Texto Básico: Mateus 12:31,32
Todos os pecados são desagradáveis a Deus, mas há um pior do que todos. Deus perdoa todos os pecados, mas há um que ele declara não perdoar: “O pecado contra o Espírito Santo".
Jesus disse:
Mateus 12:31-32
"todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á isso perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir".
Marcos diz que o Senhor chamou esse pecado de “pecado eterno” (Mc 3:29). João lembra dele ao dizer:
1 João 5:16
"Se alguém vir a seu irmão cometer pecado não para morte, pedirá, e Deus lhe dará vida, aos que não pecam para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que rogue".
João não diz que não se deve orar por esses casos, mas se recusa a recomendar que se ore por eles. Deus estabeleceu uma lei para esse pecado.
Quem cometê-lo jamais poderá ser salvo. Poderá ler a Bíblia, ouvir o evangelho. Mas nunca poderá ser salvo. As portas do céu estarão definitivamente fechadas para ele.
1 - O QUE ESSE PECADO NÃO É
Antes de analisarmos o ensino bíblico sobre o que caracteriza esse pecado, será interessante fazermos algumas observações sobre o que esse pecado não é.
A. NEGAR CRISTO
Por mais estranho que possa parecer, o fato de alguém em algum determinado momento negar a Cristo, não caracteriza o pecado imperdoável. Se assim fosse, pessoas que negaram a Cristo no passado não poderiam se converter.
E temos o caso do próprio Pedro, que já era convertido e negou a Jesus, porém, o Senhor o restaurou. Se negar o Senhor fosse o pecado imperdoável, Pedro estaria perdido para sempre. E o próprio Jesus elimina essa possibilidade (Mt 12:31,32).
B. OFENDER O ESPÍRITO SANTO
Apesar de Jesus dizer que o pecado consiste em “blasfemar contra o Espírito”, não devemos, contudo, pensar que isso significa dizer algum nome feio ao Espírito.
Às vezes, os adoradores de Satanás são ensinados a falarem palavras de baixo nível contra o Espírito Santo, como se assim estivessem cometendo o pecado imperdoável.
Apesar de que alguém que faz isso pode estar no caminho certo para cometer esse pecado, evidentemente o ato em si de ofender o Espírito não é o pecado imperdoável.
C. ENTRISTECER O ESPÍRITO SANTO
Somos advertidos na Bíblia a não entristecer o Espírito (Ef 4:30). O Espírito Santo pode ser entristecido a partir de nossos pecados. Porém, isso não é cometer o pecado imperdoável. Os pecados que cometemos podem ser perdoados, somente a blasfêmia contra o Espírito não pode. Vemos na Bíblia o exemplo de homens de Deus como Abraão, Davi e Moisés que pecaram e certamente entristeceram o Espírito, porém, eles não pecaram contra o Espírito Santo.
D. SUICÍDIO
Por mais que seja um pecado sério contra Deus, o suicídio não é o pecado imperdoável. Isso quer dizer que uma pessoa que comete suicídio pode ser salva? Se o único pecado que não tem perdão não é o suicídio, então, mesmo o suicídio pode ser perdoado por Deus.
Uma pessoa pode, num momento extremo de desespero, atentar contra a própria vida, o que certamente não faria em outra situação.
Temos um exemplo bíblico de um ato de suicídio em que a pessoa foi salva. Trata-se de Sansão. Seu último ato nesse mundo foi derrubar uma coluna que destruiu os inimigos de Israel (Jz 16:27-30).
Mas, aquele foi um ato suicida, ele morreu junto. No entanto, Hebreus o coloca entre os heróis da fé (Hb 11:32).
O suicídio pode ser o último ato de alguém que realmente pecou contra o Espírito Santo, como é o caso de Judas (Mt 27:5). Porém, nesse caso, o pecado foi cometido antes do suicídio.
Todos esses pecados relatados acima são graves. A questão é que podem ser perdoados. Apenas o pecado contra o Espírito não pode.
1 - O QUE O PECADO É
Passemos agora a considerar o que caracteriza o pecado contra o Espírito Santo. No contexto em que Jesus declarou que a blasfêmia contra o Espírito não tinha perdão, algumas coisas bastante sugestivas para nosso entendimento da matéria ocorreram.
Jesus manifestou a si mesmo para a nação de Israel por meio de seus ensinos (Mt 5-7) e de seus milagres (Mt 8-10), de modo que exibiu sinais claros de que era o Messias prometido.
