Como o Espírito Santo agia antes de Jesus? - Estudo Bíblico sobre o Espírito Santo no Antigo Testamento

Texto Básico: Gênesis 1:1,2

Quando pensamos no Espírito Santo, logo nos lembramos do dia de Pentecostes, quando Deus enviou o Espírito Santo do céu, e ele encheu os discípulos de Jesus e os capacitou para a tarefa de pregar o Evangelho em todo o mundo. A partir daí a Igreja Cristã começou a se desenvolver.

Mas onde estava o Espírito Santo no tempo do Antigo Testamento? Qual foi a sua atuação desde o início do mundo até à ressurreição de Jesus?

Sendo o Espírito Santo a terceira pessoa da Trindade, não devemos pensar que ele estivesse inativo. Jesus disse aos discípulos que enviaria o Espírito Santo (Lc 24.49), e que eles deveriam esperar essa vinda.

Precisamos entender em qual sentido essa vinda caracterizaria uma novidade. Então, primeiro, precisamos entender como o Espírito Santo agiu antes do Pentecostes.

1 - O ESPÍRITO E A CRIAÇÃO

Gênesis 1:1
"No princípio, criou Deus os céus e a terra”.

Por seu imenso poder criador, do nada Deus fez o mundo passar a existir (Hb 11.3). Mas quando Deus trouxe a terra à existência, ela não estava pronta para ser habitada.

Foi aí que começou a obra do Espírito Santo. Ele pairava sobre a terra recém-criada que era "sem forma”, “vazia”, e somente habitada pelas “trevas” (v.2).

"Sem forma e vazia” quer dizer sem aparência definida, ela nada possuía do que viria a ter. Era um caos, como trazem algumas traduções da Bíblia. As trevas dominavam. Quando não há luz, não há beleza, não há vida, nada.

Assim era a terra no início. Não havia beleza, nem vida - apenas escuridão. Mas Deus arquitetara um plano brilhante e glorioso para a sua criação. Quando começou a criar a terra, ele era como um construtor que segue uma planta.

No começo, quando os alicerces estão sendo lançados, não parece ter muito sentido. Você olha para certas construções e não imagina o que vai sair daquele monte de estacas e de pedras aparentemente desordenados. Se passar ali tempos depois, parecerá incrível que uma construção tão bela tenha se originado daquela confusão.

Ao criar a terra Deus começou a colocar em prática seu propósito de fazer um grande e belíssimo jardim que refletisse, ainda que limitadamente, a beleza da harmonia das perfeições divinas.

Ele quis criar um mundo radiante, cheio de alegria, de luz, de propósito, onde cada coisa se encaixava no seu devido lugar, e nada, absolutamente nada fosse impróprio, feio ou inútil.

Deus colocaria nesta terra sua obra prima, o próprio homem, e teria um relacionamento íntimo e pessoal com ele por toda a eternidade.

Como transformar uma terra caótica, sem forma, vazia e coberta de trevas, num belo jardim?

A Bíblia nos diz que o Espírito de Deus começou a realizar esse trabalho “pairando” sobre aquele caos. Alguns dizem que ele estava chocando, ou incubando alguma coisa, como a galinha faz isso com os ovos.

É possível, mas a ideia maior é que o poder de Deus estava presente sobre o caos, pronto, com toda a energia do Espírito divino, para transformar aquela situação. Foi por meio do Espírito Santo que Deus trouxe à existência o mundo transformado e cheio de belezas naturais.

Como diz Palmer, o Espírito “não criou o mundo, mas extraiu potencialidades que já estavam no mundo, e ainda inclusive implantou as sementes da vida”.

Na criação, foi tarefa do Espírito Santo extrair as potencialidades da terra, por isso, se diz que ele "pairava” ou “incubava” a terra. Toda a beleza e perfeição que vemos nos seis dias da criação foram realizadas por meio do Espírito.

O caos deu lugar à ordem, pois “o Espírito põe a desordem em ordem. Sua presença exclui a possibilidade de caos ou confusão”. Desde o início, portanto, a função do Espírito Santo foi agir em meio ao caos, implantando o sentido e a ordem.

Vemos também a obra do Espírito antes do Pentecostes naquilo que comumente chamamos de Providência, a obra divina pela qual Deus mantém, sustenta e renova todas as coisas.

