Marcos 14.26, 32-42
O jardim do Getsêmani, cujo nome significa "fábrica de óleo ou lagar de azeite, prensa de azeitonas". Tal é o termo Geth ou Gath, sempre usado em vocábulos compostos.
Os jardins orientais não eram lugares destinados à cultura de flores e vegetais, mas eram pomares de árvores frutíferas ou bosques de arbustos e árvores de sombra.
O jardim de Getsêmani ficava na vertente ocidental do Monte das Oliveiras. Naquele lugar solitário Jesus costumava orar longe dos homens e do ruído do mundo.
Foi num jardim que Adão pecou e caiu. Num jardim sofreu o segundo Adão. E num jardim foi Cristo sepultado, como se vê de João 19.41-42. É um jardim perfeito que espera o crente no céu.
Depois de instituir a Ceia, Jesus predisse a queda de Pedro (Lc 22.31-38; Jo 13.36-38), fez o discurso de despedida aos seus discípulos e a oração de intercessão (Jo 17.1). O reino dos céus, já estabelecido, estava para ser assaltado de dentro e de fora, pois Judas já se havia aliado com os chefes judeus.
Entrando no Getsêmani, ouve-se aí a mesma voz que se fez ouvir a Moisés do meio da sarça ardente: "Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa" (Ex 3.5).
Não podemos alcançar e compreender a intensidade dos sofrimentos de Cristo, nem podemos tão pouco penetrar no mistério daquela hora, mas podemos tirar dela, para nós, lições de fé e de confiança, de valor inestimável.
ESTUDO DA LIÇÃO
I. Conflito Espiritual
Então foi Jesus ao Getsêmani, saindo da cena sagrada da última Ceia, acompanhado por onze discípulos, já se havendo Judas bandeado definitivamente com os inimigos de Jesus. Jesus costumava retirar-se com seus amigos até este lugar.
É provável que pertencesse a algum afeiçoado de Jesus. Talvez Maria, mãe de João Marcos. Era chamado "Getsêmani." Este nome quer dizer "lagar de azeite." É símbolo de angústia, grande e profunda.
Repare-se o contraste notável entre o local da primeira tentação de Jesus e o de sua última. Sua experiência foi o contrário da do primeiro Adão.
Este começou a sua existência num jardim, donde foi expulso para o deserto; aquele começou onde a transgressão dos homens os havia conduzido, no deserto, e terminou num jardim. Mas, quão diferente do Paraíso!
A tentação no Éden, no deserto e aqui no Getsêmani foram assaltos contra a carne e o espírito. O primeiro Adão foi vencido ao primeiro assalto. O segundo Adão, Cristo, venceu três, e todos os mais.
"E disse aos seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou orar." Jesus sentia necessidade de comunhão com o Pai nesta crise que importava na redenção do mundo. A eles pediu que assentassem. "E tendo tomado consigo a Pedro, a Tiago e a João."
Estes pertenciam ao círculo íntimo dos discípulos. Era esta uma hora em que a natureza humana de Cristo desejava simpatia. De um lado procurava o auxílio do Pai; de outro, anelava solidariedade humana. Jesus era sensível.
Começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes então: "A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui e vigiai." O que Jesus sentiu aqui não foi simples medo da morte, mas uma experiência mais horrível do que a morte, uma tristeza que jamais a alma de homem algum sentiu.
Nesta hora ele experimentou a maldade, a crueldade, o ultraje, os padecimentos físicos e espirituais da crucificação. Ele sentiu intensamente o pecado do mundo, a traição de Judas, a fraqueza dos escolhidos, a malevolência e loucura dos judeus rejeitando o Mestre - sua única esperança.
Em suma, o horror indizível de um mundo recusando o Paraíso e a esperança, o desprezo à mais gloriosa manifestação do amor divino que o próprio Deus podia conceder a humanos.
Jesus compreendia a morte como era e é, a devida punição do pecado, símbolo da morte espiritual e de todas as aflições originadas do pecado.
