Texto Básico: Atos 2:42-47
O Cristianismo enfrenta uma de suas piores crises, desde os dias de sua fundação. Se por um lado ele nunca foi tão conhecido, poderoso e numeroso, por outro lado, nunca esteve tão esfacelado e tão descaracterizado como é hoje.
Nunca se falou tanto no Espírito Santo, nunca se buscou tanto o Espírito Santo. Mas, parece também, que nunca fomos tão carentes do Espírito Santo.
Em meio aos ataques e inovações de movimentos distantes da Bíblia, não se sabe mais qual é o rumo a seguir.
Diante das milhares de novas igrejas que surgem a todo momento, como saber qual é a igreja ideal? Quem está certo afinal de contas?
Lucas nos mostra como viviam as pessoas cheias do Espírito Santo. E ao olharmos para sua vida, atitudes e comportamento, somos ajudados a responder a pergunta acima.
1 - PERSEVERANÇA NA DOUTRINA VERDADEIRA
Muitos têm apregoado que não há como conciliar doutrina com vida no Espírito. Dizem que esse negócio de estudar esfria, que a letra é morta, etc.
Mas o Espírito Santo inspirou o registro da Palavra de Deus, a fim de que ela fosse "lâmpada para nossos pés e luz para o caminho” (Sl 119:105). Por ela temos acesso à vida de Deus, a vida de santidade.
Para outro grupo doutrina refere-se a usos e costumes impostos sobre a comunidade como sendo marcas de espiritualidade. Doutrina é usar determinada roupa, abster-se de certos alimentos e obedecer a certos rituais. Evidentemente, essa não era a "doutrina" da Igreja primitiva, cheia do Espírito Santo.
Ainda há outro tipo, que pode ser ainda mais perigoso. São aqueles famosos pregadores que abrem a Bíblia, leem o texto, e logo a seguir passam a falar sobre uma porção de coisas que nada tem a ver com o texto lido.
Aparentemente, estão pregando a Palavra de Deus, mas, na verdade, estão pregando suas próprias experiências e ideias. Infelizmente, essas práticas são bastante comuns hoje, e todas elas impedem que o crescimento dos crentes.
O ensino foi uma das características marcantes da Igreja naqueles tempos primitivos. Jesus havia ensinado muito durante seu ministério terreno (Mc 1:22). Posteriormente, ele ordenou que os apóstolos ensinassem os evangelizados, dando-lhes toda autoridade para essa missão (Mt 28:20).
No versículo que contém a ordem expressa para evangelização, a palavra que mais se destaca é justamente “ensino”. Ele diz: “fazei discípulos”, “ensinando-os...”. Não poderia ser diferente, pois o evangelho é doutrina em sua essência.
Jamais foi ensinado pelo Senhor ou por seus discípulos que o crente precisa colocar de lado sua capacidade mental para crer no Evangelho. E nada poderia ser tão contrário ao ensino de Jesus.
Há um perfeito encaixe, um ensino harmonioso e sublime que foi planejado pelo próprio Deus, e que desenvolve-se ao longo de todos os livros da Escritura com uma perfeição maravilhosa. A Bíblia, e em especial o Novo Testamento, é fruto do ensino de Jesus e posteriormente dos apóstolos.
Nesses ensinos os crentes cheios do Espírito Santo certamente perseveravam. As histórias a respeito de Jesus, seus feitos, seus milagres, seus ensinos, corriam de boca em boca, de casa em casa.
Falta hoje muitas vezes o desejo de ler a Bíblia, de estudá-la, de descobrir as maravilhosas verdades transformadoras que ali estão relatadas! Mas não era essa a situação daquela Igreja cheia do Espírito Santo. Os crentes ansiavam por ouvir a Palavra de Deus.
Se alguém se diz cristão, mas não tem a menor vontade de aprender sobre Jesus em sua Palavra, deveria rever a autenticidade de sua conversão.
Os novos convertidos não estavam atrás de uma experiência mística tão somente. Eles queriam exercitar suas mentes, entender as maravilhas que estavam acontecendo em seus dias e que haviam sido preditas pelos profetas. Queriam aprender o que os apóstolos tinham para ensinar.
