Texto Básico: Atos 2:1-4
O termo "pentecostal” está definitivamente incorporado ao vocabulário da Igreja Cristã. Desde o início do século 20 quando um grupo de crentes começou a “falar em línguas” numa missão evangélica na rua Azusa, em Los Angeles, o movimento pentecostal se espalhou pelos quatro cantos do planeta.
Esse termo "pentecostal” é tirado do episódio que ocorreu no dia de Pentecostes em Jerusalém quando os discípulos do Senhor Jesus foram batizados com o Espírito Santo.
Os pentecostais dizem que tiveram uma experiência igual àquela. Eles raciocinam: os discípulos eram crentes, mas receberam o batismo depois, e falaram em línguas, então, há uma conversão operada pelo Espírito Santo, mas o batismo é uma segunda bênção, ou uma segunda experiência, uma experiência pós-conversão.
Dessa forma, para o pentecostalismo, há duas classes de crentes dentro da Igreja, os que já chegaram lá e os que ainda não conseguiram.
Quem já foi batizado faz parte da elite dos crentes, enquanto que quem não foi batizado faz parte de uma categoria inferior.
Estes últimos, frequentemente, recebem alguma discriminação por parte dos mais "adiantados”, e se veem ameaçados pela pergunta tradicional destes irmãos: “você ainda não foi batizado no Espírito Santo?”.
Esta lição vai ajudá-lo a ver o quanto essa visão carismática é distorcida e não faz justiça ao ensino bíblico.
1 - O PENTECOSTES E A REDENÇÃO
Atos 2:1-4 tem sua importância não por causa da festa judaica do Pentecostes, mas no fato de que Deus cumpriria mais um evento da história da redenção.
O nascimento de Jesus foi o primeiro evento histórico da redenção realizado na pessoa de Cristo.
O próximo evento foi sua morte, depois sua ressurreição, por fim sua Ascensão e a descida do Espírito Santo. Depois disso, só resta a segunda vinda.
Portanto, o evento que aconteceu no dia de Pentecostes foi o último da histórica atividade salvadora de Jesus.
Assim como a morte de Jesus e sua ressurreição não podem ser repetidas, também a descida do Espírito Santo não se repete.
Mas como os efeitos da morte e da ressurreição de Jesus, também os efeitos da descida do Espírito Santo estão presentes em todas as épocas.
Sem a descida do Espírito Santo, a obra redentora de Jesus não estaria acabada, e sua promessa não teria sido cumprida.
E mesmo a promessa do Antigo Testamento do derramamento do Espírito Santo passaria em branco. Mas, tudo isso se cumpriu no dia do Pentecostes. E como cumprimento, podemos dizer que se cumpriu de uma vez por todas.
Entretanto, os efeitos da vinda do Espírito Santo permanecem na igreja. Dessa forma não precisamos e não devemos pedir ao Pai que nos dê o Espírito Santo, pois ele já nos deu.
1 - O EVENTO DO PENTECOSTES SE REPETIU?
Alguém poderia objetar que, em pelo menos três ocasiões, o evento do Pentecostes se repetiu na forma de uma segunda bênção.
Isso aconteceu com os samaritanos, com os gentios em Cesaréia, e com os discípulos de João em Éfeso. Será importante analisar estes três acontecimentos.
A. HOUVE UM PENTECOSTES SAMARITANO?
Em Atos 8:5-17 está descrita a conversão dos samaritanos. Muitos samaritanos haviam crido no Evangelho por meio da pregação do evangelista Filipe e, como consequência, foram batizados.
Não temos motivo para duvidar da conversão daquelas pessoas. A única coisa estranha é a descida de Pedro e João para lá. Pelo que se sabe, não era comum os apóstolos inspecionarem a obra dos evangelistas.
Então, por que foram lá? Não é difícil descobrir. Aquela era a primeira vez que o Evangelho havia sido aceito fora de Jerusalém, e Lucas queria mostrar como o Evangelho saiu da exclusividade do ambiente judeu, sob a supervisão dos apóstolos e com todas as bênçãos do Espírito Santo (Cf. At 1.8). Mas a ocasião era realmente crucial. Os samaritanos, inimigos históricos dos judeus, haviam recebido a mensagem.
