Marcos 6.30-44
Assim Cristo, achando-se na região deserta de Betsaida, resolveu aproveitar as multidões que iam passando e que, atraídas por Ele e os seus, o seguiam a ouvir as boas-novas de uma nova era.
Nesta oportunidade foi que se deu o milagre dos pães, apenas cinco pães e dois peixes, que se conseguiram em certa tarde em que o povo estava aglomerado no caminho com Ele, e sem recursos de mantimentos.
Este milagre se fez o símbolo suntuoso e brilhante do cuidado que Jesus tinha e tem pelos problemas sociais humanos, esses que tão de perto falam do estômago, das necessidades temporais diárias, do pão para a boca, da subsistência material.
Jesus ama o povo. Deseja vê-lo saciado dignamente em sua fome, em sua sede, em sua ânsia de se vestir e de se cobrir com tetos agasalhadores. Tudo isso é justo. Cristo não anula estas coisas.
Ele, todavia, só fez a multiplicação miraculosa quando a necessidade era real, quando o povo não tinha de fato recursos próprios e quando as circunstâncias eram desfavoráveis e irremediáveis.
Cristo reconhece no homem direito à Terra, ao Pão, ao Trabalho, ao Repouso, à Riqueza, ao Bem-estar como bens necessários e não como métodos de luxo, de prazeres ilícitos e de paixões malignas.
Jesus e o povo... Que admirável consórcio!
ESTUDO DA LIÇÃO
I. Jesus e seu campo de trabalho.
Após ter curado o paralítico da piscina de Betesda, em Jerusalém, por ocasião da festa da Páscoa, retornou Jesus à Galileia, com os apóstolos, a pregar, a curar e a ensinar. Voltando os apóstolos de fecunda viagem missionária, trouxeram também a Cristo uma notícia trágica e muito triste.
Herodes Antipas matara João Batista, mandando-lhe degolar no cárcere de Maqueros, na região do Mar Morto! Isto devia ter chegado ao conhecimento do Mestre quando estava em Cafarnaum, sede residencial do corpo missionário e de seu ilustre Chefe.
Ora, ouvindo tão dolorosa notícia, Jesus retirou-se da Galileia e, entrando com seus discípulos num barco, rumou para o nordeste do mar do mesmo nome, para assim entrar no território de Herodes Filipe, situado entre as montanhas.
Aí Jesus, com seus discípulos, ensinava-lhes as verdades importantes do Reino. Segundo parece, retirou-se Cristo da Galileia por dois motivos.
(1) A excitação do espírito causada pela morte de João Batista poderia facilmente iniciar uma revolta do povo, e Jesus não queria que seu Reino se inaugurasse no meio de motins políticos.
(2) Segundo a narrativa, Jesus retirou-se para lugar deserto porque os discípulos, e Ele mesmo, precisavam de descanso.
O melhor trabalho, muitas vezes, é feito em período do descanso de preocupações ordinárias. Nas alturas, acima da fumaça e da confusão das batalhas, visões mais claras e mais compreensíveis costumam surgir.
II. Jesus e os problemas sociais.
"...as multidões ...seguiram-no", alguns vindo da Galileia e outros de viagem para Jerusalém, para assistir à Festa da Páscoa. Seguiam-no porque viram os milagres que fazia. Também os discípulos, em sua viagem evangelística, tinham pregado o Evangelho e feito muitos milagres em nome de Jesus.
Ele mesmo "partiu dali a ensinar e a pregar, nas cidades deles" (Mt 11.1). Foi uma grande campanha missionária, que despertou o interesse do povo, de sorte que desejavam saber mais das doutrinas de Jesus, queriam ser curados de suas doenças e queriam um grande chefe e libertador. Tinham visões e esperanças de melhores dias.
Quem quiser atrair as multidões ao banquete do Evangelho, deve ter alguma coisa que lhes satisfaça a fome do corpo e a sede da alma.
Neste dia atarefado, Jesus se ocupava em três direções. Vemo-lo pela manhã, antes de as multidões o acharem, sentado no declive do monte conversando com seus discípulos, ensinando-os. "Subiu, pois, Jesus a um monte e ali se assentou com seus discípulos."
Aqui os discípulos podiam narrar ao Mestre tudo quanto tinham feito, na sua viagem evangelística. Podiam discutir seus planos, seus sucessos, seus erros e receber as instruções que mais tarde seriam necessárias para pregar o Evangelho ao mundo.