Com base no livro de Atos, podemos afirmar que o conteúdo principal do ensino dos apóstolos era: Jesus Cristo, sua pessoa e sua obra.
Pelo que podemos ver nos sermões proferidos tanto por Pedro como por Paulo, a mensagem de que Jesus Cristo era o cumprimento perfeito de toda profecia, e que por meio de sua vida de obediência, sua morte sacrificial, sua ascensão e seu governo, a salvação havia sido conquistada para todo o que cresse.
Sem dúvida uma grande ênfase deles era a pregação da cruz (1Co 1:18; 2:1).
A simples e velha mensagem da cruz que nos fala da maldade de nossos pecados, de nossa indignidade diante de Deus, e também do amor inigualável do Salvador que se deu a si mesmo, suportando o nosso castigo, redimindo-nos por sua graça, era o que mais ocupava suas mentes.
Por isso, podemos afirmar que essa é uma das características marcantes, uma das principais evidências de que uma Igreja está cheia do Espírito Santo.
Pois a Igreja primitiva perseverava em aprender doutrina, mas não qualquer doutrina, e sim a doutrina verdadeira, a doutrina bíblica. Devemos perseverar na doutrina dos apóstolos, e ela está registrada na Bíblia.
2 - COMUNHÃO QUE VAI ALÉM DE PALAVRAS
Eles perseveravam na comunhão, tanto no partir do pão, quanto na oração. Não há a menor possibilidade de termos comunhão uns com os outros se antes não tivermos comunhão com Deus.
Por meio da oração podemos entrar num relacionamento íntimo e pessoal com nosso Deus. Não vejo como alguém pode se dizer cristão se não tem a menor vontade de orar. Oração não é um dever, é um privilégio.
Deus quer que derramemos nosso coração diante dele, com reverência, mas também com a intimidade que o sangue de Jesus comprou para nós.
Como consequência da intimidade que aquela Igreja tinha com o Senhor ressurreto, havia comunhão de uns com os outros. Aqui, chegamos a um ponto crítico da narrativa de Lucas.
Estaria ele ensinando que a Igreja Cristã Primitiva vivia um tipo de “comunismo”? A alguns quilômetros a leste de Jerusalém, em Qunrã, havia uma comunidade dos chamados essênios, que viviam um tipo de comunismo primitivo.
Mas, será que a Igreja Cristã seguiu o exemplo daquela seita? Certamente não. Vender tudo o que possuía e distribuir aos outros não era uma das condições para se entrar na Igreja Cristã. O texto não sugere isto. Está escrito que eles partiam o pão de casa em casa, logo, continuava a existir a propriedade privada.
Em Atos 5, no relato sobre a morte de Ananias e Safira, Pedro diz a eles: “conservando-o, porventura não seria teu? E vendido, não estaria em teu poder?” (v.4). Ou seja, eles eram livres para doar ou não.
O próprio fato de Lucas citar o caso de Barnabé, que tinha um campo e o vendeu, vindo a depositar o dinheiro aos pés dos apóstolos (4:36,37), indica que esse não era um acontecimento tão corriqueiro assim pelo simples destaque que lhe foi dado.
Qual a conclusão a que devemos chegar a partir do texto? Que Lucas está querendo enfatizar a generosidade dos convertidos. Eles não deixavam ninguém passar necessidade, colocando seus bens à disposição dos que precisassem.
Portanto, a venda e a partilha foram ocasionais, e em resposta a necessidades específicas. O amor que eles sentiam por Deus e pelos irmãos não era só de palavras, mas de fato e de verdade (1 Jo 3:18).
Eles viviam plenamente o que João disse em sua primeira epístola: "... aquele que possuir recursos deste mundo e vir a seu irmão padecer necessidade e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?" (1 Jo 3:17).
Somente quando o amor de Deus penetra profundamente em nossos corações, retirando a erva daninha do egoísmo, mostrando-nos que recebemos gratuitamente de Deus o maior tesouro que existe, é que entenderemos que nossos bens materiais nada representam.
