Texto Básico: Gálatas 5:16-25
Na Igreja, os dons do Espírito são muito mais populares do que o fruto do Espírito. É comum ver crentes orando por dons. Mas, raramente vemos alguém orando pelo fruto.
E não é difícil saber o porquê: os dons nos falam de algo extraordinário, sugerindo poder e feitos magníficos. O fruto nos fala da dura rotina de evidenciar um caráter transformado.
Como diz Sproul, “o fruto do Espírito parece estar condenado à obscuridade, oculto na sombra dos dons mais preferidos".
Porém, a grande evidência de que alguém é cheio do Espírito são os frutos e não necessariamente os dons. Isso nos lembra as palavras de Jesus:
Mateus 7:18-20
"Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore má produzir frutos bons. Toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo. Assim, pois, pelos seus frutos os conhecereis”.
O próprio Jesus disse que a simples evidência de poder na vida das pessoas não significa necessariamente conversão:
Mateus 7:22-23
"Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e em teu nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade”.
O critério não é o poder, mas a obediência, a vida realmente transformada. Isso nos ensina que mais do que manifestações espirituais, devíamos buscar a real transformação de vida; que se demonstra em atitudes práticas de obediência à Palavra de Deus.
1 - GUERRA SEM TRÉGUAS
Quando nos convertemos, já nos encontramos envolvidos em um terrível combate que já vem sendo travado há muito tempo.
Paulo diz que estamos em meio uma guerra que não é contra “o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6:12).
Não há como escapar dessa guerra. Uma vez que fomos tirados do império das trevas (Cl 1:13), agora todo aquele império é nosso inimigo. Por isso só nos resta vestir a armadura, empunhar espada e orar sem cessar (Ef 6:11-18).
Mas era de se esperar que a luta fosse apenas externa. O problema é que há uma luta dentro de nós também: “... a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer" (Gl 5:17).
Esta é uma batalha terrível. O velho homem, a natureza humana inclinada para o pecado, não quer entregar o terreno de bom grado e se arma até aos dentes a fim de resistir ao Espírito.
Como diz Sproul, “embora essa guerra seja interna e invisível, há claros sinais externos da carnificina provocada pela batalha".
Ele está se referindo especialmente ao que acontece quando a carne vence, pois aparecem as obras da carne.
Paulo diz:
Gálatas 5:19-21
"... as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam".
Evidentemente, essas obras caracterizam a vida de uma pessoa não-regenerada. Não significa que um crente não possa cair em algum desses pecados ocasionalmente, porém, se eles forem evidências contínuas na vida de alguém, como Jesus disse, isso caracteriza árvore má, ou seja, ausência de conversão.
A lista parece falar de pecados que tem relação com o sexo (prostituição, impureza, lascívia), com a religião (idolatria, feitiçarias), com o relacionamento com outros (inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas), e por fim com pecados relacionados aos apetites (bebedices, glutonarias).
Porém, a lista não pretende ser completa, pois Paulo diz: “e coisas semelhantes a essas". Quatro áreas problemáticas ficam bem frisadas: sexo, religião, relacionamento e apetites. São quatro áreas em que a natureza pecaminosa gosta de se manifestar.
Vamos considerá-las agora separadamente:
- Prostituição representa a quebra do sétimo mandamento e diz respeito a todo tipo de relacionamento sexual fora do casamento.
- Impureza inclui o que foi dito sobre prostituição e pode incluir relacionamentos homossexuais.
- Lascívia aponta para a disposição mental reprovável dando um sentido sexual implícito que se expressa em palavras, posturas e roupas impróprias e provocativas.
- Idolatria fala de adorar qualquer outro ser ou objeto que não seja Deus. Deus é o único que deve ser adorado.
- Feitiçarias aponta para a prática de magia e todo tipo de espiritismo.
- Inimizades denota o caráter da pessoa agressiva, hostil e rancorosa.
- Porfias tem a ver com desafiar os outros, provocá-los para discussão ou briga.
- Ciúmes demonstra um caráter egocêntrico, preocupado com suas próprias possessões materiais, pessoais ou espirituais.
- Iras são explosões de cólera.
- Discórdias aponta para uma mente que sempre tem uma opinião diferente dos outros e nunca pode ceder.
- Dissensões dá a ideia de alguém que sempre busca criar inimizade entre as pessoas.
- Facções caracteriza-se por partidarismo, são as famosas “panelinhas”, o desejo de não se relacionar ou não concordar com os outros.
- Invejas aponta para o desejo de possuir o que o outro possui, seja material ou não.
- Bebedices é o uso descontrolado do álcool e de todo tipo de entorpecente.
- Glutonarias representa a vida de quem vive para encher o estômago, preocupando-se apenas com satisfação dos apetites pessoais.
Como podemos ver, a guerra é realmente árdua. As armas da carne são poderosas. Elas atuam em todos os nossos pontos mais fracos. E como Paulo diz, são conhecidas. São nossas conhecidas íntimas.
