João 14.1-3, 12-15, 23-29
INTRODUÇÃO
Depois da instituição da Ceia do Senhor, naquele cenáculo em Jerusalém, na noite precedente à sua crucificação, Jesus e os onze encerraram os serviços da Páscoa, cantando provavelmente um dos Salmos.
Ao que parece, terminada a Ceia e enquanto se preparavam para sair, Jesus pronunciou os seus discursos de despedida, concluindo com a oração intercessória (Jo 14 a 17). Talvez fosse meia-noite quando saíram da cidade para o Jardim de Getsêmani, onde se passou a agonia, a traição e o aprisionamento.
O capítulo 14 de João, que estudamos hoje, é uma das joias mais formosas e mais famosas do pensamento cristão, uma verdadeira enciclopédia de consolação, de promessas e de ânimo alegre.
Será exercício salutar ao estudante se, com reverente atenção, contar o número de vezes em que, no texto, aparecem as palavras crer, Pai, amar, guardar, Espírito Santo.
A palavra crer se acha mais de cem vezes no Evangelho de João. Outrossim, convém examinar as frases onde vem a fórmula negativa: não se turbe... não crês... não sabemos..., etc.
ESTUDO DA LIÇÃO
I. A paz indestrutível pela fé (14.1,27).
Não há dúvida de que os discípulos se achavam profundamente conturbados na noite da Ceia e na hora em que os acontecimentos se precipitavam no sentido de separar o Pastor de suas ovelhas. Em João 14.1; 16.6, 20-22, isto é evidente. E havia razões para que estivessem pesarosos e inquietos.
Jesus revelara com profunda tristeza que um dentre eles o havia de trair e entregar às mãos adversárias. Tinha anunciado a queda de Pedro (Jo 13.36-38). Falara-lhes de sua retirada muito breve do meio deles.
O Mestre lavou-lhes os pés e, com isso, desnudou-lhes o egoísmo e o orgulho. A instituição da Ceia, sem dúvida, os levou a examinar-se a si mesmos.
Quão diferente foi a cena da marcha triunfal e dos hosanas... Não é de admirar que se turbasse o seu coração. A palavra traduzida por "turbar", no grego, quer dizer arremessado e agitado como ondas encapeladas do mar. Era grande a sua angústia.
Qual foi o remédio de Cristo para esta agitação de espírito? "Não se turbe o vosso coração; crede em Deus, crede também em mim." Crer em Deus importa também crer em Cristo, porque Cristo é o Deus manifestado em carne. Qualquer homem que crer em Deus necessariamente deve crer em Cristo.
Mas, note-se que esta confiança em Cristo, em Deus, nem sempre infunde no coração a sensação que o mundo chama de paz. A paz de Cristo não é a mesma que o mundo dá. Mas Ele vence todas as dificuldades e todos os cuidados, e mesmo os transforma em fortaleza e alegria. Isto é assim, porque a fé em Jesus abre os nossos corações ao Espírito Santo, o Consolador.
A paz que o mundo conhece é transitória, puramente circunstancial, feita de posses ou coisas terrenas, sujeita às variações do tempo e do espaço e à volubilidade dos homens. A paz do mundo é negativa. É não sofrer, é não lutar, é não enfrentar resistência. É passiva, quieta, morna.
A paz de Cristo é permanente, visa os valores eternos, forma-se de qualidades da alma, do coração e do caráter, é uma paz interna, que é serena no meio da luta e vencedora nas provas.
II. O Futuro assegurado (14.2-4).
É bem possível que a causa principal, entre tantas outras, da tristeza íntima dos discípulos, fosse a declaração peremptória que Cristo já havia feito de sua retirada do mundo conhecido para outra dimensão do Universo. Não sabiam para onde Ele ia.
Como respondeu Jesus a este anseio deles? Revelando-lhes o céu como um lugar, a casa de seu Pai. Para o cristão, o céu é o lar celestial, a morada do Pai; com as luzes enchendo de alegria suas janelas. E a casa tem moradas, moradas fixas e permanentes, não transitórias como nossas casas terrenas.
