A ordem que desafiou o túmulo - Estudo Bíblico sobre a ressurreição de Lázaro


João 11.31-44

INTRODUÇÃO

Este incidente se deu em Betânia, pequena e atraente aldeia ao oriente do Monte das Oliveiras, cerca de meia légua de Jerusalém. Por ocasião da Festa da Dedicação, Cristo afirmou com tanta clareza e veemência a sua Divindade, que os judeus procuraram aprisioná-lo a fim de o matarem.

Para escapar à fúria dessa gente, Jesus seguiu, então, para Betânia da Peréia ou Betabara, a leste do Jordão, lugar onde Ele fora batizado fazia já uns três anos. Foi aqui, certo dia, que Jesus recebeu a notícia de estar muito enfermo o seu grande amigo Lázaro que, afinal, veio a falecer. Mas, o restante dos acontecimentos a lição nos conta. Vejamos...

ESTUDO DA LIÇÃO

I. Jesus e a Dor.

Jesus realizou vários milagres. Qual deles foi o maior? Diremos, sem sombra de dúvida, que foi a sua própria ressurreição, quando Ele, por seu poder divino e com a aprovação do Pai, rompeu vitoriosamente os laços da morte.

Mas, entre os milagres operados pelo Senhor, excetuado o de sua ressurreição, o maior, talvez, tenha sido o de que trata a nossa lição - Lázaro levantado do túmulo. Cristo arrebatou do poder da morte, segundo narram os Evangelhos, a três pessoas.

Mas, a ressurreição de Lázaro, o terceiro caso, foi o de mais excelência. O primeiro caso foi o da filha de Jairo, que acabava de morrer; o segundo, o do filho da viúva de Naim, que nem tinha sido sepultado; o terceiro, Lázaro, sepultado fazia já quatro dias, quando Jesus o chamou desde o túmulo.

Ora, bem. Recebeu Cristo, no seu retiro forçado em Betabara, um recado angustioso e urgente de Marta e de Maria, irmãs de Lázaro: "Senhor, está enfermo aquele a quem amas!" Este Lázaro não deve ser confundido com o Lázaro da parábola de Lucas 16, nem sua irmã, Maria, com a pecadora de Lucas 8, ou com Maria Madalena. Cada um destes é pessoa diferente na história evangélica.

Jesus, tomando conhecimento da grave notícia, resolveu ficar no mesmo lugar onde estava. Estranha atitude, não parece? A dor clamava a ele por socorro. Os amigos pediam-lhe bálsamo.

E Ele fica quieto e indiferente? Por que não se apressou a socorrer as irmãs de Lázaro, aflitíssimas? O evangelista explica as razões. Antes de tudo, a demora de Jesus tornava maior e mais brilhante a glória de Deus na morte de Lázaro. Ele ia ser levantado do túmulo à hora oportuna. Há mortes que são hinos de louvor a Deus.

Há dores que são testemunhas do poder divino (Jo 11.4). Outro motivo era que Cristo amava Maria, Marta e Lázaro (Jo 11.5), e amava a seus discípulos, e amava o mundo todo. As bênçãos da demora, no caso, eram maiores do que sua imediata ida a Betânia.

Parece-nos que o amor divino é mais forte ainda quando espera e demora. Jesus sabe que poucos dias ou poucos anos ou mesmo o termo da vida, gastos em esperar qualquer bênção, é preço pequeno para a confirmação de nossa fé. Porque disse Cristo: "Esta enfermidade não é para morte." Lázaro havia de morrer?

Talvez os discípulos entendessem que Jesus tencionava curar Lázaro de longe, como curou o filho do oficial. Mas, Cristo quis dizer que a morte de Lázaro não seria o resultado final da enfermidade que o prostrara.

Cristo é o Forte que sabe vencer a dor, o luto e as lágrimas, no momento próprio. Jesus não era e nem é insensível e frio às angústias de seu povo e de seus amigos. Ele sofria com o lar aflito de Betânia. Mas, tinha reservado grandes alegrias em favor daqueles pobres corações.

