos no coração. Somos também alertados para examinar os motivos da nossa conduta e os princípios que regem o nosso comportamento.

3 - A REGRA DE FÉ E PRÁTICA

(Mc 7.10-13)

a. Jesus dá um exemplo concreto das muitas coisas que os judeus faziam, rejeitando a lei de Deus e substituindo-a por sua própria tradição. Cristo introduz o exemplo citando o quinto mandamento do Decálogo, que manda honrar pai e mãe - honra que inclui sustento condigno na velhice.

Os escribas e fariseus ensinavam que a pessoa ficava liberada do cumprimento dessa lei se oferecesse a Deus o dinheiro que seria dado aos pais. Leia com atenção os versículos 11 e 12.

Jesus usou uma expressão muito forte para condenar aquele ensino e prática, dizendo que, com isso, eles estavam "invalidando a palavra de Deus" (vers. 13).

b. A firme atitude de Jesus revigora nos corações crentes o amor e o zelo pela Palavra de Deus. É também um vigoroso alerta contra a tendência comum de desviar a atenção e a obediência à Escritura Sagrada para a atenção e a obediência à tradição, conceitos, preceitos, costumes e práticas dos homens.

É riquíssima a passagem bíblica estudada. Salientemos alguns pontos, para concluir:

1º - Um dos princípios fundamentais desta lição é a afirmação, firmada no ensino de Cristo, da supremacia da Palavra de Deus como a regra determinativa de fé e prática, contrariamente à imposição de doutrinas, interpretações e tradições humanas.

2º - Outro princípio de fundamental importância é este: Para que haja qualquer manifestação legítima e sincera da religião, tem que haver antes a renovação interior, graças à ação do Espírito de Deus.

3º - Cristo condena a superficialidade, o legalismo e a hipocrisia que caracterizavam muitos judeus de Seu tempo. Não significa, porém, que Ele menosprezasse a vida reta e justa. 

Pelo contrário, Cristo exige dos Seus discípulos uma justiça mais perfeita e mais profunda do que a dos escribas e fariseus, atingindo as raízes do ser, os motivos das ações e o caráter do homem. Justiça tão elevada que desafia o crente a este ideal sublime: perfeição como a perfeição de Deus (ler Mt 5.20,48).

Autor Original: Erasmo Braga (1928)
Adaptação: Odayr Olivetti (1985)


Lista de estudos da série

1. A voz que clamou no deserto e mudou tudo
2. O dia em que Jesus declarou guerra contra a doença e o mal
3. O segredo para quebrar barreiras e alcançar o perdão
4. Por que Jesus quebrou as regras para nos dar vida nova
5. O poder irresistível que atraiu multidões desesperadas
6. Como lidar com a rejeição até mesmo de quem você ama
7. A semente invisível que pode transformar o mundo inteiro
8. O poder absoluto que acalma tempestades e expulsa legiões
9. A fé que interrompeu Jesus e o milagre que venceu a morte
10. Os 12 homens comuns escolhidos para uma missão impossível
11. Como cinco pães e dois peixes revelaram o segredo da provisão divina
12. O princípio divino que anula a religiosidade vazia

Semeando Vida

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