Ainda mais. Na casa há muitas moradas, lugares para todos os que querem entrar. E são preparados. Disse Jesus aos seus discípulos: "Eu vou preparar-vos um lugar."
E o céu é o lugar onde haverá comunhão com Cristo. E o que Jesus não revelou foi motivo igualmente de alegria e não de tristeza. Ele revelou tudo quanto era necessário para os discípulos saberem. "Se assim não fora, eu vo-lo teria dito."
III. Um guia certo (14.5-6).
Tomé fez questão do caminho, foi o racionalista, na companhia dos apóstolos. O que satisfez as dúvidas de Tomé deve bastar para dissipar todas as nossas dúvidas.
Qual foi a resposta de Jesus à pergunta de Tomé? "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida." O caminho da terra para o céu, do homem para Deus, do terreno da dúvida para o da certeza e segurança.
É a verdade, a verdade a respeito de Deus, a verdade a respeito do céu e toda a verdade essencial no tocante à vida na terra. É a vida, o princípio vital e a energia que nos habilita a seguir o caminho que se estende entre o Deus e o homem, a vida que havia de vencer a morte que se avizinhava.
Mas isto não é tudo. "Ninguém vem ao Pai senão por mim." Cristo não é apenas um caminho, mas é o único caminho; não apenas uma revelação de Deus, mas a única revelação; não é apenas uma vida de poder espiritual, mas a única vida que se pode viver em comunhão com Deus em Cristo.
IV. A necessidade do conhecimento de Deus.
Não basta conhecer a verdade acerca de Deus. Não basta saber o caminho que conduz a Deus. A alma anseia por Deus mesmo. Como satisfez Cristo este anseio? Revelando-lhes a verdade de que Ele é Deus. "Se conhecêsseis a mim, certamente conheceríeis a meu Pai. Quem me vê a mim também vê o Pai."
Como salientou Jesus a sua igualdade com o Pai?
1. Lembrando a Filipe que por muito tempo tinha estado com eles.
2. Lembrando-lhes as evidências de sua divindade, começando com as palavras que tinha falado, as parábolas, as beatitudes, os sermões, as palestras íntimas, palavras todas tão sábias, tão cheias de graça e de poder, que só podiam proceder de Deus.
3. Mencionando as obras que tinha feito, a longa série de milagres de poder sobre a natureza, sobre a doença e mesmo sobre a morte. Semelhante poder pertence somente a Deus.
4. Por meio de um apelo pessoal: "Crede-me que estou no Pai, e o Pai em mim."
5. Jesus findou este apelo feito aos discípulos, avisando-os de que não deviam esperar ver no Filho aqui na terra toda a majestade da Divindade. No corpo humano de Jesus, é verdade, "habitava corporalmente toda a plenitude da divindade" (Cl 2.9), mas as suas manifestações exteriores eram embaraçadas pelas limitações da carne, pelas nossas enfermidades e fraquezas que tomou sobre si, de sorte que Cristo, enquanto estava na carne, podia dizer: "Meu Pai é maior do que eu." Foi esta a resposta à dificuldade de Filipe.
V. Resposta às orações.
Até aqui, neste discurso maravilhoso, Cristo tinha suprido as faltas e as necessidades subjetivas dos discípulos, a necessidade de paz, de conhecimento, de guia. Tendo estas coisas, desejamos fazer uso delas, mas ainda nos falta poder.
Como é que Cristo supre esta necessidade? Em primeiro lugar, por uma profecia, e depois por uma promessa. A profecia foi que os discípulos haviam de fazer não somente as mesmas obras que Ele tinha feito, mas outras ainda maiores, porque ele ia para o Pai.
A volta de Jesus para o Pai seria o princípio de uma nova fase na vida do mundo. Os crentes, daí em diante, seriam os representantes de Cristo na terra, ao passo que Ele seria o representante dos crentes no céu.
