O poder irresistível que atraiu multidões desesperadas - Estudo Bíblico sobre Marcos 3 e 6


Marcos 3.7-12; 6.53-56

Houve um período do ministério terreno do Senhor Jesus em que Ele ficou famoso e era procurado por incontáveis multidões. 

Quem lê estas palavras e se lembra da descrição profética do Servo Sofredor, principalmente nos primeiros versículos do capítulo 53 de Isaías, pode estranhar: "Será que o profeta errou?"

A resposta é simples: O profeta descreve com termos fortes as condições do Messias em Seu sofrimento vicário, quando foi violentamente rejeitado, sofrimento que não se limita à cruz, mas que é suficientemente representado por ela.

A cruz infame e infamante desfigurou o meigo Nazareno e o tornou repulsivo! A infâmia da cruz, a ignomínia da cruz, o opróbrio da cruz, o vitupério, a afronta da cruz!

Mas como o Evangelho é maravilhoso! Pois a mesma cruz infame e infamante, que tornou desprezível o meigo Nazareno, veio a ser o mais atraente símbolo de amor redentor para os corações sensíveis! 

Como esplendem as glórias paradoxais do Evangelho de Cristo, poderoso para eliminar as consequências desintegradoras das contradições do homem! Bendito Evangelho da cruz! Bendito Evangelho de salvação!

Entretanto, a fama de que trata a lição de hoje é doutra natureza. Consideremos agora a lição propriamente dita.

1. ELEMENTOS DA ATRAÇÃO DE JESUS

(Mc 3.7-8; 7.37; 12.37)

Do norte, do sul, do leste e do oeste da Palestina, grande multidão vinha à procura de Jesus. Muitos líderes de Israel já se moviam e conspiravam contra Ele (Mc 3.6), mas o povo O buscava onde quer que Ele se encontrasse.

Em Mc 3.7,8 encontramos o elemento básico e geral da atração exercida por Jesus sobre a grande multidão: "sabendo quantas cousas Jesus fazia". 

A expressão salienta as obras poderosas realizadas por Jesus, embora possa estar implícita uma referência aos Seus ensinamentos. 

Sem dúvida nenhuma, as numerosas realizações miraculosas de Jesus constituíam a maior força de atração. Os fatos a que se refere esta passagem deram-se na faixa costeira do mar da Galiléia, provavelmente dentro do primeiro trimestre do ano 29.

As outras duas passagens referem-se a fatos ocorridos mais tarde, mas se prestam para informar-nos sobre os elementos da atração de Jesus.

Mc 7.37 reforça como elementos de atração as obras portentosas que Jesus realizava. O versículo pode ser dividido em três partes:

1 - "Maravilhavam-se sobremaneira". Espantavam-se. Às vezes "maravilhar-se" tem ideia negativa, como em Mt 13.54-58. Aqui não. Aqui as pessoas estavam positivamente admiradas.

2 - "... dizendo: Tudo ele tem feito esplendidamente bem". Notaram que o que Jesus fazia, fazia com perfeição.

3 - "não somente faz ouvir os surdos, como falar os mudos". É dado um exemplo de como Jesus fazia trabalho completo. A expressão faz-nos pensar nos surdos-mudos. Pode-se entender a cura instantânea de um surdo; mais difícil é a cura de um mudo, pois, para este falar fluentemente precisa de aprendizagem demorada.

Todavia, os surdos e mudos curados por Jesus passavam a ouvir e a falar. Esse testemunho da multidão, porém, não salienta somente o poder de Jesus, mas também os benefícios que a aplicação do Seu poder trazia aos seres humanos.

Portanto, até aqui temos visto dois elementos da atração exercida por Jesus: Suas obras poderosas e os benefícios produzidos por elas.

Mc 12.37 acentua outro elemento: "... a grande multidão o ouvia com prazer". Dava gosto ouvir Jesus falar. Jesus falava com autoridade e poder, e isto favorecia a aceitação prazerosa dos Seus discursos bem como a admiração por Sua doutrina (ver Mt 7.28,29 e Jo 7.46).

2. JESUS SOCORRE OS AFLITOS

(Mc 3.9-12; 6.53-56)

Embora a missão de Jesus tivesse por fim realizar a obra de redenção espiritual e eterna do pecador, Ele não se negou a oferecer alívio aos sofredores, cura aos enfermos, libertação aos possessos e vida aos mortos. 

Os textos básicos salientam este aspecto do ministério de Jesus e O mostram afanosamente trabalhando em favor dos aflitos.

É oportuno observar em Mc 3.9-12 dois cuidados que Jesus teve.

