Marcos 4.26-34
A doutrina do reino de Deus tem sido mal interpretada por muitos. O erro mais grave neste assunto foi cometido pelo catolicismo romano quando identificou o reino de Deus com a igreja na terra - erro do qual ainda não se desfez.
Uma das razões pelas quais as pessoas entendem mal este assunto é que a Bíblia fala de diferentes aspectos do Reino.
Por exemplo, na petição que constitui o texto central desta lição, e que faz parte da oração ensinada pelo Senhor Jesus, "reino" se refere ao estabelecimento final e definitivo do reino de Deus por ocasião da volta de Cristo (Veja Mt 16.28). Já em Lc 17.21, "o reino de Deus" é realidade espiritual e já presente no coração crente.
O texto básico fala do reino espiritual de Deus e do seu desenvolvimento. Esse texto está num capítulo em que aparecem várias parábolas, e Marcos anota que Jesus usou "muitas parábolas semelhantes" em Sua pregação (vers. 33).
Por sua simplicidade e clareza, vale a pena transcrever aqui esta definição de parábola, da lavra de Erasmo Braga:
"Parábola é comparação de um fato de ordem espiritual com casos simples da vida diária, por meio da qual se inculca o ensino moral e religioso. Era o método predileto do ensino oral de Jesus".
1. CRESCIMENTO INTERIOR DO REINO DE DEUS
(Mc 4.26-29)
1. A parábola da semente descreve em poucas palavras um processo completo que vai da semeadura até à colheita. É fácil ver, porém, que a sua verdade central está na vida interior e invisível existente na semente e na terra.
Esta verdade central é que determina a interpretação da parábola. Ela se refere, pois, ao crescimento interior do reino de Deus no coração e na personalidade do pecador atingido salvadoramente pela graça livre e soberana de Deus.
2. Assim como a semente e a terra têm vida e esta se manifesta silenciosa e misteriosa mas poderosamente na germinação, no florescimento e na frutificação, assim acontece na vida espiritual: o pecador recebe a semente da Palavra, e o seu coração, vivificado pelo Espírito Santo, desabrocha em arrependimento e fé, e daí por diante cresce em conhecimento, desenvolve-se em santidade e vai crescentemente demonstrando em seu viver e em seu agir o fruto do Espírito (Gl 5.22,23).
3. Sem a vida interior da semente e da terra, isto é, sem a vida da Palavra de Deus, e sem a vida gerada pelo Espírito no coração do pecador, nada disso aconteceria.
Assim nasce, e frutifica o reino de Deus no coração daqueles que Deus chama, não só pela pregação do Evangelho, mas também pela ação vivificante do Seu Santo Espírito. Tanto a vida que há na Palavra de Deus como a vida comunicada pelo Espírito agem silenciosamente.
4. Depois da regeneração espiritual, o convertido poderá saltar, cantar e gritar de alegria, ou permanecer calado em profunda e grata meditação, ou derramar lágrimas de intenso júbilo e gratidão - tudo dependendo das características pessoais de cada um.
Mas a prodigiosa obra de transformação de um filho do mundo em um filho de Deus foi realizada interiormente, de maneira misteriosa e silenciosa. Como a semente lançada em solo fértil.
5. Há um importante aspecto em que esse crescimento silencioso pode ser aplicado coletivamente. Refiro-me ao fato de que a propagação do Evangelho do reino (Mt 4.23) - meio pelo qual se propaga o reino de Deus - começou com um pequenino grupo de discípulos de Jesus, sem quaisquer recursos aparatosos. E dessa forma começa também em cada geração e em cada localidade.
O fato de serem usados hoje recursos vultosos para a evangelização não destrói o fato de que, em cada lugar, o início do crescimento e da expansão do Reino dá-se através de grupos de pessoas cuja vitalidade está precisamente em reconhecerem que o que elas são e o que têm e o que fazem não têm valor nenhum, se não estiver atuando nelas e por meio delas o poder misterioso e silencioso da Palavra e do Espírito.
6. Na regeneração do pecador - pela vida da Palavra e do Espírito - o primeiro aparecimento de vitalidade visível dá-se pelo arrependimento e pela fé. Por isso no cerne da mensagem de João Batista estava este clamor: "Arrependei-vos", e na de Jesus Cristo, este: "Arrependei-vos e crede no evangelho" (Mt 3.2; Mc 1.15). Clamor que não pode faltar a todo e qualquer trabalho de evangelização.
2. OS AMPLOS BENEFÍCIOS DO EVANGELHO
(Mc 4.30-32)
1. O que foi dito no item anterior encontra reforço na parte inicial da parábola do grão de mostarda (versículos 30 e 31).
