Texto Básico: 1 Coríntios 12:28 – 13:13
Qual será a manifestação espiritual mais importante numa igreja? Agora que você já leu o título da lição certamente dirá: o amor.
Mas, será que você pensava nisso antes? Será que os crentes das igrejas consideram o amor a mais importante manifestação espiritual?
Em muitas congregações existe uma verdadeira guerra entre os crentes para um ser mais "espiritual” do que o outro. Todos querem demonstrar sua espiritualidade, contando experiências pessoais e buscando sempre algo novo para relatar.
Quando o apóstolo Paulo listou os dons mais comuns na igreja de Corinto, ele demonstrou que nem todos tinham o mesmo dom (1Co 12:29,30). No entanto, ele enfatizou que nós temos a responsabilidade de buscar os melhores dons, sendo que, em seu entendimento, o dom de línguas certamente não era o melhor.
Porém, antes de falar das línguas e do seu dom preferido, a profecia, Paulo quis falar de algo que considerava superior a todos os dons. Ele diz: “.. eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente” (1Co 12:31).
Essas palavras significam: “... eu vou mostrar a vocês o caminho que é o melhor de todos" (BLH), ou seja, algo que era superior a qualquer coisa espiritual que os coríntios já tivessem experimentado. Ele passaria a falar sobre o amor. Se devemos buscar os melhores dons, há um que sobrepuja a todos: o amor - o dom supremo.
1 - SEM ELE, NADA TEM VALOR
O primeiro argumento de Paulo para demonstrar que o amor é o dom supremo é que sem ele, os demais dons são totalmente sem valor.
Paulo diz:
1 Coríntios 13:1-3
"Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará”.
Ele diz, sem o amor, posso falar todas as línguas existentes, mas será tudo inútil; posso ter todo o conhecimento, mas em nada me aproveitará; posso ter uma fé inigualável, mas ela não servirá para nada; posso ser o mais abnegado dos homens, mas será tudo em vão.
Percebemos que ele usa intencionalmente o exagero a fim de demonstrar que o amor é mais importante até do que um dom elevando à categoria máxima. Ao todo ele lista cinco dons: línguas, profecia, conhecimento, fé e serviço. Mas, ele exagera esses dons ao máximo.
Por isso ele compara:
- Línguas dos homens: línguas dos anjos;
- Profecia/conhecimento: todos os mistérios e toda ciência;
- Fé: transportar montes;
- Serviço: distribuir todos os bens e morrer pelo próximo.
As expressões em negrito representam o exagero que Paulo faz de cada dom. Ele quer dizer que ainda que o exercício de um dom normal fosse exagerado, nada valeria sem o amor.
O entendimento errôneo desse texto tem levado muitos a dizer que as línguas que são faladas hoje nas igrejas são “línguas do anjos".
Como vimos, Paulo usou a expressão “língua dos anjos” como um exagero do dom de línguas normal que é “dos homens”.
Da mesma forma exagerou o dom de profecia e de conhecimento falando em conhecer todos os mistérios e toda a ciência. Quem poderia dizer que tem esse tipo conhecimento? Somente Deus.
Ainda deve ser observado que as línguas descritas em Atos 2:5-11 são de povos ou nações desse mundo. Se fosse nos nossos dias seria alemão, italiano, inglês, russo, japonês, etc.
A Bíblia não diz que alguém falou língua de anjos no dia de Pentecostes. Igualmente a Bíblia não diz que o dom de línguas do Pentecostes (nações) mudou para um dom angelical.
Voltando ao aspecto do amor, isso basta para nos demonstrar o quanto o amor é fundamental nessa questão dos dons.
É muito fácil alguém se ensoberbecer quando tem algum dom, e usá-lo para benefício próprio, e por essa razão, ainda que tivesse “superdons”, eles seriam totalmente inúteis, pois estariam sendo usados sem amor. Mas o que é o amor afinal de contas?
A expressão que Paulo usa aqui é ágape. Isso representa um amor altruísta e totalmente desinteressado consigo mesmo em termos de retornos ou vantagens pessoais. Porém, algo que geralmente as pessoas não sabem é que esse amor não diz respeito apenas a um tipo de sentimento abstrato.
Como diz o Dr. A. N. Lopes, “o apóstolo não está falando aqui de emoções, embora elas, sem dúvida, possam estar presentes quando esse amor entra em ação; ele não está falando aqui de sentimentos, mas de um estilo de vida, de uma atitude que as pessoas decidem tomar para com a vida e para com as outras pessoas e para com Deus".
"Ninguém ama abstratamente. Amor é uma atitude que se demonstra em algo que acontece realmente, tangível. O amor não é, primariamente, um sentimento, mas, sim, uma entrega de alguém a outra pessoa."
1 - SOMENTE ELE FAZ O DEVE SER FEITO (1Co 13:4-7)
Em seguida Paulo fala das características desse amor enquanto atitude, como se fosse uma pessoa. É uma espécie de personificação do amor. Encontramos uma lista de o "amor é”, “o amor não” e “o amor tudo”. Ele diz o que o amor é, o que não faz, e o que ele faz.