A saída de Jesus do mundo importava na vinda do Espírito Santo que, mediante os discípulos, faria maiores obras do que Cristo tinha feito.
Que "obras maiores" seriam estas? Nosso Senhor operou milagres pelo espaço de três anos, num território limitado; os discípulos fizeram milagres durante uma geração e em diversos países distantes uns dos outros. Portas espaçosas se abrem de todos os lados para a entrada do Evangelho.
Prouvera Deus que a igreja despertasse para fazer as obras maiores que Jesus declarou aos discípulos que haviam de fazer!
E a promessa de Jesus, por certo, deve satisfazer todos os desejos do coração de seu povo. "Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, isso vos farei." Quais são as condições da promessa? 1. Fé em Jesus Cristo; "Crede-o ao menos por causa das mesmas obras." 2. A oração deve ser oferecida em nome de Cristo. Nenhum outro nome nos pode valer. 3. O fim proposto deve ser a glória de Deus.
VI. A maior promessa (14.23-29).
É a da morada do Espírito Santo no coração dos crentes. E não só Ele, mas o Pai e o Filho virão também. Isto representa a maior força, a maior glória, a maior alegria e a maior bênção da vida cristã.
Esta residência da Trindade em nós é espiritual e não carnal; é mística, secreta, e não pública e espetaculosa; é por amor e serviço e não por quaisquer condições exteriores de classe, raça, cor, posição ou cultura terrenas.
Aqueles que amam o Senhor obedecerão e guardarão os seus mandamentos. É espúrio o amor que não inspira obediência.
CONCLUSÕES
1) O Conforto da fé.
"Crede" (v. 1). Confie em Deus e você poderá estar calmo quando a tempestade chegar. Creia e você poderá ser forte diante do inimigo. Obtendo o repouso da fé, você achará descanso à "sombra de uma grande rocha em terra sedenta."
2) O conforto da esperança.
"Na casa de meu Pai" (v. 2). Estará você, porventura, atravessando uma ponte pouco segura sobre uma correnteza forte e perigosa?
Levante os seus olhos para a margem do outro lado, pronta para recebê-lo. Se as sombras espessas do profundo vale encobrem a sua vida, fazendo-o desanimar, olhe para os montes celestiais que se levantam altaneiros sempre inundados de eterna luz.
3) O conforto da companhia.
"Onde eu estiver estejais vós também" (v. 3). O céu não seria céu sem Jesus. Não pode haver felicidade maior do que estar com ele para sempre.
4) O conforto da direção.
"Eu sou o caminho" (v. 6). O caminho através deste mundo é desigual, penhascoso, escuro e muitas vezes intransitável. Nenhum dos peregrinos está absolutamente seguro. Mas, quando o Guia celestial segura a nossa mão, experimentamos uma satisfação que o mundo não pode dar, porque não a possui.
5) O conforto do conhecimento.
"Sabeis o caminho" (v. 4). A dúvida é opressiva. A incerteza enfraquece. A ignorância não só nos faz ineficientes como também infelizes. Precisamos de conhecimento.
E o conhecimento de que mais necessitamos é o que nos pode conduzir através das trevas deste mundo, para a luz celestial. Felizes são os que sabem o caminho para o céu e nele andam!
6) O conforto do êxito.
"Fará maiores (obras) do que estas" (v. 12). Nenhum servo de Jesus é maior do que o seu Mestre. Mas, no seu amor e misericórdia, o Mestre tornou possível que seus fiéis servos conseguissem fazer coisas que, segundo os padrões humanos, parecem maiores do que as que ele próprio fez nos dias da sua carne.
7) O conforto da oração.
"Se pedirdes alguma cousa em meu nome" (v. 14). Vale a pena orar. Podemos conseguir mais pela oração do que por qualquer outro meio. Temos a garantia de que Deus nos ouve.
8) O conforto do amor.