Não murmuremos contra nosso Senhor quando "fica dois dias" longe de nós e parece insensível à nossa dor. Essas demoras de Jesus são bênçãos fecundas um pouco mais adiante. Foi o que se deu com o lar de Betânia.

II. Jesus e a Morte.

Ouviram os discípulos, com grande surpresa, a proposta de Jesus, após dois dias de haver recebido a notícia da doença mortal de Lázaro, de ir até à Judéia, de ir a Betânia. Pois, havia pouco, tinha-se retirado da Judéia por causa da oposição dos judeus. A "sua hora", a hora das trevas, a hora do triunfo de seus inimigos ainda não tinha chegado.

Note-se como Jesus fala da morte de Lázaro: "Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas eu vou para despertá-lo." Aqui Jesus não falava do sono natural, mas da morte. Em alguns sentidos, a morte é semelhante ao sono.

  1. Muitas vezes vem tão fácil e quietamente como o sono.
  2. E breve como o sono, porque o espírito logo acorda no outro mundo.
  3. Qual o sono, a morte refrigera e renova, porque introduz o crente salvo no estado livre de todo sofrimento, de toda dor e do pecado.

Os cristãos primitivos, por isso, chamavam aos lugares onde enterravam os mortos de "cemitérios", isto é, "quartos de dormir". 

Os pagãos tinham a mesma ideia, mas não conhecendo o poder da ressurreição de Cristo, pensavam em um sono eterno. Os discípulos, interpretando ao pé da letra as palavras de Jesus, disseram: "Senhor, se dorme, estará salvo."

Então Jesus lhes disse abertamente: "Lázaro morreu." E acrescentou as palavras, que, à primeira vista, parecem tão estranhas saindo dos lábios do compassivo Jesus: "E por vossa causa me alegro de que lá não estivesse."

Que mistério! Os santos, os amigos de Jesus chorando, e Jesus se alegrando... Mas, Jesus sabia que o resultado de seu ato em "despertar" a Lázaro de seu sono seria aumento de fé e de confiança no seu divino poder: "me alegro de que lá não estivesse, para que possais crer."

A distância de Betânia, na Peréia, à Betânia, aldeia das irmãs Marta e Maria, era de cinco léguas, uma jornada que bem facilmente se podia fazer em um dia. Quando Jesus chegou, parou fora da aldeia, porque muitos dos judeus tinham vindo de Jerusalém a consolar as irmãs enlutadas.

III. Jesus e a Vida.

Marta, assim que ouviu que Jesus chegara, saiu a encontrá-lo. Mas, Maria ficou em casa. Na saudação de Marta há quase uma nota de repreensão: "Senhor, se estiveras aqui, não teria morrido meu irmão. Mas também sei que, mesmo agora, tudo quanto pedires a Deus, Deus o concederá." Mas, houve também a nota de fé e de esperança. E Jesus lhe disse: "Teu irmão há de ressurgir."

Esta promessa, porém, não satisfez o desejo de Marta. 

Ela queria o irmão naquele instante e não em qualquer dia no futuro. Note-se como Jesus satisfez esse desejo: "Eu sou a ressurreição e a vida." "Eu", o amigo a quem amas, "Sou", agora, não no futuro, mas hoje mesmo, sou a ressurreição e a vida, a vida capaz de vencer a morte que tem invadido a tua casa. 

Ainda mais: "Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E todo o que vive e crê em mim, não morrerá, eternamente. Crês isto?" Marta fez uma boa confissão de fé. "Sim, Senhor, eu tenho crido que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo." 

E dito isto, Marta foi chamar sua irmã, Maria, que estava em casa, no meio dos amigos, lamentando e chorando.

As primeiras palavras que Maria dirigiu a Jesus foram as mesmas que Marta tinha falado, mostrando que as irmãs tinham, repetidas vezes, dito uma à outra: "Se Jesus estivesse aqui nosso irmão não teria morrido!"