O Salmo 104 fala sobre essa atribuição divina:

Salmos 104:27-30
"Todos esperam de ti que lhes dês de comer a seu tempo. Se lhes dás, eles o recolhem; se abres a mão, eles se fartam de bens. Se ocultas o rosto, eles se perturbam; se lhes cortas a respiração, morrem e voltam ao seu pó. Envias o teu Espírito, eles são criados, e, assim, renovas a face da terra".

O Espírito é enviado especificamente para renovar a terra. Nas palavras de Berkhof, "no Antigo Testamento é evidente que a origem da vida, sua manutenção e seu desenvolvimento dependem da operação do Espírito Santo. A retirada do Espírito significa morte."

Graças a Deus por esse Espírito que impõe ordem, desperta a beleza, renova a vida e desfaz o caos.

2 - O ESPÍRITO E A REVELAÇÃO

Uma outra atuação do Espírito desde o início foi na revelação divina (Hb 1.1,2). A ação divina de falar, de revelar a si próprio, é realizada pelo Espírito Santo.

A primeira vez na Bíblia que vemos o exercício da profecia ligada à obra do Espírito Santo foi quando Moisés se sentiu sobrecarregado com a tarefa de liderar o povo grande e numeroso sozinho.

A Bíblia diz que Deus tirou um pouco do Espírito que estava sobre Moisés e colocou sobre um grupo de anciãos.

Números 11.25 registra:

Números 11:25
"Então, o SENHOR desceu na nuvem e lhe falou; e, tirando do Espírito que estava sobre ele, o pôs sobre aqueles setenta anciãos; quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram; mas, depois, nunca mais".

Assim que o Espírito de Deus repousou sobre aqueles homens eles profetizaram.

Naquela mesma ocasião, quando Josué se demonstrou enciumado porque dois homens estavam profetizando no arraial, Moisés disse: “Tens tu ciúmes por mim? Tomara todo o povo do SENHOR fosse profeta, que o SENHOR lhes desse o seu Espírito!" (Nm 11.29; Cf. 1Sm 10.10; 1Sm 19.20).

Para ser profeta havia a necessidade do Espírito de Deus. Em sua velhice, Davi reconheceu que o Espírito do Senhor falava por seu intermédio: “O Espírito do SENHOR fala por meu intermédio, e a sua palavra está na minha língua” (2Sm 23.1,2).

A profecia sob inspiração divina estava, portanto, intimamente ligada à atuação do Espírito Santo. Por essa razão, é dito de Zacarias:

2 Crônicas 24:20
"O Espírito de Deus se apoderou de Zacarias, filho do sacerdote Joiada, o qual se pôs em pé diante do povo e lhes disse: Assim diz Deus: Por que transgredis os mandamentos do SENHOR, de modo que não prosperais? Porque deixastes o SENHOR, também ele vos deixará".

Nesse texto, percebemos que no momento exato em que o Espírito se apossa do profeta, ele dirige ao povo a Palavra do Senhor. E o Espírito que traz a revelação divina para o povo.

Na passagem messiânica de Isaías 61.1,2, encontramos a declaração:

Isaías 61:1-2
"O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados; a apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os que choram".

O Messias seria revestido com esse Espírito de revelação que é o capacitador de quem anuncia as boas novas de Deus (Cf. Mq 3.8).

Devemos também lembrar que as Escrituras, que são justamente o registro desses atos de Revelação de Deus no Antigo Testamento, foram compostas sob a inspiração do Espírito Santo.

Por essa razão, Paulo diz: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16).

Timóteo deveria permanecer na Palavra em vez de seguir as invenções dos homens, porque somente ela é inspirada pelo Espírito Santo.

E Pedro confirma:

2 Pedro 1:20-21
"... sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo".

Palmer, acertadamente, diz que

"devido à inspiração do Espírito Santo, está garantida a exatidão do que se diz nela [Escritura] sobre os eventos passados, apesar das falhas da memória, e apesar dos erros que naturalmente acontecem em qualquer relato de segunda ou milésima mão".

A Bíblia está livre desses erros, graças à atuação do Espírito Santo.

3 - A ATUAÇÃO DO ESPÍRITO NO SER HUMANO

Nos tempos do Antigo Testamento uma das tarefas específicas do Espírito Santo era capacitar pessoas a realizar certas tarefas.