Ele tinha de levar os nossos pecados em seu corpo (I Pe 2.24). "O Senhor carregou sobre si a iniquidade de todos nós." Assim, ele estava sendo ferido pelas nossas iniquidades e quebrantado pelos nossos crimes (Is 53.5-6).
E Jesus, conquanto sabendo já desde muito que padeceria todas estas angústias, mostrou um semblante intrépido e resoluto, caminhando para Jerusalém (Lc 9.5). A intrepidez moral que vê à frente o perigo e ainda assim continua trilhando o caminho do dever, eis a intrepidez na sua mais alta forma e beleza.
"Vigiai comigo." Jesus sabia que os três discípulos, embora fracos, eram amigos dedicados, e queria tê-los ao pé dele.
II. Jesus orando (vv. 35-39).
Há na experiência humana horas quando só a oração vale. Jesus era tão humano como divino, entregou a sua alma triste e ferida em oração ao Pai. Temos aqui, desvendado, o mais profundo mistério da fé cristã: as duas naturezas, divina e humana, reunidas em uma só pessoa perfeita.
"Ficai aqui e vigiai." Nosso Salvador não pediu que orassem junto com Ele. Chegou-se só e diretamente a seu Pai. E nenhum homem pode ir a Deus Pai senão por ele (Jo 14.6). Jesus não teve nem pode ter auxiliares. Mas, ele é o nosso único Mediador!
"Aba, Pai" = "Papai". Jesus ensinara seus discípulos a chamar Deus de "Pai nosso." Ele mesmo disse "meu Pai." Nós podemos (e devemos) ser filhos de Deus (Jo 1.12), mas Cristo é o Filho Unigênito e especialmente amado. "Se possível."
Combinando as diversas frases dos evangelistas (Lc 22.42; Mt 26.39), vê-se o verdadeiro sentimento de Cristo: "Se é possível por qualquer outro meio salvar os homens e fazer a tua vontade, então 'passa de mim este cálice', o cálice da morte como penalidade.
Todavia, não se faça a minha vontade, e, sim, a tua." Cristo mostrava, não uma mera submissão às determinações do Pai, mas imponente desejo de cumpri-las todas.
Para escapar ao cálice podia ter invocado doze legiões de anjos em sua defesa. Mas, no fundo de seu coração, mais intenso do que a angústia que sofria, achava-se o desejo de realizar a vontade de Deus. Esta oração contém a essência verdadeira da fé, a que espera resposta à petição e calmamente confia em Deus quanto à forma dessa resposta.
III. A tríplice resposta à oração.
Foi esta a ocasião das "orações e súplicas de Cristo" (Hb 5.7), e foi ele atendido, do mesmo modo que Deus atende às nossas orações. Quando Deus, na sua infinita sabedoria, não tira a aflição que inspira as nossas orações, Ele nos dá forças para suportá-la.
Paulo não se livrou da fraqueza física que sofria, mas a graça de Deus lhe bastou (II Co 12.7-9). Jesus levantou-se de sua oração consolando, animando e confirmando cheio de esperança e de fé.
- A primeira resposta foi obter o que havia pedido. O anjo (Lc 22.43) foi a resposta imediata à sua oração. Também a vontade de Deus foi feita como Cristo pediu.
- A segunda resposta foi obter comunhão mais íntima com o Pai. E esta a resposta das melhores, e é também uma razão por que a Bíblia nos incita a orar.
- A terceira reposta foi a dádiva mais rica do que tudo quanto pedira. Foi uma resposta, não à forma mas ao espírito da oração de Jesus. Desejava ele a salvação do mundo, a coroa do triunfo sobre o mal e a glória do lugar à destra de Deus. Sua oração foi atendida, pois a cruz foi trocada pela coroa, o Getsêmani pelo Paraíso e a morte pela glória imortal.