Será que os crentes judeus iriam aceitá-los? Ou a divisão judeus-samaritanos permaneceria na igreja? Certamente, foi por esse motivo que Deus reteve, não o batismo com o Espírito Santo, mas a manifestação visível dele, até que os apóstolos pudessem comprovar a veracidade do acontecimento.
Deve ser notado que não foi identificado nenhum problema com os samaritanos propriamente. Nenhuma condição foi oferecida a eles.
O problema também não estava com Filipe que, logo em seguida, vai pregar ao eunuco etíope, e não foi necessário que os apóstolos fossem atrás (Cf. At 8.26-40).
O problema estava no relacionamento entre Jerusalém e Samaria. Está no fato de que Deus desejava eliminar uma inimizade histórica.
Deus reteve a manifestação visível do Espírito Santo a fim de que os apóstolos testificassem que a fé também estava sendo encontrada em Samaria, e assim, autenticassem a obra entre os samaritanos.
Portanto, não há razão para pensar num segundo pentecostes, e nem o acontecimento samaritano deve ser aceito como norma para os crentes em todos os tempos, pois sua diferença explica-se perfeitamente por causa da sua situação histórica.
B. O QUE ACONTECEU EM CESARÉIA?
No capítulo 10 de Atos é narrada a conversão de um gentio (estrangeiro) ao Cristianismo. Foi um homem chamado Cornélio.
Deus direcionou Pedro até aquele homem, demonstrando que não discriminaria ninguém por ser de outro povo. Pedro entrou na casa de Cornélio e começou a pregar o Evangelho.
A certa altura da pregação de Pedro, precisamente quando falava sobre a remissão dos pecados que Deus concede aos que creem por meio do nome de Jesus (At 10.43), o Espírito Santo “caiu sobre todos os que ouviam a palavra” (At 10.44). Depois dos samaritanos, agora os gentios eram incorporados à Igreja.
A manifestação visível tencionava autenticar a conversão deles perante as autoridades da Igreja como havia acontecido em Samaria. Uma coisa está por demais clara no texto: não houve “segunda benção”.
Bruner diz que:
"o propósito do episódio de Cornélio é ensinar a igreja, de modo tão dramático quanto a iniciação samaritana lhe ensinara, que Deus aceita todos os homens à parte da guarda de quaisquer disposições legais, ao dar gratuitamente o dom do Espírito Santo à fé."
Algo que geralmente passa despercebido é o testemunho do apóstolo Pedro que tem implicações muito sérias para a doutrina da Segunda Bênção.
Pedro relata à igreja em Jerusalém:
Atos 11:15-17
"Quando ... comecei a falar, caiu o Espírito Santo sobre eles, como também sobre nós, no princípio. Então, me lembrei da palavra do Senhor, quando disse: João, na verdade, batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo. Pois, se Deus lhes concedeu o mesmo dom que a nós nos outorgou quando cremos no Senhor Jesus, quem era eu para que pudesse resistir a Deus?".
Algo nessa declaração de Pedro é de suprema importância. Ele diz que a conversão dos gentios foi semelhante à conversão dos apóstolos. Mas, quando os apóstolos se converteram?
Como diz Bruner,
"é de igual importância se, como é provável, Pedro aqui compara a fé dos de Cesaréia com a fé dos apóstolos no Pentecostes - 'quando [nós] cremos' - então aqui temos a informação significante que os apóstolos consideravam o Pentecostes como o ponto inicial da sua fé, e, portanto, a data da sua conversão. Foi somente quando receberam o Espírito que se sentiram capazes de dizer que acreditavam".
Portanto, nem os apóstolos receberam realmente uma Segunda Bênção. Eles receberam o Espírito Santo quando se converteram, assim como todos os crentes.