Apesar disso tudo, os líderes religiosos da nação não acreditavam nele, e foram investigá-lo. Queriam apanhá-lo. Foi-lhe trazido um homem possesso e ele o curou (Mt 12:22). Em resposta a isso, a multidão se perguntou: “é este, porventura, o filho de Davi?" (Mt 12:23).
A estrutura gramatical da pergunta na língua em que foi formulada antecipava uma resposta negativa. Ou seja, a multidão, influenciada pelos líderes religiosos, duvidava que ele fosse o Messias.
E eles ainda fizeram questão de pôr mais lenha na fogueira, conforme Mateus relata: "... os fariseus, ouvindo isto, murmuravam: Este não expele demônios senão pelo poder de Belzebu, maioral dos demônios” (Mt 12:24).
Jesus argumentou com eles que expulsava demônios pelo poder do Espírito Santo (Mt 12:28), mas os religiosos atribuíram ao diabo a obra que Deus estava realizando. Foi nesse contexto que Jesus declarou que a blasfêmia contra o Espírito não seria perdoada.
Os fariseus tinham testemunhado, visto e experimentado o ensino e os milagres de Jesus. Seria impossível que aquilo não tivesse mexido com eles. O Espírito lhes testemunhava a verdade, mas eles resistiam ao Espírito (At 7:51).
Poderiam ter sido perdoados se tivessem crido, e tinham todas as razões para crer, porém, ainda assim se recusaram.
Precisamos ainda considerar o texto de Hebreus 6:4-6:
Hebreus 6:4-6
“É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia".
Esse texto diz que algumas pessoas que caem não podem mais ser perdoadas. Apesar de muitos defenderem que esse é um caso de “perda da salvação”, certamente não é.
Aqui também está uma explicação sobre o pecado contra o Espírito. Como sabemos que essas pessoas não eram convertidas?
Primeiramente porque não há qualquer referência à conversão delas na passagem. Nada fala sobre regeneração ou novo nascimento.
Em segundo lugar, porque na continuação o autor declara:
Hebreus 6:7-8
"... a terra que absorve a chuva que frequentemente cai sobre ela e produz erva útil para aqueles por quem é também cultivada recebe bênção da parte de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é rejeitada e perto está da maldição; e o seu fim é ser queimada".
Ele está fazendo uma analogia entre a terra que recebe a chuva e as pessoas que recebem as influências do Espírito.
Está dizendo que existem pessoas que são como a terra que recebe muita chuva, absorve a água e produz bons frutos, enquanto que há outras pessoas que são como a terra que igualmente recebe a chuva, absorve a água, mas produz frutos inúteis.
Essa terra é amaldiçoada. Como o texto está falando em frutos, convém lembrar que Jesus disse que pelos frutos poderíamos conhecer as pessoas. Ele disse que a árvore boa produz fruto bom e a árvore má produz fruto mau (Mt 7:16-20). A árvore má é a pessoa não-convertida.
Assim, também, o autor aos Hebreus está falando de pessoas não-convertidas, pessoas que receberam muitas bênçãos de Deus, mas não se converteram.
E a terceira razão para crermos nisso, é porque o próprio autor continua o texto dizendo que, em relação aos seus leitores, cria que eles possuíam a salvação (Cf. Hb 6:9). Então, evidentemente estava falando de não-salvos até aquele momento.
Voltemos agora a analisar os versos 4-6. O autor está falando de pessoas que experimentaram muito da graça de Deus.
As expressões “foram iluminadas”, “provaram o dom celestial”, “se tornaram participantes do Espírito Santo”, “provaram a boa palavra de Deus”, e “os poderes do mundo vindouro”, por certo se referem à iniciação que essas pessoas tiveram na graça de Deus.
Há pessoas que frequentam a igreja por muito tempo. Começam a desfrutar dos benefícios que Deus reparte naquele lugar. Sentem a influência do Espírito Santo. Recebem até curas miraculosas. Sua vida inclusive começa a mudar.
Mas, de repente, largam tudo e nunca mais voltam. Eram crentes? João diz: “Saíram de nosso meio, entretanto não eram dos nossos, porque se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco" (1Jo 2:19).
São como a semente da parábola que Jesus contou. Ela foi semeada, mas o diabo a roubou do coração (Mt 13:19). Ou talvez, tenha ido ainda mais longe: foi semeada, nasceu logo, porém, não teve raiz e morreu em meio as provações (Mt 13:20,21).