Assim, um homem chamado Bezalel foi capacitado por Deus para confeccionar objetos para o Tabernáculo:

Êxodo 31:3-5
"... e o enchi do Espírito de Deus, de habilidade, de inteligência e de conhecimento, em todo artifício para elaborar desenhos e trabalhar em ouro, em prata, em bronze, para lapidação de pedras de engaste, para entalho de madeira, para toda sorte de lavores".

Da mesma forma, Sansão foi enchido desse Espírito para realizar prodígios, como está relatado em Juízes 14.6, quando matou um leão: “Então, o Espírito do SENHOR de tal maneira se apossou dele, que ele o rasgou como quem rasga um cabrito, sem nada ter na mão".

O Senhor capacitou homens como Sansão a realizarem pelo Espírito Santo coisas que jamais conseguiriam sozinhos.

O Espírito também dava “força” num outro sentido. Os profetas Ageu e Zacarias encorajaram o povo na obra da reconstrução de Jerusalém e do templo, falando sobre a presença do Espírito Santo: “o meu Espírito habita no meio de vós; não temais” (Ag 2.5).

O Espírito era a garantia de que a obra seria realizada: “Esta é a palavra do SENHOR a Zorobabel: Não por força nem por poder, mas pelo meu Espírito, diz o SENHOR dos Exércitos" (Zc 4.6).

Da mesma forma os juízes e os reis governaram sobre Israel com a unção do Espírito Santo (Cf. Nm 27.18; Jz 3.10; 1Sm 16.14), que fazia com que homens simples pudessem desempenhar ofícios de governantes.

Porém, como diz Hodge,

"todas essas operações são independentes das influências santificadoras do Espírito. Quando o Espírito veio sobre Sansão ou sobre Saul, não foi com o intuito de torná-los santos, mas para dotá-los com extraordinário poder físico e intelectual; e, quando lemos que o Espírito se afastou deles, isso significa que eles foram privados dos dons extraordinários".

Não devemos confundir essas manifestações do Espírito com a obra da conversão.

Todavia, o Antigo Testamento aponta para o futuro, quando o Espírito seria derramado sobre todos em Israel homens e mulheres, jovens e velhos -, e também, sobre outros indistintamente (Ez 36.27;37.14; Jl 2.28-32; Zc 12.10).

O cumprimento dessa promessa estaria relacionado com a obra do Messias, que viria — como de fato veio —, na plenitude do tempo e do Espírito Santo (Is 11.2; 42.1; 48.16; 61.1-11; Lc 4.16-21; Jo 3.34; 14.16,17,26; 15.26).

"Deus fez repousar plenamente o seu Espírito sobre Jesus para que ele fosse uma fonte para nós, a fim de recebermos por meio dele da sua plenitude e, associados a ele, pudéssemos, nessa comunhão, participar das graças do Espírito Santo”, conclui Calvino.

Como podemos ver, é muito clara a operação do Espírito no Antigo Testamento no sentido de capacitar os homens.

Porém, questiona-se, se esse Espírito também atuava a fim de salvá-los. Nesse ponto, um texto de Jesus é bastante discutido. Jesus disse certa vez aos apóstolos:

João 14:16-17
"... eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode receber, porque não no vê, nem o conhece; vós o conheceis, porque ele habita convosco e estará em vós”.

Essas palavras de Jesus têm dado margem para muitos imaginarem que o Espírito Santo não habitasse dentro dos crentes no Antigo Testamento, especialmente quando consideradas em conjunto com as palavras de Jesus registradas em João 7.38,39:

João 7:38-39
"Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva. Isto ele disse com respeito ao Espírito que haviam de receber os que nele cressem; pois o Espírito até aquele momento não fora dado, porque Jesus não havia sido ainda glorificado".

A opinião de Grudem é muito útil nesse ponto: “Ambas as passagens devem ser maneiras diferentes de dizer que a obra mais poderosa, mais plena do Espírito Santo, característica da vida após o Pentecostes, ainda não havia começado na vida dos discípulos".

Não significa que o Espírito Santo não habitasse com os crentes no Antigo Testamento (cf. Lc 1.15; 1-67; 2.26,27; 1Sm 10.6; Is 4.4; 11.2), mas que ele seria derramado de forma mais abundante a partir do Pentecostes.