C. E QUANTO AOS DISCÍPULOS DE ÉFESO?
Esse incidente está descrito em Atos 19:1-7. Em sua terceira viagem missionária Paulo encontrou alguns discípulos na cidade de Éfeso e logo lhes perguntou se haviam recebido o Espírito Santo quando creram.
Veja que Paulo vincula o recebimento do Espírito Santo com o ato de crer. Paulo estranhou alguma coisa naqueles homens, e logo a sua suspeita veio a se confirmar.
Eles responderam: “Espírito Santo? Nem sabemos quem é ele?”
Eles eram discípulos de João Batista e não conheciam a verdade plena a respeito de Jesus. É difícil imaginar que aqueles discípulos fossem realmente crentes!
Nem sabiam que Jesus já tinha se manifestado, e nada sabiam sobre a vinda do Espírito Santo. Certamente não eram, mas tornaram-se com a pregação de Paulo e receberam o dom do Espírito Santo.
Logo, o que aconteceu neste episódio, longe de ser uma segunda bênção, confirma que o Espírito Santo é dado quando alguém crê.
2 - TODOS BATIZADOS EM UM ESPÍRITO
Podemos ver os ensinos normativos sobre o batismo com o Espírito Santo registrados nos ensinos doutrinários do apóstolo Paulo, por exemplo.
Em 1 Coríntios 12.13 o apóstolo Paulo fez uma declaração muito importante para a consideração desse assunto.
Ele disse: "... em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito”.
A. A FORÇA DO “TODOS"
Para entendermos bem o que Paulo está querendo dizer nesse versículo, precisamos considerar todo o capítulo 12 de 1 Coríntios, pois, nesse capítulo, Paulo está concentrando seu ensino a respeito dos dons espirituais.
Seu ponto alto é que, embora os dons sejam variados, podendo e de fato se manifestando de várias formas, há apenas um originador deles, que é o Espírito Santo.
Paulo diz: “... ora os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo” (v.4).
Entre os versos 8-10 ele exemplifica alguns dons que podem ser dados à Igreja visando a edificação (v.7), entretanto enfatiza “um só e o mesmo Espírito realiza todas estas coisas, distribuindo-as como lhe apraz, a cada um, individualmente” (v. 11).
Ele demonstra a unidade da Igreja apesar da diversidade de dons exatamente porque todos esses dons são concedidos pelo mesmo Espírito.
É isso que ele pretende enfatizar no verso 13: somos diferentes tanto em serviços, como em dons e até mesmo na raça, mas numa coisa todos nós crentes somos iguais: todos fomos batizados pelo mesmo Espírito, portanto somos um mesmo corpo.
B. CRENTE SEM O ESPÍRITO?
Certamente a referência do apóstolo ao batismo nesse texto nada tem a ver com o batismo com água, e nem mesmo com o que aconteceu no dia de Pentecostes, pois nem Paulo nem os coríntios lá estiveram naquele dia.
Mas, então, quando Paulo e todos os crentes da cidade de Corinto foram batizados? Nenhuma outra resposta pode ser coerente a não ser: no dia da conversão deles. Não havia duas classes dentro da Igreja de Corinto.
Todos os que pertenciam ao corpo de Cristo foram batizados com o Espírito Santo. E esse não é o único lugar em que isso fica claro.
Em Romanos 8.9 Paulo escreveu igualmente “Vós ... não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele".
O texto é claro: se alguém não tem o Espírito de Cristo, essa pessoa não pertence a Cristo.
Paulo não diz que se alguém não tem o Espírito é crente de segunda classe, mas que não é de Cristo, ou seja, não é crente, não é convertida.
Não podem existir duas classes de crentes dentro de uma igreja. Todos os verdadeiros crentes foram batizados com o Espírito Santo.
C. A FORÇA DO “NÓS”
Na língua original em que foi escrito o Novo Testamento há uma grande ênfase na palavra “nós” nessa passagem.
Paulo poderia ter escrito o mesmo texto sem usá-la, e o significado seria entendido, mas ele fez questão de dizer “todos nós fomos batizados”.