É verdade que há muitos aproveitadores pelo mundo, mas se não fizermos um esforço para ajudar aqueles que estão perto de nós e que conhecemos, que tipo de Cristianismo estamos vivendo? Quando na plenitude do Espírito Santo, uma Igreja está cheia do que existe de mais precioso. Por isso, ela não tem dificuldade em se doar.
Mas quando não caminha sob a direção do Espírito seus valores são todos materiais, e então ela não quer se desfazer deles. Cristianismo é essencialmente dar. Igreja cheia do Espírito Santo tem comunhão com Deus e com os irmãos de forma prática e com atos específicos que evidenciam seu enchimento.
3 - ADORAÇÃO CONTÍNUA E SINCERA
Lucas diz: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa, e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus...".
No texto que trabalhamos anteriormente sobre comunhão está escrito que eles perseveravam no partir do pão. Isto também pode ser tomado como parte da adoração. Pois, esse partir de pão refere-se provavelmente à Santa Ceia, que naquele tempo era muito mais uma refeição pública do que passou a ser depois.
Porém, o que precisa ser enfatizado aqui é a espontaneidade da adoração daquela Igreja, bem como a sua constância e o modo como era realizada. O texto nos diz que eles iam diariamente ao templo onde perseveravam unidos, bem como iam de casa em casa fazendo refeições em comunidade, demonstrando alegria e singeleza de coração no louvor a Deus.
Percebemos duas formas de culto no caso deles. O culto institucionalizado, que era no templo aonde iam todos, e o culto de casa em casa, informal, mas que era feito com alegria e singeleza de coração.
Aparentemente não havia programas de culto, talvez nem mesmo hora marcada. Era algo tão natural quanto comer. Por isso, alguns autores ligam o ato de comer com o culto, na cerimônia chamada de Ágape, a Ceia primitiva.
Outro aspecto é a continuidade dessa adoração que, segundo nos relata Lucas, era diária. Ou seja, para eles, o Cristianismo não era vivido somente nos domingos, mas era uma deliciosa e edificante experiência diária. E um outro aspecto dessa adoração é que era alegre e singela.
Todo o seu modo de viver era alegre e singelo. Eles tinham pleno conhecimento de que haviam recebido o melhor presente do mundo.
Outrora tinham estado perdidos, agora salvos; antes blasfemos, agora adoradores; antes incrédulos, agora crentes; antes tristes, agora felizes e com todos os motivos do mundo para isso. Às vezes, nossas igrejas são tristes porque nossos crentes são tristes.
Certamente isso acontece porque não entenderam completamente a mensagem de Jesus (falta-lhes doutrina). Não vivem em comunhão verdadeira. Têm muito pouco do Espírito Santo. Por que o culto tem de ser sisudo, melancólico e triste?
Alguns dizem: porque esse é o culto reformado. Esses nunca leram do quanto Calvino ficava impressionado com a alegria dos crentes da cidade de Estrasburgo.
Isso não significa que um culto alegre é o que tem barulho, afinal, este pode ser um "triste culto barulhento". Cada culto de adoração deveria ser uma alegre celebração dos atos poderosos de Deus por meio de Jesus.
Um culto alegre é aquele em que os crentes estão ali gratos pelo que seu Salvador fez por eles.
Sentem-se realmente as pessoas mais felizes do mundo, e por isso não faz a menor diferença se estão em segurança, ou em meio à perseguição; se têm alimento sobrando ou se lhes falta tudo; para eles o que importa é Jesus, o Salvador que é tudo para eles. Porém, essa alegria nunca é irreverente. Ela é singela e sincera.
4 - CRESCIMENTO ESPIRITUAL
Uma Igreja que aprende é uma Igreja que ensina. Uma igreja pode ter muitas coisas: um grande número de membros, cântico maravilhoso, e até mesmo um excelente pregador, mas se não se preocupa em trazer pessoas para a cruz, ela não é uma igreja completa.
Falta-lhe uma de suas principais colunas: o crescimento por meio da evangelização, que é uma evidência da presença do Espírito Santo.
Se prestarmos atenção ao texto, veremos que não era o testemunho da Igreja que produzia conversões, mas o Senhor usava esse testemunho, além, é claro da própria proclamação da Palavra, para ele mesmo acrescentar ao número dos crentes, os que iam sendo salvos.
