Texto básico: Marcos 1.1-8
"Se não posso ser o artista principal, figurante não quero ser".
Pode parecer absurdo, mas essa afirmação foi feita por um candidato ao Ministério Sagrado quando soube que lhe caberia uma pequena Igreja no interior para o início de seu exercício ministerial.
Pode parecer chocante, mas não nos apetece o fato de sermos vistos (e nos vermos) como simples “agentes cooperadores" ou preparadores do espetáculo.
Começamos o estudo no Evangelho de Marcos através desta figura extraordinária de João Batista, que foi o “Arauto do Senhor", o "preparador do caminho do Rei".
Seu trabalho de preparação para o surgimento do "Cordeiro de Deus” foi de real importância, pois era mister a ligação desta Nova Realidade que surgia com a Velha Dispensação que se fechava. Vamos ao estudo.
1 - SUA MISSÃO (v. 2)
João Batista surge pregando no deserto (=lugar de pouca habitação, ermo) e é visto como alguém que encarnava o cumprimento da Profecia, sendo confundido com o Messias esperado.
Mas o próprio João descarta tal ideia (Jo 3.28) e os evangelistas conseguem captar com exatidão a missão do Batista. Analisemos:
a) Cumprir a Palavra de Deus
A Palavra de Deus não pode cair no vazio pelo seu não cumprimento. Assim vemos que o VT se encerra com a promessa de Deus em enviar Elias para “converter o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos aos pais” (Ml 4.5,6).
João é o elemento usado por Deus para trazer essa conversão dos corações, unindo os pais (antigos) aos filhos (os de seus dias) na pessoa daquele que é o “Príncipe da Paz”. João é o cumprimento da profecia de Malaquias (3.1) e de Isaías (40.3).
Desse modo o surgimento de João Batista é a confirmação da Palavra de Deus dada pelos profetas. Quanto à questão da “reencarnação” de Elias em João Batista, examine-se João 1.21.
b) Preparar campos
Endireitar Veredas: Esta era uma figura comum nos dias de Cristo: o arauto. Este elemento não tinha apenas a incumbência de anunciar a chegada de um dignitário (= governador, príncipe, rei, etc.), mas de preparar as estradas por onde tais pessoas passariam, tapando os buracos e rebaixando pequenas elevações (Lc 3. 5).
A figura de preparar a terra se aplica a João Batista como se fosse ele um “trator divino" que preparava o solo dos corações humanos para a Semente a ser lançada por Cristo. Ele precisava endireitar as veredas do coração humano a fim de receber a Pessoa do Salvador Glorioso.
Tal missão é dura e árdua e, às vezes, custa a vida do profeta (Mt 14.1-12). Não se pode admitir dissimulação nessa missão, e tal posição leva o profeta a ser encarado com certa aversão (Mt 3.7-10). Mas João permaneceu firme até o fim na sua obra.
2 - SUA PREGAÇÃO (vs. 4 e 5)
Como preparação do "caminho do Senhor" João pregava com veemência e unção, reunindo três elementos básicos:
a) Contrição (v.4)
O arrependimento é o ponto apresentado em primeira linha por João. É impossível que alguém se achegue a Cristo sem o verdadeiro e genuíno arrependimento (Pv 28.13; II Cr 7.14; Mt 4.17; At 2.38).
É preciso resgatar esta realidade na pregação do Evangelho - necessidade do arrependimento. A compreensão da vileza e hediondez de nosso pecado diante do Senhor nos leva ao quebrantamento profundo e nos conduz a Cristo para o perdão.
b) Perdão (v.4)
João apresentou a Cristo como " O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (Jo 1.36). Este elemento é fundamental na pregação cristã. Se, por um lado, não há perdão sem arrependimento, por outro lado só há perdão em Cristo.
Ele é a "propiciação pelos nossos pecados” (I Jo 2.2), e é somente nele que temos a provisão divina para o perdão de nossos pecados (Hb 9.23 e 28 10.11-14 e I Jo 1.9). Esta verdade tem que ser firmada em nossa pregação como fez João Batista: libertação do pecado só em Cristo (Jo 8.34-36).
c) Frutificação
O formalismo litúrgico e religioso não era elemento suficiente que preenchesse as exigências de Deus para a recepção de seu Filho.