Ou talvez, ainda mais longe: foi semeada, nasceu, cresceu, parecia que ia vingar, mas os espinhos da fascinação das riquezas e do cuidado desse mundo finalmente a sufocaram (Mt 13:22).
Nenhuma dessas sementes viveu para produzir frutos. Não houve conversão autêntica em nenhum desses casos, apesar de ter havido alguns sinais dela.
Essas pessoas de Hebreus 6 experimentaram as influências do Espírito, mas não se converteram verdadeiramente, e ao renegarem a fé, pecaram contra o Espírito Santo.
Há ainda mais um texto que podemos visualizar rapidamente. Hebreus 10:25-29 diz:
Hebreus 10:25-29
"... se vivermos deliberadamente em pecado, depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados: pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários. Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. De quanto mais severo castigo julgais vós será considerado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado, e ultrajou o Espírito da graça?".
É a mesma rotina do texto anterior: conheceu a verdade - desprezou - jamais será salvo - pecado sem perdão.
Esse texto sugere que esse pecado é tão grave porque recusa a oferta gratuita e amorosa de Deus e a “pisoteia” ou seja, profana, não só fazendo pouco caso, como insultando.
Portanto, o pecado contra o Espírito Santo é uma rebeldia que vai contra todos os fatos, uma indesculpável indisposição contra Deus, apesar de tudo que viu de Deus e ouviu dele.
Como diz Berkhof, "o pecado mesmo consiste, não em duvidar da verdade, nem numa simples negação dela, mas, sim, numa contradição dela que vai contra a convicção da mente, a iluminação da consciência, e até mesmo contra o veredicto do coração".
Como no caso dos fariseus, a pessoa tem todos os motivos para crer em Jesus, mas ainda assim se recusa. Ainda devemos considerar, como diz Berkhof que "é imperdoável, não porque a sua culpa transcende os méritos de Cristo, ou porque o pecador esteja fora do alcance do poder renovador do Espírito Santo, mas sim, porque há também no mundo de pecado certas leis e ordenanças estabelecidas por Deus e por ele mantidas. E no caso desse pecado particular, a lei é que ele exclui toda a possibilidade de arrependimento, cauteriza a consciência, endurece o pecador e, assim, torna imperdoável o pecado".
Portanto, pecado contra o Espírito Santo é uma rebeldia completa contra Jesus que somente é possível depois de conhecê-lo.
Calvino resume este pecado com a palavra “apostasia”, um abandono consciente e deliberado da fé cristã. Como ele mesmo define:
"A pessoa apóstata é alguém que renuncia a Palavra de Deus, que extingue sua luz, que se nega a provar o dom celestial e que desiste de participar do Espírito. Ora, isso significa uma total renúncia de Deus."
Em outro lugar:
"O pecado contra o Espírito Santo só é cometido quando os homens mortais deflagram deliberadamente guerra contra Deus, de tal sorte que extingue-se a luz que o Espírito lhe oferecera. Essa é uma espantosa perversidade e uma monstruosa temeridade".
No entanto, acrescenta: "Mas se alguém se ergueu novamente de sua queda, podemos concluir que, por mais gravemente tenha ele pecado, o mesmo não é culpado de apostasia."
Por outro lado, "Se foi devido à ignorância que Deus perdoara a Paulo suas blasfêmias, os que blasfemam consciente e deliberadamente não devem esperar o perdão."
Logo, aquele que sinceramente se arrepende de seus pecados, por mais graves que sejam, não cometeu o pecado descrito como imperdoável.
Portanto, "os eleitos se acham fora do perigo da apostasia final, porquanto o Pai que lhes deu Cristo, seu Filho, para que sejam por ele preservados, é maior do que todos, e Cristo promete [Jo 17.12] que cuidará de todos eles, a fim de que nenhum deles venha a perecer."
Sejam quais forem as nuanças interpretativas, este pecado, segundo nos parece, é resultado de uma rejeição consciente, deliberada, arrogante e despreocupada da obra do Espírito em Cristo, atribuindo-a a Satanás de forma provocativa e, por isso, blasfema.
