Marcos 3.20-27; 6.1-6
"Com amigos como estes, quem precisa de inimigos?" Por vezes acontece esta coisa estranha: os amigos de uma pessoa agem de maneira tal que a prejudicam mais do que se fossem seus inimigos.
Há várias causas disto, das quais aponto estas: incompreensão, exacerbação das emoções, sentimentalismo, ingenuidade, fraqueza e orgulho.
Quando os nossos amigos agem dessa forma para conosco, fica mais difícil livrar-nos do seu danoso e prejudicial auxílio do que nos seria livrar-nos do ataque de inimigos declarados. Daí a validade da frase proverbial que inicia esta introdução.
Jesus Cristo teve que lidar com inimigos astutos, insensíveis e maldosos, e também com amigos que se Lhe antepuseram como verdadeiras pedras de tropeço. É o que veremos nesta lição.
1. JESUS E SEUS AMIGOS MAL INFORMADOS
A) OS PARENTES DE JESUS (Mc 3.20,21)
Depois de Sua excursão pelas povoações situadas junto do mar da Galiléia, atendendo às multidões que o buscavam, Jesus voltou "para casa", em Cafarnaum. Ali também a multidão o procurou.
E o movimento era de tal monta, e tão incessante, que Ele e os Seus discípulos nem achavam tempo para alimentar-se. Quando os parentes de Jesus souberam o que estava acontecendo, pensaram: "Ele está fora de si", e foram lá para prendê-lo.
Antes de sermos tentados a julgar muito severamente os parentes de Jesus, imaginemos a cena: multidão o dia inteiro enchendo a casa, e Jesus assediado por gente e mais gente, e ensinando, pregando, curando enfermos e expulsando demônios.
Além do mais, como terá chegado a notícia aos parentes? Quem conhece um pouco da arte dos propagadores de boatos pode imaginar como foi descrita a atitude de Jesus aos Seus parentes.
Isto explica em parte, mas não justifica o comportamento desses parentes. Mesmo porque o versículo 31 e as passagens paralelas especificam que entre esses parentes mencionados no versículo 21 estavam a mãe e os irmãos de Jesus!
Eles tinham a obrigação de saber que Jesus estava simplesmente executando uma parte da Sua missão messiânica, realizando as obras de Deus entre os homens. É um lembrete da imensa pressão que a família de Jesus, incluindo sua mãe, enfrentava.
Mesmo com as memórias das promessas divinas, como a mensagem angélica anunciando a sobrenatural concepção (Lc 1.30-35), a palavra de Simeão e a da profetisa Ana (Lc 2.34,35,38), a experiência no templo, entre os doutores (Lc 2.46-51), a outra, em Caná (Jo 2.3-5), e quantas mais que certamente marcaram a sua memória, a intensidade dos acontecimentos gerou uma reação de preocupação familiar que, momentaneamente, não compreendeu a dimensão da missão de Cristo.
Por um lado, a precipitação de Maria, registrada na Bíblia, nos oferece um forte argumento apologético na defesa do ensino bíblico e na condenação de práticas que se afastam da adoração exclusiva a Deus.
Por outro lado, a sua atitude, bem como de seus familiares, serve-nos de advertência. Sim, pois pode acontecer que, por ignorância, ou imaturidade, ou vaidosa pretensão de autoridade e competência, estejamos dificultando a obra de Cristo.
Reações negativas a sérios programas da igreja podem ser uma forma de repetir a incompreensão que até a família de Jesus demonstrou em seu afã de protegê-lo. Outra maneira de fazê-lo é matar o entusiasmo dos neófitos, submetendo-os ao controle dos acomodados.
B) OS CONTERRÂNEOS DE JESUS (Mc 6.1-3)
O cenário dos fatos comentados acima foi Cafarnaum, onde Jesus morava; o cenário dos fatos que vamos estudar agora foi Nazaré, onde passara a infância e a mocidade, até os primeiros tempos do Seu ministério público (Mt 4.13).
Em Nazaré a rejeição de Jesus foi tão forte que Ele "não pôde fazer ali nenhum milagre, senão curar uns poucos enfermos" (vers. 5), pois Jesus sempre exigiu a manifestação de fé, onde era esta possível, para a operação de milagre.
Segundo o relato de Lucas, a rejeição foi tal, que O expulsaram da cidade e quiseram derrubá-lo do alto do monte em que Nazaré fora edificada (Lc 4.29).
E não consta que os que rejeitaram a Jesus fossem Seus inimigos. Antes, pelo contrário, eram pessoas religiosas (vers. 2), pessoas conhecidas da Sua cidade, parentes e familiares (vers. 4).
Um defeito comum dos seres humanos de todos os tempos e lugares é este: Menosprezar os valores locais. Lembro-me de uma ocasião em que um meu conterrâneo, homem de boa cultura geral, me contou um fato que aqui resumo.
Disse ele: "Eu estava ouvindo num bar a irradiação de música clássica executada por uma excelente orquestra. Fiquei pensando: De onde será essa orquestra? Nisso, terminada a execução de uma peça, o locutor anunciou a emissora e falou da orquestra. Ambas eram locais. Então, perdi todo o interesse. Ora - concluiu ele - é daqui mesmo!"