Primeiro, o de ter sempre à mão um barquinho, para evitar atropelamento. Jesus podia impedir qualquer perigo desse tipo pelo poder projetado por Sua personalidade divino-humana, como o fez doutras vezes (Lc 4.29,30; Jo 18.6), mas normalmente Jesus não fazia uso dos Seus poderes sobrenaturais.

No mesmo momento em que ressuscitou a Lázaro, ordenou aos presentes que removessem a pedra da entrada do túmulo e que desatassem Lázaro (Jo 11.39,44). 

No mesmo momento em que Jesus milagrosamente curava enfermos e expulsava demônios, tomava providências muito humanas para proteger-se do tropel da multidão.

Segundo, os demônios proclamavam que Jesus era "o Filho de Deus", mas Jesus os proibia disso. O testemunho do diabo não serve. 

Até a verdade, quando dita pelo demônio, é peçonhenta. O que serve de advertência aos que acham boas todas as religiões e aos que recorrem a centros que se afastam da verdade bíblica para resolver os seus problemas.

Prevalece, porém, o fato de que Jesus teve misericórdia dos sofredores e procurou amenizar-lhes o sofrimento. 

O ministério da misericórdia tem continuidade na vida e obra da igreja de Jesus Cristo. Apoiados na Palavra de Cristo e contando com as operações iluminadoras, vivificantes e fortalecedoras do Espírito Santo, cada cristão em particular e a igreja em geral devem exercer esse ministério de consolação, de cura, de atendimento aos necessitados.

A existência de movimentos que, por vezes, distorcem a mensagem do Evangelho com ideologias seculares não deve, todavia, servir de desculpa para a inércia do crente e da igreja no serviço ao próximo.

Apontando para a cruz de Cristo e para a eternidade feliz dos redimidos, devemos ter coração sensível e compassivo, palavras balsâmicas, bolsos altruístas e mãos abertas e prestativas. 

Em toda e qualquer situação, porém, centralizemos o serviço cristão em Cristo. Isto é, levemos o sofredor a Cristo que, só Ele, pode oferecer alívio real e descanso duradouro (Mt 11.28,29).

3. MENSAGEM DE ADVERTÊNCIA DA ADMIRAÇÃO POPULAR

Vimos que o elemento que mais contribuiu para a atração exercida por Jesus sobre as multidões foi a Sua realização de obras prodigiosas que traziam benefícios temporais às pessoas: cura de enfermidades, expulsão de demônios, ressurreição de mortos, domínio sobre as intempéries.

Em face dessas realizações, não faltaram os propagandistas do Seu nome e os promotores da Sua fama e do Seu prestígio. Até os demônios queriam colaborar na propaganda!

Mas a fama traz-nos mensagem importante.

1. Alerta-nos sobre os motivos dos interessados. Os acontecimentos finais do ministério terreno de Jesus mostram que muitos e muitos daqueles que correram atrás de Jesus e por Ele foram milagrosamente beneficiados, só estavam interessados na solução dos seus problemas físicos e mentais, nos seus problemas terrenos, temporais. Leia Jo 6.26.

2. Pode acontecer que nós mesmos estejamos seguindo o Evangelho por interesses egoísticos, talvez apenas desejando extrair da religião cristã benefícios que aliviem as nossas aflições. Até mesmo o desejo de ir para o céu pode constituir um motivo interesseiro e egocêntrico.

Sondemos o nosso coração; submetamo-nos à sondagem divina, com a humildade do salmista:

Salmos 139:23-24
Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração: prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno.

3. A aprovação popular nem sempre é legítima. Às vezes, por sua falsidade, pois aquele que é objeto dessa aprovação a merece, mas ela é falsa, hipócrita. Foi o que aconteceu com Jesus. Ele merecia a fama e a aprovação do povo. Mas eram fama e aprovação falsas porque interesseiras.

E, além de interesseiras, eram parciais. As multidões O aprovaram como grande profeta, mestre e curandeiro; não o aprovaram, como o Filho de Deus, o Verbo encarnado, o Redentor capaz de oferecer vida eterna, eterna redenção.

Leia Jo 6.58,66. Com Sua autoridade divina e também pelo que Ele mesmo experimentou, Jesus nos adverte sobre o perigo de sermos admirados e aprovados pelos outros. Diz Ele: "Ai de vós, quando todos vos louvarem!..." (Lc 6.26).

CONCLUSÃO

Oxalá este estudo tenha levado o prezado leitor e a gentil leitora a uma clara visão das qualidades de Jesus que atraem os pecadores; a um exame e consequente refinamento dos motivos pelos quais são seguidores de Jesus; e a um maior entusiasmo em viver para Cristo e em trazer pecadores ao Salvador.

Autor Original: Erasmo Braga (1928)
Adaptação: Odayr Olivetti (1985)

Semeando Vida

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