Texto básico: Marcos 12.1-12
Esta parábola é denominada “Os Lavradores Maus”, na qual Jesus utiliza os recursos da vida agrícola e pastoril de sua gente para ilustrar os fatos mais relevantes da realidade espiritual. São figuras do contexto cotidiano de Jesus, de que lança mão para ensinar sobre Deus, Israel e o Filho.
Devemos ressaltar que utilizamos, para a confecção desta lição, o comentário de William Barcklay - Mateus Vol. 2¹, aproveitando a sua estrutura por julgarmo-la muito adequada e bastante didática.
Dentro deste prisma, vejamos o que aprendemos sobre estes três elementos: O dono, os trabalhadores e o Herdeiro.
1 - ENSINA SOBRE DEUS - O DONO DA VINHA
a) Confiança no trabalho dos homens (v.1)
Dizemos que se trata de confiança, pois o texto nos afirma que o dono da vinha "ausentou-se", mostrando que confiava nos homens para o desempenho do trabalho e cumprimento das tarefas.
Não estaria exercendo um controle “policial” sobre aqueles aos quais entregara sua vinha.
Há, da parte de Deus, a confiança de que estamos desenvolvendo a função para a qual Ele nos tem chamado, pois a normalidade da ação de Deus em relação aos homens é por meio dos próprios homens.
Deus age sem nós, mas aprouve a Ele usar- nos para a execução de seus propósitos, o que demonstra sua confiança em nós para o trabalho.
b) Paciência no trato com os homens (vv. 3 a 5)
Jesus está nos ensinando sobre a longanimidade e a paciência de Deus conforme expressa no Salmo 103.8. De fato, o Senhor é misericordioso, benigno e longânimo, pois tem tolerado o homem em suas demonstrações de rebeldia, incredulidade, crueldade, etc.
O dono da vinha não eliminou ou destruiu os trabalhadores quando do primeiro ato de vandalismo dos tais contra os seus enviados, mas, com paciência, os tolerou até ao limite de sua benignidade ao enviar-lhes o próprio Filho. Se não fossem as misericórdias do Senhor, há muito já teríamos sido consumidos (Lm 3.22).
c) Juízo sobre os homens iníquos (v.9)
A longanimidade de Deus é limitada por outro de seus atributos que é a justiça, que não permite que o pecado fique sem punição.
O dono daquela vinha iria arrancar de lá aqueles iníquos que não atenderam a seus insistentes e constantes apelos e lançá-los fora. Trata-se, neste caso, de passar a outros trabalhadores (=a Igreja) aquilo que até então era responsabilidade de Israel.
A vinha, que é o mundo, passa a ser responsabilidade da Igreja, devendo esta cuidar daquela, apresentando ao dono os frutos e resultados desse cuidado.
Pode parecer desagradável, inquietante, desconfortante, mas é a verdade: Deus envia seu juízo sobre os ímpios que se mantêm rebeldes ao seu apelo de amor (Is 48.22,25,26).
2 - ENSINA SOBRE O HOMEM: OS TRABALHADORES MAUS
a) Privilégio dos seres humanos (v.1)
A confiança depositada pelo dono da vinha é diretamente proporcional ao privilégio que tais trabalhadores puderam desfrutar no tocante ao cuidado da vinha.
Não se trata de uma visão deísta do mundo, crendo que Deus estabeleceu a vinha e agora não interfere, não se envolve, não atua, tendo deixado tudo por conta daqueles que estabeleceu na vinha.
Deus (o dono da vinha) age por meio dos que tem chamado a trabalharem na vinha.
O dono equipou a vinha com o que é necessário à sua preservação e bom funcionamento, dotando-a de todos os recursos fundamentais para o bom desenvolvimento do trabalho requerido.
Somos chamados por Deus e colocados neste mundo como os responsáveis por sua manutenção de modo equilibrado e sadio. Quer seja como cristãos ou não, todos nós, como seres humanos, temos tão sublime privilégio de conduzir e cuidar desta vinha (o mundo, o universo) com todo esmero, zelo e dedicação.