A. O AMOR É...
O amor é "paciente”, é “benigno”. Calvino diz que “o objetivo primordial (de Paulo) é mostrar quão necessário ele (o amor) é na preservação da unidade da Igreja".
E de fato, nenhuma qualidade é mais necessária na Igreja a fim de manter a unidade do que paciência e benignidade. Segundo Paulo, o amor é composto dessas duas coisas.
Quando existe amor, as pessoas são pacientes em relação as outras, isso significa que não irão retrucar ou retribuir na mesma moeda.
Também não esperarão que os outros sejam sem defeitos, mas pacientemente esperarão que Deus os transforme. No uso dos dons espirituais essa característica é necessária porque dessa forma ninguém colocará o carro na frente dos bois.
Quem trabalha esperará que o resultado venha no tempo certo. Da mesma forma a benignidade levará a pessoa a usar seu dom para benefício dos outros, desejando carinhosamente ajudar os que precisam.
B. O AMOR NÃO...
Em seguida Paulo dá uma longa lista sobre coisas que o amor não faz. Ele diz: “amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade".
A solução para todos os problemas que existiam na igreja dos coríntios estava aqui.
Ciúmes (1Co 1:12; 3:3), ufanismo (1Co 3:18), soberba (1Co 3:2-1; 4:6-8), comportamento inconveniente (1Co 5:1-13), egoísmo (1Co 11:17-22), exaltação (1Co 6:7), ressentimento (1Co 3:3) e alegria diante da injustiça (1Co 5:1-3) eram coisas extremamente comuns naquela comunidade.
O amor era o remédio para a situação trágica em que eles se encontravam, devido ao uso indevido dos dons espirituais. “Eles manterão seus dons sob controle, enquanto o amor gozar de um lugar de proeminência em seu relacionamento recíproco."
C. O AMOR TUDO...
O amor "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Aqui certamente está o aspecto mais altruísta do amor. Ele está disposto a “sofrer tudo", aguentar as ofensas e os ataques.
Ele está disposto a “crer em tudo”, referindo-se provavelmente ao ato de acreditar nas pessoas, naquilo que elas dizem, em suas promessas de mudança ou de inocência. Ele “espera tudo”, ou seja, “confia no próximo, espera dele o melhor."
E por fim, "tudo suporta”, no sentido de que aguenta todas as cargas, e enfrenta todas as dificuldades.
O resumo disso é que o amor sempre está disposto a sofrer primeiro do que fazer os outros sofrerem. Por isso ele é a grande característica do próprio Deus (1 Jo 4:8). Pois para salvar os homens, Deus preferiu ele próprio sofrer, encarnando-se e sendo sacrificado na maior prova de amor que esse mundo já viu (Rm 5:8).
2 - SOMENTE ELE PERMANECE
Paulo ainda tem algo a dizer a fim de demonstrar que o amor é o “caminho sobremodo excelente". Seu argumento é que o amor jamais desaparecerá.
Ele diz: "O amor jamais acaba; mas, havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará” (1Co 13:8).
Os dons espirituais, por mais importantes que sejam, são temporários, ou seja, eles cumprem a uma função determinada por Deus. Quando essa função estiver cumprida, os dons desaparecerão.
Mas isso não acontecerá com o amor. Mesmo depois da consumação de todas as coisas e do estabelecimento pleno do Reino de Deus, o amor continuará existindo e sendo o grande elo entre Deus e os homens, os homens e Deus, e os homens entre si.
Paulo cita três dons nesse contexto. Ele fala do dom de línguas (glossai), do dom de profecia (propheteiai), e do dom de conhecimento (gnosis).
Esses três dons, como todos os demais, segundo Paulo, um dia deixariam de existir, mas o amor jamais deixará de existir, por isso, o amor é mais importante do que todos eles.
Há um detalhe que geralmente passa despercebido nesse texto, mas que merece consideração da nossa parte. É a maneira como os três dons listados chegarão ao fim. Paulo diz que todos os dons somente irão durar até a vinda do “que é perfeito" (13:10).
A interpretação mais plausível dessa expressão deve ser como se referindo à consumação dos planos de Deus para o mundo na segunda vinda de Jesus. Deve se referir à perfeição da era vindoura onde os dons espirituais não serão mais necessários, porém, o amor continuará sendo.
O que chama a atenção é o tratamento diferenciado que Paulo concede aos três dons listados acima.
Ele diz: "profecias, desaparecerão” (grego: katargetesontai), “línguas, cessarão” (grego: pausontai) “ciência, passará” (grego: katergetesetai) (1Co 13:8).
Percebe-se que a palavra para o modo como as línguas acabariam é diferente da palavra como profecia e conhecimento desapareceriam.
Na verdade, a expressão gramatical é um verbo na voz média, que com objetos implica numa ação reflexiva, cuja tradução mais precisa poderia ser: “cessarão por si mesmas”.