São as coisas mais comuns que encontramos no mundo, quando ligamos a TV, abrimos o jornal, ou batemos papo com os amigos.
Mesmo no recanto de nossa mente, e inclusive nos sonhos, elas tramitam e fazem guerra contra o Espírito. Que Deus fortaleça o seu Espírito dentro de nós!
2 - TRÍPLICE RELACIONAMENTO
Em contrapartida o fruto do Espírito apresenta as virtudes da vida cristã autêntica. Stott vê uma tríplice divisão nesse fruto, que é composto de nove elementos, classificando-o como: relacionamento com Deus, relacionamento com os outros, e relacionamento conosco mesmos.
A. EM RELAÇÃO A DEUS
1. Amor
O amor é o único que figura tanto na lista do fruto quando dos dons do Espírito. E o primeiro e o mais importante nas duas. Paulo diz que o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito (Rm 5:5).
Fala também explicitamente do “amor do Espírito” (Rm 15:30) e “no Espírito” (Cl 1:8). De certa forma, exibir esse amor é evitar todas as obras da carne (1Co 13:4-7).
Esse amor do Espírito é possível em nós porque Deus nos amou primeiro (1Jo 4:19).
2. Alegria
A alegria do Espírito é uma marca fundamental do crente, e é uma das características principais do próprio reino de Deus (Rm 14:17). Ela está relacionada à posição que o crente tem diante de Deus.
Não é uma simples euforia por alguma conquista pessoal, mas uma alegria sincera e profunda oriunda da certeza da salvação, e que não se abate em meio as dificuldades e provações da vida (Fp 4:4).
3. Paz
A paz que é fruto do Espírito também é bastante diferente da “paz” que o mundo almeja. Essa paz não significa apenas ausência de conflito.
O crente pode estar em paz mesmo em meio às guerras e tribulações da vida, afinal, a vida cristã é uma guerra externa e interna.
Essa paz “excede todo o entendimento” (Fp 4:7). Como diz Stott, amor, alegria e paz são características fundamentais do cristão, “tudo o que ele faz é concebido com amor, iniciado com alegria e executado com paz”.
B. EM RELAÇÃO AOS OUTROS
1. Longanimidade
Um temperamento longânimo demora em se irritar. Consegue suportar as ofensas dos outros e evita totalmente o ato de julgar. A característica principal da longanimidade é a capacidade de esperar. O crente espera que as coisas mudem a longo prazo. Ele não deseja tudo para hoje, pois consegue esperar o momento certo.
2. Benignidade
Essa virtude tem a ver com o devido controle da força. É uma característica própria de Deus que não usa sua força além do necessário. Alguém benigno sabe ser bondoso com os que estão errados.
3. Bondade
Somente Deus é bom, e é o padrão da bondade. Quando somos convertidos, o Espírito muda nossa essência má, tornando-nos bons. Assim, podemos demonstrar bondade uns com os outros, sem esperar nada em troca.
C. EM RELAÇÃO A NÓS
1. Fidelidade
Um convertido recebe a graça de ser fiel. Ele não é fiel aos outros, ele é fiel a si mesmo. Sua preocupação não é com o que os outros vão pensar, mas sim, com o que Deus pensa dele, e com o que ele pensa de si mesmo. Ele deseja agir coerentemente com o que recebeu de Deus.
2. Mansidão
Não devemos confundir mansidão com fraqueza. Tem mais a ver com o controle da força. Alguém que tem o poder e até o direito de revidar, mas que abre mão disso por uma questão de fé, não é um covarde, é um corajoso. Somente alguém muito corajoso pode ser manso.
3. Domínio próprio
Essa é a virtude do autocontrole. Tem domínio próprio quem recebeu o poder de controlar a língua, os apetites e até os pensamentos.
3 - CARACTERÍSTICAS DO FRUTO
Devemos notar que há apenas um fruto do Espírito. Ainda que, geralmente falemos em "frutos do Espírito", a palavra em Gálatas 5:22 está no singular. Isso faz contraste com "as obras da carne” que são muitas e estão no plural, e também com os “dons do Espírito".
Em relação aos dons do Espírito, eles são muitos porque caracterizam a diversidade de membros no corpo de Cristo, e por conseguinte, ninguém tem todos os dons. Mas o fruto não tem essa função e, por isso, cada crente verdadeiro deve produzir todo o fruto do Espírito.
Todo crente tem pelo menos um dom que lhe foi concedido soberanamente pelo Espírito, além de ter a responsabilidade de buscar outros dons (Cf. 1Co 12:3), porém, como diz Hoekema, podemos ser salvos sem muitos dos dons do Espírito, mas não podemos ser salvos sem o fruto do Espírito".