O cristão é alguém cujo privilégio é ampliado, posto que sua ação não é apenas de preservar a vinha (cuidar dela=ecologia), mas de procurar introduzir nela os valores, dimensões e diretrizes do Reino de Deus (redimi-la=ética).
Que privilégio de Deus aos homens: cuidar da vinha!
b) Responsabilidade dos seres humanos (v.2)
Jesus nos ensinou que "a quem muito se deu, muito se lhe pedirá” (Lc 12.48), o que é comprovado nesta parábola no momento do “acerto de contas”, da “procura dos frutos". Falamos do privilégio no cuidado da vinha e agora vemos a proporcionalidade direta da responsabilidade quanto a tal privilégio.
Deus tem colocado tudo à minha disposição e a meu alcance. Tem-me capacitado e habilitado para o seu trabalho e por isso tem o direito de exigir os resultados. Nossa responsabilidade é muito grande diante desta obra que o Senhor nos tem concedido realizar.
As parábolas dos Talentos e das Minas versam sobre esta verdade, ou seja, a responsabilidade de desenvolvermos as aptidões que recebemos e multiplicarmos os talentos no desenvolvimento do que Deus nos entregou a executar.
Deus o tem colocado em algum ponto, lugar, local ou função? É privilégio seu, e que grande responsabilidade tem você diante disso, pois foi posto onde está para ser agente de implantação do Reino de Deus. Que responsabilidade!
c) Pecaminosidade dos seres humanos (vv .3 a 7)
Depois de revelar sua confiança nos homens e deixar claro o privilégio e também a responsabilidade destes, Deus nos fala desta verdade triste e aflitiva: a rebeldia e a pecaminosidade do ser humano.
Jesus deixou claro o fato de haver uma ação deliberada e sistemática de oposição ao dono da vinha. Não lhes agradou o fato de serem cobrados em seus privilégios e arguidos em suas responsabilidades.
Não queriam admitir nenhum tipo de ingerência por parte do dono e muito menos prestar-lhe conta do que quer que fosse. Jesus está apresentando o pecado existente no coração humano com sua postura contrária às demandas do Senhor.
Jesus conhecia muito bem o coração humano e a corrupção que abriga este (Jo 2.24). Parece absurdo que Deus dê a homens tão pecadores a responsabilidade de cuidarem da vinha.
Porém, devemos atentar para o fato de que Deus nos coloca como guardiães e zeladores da vinha, e nos mostra como realizar este propósito tão alto e sublime (Jo 15.5).
Sem Deus, o coração do homem é corrupto, visando seus interesses próprios e particulares, não se importando com a situação e vida de seu próximo.
Choca-nos a figura do espancamento dos enviados do dono da vinha e a morte de seu Filho, mas isto nos ensina que os homens são pecadores e sua reação ante às demandas de Deus é de oposição, resistência e obstinada rejeição.
Não tem você também espancado e aviltado os mensageiros de Deus que têm sido enviados à sua vida para "cobrar" os frutos da parte do Dono da vinha?
3 - ENSINA SOBRE JESUS: O HERDEIRO
a) Sua posição superior (vv. 6 e 7)
Não se trata de vaidade ou orgulho de sua parte com a colocação que fez, mas apenas a verdade dos fatos acerca de si mesmo. Jesus se coloca acima de todos os seus antecessores, os profetas.
O próprio testemunho de João Batista aponta para esse fato ao reconhecer que Jesus era maior que ele (João).
De fato, como registrado na parábola, os servos eram apenas mensageiros, enquanto que o herdeiro é filho. Significa que Ele se reconhece como superior aos seus predecessores, pois não era apenas mensageiro, mas a própria mensagem.
O caráter do herdeiro (filho) é único e inigualável, jamais podendo ser equiparado aos servos que vieram antes dele. O escritor da Carta aos Hebreus tem esse propósito no seu escrito, mostrando que o Filho é superior aos anjos, aos profetas, a Moisés, a Abraão, a Melquisedeque e outros por ser verdadeiramente Deus.
b) Sua morte (v.8)
É digna de estranheza a alegação de alguns teólogos liberais que desejam sustentar o fato de Jesus não ter consciência de seu futuro, não sabendo o que o aguardava à frente. Cristo não foi tomado de surpresa por um fato imprevisto sobre o qual não tinha conhecimento prévio.