O enquadramento puro e simples nas determinações eclesiásticas não lhe parecia referencial digno de crédito. João (por direção de Deus) exigia e demandava dos que vinham a ele mudança de vida, "fruto digno de arrependimento” (Lc 3. 10-14; Mt 3. 7-10).
A mudança de vida (o posicionamento comprometido com Cristo e sua Cruz) é sinal de seu arrependimento, sendo que Deus não aceita menos que isso (Jo 15.1-6; Lc 3.9). Ou frutifica, ou é lançado fora e queima. Não há outra opção.
3 - SUA POSIÇÃO (vv. 7,8)
Quando se tem uma posição como a de João (Mt 11:11), que nos coloca em destaque e proeminência, torna-se difícil assumir nossa real posição diante de Deus. Mas João sempre se conscientizou de quem era diante de Deus e como deveria ser seu comportamento em razão disso. Vejamos:
a) Servo e não senhor
Embora não houvesse escutado o Senhor Jesus dizer isto, João sabia que "maior é o que serve" no contexto da hierarquia no Reino de Deus.
João não desenvolvia a atividade serviçal para se tornar o maior, mas servia por entender que de fato era servo do Senhor. No episódio do batismo de Jesus vemos esta verdade estampada em cores vivas: "eu careço de ser batizado por ti..." (Mt 3.14). Nós não somos os senhores, e, sim, os servos.
Há alguns que estão se esquecendo disso e pensam poder fazer de Deus sua montaria (por meio da oração) e determinar-lhe a direção a ser seguida, ou então impor sua vontade sobre Deus. Aprendemos com João esta verdade: Cristo é o Senhor, nós somos servos.
b) Pregador e não salvador
O ministério que João exercia era preparatório para a chegada do Messias e seu reino. Um dos dispositivos usados por ele era o batismo como símbolo da purificação dos pecados e retorno a Deus.
Porém ele entendeu (e proclamou) que a salvação não viria dele mesmo ou de seu batismo, mas de Cristo e o batismo operado por Ele, isto é o batismo com o Espírito Santo. João não era a luz, e, sim, uma testemunha da luz (Jo 1.8).
Às vezes enfatizamos tanto os ritos, as cerimônias, as profissões de fé, o denominacionalismo, que chegamos a confundir tais elementos com a salvação.
João compreendeu que era apenas um referencial ao ponto maior e mais elevado: Cristo Jesus, o "Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.
CONCLUSÃO
“João não era a luz, mas veio para que testificasse da luz” (Jo.,1:7).
Da mesma forma nós não somos a luz, somos testemunhas dessa luz, fazendo com que brilhe fulgurante, produzindo frutos dignos de arrependimento, proclamando que Jesus é "o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, servindo-o como único e soberano Senhor, para Sua própria glória.
Autor: PAULO AUDEBERT DELAGE
Lista de estudos da série
1. A voz que preparou o Rei – Estudo Bíblico sobre João Batista em Marcos
2. O segredo para vencer no deserto – Estudo Bíblico sobre a Tentação de Cristo
3. O poder de Deus nos pequenos detalhes – Estudo Bíblico sobre a Cura da Sogra de Pedro
4. O toque que quebra todas as barreiras – Estudo Bíblico sobre a Cura do Leproso
5. O guia infalível para a batalha espiritual – Estudo Bíblico sobre Suplantar o Valente
6. Do caos à paz: O passo a passo da libertação – Estudo Bíblico sobre o Endemoniado Gadareno
7. Encontrando esperança quando tudo desmorona – Estudo Bíblico sobre a Filha de Jairo
8. O toque de fé que libera o milagre – Estudo Bíblico sobre a Mulher do Fluxo de Sangue
9. As 3 responsabilidades que todo discípulo precisa saber – Estudo Bíblico sobre a Multiplicação dos Pães
10. 5 Lições de vida com quem o mundo despreza – Estudo Bíblico sobre o Cego Bartimeu
11. Só folhas? O aviso de Jesus que você não pode ignorar – Estudo Bíblico sobre a Figueira que Secou
12. Dono, trabalhadores e herdeiro: Qual seu papel nesta história? – Estudo Bíblico sobre a Parábola dos Lavradores Maus
13. O substituto improvável: por que a morte dele garantiu sua vida – Estudo Bíblico sobre Jesus e Barrabás