Maria, falando estas palavras, lançou-se aos pés de Jesus, em pranto. Jesus, vendo a tristeza de Maria e dos amigos que tinham vindo com ela, "agitou-se no espírito", vendo ali os estragos que o pecado tinha trazido ao mundo. Em sinal de sua simpatia humana para com suas amigas, Marta e Maria, também "chorou".

Este é o segundo menor versículo da Bíblia, mas é também um dos mais expressivos. Na mesma ocasião em que o divino poder de nosso Senhor se manifesta, o lado humano de sua vida também se evidencia.

Não é um coração empedernido o que aos mortos ressuscita. Como quase sempre acontecia, as palavras e as ações de Jesus fizeram divisão entre os que se achavam ali. Alguns admiradores das lágrimas de Jesus disseram: "vede quanto o amava!"

Outros, porém, mesmo na presença de tão grande angústia, não podiam deixar de criticar e de murmurar: "Este, que abriu os olhos ao que era cego de nascença, não podia fazer que Lázaro não morresse?"

E Jesus, "tornando a agitar-se no seu espírito", veio ao sepulcro, que era uma gruta lavrada, talvez numa caverna natural e coberta com uma grande pedra. A morte é cautelosa!

Disse Jesus: "Tirai a pedra." Sem dúvida, o mesmo poder divino que ia chamar Lázaro para fora podia também remover a pedra. Mas, Jesus nunca exercitou poder inutilmente. Ele sempre quer e requer que os homens façam o que podem, façam a sua parte.

A objeção de Marta era razoável como prova de fraqueza humana, mas Jesus lembrou-lhe sua promessa de mostrar-lhe a glória de Deus se ela cresse. "Tiraram a pedra." 

E Jesus, levantando os olhos ao céu, deu graças ao Pai por tê-lo ouvido. Ele agiu assim por causa da multidão que ali estava, a fim de que todos cressem na sua divina missão e na sua divina relação com o Pai.

Tendo feito a oração, Jesus "clamou em alta voz", para que todos os circunstantes ouvissem: "Lázaro, sai para fora!" 

Penetrou nas almas dos vivos e alcançou os ouvidos do morto, e Lázaro, ligados os pés e mãos com as ataduras, e seu rosto coberto com um lenço, saiu e ficou em pé diante da multidão admirada e temente. Jesus rompeu o silêncio mortal que estava sobre o povo, dizendo aos circunstantes: "Desatai-o e deixai-o ir."

Da vida subsequente de Lázaro nada se sabe. João nos diz que Lázaro assistiu à ceia que foi oferecida a Jesus em Betânia, dois ou três meses mais tarde. A tradição diz que Lázaro viveu trinta anos depois de sua ressurreição.

CONCLUSÕES

Confia no Cristo vivo e amoroso.

1) O Cristo ausente.

"Se estiveras aqui" (v. 21). Aqueles dois corações lacerados tinham ponderado neste pensamento durante quatro longos dias, dia e noite. Talvez Marta e Maria já soubessem o que nós já deduzimos, isto é, que Jesus jamais permitiu, na sua presença, uma cena de morte. 

O último inimigo terrível do homem conserva-se afastado quando ele está presente. Repelido é o inimigo de nossas almas pela presença de nosso Senhor. Quão precioso é saber que Jesus estará conosco sempre, até à consumação dos séculos...

2) O Cristo compassivo.

"Jesus chorou" (v. 35). Este versículo, posto que dos menores de toda a Bíblia, não é o menos significativo. A ternura e simpatia de nosso Salvador claramente aqui brilham. A grande dor de Marta e Maria encheu-lhe os olhos de lágrimas. Entristeceu-se também com a morte do querido amigo. Ele é hoje o mesmo Salvador terno e compassivo.

3) O Cristo que ordena.

"Tirai a pedra" (v. 39). Só Jesus podia ressuscitar o Lázaro morto, porém mãos humanas podiam remover a pedra da entrada do túmulo. Quão insignificante é uma coisa comparada com a outra! No entretanto, o mandamento obedecido pelos vivos facilitou o caminho para o ex-morto. Assim, podemos ser "colaboradores de Deus".