IV. Os discípulos.
"Vigiai e orai para que não entreis em tentação." Uma exortação, está aqui aplicável aos cristãos de todos os séculos. Lealdade e amor não bastam, sem vigilância e oração, pois mesmo quando o espírito esteja pronto, a carne é sempre frágil e traiçoeira...
A nossa lição, pois, nos ensina:
I. Sofrimento salutar
Não há neste mundo cristão sincero que não deseje para sua vida, família, igreja e pátria a maior soma de bênçãos. Não há quem deixe de ter nesse sentido o seu alvo especial. Animam-se quando lembram que "tudo é possível ao que crê", mas desanimam quando a negra perspectiva da luta surge assustadora.
O mesmo Deus que ajudou todos os grandes vultos da história a conceber e efetuar as obras mais espantosas, está pronto a auxiliar-nos nas conquistas científicas e religiosas dignas, nas reivindicações justas dos que sofrem opressão.
Jesus conquistou uma nova terra, uma nova humanidade redimida. Lutou, sofreu, mas venceu. A oração consciente é o segredo da vitória.
Jesus sofreu pelo bem de outros. Ele não estava no Getsêmani por expiação de erros próprios. Ali chorou e se angustiou pelo imenso bem que quis trazer aos homens, inimigos gratuitos dele e de seu Pai. Imitemos nosso Senhor. Saibamos "fazer o bem aos que nos perseguem..."
II. A vigilância
O exemplo de Jesus nos ensina que devemos ser:
1) Vigilantes na simpatia. "Então foram" (v. 32). A simpatia que cochila numa crise é perigosa e dela não se pode desprender. Poucas coisas há que devam estar mais alerta que a simpatia.
2) Vigilantes no perigo. "E começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia" (v. 33). O Mestre estava em perigo iminente naquela noite. Da mesma forma também os discípulos. Mas estes dormiram! "Vigiai."
3) Vigilantes na tristeza. "Profundamente triste até à morte" (v. 34). Triste até à morte, Jesus penetrou na sombra intensa do Getsêmani. Queria que seus discípulos vigiassem com ele (não por ele).
4) Vigilantes na oração. "Vigiai e orai" (v. 38). Lembre-se de que Satanás pode envenenar nossas orações e arrancar-nos de diante do Trono da Misericórdia. Por conseguinte, vigie enquanto você ora. "Vigiai e orai!"
5) Vigilantes na tentação. "Para que não entreis em tentação" (v. 38). Dez mil inimigos se levantam contra nós. Devemos pois, estar em guarda. O tentador está alerta: o tentado não pode dormir sem prejudicar sua segurança.
6) Vigilantes na obediência. "Não pudeste vigiar?" (v. 37). Podemos fazer coisas boas e, contudo deixar de fazer as melhores. Esteja atento. Cumpra o dever que lhe está mais próximo. Seja fiel. Seja obediente.
7) Vigilantes na fraqueza. "A carne é fraca" (v. 38). Podem os fortes dormir sem receio? Pelo menos os fracos devem vigiar para conservar o seu vigor. Um inválido vigilante pode alcançar mais que um gigante adormecido.
8) Vigilantes na fadiga. "Dormes?" (v. 37). A maior parte de nós faria a mesma coisa que os discípulos fizeram naquela noite ou pior! Eles estavam completamente exaustos. Seja vigilante se estiver muito fatigado!
9) Vigilantes na ignorância. "Não sabiam que responder-lhe" (v. 40). Quando achou os discípulos dormindo, nada acharam que responder. Naturalmente. Se os ignorantes estiverem vigilantes, em breve se tornarão sábios.
10) Vigilantes no sacrifício. "É chegada a hora... vamos" (v. 41). Jesus não desperdiçou sua vida. Antes empregou-a do melhor modo possível. Vigiava pela sua oportunidade. Quando a hora chegou, estava pronto.
III. O Getsêmani e nós.
1. Devemos ter nosso jardim predileto, local de refúgio e de oração, onde só os que são do Senhor podem entrar para comunhão com Deus.