Bavinck dá duas razões por que havia diferença entre o Espírito antes e depois do Pentecostes:

"Em primeiro lugar, porque a velha dispensação sempre olhava para a frente, para o dia em que surgiria o servo do Senhor, sobre quem o Espírito repousaria em toda a sua plenitude (...) Em segundo lugar, o Antigo Testamento prediz que, embora houvesse já naquele tempo uma certa operação do Espírito Santo, que esse Espírito seria derramado sobre toda a carne"

Portanto, como diz Stott,

"no tempo do Antigo Testamento, ele estava incessantemente ativo - na criação e na preservação do universo, na providência e na revelação, na regeneração de crentes, e na capacitação de pessoas especiais para tarefas especiais".

Mas, evidentemente, havia diferença no sentido de que o derramar do Espírito era mais restrito.

Após o Pentecostes, atestando o cumprimento da obra sacrificial de Cristo, vemos um derramar generalizado e a garantia de nossa salvação através de seu selo como o "primeiro pagamento”, “depósito, o “sinal” de compra com o compromisso solene de efetivar a transação (2Co 1.22; 5.5; Ef 1.13,14; 4.30).

Com relação à regeneração dos crentes, sabemos ser ela impossível sem a atuação do Espírito Santo. Então, se havia crentes no Antigo Testamento, essas pessoas precisavam ter sido transformadas pelo Espírito.

Encontramos no Salmo 51 uma importante declaração de Davi sobre isso. Consciente de seu pecado com Bate-seba, Davi ora a Deus: “Não me repulses da tua presença, nem me retires o teu Santo Espírito” (Sl 51.11).

Como diz Lloyd-Jones, “aqui estava um homem sob a velha dispensação, um homem anterior ao Pentecostes, e orou para que Deus não retirasse dele o seu Espírito".

Se Davi tinha o Espírito Santo, devemos também pensar que todos os demais crentes, como Abraão, Isaque, Jacó, José, etc., tinham o Espírito Santo.

CONCLUSÃO

O Espírito esteve em franca atuação durante todo o período do Antigo Testamento, criando, renovando, revelando, capacitando e regenerando homens. Porém, no Novo Testamento, ele passou a agir de forma mais generalizada, e também de forma mais comum.

APLICAÇÃO

Devemos louvar a Deus pela obra do Espírito que sempre agiu no sentido de estabelecer harmonia, capacitar e regenerar. Essa mesma obra todos os crentes já experimentaram, e devem desfrutar cada vez mais.

Autor: LEANDRO ANTÔNIO DE LIMA


Lista de estudos da série

01. Ele é uma força ou uma pessoa? – Estudo Bíblico sobre a Pessoa do Espírito Santo
02. Como o Espírito Santo agia antes de Jesus? – Estudo Bíblico sobre o Espírito Santo no Antigo Testamento
03. A promessa profética que mudou o mundo – Estudo Bíblico sobre a Promessa do Espírito Santo
04. O papel vital do Consolador na sua redenção – Estudo Bíblico sobre l Obra do Espírito Santo
05. O que realmente significa ser batizado no Espírito? – Estudo Bíblico sobre o Batismo com o Espírito Santo
06. O segredo para entender a Bíblia de verdade – Estudo Bíblico sobre o Testemunho Interno e a Iluminação do Espírito
07. Como viver transbordando do poder de Deus – Estudo Bíblico sobre a Plenitude do Espírito
08. A prova real de um caráter transformado – Estudo Bíblico sobre o Fruto do Espírito
09. Descubra as ferramentas para servir com excelência – Estudo Bíblico sobre os Dons do Espírito Santo
10. O caminho excelente que supera todos os dons – Estudo Bíblico sobre o Amor, o Dom Supremo
11. O que é o pecado imperdoável e como evitá-lo – Estudo Bíblico sobre o Pecado contra o Espírito Santo
12. 4 marcas infalíveis de uma comunidade espiritual – Estudo Bíblico sobre Evidências de uma Igreja Cheia do Espírito Santo
13. O guia prático para manter a amizade com Deus – Estudo Bíblico sobre Como Não Entristecer o Espírito Santo

Semeando Vida

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