Do v. 34 com Lc 9.11 sabemos que Jesus, ao ver as multidões, teve compaixão delas e lhes deu bom acolhimento, esquecido de seu cansaço e pronto a falar-lhes do Reino de Deus e curar suas enfermidades.
Os milagres eram como que textos dos discursos que proferia. Prendiam a atenção do povo e lhes abriam os corações a atender as palavras da doutrina.
As multidões seguiram a Jesus porque desejavam aproveitar-se das bênçãos materiais que Ele dispensava. Mas Jesus não as rejeitou por esse tão grosseiro motivo.
Os motivos que muitas vezes nos levam a buscar coisas melhores não são necessariamente os mesmos que, depois, regem a vida dos que alcançaram essa vida melhor. São escadas que dão entrada à casa. Não são a casa. São caminhos que conduzem à cidade e não a própria cidade.
Do seu posto viu Cristo as multidões como ovelhas sem pastor, ainda que houvesse pastos verdes e águas para quantos quisessem seguir o verdadeiro Pastor de suas almas. Estavam famintos de corpo e alma. Era um quadro do mundo todo, que Ele veio salvar e apascentar.
Era chegada a hora em que Ele podia mostrar ao povo e ao mundo inteiro que, para as almas famintas, Ele mesmo era o Pão da Vida que desceu do céu para satisfazer essa fome.
Em muitas terras há bilhões de almas famintas, que perecem por falta do Pão da Vida. Não é verdade: "Eis os bilhões que, em trevas tão medonhas, jazem perdidos sem o Salvador?"
III. Jesus e o trabalho organizado.
Certo chefe duma das tribos da África Central disse a David Livingstone, depois de ter escutado a história do Evangelho: "Os meus antepassados todos morreram sem saber destas coisas. Como é que seus superiores, sabendo tudo isto, não mandaram antes avisar os meus?"
Jesus, chamando a Filipe, que residia em Betsaida e que, por conseguinte, conhecia a região e o povo, disse-lhe: "Onde compraremos pães para lhes dar a comer?" Filipe fez logo o cálculo, e disse: "Não lhes bastariam duzentos denários de pão..."
Daí, os apóstolos, em vista da situação, apresentaram o conselho: "Despede a multidão para que, indo às aldeias... achem alimento, pois estamos aqui em lugar deserto."
Replica-lhes Jesus: "Dai-lhes vós mesmos de comer." Atarantados, dizem os apóstolos: Será preciso levar duzentos dinheiros para comprar pão para lhes dar o que comer. E nem isto chega para nada! Mas, o Mestre abre caminho e indaga deles: Quantos pães tendes? André, voltando-se e falando aos outros, diz: Está aí um garoto que tem cinco pães de cevada e dois peixes: mas, que é isto para tanta gente?
Jesus lhes disse: "Trazei-mos." Ainda fazemos a mesma pergunta diante dos males a vencer, do trabalho a fazer, das multidões a serem convertidas e do poder do inimigo...
E, na verdade, se "isto" fosse "tudo", se não houvesse o Espírito Santo, nem o Cristo onipotente operando nestes recursos tão insignificantes e por meio deles, todos os nossos esforços seriam em vão.
Quanto benefício aquele menino pôde fazer! Seu nome é desconhecido, mas sua fama é imortal. Graças a Deus pelos jovens.
Nenhuma cena é completa sem uma criança ou um jovem à dianteira. E este menino, cujo nome não nos foi transmitido, tornou-se cooperador com Cristo em um dos maiores milagres que Ele fez durante seu ministério!
IV. Jesus, o povo e a felicidade.
Todos comeram e se fartaram (v. 42). Disse Jesus aos discípulos: "Recolhei os pedaços que sobraram para que nada se perca." Todos ficaram alegres e satisfeitos. É sempre assim com os dons de Deus. O banquete do Evangelho fornece o bastante a todo o mundo.
Eles, pois, os recolheram e encheram doze cestos de pedaços. Foi uma lição de economia muito oportuna. Importa aproveitar todos os fragmentos de tempo e de oportunidades para que não haja desperdício dos dons de Deus.
A esperança da salvação do mundo está no poder maravilhoso de Deus, que se manifesta na multiplicação das coisas pequenas. O número, o poder e as riquezas dos cristãos bastam para a conversão do mundo, se quiserem distribuir o que Deus lhes dá e se a bênção de Deus acompanhar a dádiva.