4) O Cristo destemido.

"Já é de quatro dias" (v. 39). A objeção de Marta não foi senão a tendência natural de fugir à vista do corpo putrefato de um ente querido. Foi uma luta entre a fé e a dúvida. Quando ela se achava perante o Mestre, sua fé mantinha-se firme; mas quando pensava no morto, a dúvida a vencia. "Felizes seremos se, quais outras Martas, o Mestre acalmar nossos temores e aumentar nossa fé."

5) O Cristo que ora.

"Sempre me ouves" (v. 42). Esta confissão foi como que o âmago daquela oração que Cristo ofereceu ao Pai, ao pé do túmulo aberto, no meio dos curiosos e pranteadores. 

Ninguém mais a poderia pronunciar senão o Filho de Deus. E nós fazemos bem lembrando-nos de que Ele é o nosso Advogado perante o Pai, que vive sempre para interceder por nós.

6) O Cristo que ressuscita.

"Lázaro, vem para fora" (v. 43). Não há aqui linguagem inútil e equívoca. Uma ordem breve, e Lázaro voltou das regiões inexploradas da tumba. Ele foi o último dos três que o Mestre ressuscitou. Lázaro é o penhor que temos de que Cristo vence a morte. Mas, o melhor é Cristo mesmo, as "Primícias dos que dormem". Jesus é a garantia de nossa ressurreição futura.

Autor: GALDINO MOREIRA


Lista de estudos da série

1. O nascimento que abalou a história – Estudo Bíblico sobre a natividade de Jesus
2. A infância do Rei prometido – Estudo Bíblico sobre o crescimento de Jesus
3. O manifesto do Messias em Nazaré – Estudo Bíblico sobre o início do ministério de Jesus
4. Os 12 homens que viraram o mundo de cabeça para baixo – Estudo Bíblico sobre o chamado dos discípulos
5. O primeiro sinal: Transformando água em vinho – Estudo Bíblico sobre os milagres de Jesus
6. 38 anos de sofrimento acabaram em um instante – Estudo Bíblico sobre a cura do paralítico
7. O banquete impossível no deserto – Estudo Bíblico sobre a multiplicação dos pães
8. Decodificando as histórias de Jesus – Estudo Bíblico sobre as parábolas
9. A oração que ensina a orar – Estudo Bíblico sobre o Pai Nosso
10. O código do amor: a lei resumida por Jesus – Estudo Bíblico sobre os grandes mandamentos
11. O peregrino divino: por onde Jesus andou – Estudo Bíblico sobre as viagens de Jesus
12. Mais que seguidores, amigos – Estudo Bíblico sobre os amigos de Jesus
13. A ordem que desafiou o túmulo – Estudo Bíblico sobre a ressurreição de Lázaro
14. Um vislumbre da glória celestial – Estudo Bíblico sobre a Transfiguração
15. O homem que subiu na árvore para encontrar a salvação – Estudo Bíblico sobre Zaqueu
16. Palavras de consolo antes da tempestade – Estudo Bíblico sobre o discurso de despedida
17. A oração mais poderosa da história – Estudo Bíblico sobre a oração intercessória de Jesus
18. A agonia no jardim e a entrega voluntária – Estudo Bíblico sobre o Getsêmani
19. O julgamento mais injusto da história – Estudo Bíblico sobre os julgamentos de Jesus
20. As 7 palavras que ecoam da cruz – Estudo Bíblico sobre o sacrifício de Jesus
21. Por amor, o Rei se entregou à morte – Estudo Bíblico sobre a crucificação
22. A pedra rolou: a madrugada da vitória – Estudo Bíblico sobre a ressurreição
23. Ele ressuscitou, e agora? As 3 atitudes que definem sua fé – Estudo Bíblico sobre a ressurreição de Jesus
24. Encontros com o Rei ressurreto – Estudo Bíblico sobre as aparições de Jesus
25. A grande comissão: uma ordem que ecoa até hoje – Estudo Bíblico sobre o estabelecimento da Igreja
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Semeando Vida

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