Este pecado é imperdoável porque quem o comete não está disposto a arrepender-se e, portanto, não deseja ser salvo. Rejeitar o Espírito de Cristo significa rejeitar os atos salvadores da Trindade: do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
O Espírito procede do Pai e do Filho; a sua obra consiste em dar testemunho do Pai e do Filho; rejeitá-lo significa repudiar o seu ofício.
2 - A SEGURANÇA DO CRENTE
As considerações acima nos levam a concluir que o crente verdadeiro nunca cometerá o pecado contra o Espírito Santo. De fato, o crente desfruta da segurança da salvação. Deus o levou até Jesus, e Jesus não deseja perdê-lo (Jo 6:37-40,44).
Ele é uma ovelha de Jesus a qual o Senhor diz que ninguém pode arrebatar da sua mão (Jo 10:27-29). Deus lhe preparou uma salvação com início, meio e fim (Rm 8:29,30). Nada pode separá-lo do amor de Deus (Rm 8:31-39).
O Senhor que começou boa obra nele vai completá-la (Fp 1:6), confirmá-lo e guardar do maligno (2Ts 3:3). O Senhor vai guardar o depósito do crente até o último dia (2Tm 1:12). Vai livrá-lo de toda obra maligna e o levará a salvo para o reino celestial (2Tm 4:18).
Afinal, ele é guardado pelo poder de Deus (1Pe 1:5). Essa última expressão pode estar ligada à ideia de ser guardado para não pecar contra o Espírito Santo.
Assim, aquele crente que teme cometer esse pecado, é o que está mais seguro de que não o cometerá. Ele precisa apenas continuar vivendo sua vida em obediência a Palavra e na dependência de Deus. Como diz Palmer,
"quando uma pessoa recebe a Cristo e estuda sua Palavra, pode ter a segurança de que é um filho de Deus, salvo por Jesus e que nunca se perderá".
O crente verdadeiro não comete o pecado imperdoável porque é guardado pelo poder de Deus. Após descrever em tons vivos o significado desse pecado, Bavinck acrescenta:
“Mas nós não devemos nos esquecer do conforto que está contido nesse ensino, pois se esse pecado é o único pecado imperdoável, até mesmo os maiores e os mais severos podem ser perdoados. Eles podem ser perdoados não através de exercícios penitenciais humanos, mas pelas riquezas da Graça de Deus."
CONCLUSÃO
O pecado contra o Espírito Santo é uma rebeldia total que algumas pessoas demonstram depois de conhecer a verdade e até experimentar muito do seu poder. Essas pessoas se rebelam contra Deus e nunca mais voltam e nem desejam voltar para a comunhão com ele.
APLICAÇÃO
Se somos crentes verdadeiros não precisamos temer o pecado contra o Espírito Santo porque somos guardados por Deus. Porém, isso não deve nos levar ao desleixo espiritual porque é a continuidade e a firmeza da fé que evidenciarão a nossa salvação.
Autor: LEANDRO ANTÔNIO DE LIMA
Lista de estudos da série
01. Ele é uma força ou uma pessoa? – Estudo Bíblico sobre a Pessoa do Espírito Santo02. Como o Espírito Santo agia antes de Jesus? – Estudo Bíblico sobre o Espírito Santo no Antigo Testamento
03. A promessa profética que mudou o mundo – Estudo Bíblico sobre a Promessa do Espírito Santo
04. O papel vital do Consolador na sua redenção – Estudo Bíblico sobre l Obra do Espírito Santo
05. O que realmente significa ser batizado no Espírito? – Estudo Bíblico sobre o Batismo com o Espírito Santo
06. O segredo para entender a Bíblia de verdade – Estudo Bíblico sobre o Testemunho Interno e a Iluminação do Espírito
07. Como viver transbordando do poder de Deus – Estudo Bíblico sobre a Plenitude do Espírito
08. A prova real de um caráter transformado – Estudo Bíblico sobre o Fruto do Espírito
09. Descubra as ferramentas para servir com excelência – Estudo Bíblico sobre os Dons do Espírito Santo
10. O caminho excelente que supera todos os dons – Estudo Bíblico sobre o Amor, o Dom Supremo
11. O que é o pecado imperdoável e como evitá-lo – Estudo Bíblico sobre o Pecado contra o Espírito Santo
12. 4 marcas infalíveis de uma comunidade espiritual – Estudo Bíblico sobre Evidências de uma Igreja Cheia do Espírito Santo
13. O guia prático para manter a amizade com Deus – Estudo Bíblico sobre Como Não Entristecer o Espírito Santo