É ele quem realizava essa tarefa suprema. Ele acrescenta ao seu corpo os membros. Por isso dizemos que o crescimento natural é mais uma evidência de uma igreja cheia do Espírito Santo. Não é preciso forçar, não é preciso criar “inchaços”, uma igreja cheia do Espírito cresce de forma saudável.
Um aspecto importante dessa atividade soberana de Deus, é que ele acrescentava e salvava. As duas coisas aconteciam simultaneamente. Não havia crentes sem igreja, nem descrentes na igreja. Essa é uma das nossas maiores deficiências na evangelização contemporânea.
Muitas vezes, tal é o nosso apelo aos ímpios para que venham para a Igreja, que eles acabam adentrando sem serem realmente convertidos. Ficam só convencidos. Por outro lado, quantos crentes hoje em dia preferem não ser membros de alguma igreja local? Também isso não se encaixa no ensino bíblico.
Além disso, o Senhor acrescentava os salvos “dia a dia”. Era uma tarefa ininterrupta. É interessante que todas as atividades deles eram diárias. Assim como a doutrina, a comunhão e a adoração, o processo de evangelização também era perseverante, feito "dia a dia".
Portanto, as características da Igreja primitiva eram doutrina, comunhão, adoração, e é claro, crescimento natural. Essas são as quatro colunas da igreja em todas as épocas. Se faltar uma delas, a Igreja não será firme. Uma Igreja cheia do Espírito evidencia todas essas marcas.
CONCLUSÃO
Se quisermos ser uma Igreja que segue fielmente os ensinos do Novo Testamento, voltemos então, aos princípios. Busquemos incessantemente a instrução mediante o diligente estudo da Palavra de Deus, mas não nos esqueçamos da comunhão que, como filhos, devemos ter com Deus e com os irmãos.
Enfatizando sempre o papel fundamental da oração que é o privilégio único da Igreja de ser ouvida pelo Senhor do Universo.
E não guardemos estas coisas apenas para nós mesmos, mas levemos adiante, pelo testemunho de nossa vida remida pelo sangue do cordeiro, e abrindo nossa boca para falar as maravilhas a respeito daquele que nos chamou das trevas para o reino da sua maravilhosa luz.
Assim, Deus fará nossa Igreja crescer, e seremos uma Igreja completa, uma Igreja cheia do Espírito Santo.
APLICAÇÃO
De que modo você pode contribuir para desenvolver em sua comunidade as características de uma igreja cheia do Espírito Santo?
Autor: LEANDRO ANTÔNIO DE LIMA
Lista de estudos da série
01. Ele é uma força ou uma pessoa? – Estudo Bíblico sobre a Pessoa do Espírito Santo02. Como o Espírito Santo agia antes de Jesus? – Estudo Bíblico sobre o Espírito Santo no Antigo Testamento
03. A promessa profética que mudou o mundo – Estudo Bíblico sobre a Promessa do Espírito Santo
04. O papel vital do Consolador na sua redenção – Estudo Bíblico sobre l Obra do Espírito Santo
05. O que realmente significa ser batizado no Espírito? – Estudo Bíblico sobre o Batismo com o Espírito Santo
06. O segredo para entender a Bíblia de verdade – Estudo Bíblico sobre o Testemunho Interno e a Iluminação do Espírito
07. Como viver transbordando do poder de Deus – Estudo Bíblico sobre a Plenitude do Espírito
08. A prova real de um caráter transformado – Estudo Bíblico sobre o Fruto do Espírito
09. Descubra as ferramentas para servir com excelência – Estudo Bíblico sobre os Dons do Espírito Santo
10. O caminho excelente que supera todos os dons – Estudo Bíblico sobre o Amor, o Dom Supremo
11. O que é o pecado imperdoável e como evitá-lo – Estudo Bíblico sobre o Pecado contra o Espírito Santo
12. 4 marcas infalíveis de uma comunidade espiritual – Estudo Bíblico sobre Evidências de uma Igreja Cheia do Espírito Santo
13. O guia prático para manter a amizade com Deus – Estudo Bíblico sobre Como Não Entristecer o Espírito Santo