2. Na hora da angústia, oremos.
3. Tenhamos confiança na vontade do Pai celestial. Mesmo que ela nos dê um cálice de amargo licor e aflição, confiemos. O cálice se transfigurará em coroa à hora devida.
4. O pecado é mau. Inspirou horror a Cristo. Deus não o tolera. Odiemo-lo.
5. Se dormirmos quando a causa do Mestre está em perigo, quem corre maiores riscos não é o Mestre. Somos nós mesmos: "Vigiai e orai..."
6. Após o conflito que se venceu pela fé e pela oração, vem a ordem salutar: "Descansai agora..."
7. Cristo sofreu para nos salvar. Procuremos salvar, em Cristo, outros.
CONCLUSÕES
1. Sendo pecadores nós precisamos de um redentor, pois somos incapazes de fazer o nosso próprio resgate.
2. Jesus é a única pessoa capaz de fazer o nosso resgate, pois só ele sorveu o cálice da redenção, preenchendo os requisitos para ser o Redentor.
3. Jesus bebeu o cálice da redenção, parte por parte, até a última gota, para o nosso resgate. Devemos aceitar o Redentor para obtermos a redenção.
Autor: GALDINO MOREIRA
Lista de estudos da série
1. O nascimento que abalou a história – Estudo Bíblico sobre a natividade de Jesus2. A infância do Rei prometido – Estudo Bíblico sobre o crescimento de Jesus
3. O manifesto do Messias em Nazaré – Estudo Bíblico sobre o início do ministério de Jesus
4. Os 12 homens que viraram o mundo de cabeça para baixo – Estudo Bíblico sobre o chamado dos discípulos
5. O primeiro sinal: Transformando água em vinho – Estudo Bíblico sobre os milagres de Jesus
6. 38 anos de sofrimento acabaram em um instante – Estudo Bíblico sobre a cura do paralítico
7. O banquete impossível no deserto – Estudo Bíblico sobre a multiplicação dos pães
8. Decodificando as histórias de Jesus – Estudo Bíblico sobre as parábolas
9. A oração que ensina a orar – Estudo Bíblico sobre o Pai Nosso
10. O código do amor: a lei resumida por Jesus – Estudo Bíblico sobre os grandes mandamentos
11. O peregrino divino: por onde Jesus andou – Estudo Bíblico sobre as viagens de Jesus
12. Mais que seguidores, amigos – Estudo Bíblico sobre os amigos de Jesus
13. A ordem que desafiou o túmulo – Estudo Bíblico sobre a ressurreição de Lázaro
14. Um vislumbre da glória celestial – Estudo Bíblico sobre a Transfiguração
15. O homem que subiu na árvore para encontrar a salvação – Estudo Bíblico sobre Zaqueu
16. Palavras de consolo antes da tempestade – Estudo Bíblico sobre o discurso de despedida
17. A oração mais poderosa da história – Estudo Bíblico sobre a oração intercessória de Jesus
18. A agonia no jardim e a entrega voluntária – Estudo Bíblico sobre o Getsêmani
19. O julgamento mais injusto da história – Estudo Bíblico sobre os julgamentos de Jesus
20. As 7 palavras que ecoam da cruz – Estudo Bíblico sobre o sacrifício de Jesus
21. Por amor, o Rei se entregou à morte – Estudo Bíblico sobre a crucificação
22. A pedra rolou: a madrugada da vitória – Estudo Bíblico sobre a ressurreição
23. Ele ressuscitou, e agora? As 3 atitudes que definem sua fé – Estudo Bíblico sobre a ressurreição de Jesus
24. Encontros com o Rei ressurreto – Estudo Bíblico sobre as aparições de Jesus
25. A grande comissão: uma ordem que ecoa até hoje – Estudo Bíblico sobre o estabelecimento da Igreja
26. O plano perfeito foi cumprido – Estudo Bíblico sobre a missão de Jesus