A certeza de sua morte violenta e o sacrifício de si mesmo estavam presentes em seu Ministério e por várias vezes segredou isso a seus discípulos.
Desse modo Jesus não foi empurrado ou arrastado à cruz por circunstâncias que lhe fugiram ao controle, mas por livre obediência à vontade do Pai, sujeitou-se a uma morte ignominiosa, a fim de resgatar e salvar os homens pecadores. A morte de Cristo não foi inesperada, imprevista, nem tão pouco acidental.
Ao contrário, Jesus afirmou que para aquele propósito viera e que o cumpriria cabalmente (Jo 12.27), sendo que ninguém tomaria sua vida, mas espontaneamente a daria (Jo 10.12-18).
c) Seu triunfo final (vv. 10 e 11)
O fracasso aparente por meio da morte não significa a derrota do Filho, mas um modo pelo qual a vitória total se verificaria.
Desde o Gênesis isso fora previsto e vaticinado por Deus (Gn 3.15). Uma mensagem de esperança, ânimo, alento e fé. Toda oposição será vencida e quebrada, toda rebelião será eliminada.
Jesus usa a figura da pedra rejeitada que se torna a sustentação de todo o edifício, com o propósito de mostrar que Ele, como pedra rejeitada pelos judeus, seria colocado como a Pedra Principal sobre a qual se edificaria o Edifício Santo da Igreja.
Fica claro o fato de que todo aquele que o rejeitasse estaria fadado à ruína e destruição (Mt 21.44) pela confrontação com essa Pedra. Aquele, porém, que o aceitasse e o recebesse como Salvador seria posto sobre essa Rocha e cresceria como Edifício Santo ao Senhor (I Pe 2.5)
CONCLUSÃO
Aprendemos sobre Deus em sua longanimidade, confiança e investimento no ser humano, mas vimos também seu zelo com relação aos que não respondem ao que têm recebido das suas mãos.
Tomamos consciência de nosso privilégio e responsabilidade como trabalhadores desta vinha, mas não vamos permitir que o pecado venha nos levar a atitudes tão vis como a daqueles trabalhadores que espancaram e mataram os enviados do senhor da vinha.
Vimos claramente que Jesus é superior a todos os homens por mais excepcionais que sejam, pois só Jesus é Filho e, com sua morte na cruz selou a redenção da humanidade, trazendo aos que o recebem a graça do triunfo final.
Não seja esmiuçado e esmagado por esta Pedra, mas edificado sobre ela para glória de Deus e sua felicidade.
Autor: PAULO AUDEBERT DELAGE
Lista de estudos da série
1. A voz que preparou o Rei – Estudo Bíblico sobre João Batista em Marcos
2. O segredo para vencer no deserto – Estudo Bíblico sobre a Tentação de Cristo
3. O poder de Deus nos pequenos detalhes – Estudo Bíblico sobre a Cura da Sogra de Pedro
4. O toque que quebra todas as barreiras – Estudo Bíblico sobre a Cura do Leproso
5. O guia infalível para a batalha espiritual – Estudo Bíblico sobre Suplantar o Valente
6. Do caos à paz: O passo a passo da libertação – Estudo Bíblico sobre o Endemoniado Gadareno
7. Encontrando esperança quando tudo desmorona – Estudo Bíblico sobre a Filha de Jairo
8. O toque de fé que libera o milagre – Estudo Bíblico sobre a Mulher do Fluxo de Sangue
9. As 3 responsabilidades que todo discípulo precisa saber – Estudo Bíblico sobre a Multiplicação dos Pães
10. 5 Lições de vida com quem o mundo despreza – Estudo Bíblico sobre o Cego Bartimeu
11. Só folhas? O aviso de Jesus que você não pode ignorar – Estudo Bíblico sobre a Figueira que Secou
12. Dono, trabalhadores e herdeiro: Qual seu papel nesta história? – Estudo Bíblico sobre a Parábola dos Lavradores Maus
13. O substituto improvável: por que a morte dele garantiu sua vida – Estudo Bíblico sobre Jesus e Barrabás