A unidade do fruto do Espírito, portanto, nos diz que não podemos escolher virtudes. Devemos evidenciá-las todas. Uma pessoa não pode ser apenas “longânima” sem ser "fiel”. Do mesmo modo não pode evidenciar “amor” sem “domínio próprio”.
Mas, uma vez que estamos falando de "fruto”, também devemos pensar em seu crescimento orgânico. Isso nos sugere duas coisas: primeiro, que ele precisa crescer, e segundo, que cresce em certas circunstâncias.
Não devemos esperar que uma pessoa recém-convertida demonstre o fruto do Espírito em sua forma plena. Ele será desenvolvido gradualmente. Isso nos leva à segunda observação, pois para que algo se desenvolva, precisa ser alimentado.
Usando a analogia da natureza, sabemos que uma árvore não precisa fazer força para produzir frutos, ela precisa dispor dos elementos necessários, como chuva, boa terra, sol, etc., e assim os produzirá naturalmente.
Da mesma forma, o crente não produz frutos pela força, mas quando dispõe dos elementos necessários para isso, como a pregação da Palavra, a comunhão entre os irmãos, a oração, a meditação, etc., essas santas influências do Espírito Santo produzirão na vida do crente o bendito fruto do Espírito.
Esse é o segredo de “andar no Espírito”. Quem anda no Espírito tem a garantia de não satisfazer as concupiscências da carne (Gl 5:16), e por isso Paulo conclui o assunto no mesmo tom que começou: “Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (Gl 5:25).
CONCLUSÃO
O Espírito da vida, conduz-nos à vida e paz. Andar no Espírito significa agir, decidir, planejar e viver sob a direção e controle do Espírito de Cristo, conforme a nossa nova condição de filhos da luz (Ef 5:8).
Neste novo contexto de vida, encontramos no Espírito a capacitação para cumprirmos a lei. A lei nos mandava cumprir seus preceitos; o Espírito nos leva a fazê-lo com o coração alegre, libertando-nos, assim, do domínio do pecado e da morte.
A lei revela o nosso pecado, o Espírito demonstra a graça através de nossa obediência. Portanto, andar no Espírito é viver não à revelia da lei, antes é caminhar em harmonia com a lei de Deus, que é a “lei da liberdade” (Cf. Tg 1:25; 2:12).
É justamente essa a vitória sobre o pecado (Gl 5:1-12,18). “Estar no Espírito significa estar na esfera do reino libertador de Deus, que é mediado pelo Espírito”.
A figura bíblica do “andar” é significativa pois aponta para a nossa realidade diária de caminhar, deparando-nos com novas e desafiadoras situações, para as quais o Espírito nos conduzirá de forma segura conforme as Escrituras.
A vida no Espírito é portanto, uma aventura integral na qual descobrimos diariamente a riqueza da Palavra e a sua perenidade para cada e nova circunstância de toda a nossa existência (Sl 119:105).
Andar no Espírito aponta para um novo itinerário e, também, para uma nova qualidade de vida. A Palavra de Deus é o livro que regulamenta os princípios desse caminhar; "O Espírito não nos dirige aparte da Palavra.”
APLICAÇÃO
Devemos fazer uso de todos os benefícios concedidos por Deus para que o Espírito Santo produza seu fruto em nossa vida. Isso deve ser a maior prioridade de nossa vida, uma vez que somos convertidos.
Autor: LEANDRO ANTÔNIO DE LIMA
Lista de estudos da série
01. Ele é uma força ou uma pessoa? – Estudo Bíblico sobre a Pessoa do Espírito Santo02. Como o Espírito Santo agia antes de Jesus? – Estudo Bíblico sobre o Espírito Santo no Antigo Testamento
03. A promessa profética que mudou o mundo – Estudo Bíblico sobre a Promessa do Espírito Santo
04. O papel vital do Consolador na sua redenção – Estudo Bíblico sobre l Obra do Espírito Santo
05. O que realmente significa ser batizado no Espírito? – Estudo Bíblico sobre o Batismo com o Espírito Santo
06. O segredo para entender a Bíblia de verdade – Estudo Bíblico sobre o Testemunho Interno e a Iluminação do Espírito
07. Como viver transbordando do poder de Deus – Estudo Bíblico sobre a Plenitude do Espírito
08. A prova real de um caráter transformado – Estudo Bíblico sobre o Fruto do Espírito
09. Descubra as ferramentas para servir com excelência – Estudo Bíblico sobre os Dons do Espírito Santo
10. O caminho excelente que supera todos os dons – Estudo Bíblico sobre o Amor, o Dom Supremo
11. O que é o pecado imperdoável e como evitá-lo – Estudo Bíblico sobre o Pecado contra o Espírito Santo
12. 4 marcas infalíveis de uma comunidade espiritual – Estudo Bíblico sobre Evidências de uma Igreja Cheia do Espírito Santo
13. O guia prático para manter a amizade com Deus – Estudo Bíblico sobre Como Não Entristecer o Espírito Santo