CONCLUSÕES
1. Jesus alimentou multidões...
Jesus alimentou multidões, miraculosamente, mencionado só duas vezes no decurso de seu ministério de talvez três anos e meio. Ele o fez em ocasiões absolutamente humanas. Jesus não dá pão aos que podem obtê-lo com o labor honesto, nem o dá a quem dele não necessite realmente.
2. O milagre da multiplicação dos pães é o único...
O milagre da multiplicação dos pães é o único que, de uma vez, os quatro evangelistas registram. Os outros milagres ora aparecem num ou noutro dos Evangelhos. Isto mostra que o prodígio foi grande, e a lição espiritual que encerrou ainda maior: Jesus é o Pão que alimenta para sempre.
3. Jesus estava triste com a morte de um grande amigo...
Jesus estava triste com a morte de um grande amigo; estava cansado; foi às montanhas para meditar calmamente... Todavia, sacrifica tudo para atender às necessidades do povo padecente e infeliz.
4. Nas horas de servir...
Nas horas de servir, em nome do Cristo de Deus, aos necessitados no corpo e na alma, não deve o verdadeiro crente pensar na aridez do local, no adiantado da hora, no pouco recurso que haja, nos pãezinhos e peixes inexpressíveis... E só pensar no divino Senhor que transfigura isso tudo em ricos dons.
5. Ordem, método, calma, plano e desejo de servir...
Ordem, método, calma, plano e desejo de servir bem a todos são necessários ao êxito da obra do Reino de Deus na terra.
6. A igreja requer administração inteligente e honesta.
7. Sem que Cristo abençoe...
Sem que Cristo abençoe os nossos cinco pãezinhos e peixes, ordem, método, administração não os multiplicariam por si. Só Cristo faz isso.
8. Desperdício, seja do que for, é pecado.
Economia sábia, discreta e altruisticamente bem orientada é ação de absoluta necessidade na vida dos lares, das sociedades, dos povos e da igreja.
Autor: GALDINO MOREIRA
Lista de estudos da série
1. O nascimento que abalou a história – Estudo Bíblico sobre a natividade de Jesus2. A infância do Rei prometido – Estudo Bíblico sobre o crescimento de Jesus
3. O manifesto do Messias em Nazaré – Estudo Bíblico sobre o início do ministério de Jesus
4. Os 12 homens que viraram o mundo de cabeça para baixo – Estudo Bíblico sobre o chamado dos discípulos
5. O primeiro sinal: Transformando água em vinho – Estudo Bíblico sobre os milagres de Jesus
6. 38 anos de sofrimento acabaram em um instante – Estudo Bíblico sobre a cura do paralítico
7. O banquete impossível no deserto – Estudo Bíblico sobre a multiplicação dos pães
8. Decodificando as histórias de Jesus – Estudo Bíblico sobre as parábolas
9. A oração que ensina a orar – Estudo Bíblico sobre o Pai Nosso
10. O código do amor: a lei resumida por Jesus – Estudo Bíblico sobre os grandes mandamentos
11. O peregrino divino: por onde Jesus andou – Estudo Bíblico sobre as viagens de Jesus
12. Mais que seguidores, amigos – Estudo Bíblico sobre os amigos de Jesus
13. A ordem que desafiou o túmulo – Estudo Bíblico sobre a ressurreição de Lázaro
14. Um vislumbre da glória celestial – Estudo Bíblico sobre a Transfiguração
15. O homem que subiu na árvore para encontrar a salvação – Estudo Bíblico sobre Zaqueu
16. Palavras de consolo antes da tempestade – Estudo Bíblico sobre o discurso de despedida
17. A oração mais poderosa da história – Estudo Bíblico sobre a oração intercessória de Jesus
18. A agonia no jardim e a entrega voluntária – Estudo Bíblico sobre o Getsêmani
19. O julgamento mais injusto da história – Estudo Bíblico sobre os julgamentos de Jesus
20. As 7 palavras que ecoam da cruz – Estudo Bíblico sobre o sacrifício de Jesus
21. Por amor, o Rei se entregou à morte – Estudo Bíblico sobre a crucificação
22. A pedra rolou: a madrugada da vitória – Estudo Bíblico sobre a ressurreição
23. Ele ressuscitou, e agora? As 3 atitudes que definem sua fé – Estudo Bíblico sobre a ressurreição de Jesus
24. Encontros com o Rei ressurreto – Estudo Bíblico sobre as aparições de Jesus
25. A grande comissão: uma ordem que ecoa até hoje – Estudo Bíblico sobre o estabelecimento da Igreja
26. O plano perfeito foi cumprido – Estudo Bíblico sobre a missão de Jesus