E quando no verso seguinte ele diz “... em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos” (13:9), ele não inclui o dom de línguas.
No verso 10, ele diz que “Quando, porém, vier o que é perfeito, então, o que é em parte (profecia e conhecimento) será aniquilado (grego: “katergetesetai”, o mesmo verbo usado para profecia e conhecimento em 13.8, mas não para línguas).
O que isso sugere? Que o dom de línguas não precisaria permanecer até a segunda vinda de Jesus. Portanto, Paulo está dizendo que os dons são menos importantes do que o amor porque chegará um dia quando todos acabarão, e que o dom de línguas poderia ser o primeiro a cessar.
Na verdade, diante das evidências bíblicas e históricas (ver lição anterior), podemos afirmar que o dom de línguas teve um propósito na história da Igreja e Deus o fez desaparecer quando esse propósito se cumpriu.
Ele foi usado na implantação da Igreja e cessou com a era apostólica.
A primeira carta aos Coríntios é uma das primeiras cartas do Novo Testamento, e é a única que traz referência ao dom de línguas. Nenhuma outra carta fala qualquer coisa dele.
Isso nos leva a pensar que, quando foram escritas, provavelmente o dom já tivesse cessado. Muitos escritos pós-apostólicos dizem que o dom havia cessado na era apostólica.
Isso acrescentado ao fato de que em lugar algum hoje vemos pessoas falando línguas de outros povos (sem havê-las aprendido) conduz-nos à conclusão de que ele realmente cessou.
Por fim, em defesa da superioridade do amor, Paulo faz uma comparação entre a fé, a esperança e o amor.
Ele diz: "Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor” (1Co 13:13). Com toda certeza, fé, esperança e amor são as três maiores virtudes que um crente pode possuir.
Basta ver quantas vezes a Bíblia fala dessas três virtudes juntas (Rm 5:1-5; Gl 5:5,6; Ef 1:15-18; Cl 1:4,5; 1Ts 1:13; 5:8; 1Pe 1:21,22). Fé é o instrumento pelo qual somos salvos (Ef 2:8) e, sem ela, Deus não pode ser agradado (Hb 11:6).
A esperança fala da vida de expectativa que o crente deve ter em relação à segunda vinda de Jesus, estando sempre preparado para ela. Essas duas coisas certamente são grandiosas, porém, Paulo entende que o amor é ainda maior do que elas.
Então, podemos ter uma noção da importância dele. Se ele é mais importante até do que o instrumento pelo qual somos salvos, e do instrumento que nos mantém preparados para a vinda de Jesus, certamente sua importância excede o próprio entendimento.
CONCLUSÃO
Ser espiritual, portanto, é viver e demonstrar o amor de Deus para com os outros pelo uso dos nossos dons. De nada adianta sermos agraciados com dons, se o amor não os temperar. Ao final eles serão coisas bastante indigestas. Amor é o tempero da vida, é o dom supremo, é aquilo que mais devemos desejar e buscar. “Onde o amor não reina, também não existe edificação para a Igreja, senão mera dispersão.”
APLICAÇÃO
Que evidências há em sua vida de que você esteja impregnado pelo amor e seja dirigido por ele no exercício dos seus dons? O que mudaria em seus pensamentos, palavras e ações, por força do amor?
Autor: LEANDRO ANTÔNIO DE LIMA
Lista de estudos da série
01. Ele é uma força ou uma pessoa? – Estudo Bíblico sobre a Pessoa do Espírito Santo02. Como o Espírito Santo agia antes de Jesus? – Estudo Bíblico sobre o Espírito Santo no Antigo Testamento
03. A promessa profética que mudou o mundo – Estudo Bíblico sobre a Promessa do Espírito Santo
04. O papel vital do Consolador na sua redenção – Estudo Bíblico sobre l Obra do Espírito Santo
05. O que realmente significa ser batizado no Espírito? – Estudo Bíblico sobre o Batismo com o Espírito Santo
06. O segredo para entender a Bíblia de verdade – Estudo Bíblico sobre o Testemunho Interno e a Iluminação do Espírito
07. Como viver transbordando do poder de Deus – Estudo Bíblico sobre a Plenitude do Espírito
08. A prova real de um caráter transformado – Estudo Bíblico sobre o Fruto do Espírito
09. Descubra as ferramentas para servir com excelência – Estudo Bíblico sobre os Dons do Espírito Santo
10. O caminho excelente que supera todos os dons – Estudo Bíblico sobre o Amor, o Dom Supremo
11. O que é o pecado imperdoável e como evitá-lo – Estudo Bíblico sobre o Pecado contra o Espírito Santo
12. 4 marcas infalíveis de uma comunidade espiritual – Estudo Bíblico sobre Evidências de uma Igreja Cheia do Espírito Santo
13. O guia prático para manter a amizade com Deus – Estudo Bíblico sobre Como Não Entristecer o Espírito Santo