A agência do Reino começou pequenina e aparentemente sem força - e cresceu, expandiu-se, frutificou. Surgindo do testemunho da pouco numerosa igreja primitiva, em pouco tempo cresceu em Jerusalém, na Palestina, na Ásia Menor e na Europa.
É também experiência frequente na história que em vilas, cidades, regiões e países, a numerosa multidão de "filhos do reino" desenvolveu-se a partir de pequenino grupo de testemunhas de Cristo.
2. Mas a verdade central desta parábola é outra. Ela salienta o aspecto externo do crescimento do Reino. Sua ênfase maior está no versículo 32: "Mas, uma vez semeada, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças, e deita grandes ramos a ponto de as aves do céu poderem aninhar-se à sua sombra". Estas palavras se referem a duas realidades diferentes e a dois tipos de benefícios do Evangelho. Vejamos:
(1) Uma realidade é a daqueles que se converteram de verdade e constituem o corpo de Cristo, a comunhão dos fiéis. Estes são representados pela planta mencionada na parábola;
(2) A outra realidade, representada na parábola pelas "aves do céu" aninhadas à sombra da árvore, é a das pessoas, sociedades e instituições não cristãs, mas beneficiadas pelo Evangelho e pelos "filhos do reino".
A palavra cristianismo deve ser reservada para designar a realidade (1) acima; a palavra cristandade para a realidade (2).
Os dois tipos de benefícios do Evangelho são, (a) redenção com todas as bênçãos dela decorrentes, incluindo a assistência providencial especialíssima de Deus; e, (b) os benefícios éticos de restrição do mal e de promoção do bem, comunicados diretamente por Deus ou por meio dos Seus filhos.
Os benefícios da primeira categoria são usufruídos na terra, em meio a provações, e na eternidade, de maneira completa e perfeita. Os benefícios da segunda categoria são usufruídos pela sociedade humana na terra somente.
3. Fica, porém, a lição central da parábola do grão de mostarda: onde quer que a semente do Evangelho seja lançada, por diminuta que seja, ela cresce, e se torna uma árvore capaz de beneficiar até os que não se convertem.
3. NÓS E O PROGRESSO DO REINO DE DEUS
1. Se somos de Cristo, somos promotores da Sua causa, propagadores do Seu Evangelho, fatores de progresso do reino de Deus na terra.
2. A obra de propagação do "evangelho do reino" é mais que excelente, pelos benefícios que produz para a sociedade humana e, sobretudo, para a reunião e comunhão daqueles que, começando pela fé e pelo arrependimento para a vida, crescem em santificação, desenvolvem seus dons e talentos por amor a Cristo, aos irmãos e ao próximo em geral, e se exercitam nesta vida para o serviço a ser realizado em perfeita bem-aventurança no céu.
3. Estas considerações - calcadas na Escritura e na experiência milenar dos cristãos - não o entusiasma, meu irmão, não a entusiasma, minha irmã? Se você é fiel ao Senhor, a sua maneira de viver já é um modo de propagar o Evangelho, de ajudar o progresso do Reino. Glórias sejam dadas a Deus por isso!
Mas, de maneira consciente, por uma resolução da sua vontade sob os impulsos do Espírito de Deus, o que você tem feito pela propagação do Evangelho e pela expansão do reino de Deus?
CONCLUSÃO
Com base nas parábolas da semente e do grão de mostarda, estudamos o aspecto espiritual do reino de Deus em seu crescimento interno e em seu progresso externo. E vimos que, como discípulos de Cristo, compete-nos trabalhar pelo progresso do reino de Deus, anunciando com a vida e com as palavras o bendito Evangelho de redenção.
Autor Original: Erasmo Braga (1928)Adaptação: Odayr Olivetti (1985)
Lista de estudos da série
1. A voz que clamou no deserto e mudou tudo2. O dia em que Jesus declarou guerra contra a doença e o mal
3. O segredo para quebrar barreiras e alcançar o perdão
4. Por que Jesus quebrou as regras para nos dar vida nova
5. O poder irresistível que atraiu multidões desesperadas
6. Como lidar com a rejeição até mesmo de quem você ama
7. A semente invisível que pode transformar o mundo inteiro
8. O poder absoluto que acalma tempestades e expulsa legiões
9. A fé que interrompeu Jesus e o milagre que venceu a morte
10. Os 12 homens comuns escolhidos para uma missão impossível
11. Como cinco pães e dois peixes revelaram o segredo da provisão divina
12. O princípio divino que anula a religiosidade vazia