"Se me amais" (v. 15). Quando amamos a Jesus, todas as nossas afeições centralizam-se nas coisas de cima e não nas que são terrenas. Amar a Jesus é ter a certeza de que ele mesmo nos fará o alvo eterno do seu santo amor.
9) O conforto da obediência.
"Guardareis os meus mandamentos" (v. 15). Seus mandamentos não são pesados. Fazer o que Deus quer é motivo de alegria.
10) O conforto do revestimento.
"Convosco... em vós" (v. 17). Ο Espírito Santo está conosco todos os dias e a cada momento. Quando cremos em Jesus, nossos corpos se transformam em templos habitados pelo Espírito Santo. Podemos assim encher-nos do seu Espírito. Somos guiados pelo Espírito. Andamos no Espírito, até que, afinal, entraremos na "casa eterna nos céus."
11) Ele e nós:
"Eu... em vós". O único conforto verdadeiro é o que vem de Deus. É o conforto da paz após o conflito, do perdão depois da iniquidade, da graça depois da culpa. É o conforto que vem com a vinda de Cristo e que revela a glória do Pai. É o conforto da palavra imutável de Deus que não fenece como a erva, mas dura para sempre.
Autor: GALDINO MOREIRA
Lista de estudos da série
1. O nascimento que abalou a história – Estudo Bíblico sobre a natividade de Jesus2. A infância do Rei prometido – Estudo Bíblico sobre o crescimento de Jesus
3. O manifesto do Messias em Nazaré – Estudo Bíblico sobre o início do ministério de Jesus
4. Os 12 homens que viraram o mundo de cabeça para baixo – Estudo Bíblico sobre o chamado dos discípulos
5. O primeiro sinal: Transformando água em vinho – Estudo Bíblico sobre os milagres de Jesus
6. 38 anos de sofrimento acabaram em um instante – Estudo Bíblico sobre a cura do paralítico
7. O banquete impossível no deserto – Estudo Bíblico sobre a multiplicação dos pães
8. Decodificando as histórias de Jesus – Estudo Bíblico sobre as parábolas
9. A oração que ensina a orar – Estudo Bíblico sobre o Pai Nosso
10. O código do amor: a lei resumida por Jesus – Estudo Bíblico sobre os grandes mandamentos
11. O peregrino divino: por onde Jesus andou – Estudo Bíblico sobre as viagens de Jesus
12. Mais que seguidores, amigos – Estudo Bíblico sobre os amigos de Jesus
13. A ordem que desafiou o túmulo – Estudo Bíblico sobre a ressurreição de Lázaro
14. Um vislumbre da glória celestial – Estudo Bíblico sobre a Transfiguração
15. O homem que subiu na árvore para encontrar a salvação – Estudo Bíblico sobre Zaqueu
16. Palavras de consolo antes da tempestade – Estudo Bíblico sobre o discurso de despedida
17. A oração mais poderosa da história – Estudo Bíblico sobre a oração intercessória de Jesus
18. A agonia no jardim e a entrega voluntária – Estudo Bíblico sobre o Getsêmani
19. O julgamento mais injusto da história – Estudo Bíblico sobre os julgamentos de Jesus
20. As 7 palavras que ecoam da cruz – Estudo Bíblico sobre o sacrifício de Jesus
21. Por amor, o Rei se entregou à morte – Estudo Bíblico sobre a crucificação
22. A pedra rolou: a madrugada da vitória – Estudo Bíblico sobre a ressurreição
23. Ele ressuscitou, e agora? As 3 atitudes que definem sua fé – Estudo Bíblico sobre a ressurreição de Jesus
24. Encontros com o Rei ressurreto – Estudo Bíblico sobre as aparições de Jesus
25. A grande comissão: uma ordem que ecoa até hoje – Estudo Bíblico sobre o estabelecimento da Igreja
26. O plano perfeito foi cumprido – Estudo Bíblico sobre a missão de Jesus