Com essa expressão, ele não admite exceções. Todos os verdadeiros crentes foram batizados com o Espírito Santo.
D. QUEM TEM SEDE BEBA
Da mesma forma Paulo enfatiza que todos já puderam beber do mesmo Espírito. Note a conexão entre "beber” aqui e o que é dito em João 7:37-38:
João 7:37-38
"No último dia, o grande dia da festa, levantou- se Jesus e exclamou: Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem".
Quem fosse até Jesus e bebesse receberia o Espírito Santo quando cresse. Todos os que creram já beberam do Espírito Santo, ou seja, já foram batizados.
E. A FORÇA DO “UM”
Em um único Espírito Jesus batizou todos os crentes num único corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos quer livres. Nada poderia ser mais enfático. De fato não há classes distintas de crentes.
Em um só Espírito foi estabelecida uma só igreja. Não há crentes parciais, assim como não há membros parciais do corpo de Cristo. Não há meio termo. Gálatas 3:26-28 afirma:
Gálatas 3:26-28
"... todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus; porque todos quantos fostes batizados em Cristo de Cristo vos revestistes. Destarte, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus".
Todos os crentes em Cristo se tornaram membros plenos de seu corpo, que é a Igreja, no exato momento em que foram salvos, pois
Efésios 4:4-6
"há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos".
Graças a Deus porque a Igreja dele não está dividida. Não há divisões ou classes distintas de crentes dentro da Igreja.
CONCLUSÃO
Uma grande confusão tem sido causada na igreja por líderes que ensinam a necessidade de uma segunda obra da graça.
Por todos os lados podemos ver frustração e desapontamento na vida de muitos que ainda não conseguiram chegar a essa segunda bênção.
O problema é que, quando alguém acha que precisa buscar algo que não tem, certamente deixa de dar importância ao que já tem. Ora todos os crentes já possuem a obra da graça em suas vidas e possuem os meios para alcançar a verdadeira santidade.
Deixam de valorizar o que Deus já lhes deu para buscar aquilo que não existe.
APLICAÇÃO
- Que importância temos dado à obra do Espírito Santo em nossa vida?
- Precisamos nos sentir inseguros diante dos ataques daqueles que julgam que ainda não chegamos lá?
- Cremos no que a Bíblia diz ou no que as pessoas ou mesmo as experiências apontam?
Autor: LEANDRO ANTÔNIO DE LIMA
Lista de estudos da série
01. Ele é uma força ou uma pessoa? – Estudo Bíblico sobre a Pessoa do Espírito Santo02. Como o Espírito Santo agia antes de Jesus? – Estudo Bíblico sobre o Espírito Santo no Antigo Testamento
03. A promessa profética que mudou o mundo – Estudo Bíblico sobre a Promessa do Espírito Santo
04. O papel vital do Consolador na sua redenção – Estudo Bíblico sobre l Obra do Espírito Santo
05. O que realmente significa ser batizado no Espírito? – Estudo Bíblico sobre o Batismo com o Espírito Santo
06. O segredo para entender a Bíblia de verdade – Estudo Bíblico sobre o Testemunho Interno e a Iluminação do Espírito
07. Como viver transbordando do poder de Deus – Estudo Bíblico sobre a Plenitude do Espírito
08. A prova real de um caráter transformado – Estudo Bíblico sobre o Fruto do Espírito
09. Descubra as ferramentas para servir com excelência – Estudo Bíblico sobre os Dons do Espírito Santo
10. O caminho excelente que supera todos os dons – Estudo Bíblico sobre o Amor, o Dom Supremo
11. O que é o pecado imperdoável e como evitá-lo – Estudo Bíblico sobre o Pecado contra o Espírito Santo
12. 4 marcas infalíveis de uma comunidade espiritual – Estudo Bíblico sobre Evidências de uma Igreja Cheia do Espírito Santo
13. O guia prático para manter a amizade com Deus – Estudo Bíblico sobre Como Não Entristecer o Espírito Santo