Na seara do Mestre ocorrem fatos semelhantes. Por isso, muitos planos excelentes não são levados adiante, e muita gente boa não é aproveitada adequadamente na obra do Senhor. A lição que estamos estudando é um alerta para nós cristãos neste sentido.
2. INIMIGOS DE JESUS
A) ESCRIBAS E FARISEUS (Mc 3.22 e Mt 12.24)
Os escribas e fariseus opunham-se a Jesus porque Este se opunha a todo o esquema de regras estabelecido por eles, por sua maneira de impor tradições e exigências que nem eles próprios cumpriam, por sua religiosidade exterior e hipócrita, e por esperarem um messias fabricado pela imaginação deles.
Não perdiam nenhuma oportunidade para armar ciladas para fazer com que Jesus transgredisse publicamente algum ponto da lei ou das tradições dos judeus, ou ferisse alguma doutrina deles.
Eram capciosos, maliciosos e sutis, empregando astutas artimanhas para fazer Jesus tropeçar.
Mas, nos fatos que estamos estudando, eles foram astutos, porque se aproveitaram da atitude desmoralizadora dos familiares de Jesus (vers. 21), mas não foram sutis na forma do ataque feito, pois
O acusaram de estar expulsando demônios pelo poder do príncipe dos demônios; e foram covardemente maliciosos porque não fizeram a acusação diretamente a Jesus, mas semearam comentários acusadores entre a multidão.
Não faltam ainda hoje os que procuram semear dúvidas sobre as virtudes de Jesus e sobre os benefícios que Ele trouxe ou traz aos homens.
Um filósofo, cujas obras li por dever de ofício, reconhecidamente desequilibrado a ponto de dar fim à própria vida, se apresentava como anticristo, e dizia que Jesus foi o maior inimigo da humanidade por ensinar o altruísmo! Nietzsche é o nome desse inimigo declarado de Jesus Cristo.
Cuidado para não sermos arrastados pela verbosidade e pelo prestígio de certos inimigos de Jesus.
B) EX-AMIGOS DE JESUS (Mc 6.5,6; Lc 4.29).
Já foi comentado algo sobre estes ex-amigos, no item "Os conterrâneos de Jesus", acima. Desejo salientar aqui somente este fato doloroso: Estes inimigos de Jesus tinham sido Seus amigos.
O menino Jesus crescera entre eles, o jovem Jesus convivera com eles. Numa cidade como Nazaré, pequena e um tanto isolada das regiões mais populosas e movimentadas, é fácil ver que Jesus, Seus irmãos, Suas irmãs e Seus pais eram bem conhecidos. Como também não há motivo para supor que não eram bem relacionados.
Com tudo isso, amigos tornaram-se inimigos furiosos de Jesus!
Lamentavelmente ocorreram coisas assim através da história da igreja. Que isso também nos sirva de alerta e que jamais seja necessário antepor estas duas letras - EX - ao nosso abençoado título de AMIGOS DE JESUS!
3. A REAÇÃO DE JESUS
(Mc 3.23-29; 6.4-6)
Face à acusação semeada contra Ele, Jesus reagiu de três maneiras:
1 - Refutando os argumentos (3.23-27). Tolo seria Satanás se eliminasse os seus servos. Satanás não envia mensageiros para destruírem os seus súditos. Jesus, sim, veio para amarrar o valente e saquear- lhe a casa, isto é: Jesus veio para destruir as obras de Satanás e libertar do seu jugo aqueles que Lhe pertencem (2 Tm 1.10; Hb 2.14,15).
2 - Mostrando o perigo da resistência ao Espírito Santo. Atribuir o poder do Espírito Santo a outras fontes e causas é incorrer em blasfêmia contra o Espírito - pecado imperdoável. Ver Mc 3.28-30.
3 - Lamentando a incredulidade do povo (6.4,6). Sem dúvida há lamentação nas palavras de Jesus: "Não há profeta sem honra senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa" (vers. 4) e nestas: "Admirou-se da incredulidade deles" (vers. 6).
CONCLUSÃO
A lição de hoje nos adverte quanto ao perigo de estarmos prejudicando a causa de Cristo, embora sendo nós Seus amigos. Também quanto ao perigo de estarmos fazendo o jogo dos inimigos de Cristo.
Autor Original: Erasmo Braga (1928)Adaptação: Odayr Olivetti (1985)
Lista de estudos da série
1. A voz que clamou no deserto e mudou tudo2. O dia em que Jesus declarou guerra contra a doença e o mal
3. O segredo para quebrar barreiras e alcançar o perdão
4. Por que Jesus quebrou as regras para nos dar vida nova
5. O poder irresistível que atraiu multidões desesperadas
6. Como lidar com a rejeição até mesmo de quem você ama
7. A semente invisível que pode transformar o mundo inteiro
8. O poder absoluto que acalma tempestades e expulsa legiões
9. A fé que interrompeu Jesus e o milagre que venceu a morte
10. Os 12 homens comuns escolhidos para uma missão impossível
11. Como cinco pães e dois peixes revelaram o segredo da provisão divina
12. O princípio divino que anula a religiosidade vazia
