Texto básico: Marcos 1.40-45
A lepra (= hanseníase) já não tem a mesma carga de risco e repúdio social de algumas décadas passadas e, muito menos, a repulsa que se via nos dias de Jesus.
A legislação judaica referente à lepra visava ser a preventiva, levando o portador da doença ao isolamento no intuito de diminuir o risco de contágio.
Dentro daquilo que sabiam sobre a doença e sua propagação, as medidas de profilaxia adotadas eram as melhores.
Mas, houve uma associação terrivelmente nociva quanto a essa enfermidade, sustentando que o leproso era maldito de Deus e sua doença uma clara manifestação do castigo de Deus contra tal pessoa. Assim, agregavam à dor física e à dor do ostracismo social a angústia atroz da imputação de "maldito de Deus".
Portanto, embora a separação e o isolamento impostos aos leprosos não expressassem apenas preconceito descabido, mas medida profilática para evitar a contaminação geral, todo leproso era considerado intocável, imundo.
Nesse episódio vemos que Cristo quebrou muitas barreiras e tocou o intocável, sendo fonte inesgotável de graça para aquele doente e para tantos que, ainda hoje, são tocados por Ele. Estudemos alguns pontos de suma importância nesse encontro memorável.
1 - JESUS É A FONTE DE PURIFICAÇÃO PARA TODA IMPUREZA (v.42)
De acordo com os costumes daqueles dias o leproso não podia se aproximar das demais pessoas. Era necessário manter boa distância e, caso a pessoa não percebesse a figura do enfermo, este deveria gritar: "leproso, imundo" (Lv 13.45).
O leproso estava sujeito a apedrejamento sumário caso se aproximasse das pessoas sem adverti-las quanto à sua situação, ou se entrasse nas cidades muradas.
Todo aquele que tocasse um leproso ou fosse tocado por um deles (mesmo acidentalmente) se tornaria cerimonial e religiosamente imundo (Lv 5.2,3).
Assim era o sistema, a realidade, o comum. Mas vemos Cristo contrariar todos esses dispositivos e tocar aquele homem, tornando-o limpo. Depois o envia ao sacerdote para avaliação e ritual de purificação e a declaração mais ansiada pelo ex leproso: LIMPO! (Lv 14.7).
De acordo com as leis estabelecidas, Cristo tornar-se-ia impuro ou imundo devido àquele toque; mas, ao contrário, é o leproso que se torna limpo. Desse modo, Cristo é a fonte de pureza para toda a impureza.
Vemos na Bíblia alguma analogia entre a lepra e o pecado, sendo ambos elementos que constituem impureza para o ser humano.
Mas, assim como Cristo tocou aquele homem e pelo seu toque o purificou, assim Cristo continua sendo a fonte de purificação para o pecador que recebe seu toque divinal; pois Jesus é "a propiciação pelos nossos pecados...” (I Jo 2.2), e "... o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado." (I Jo 1.7).
Vá a Cristo e seja limpo de todos os seus pecados, pois Ele, e só Ele, continua sendo a Fonte de purificação para toda impureza.
2 - JESUS É A FONTE DE REINTEGRAÇÃO PARA O SEGREGADO (v.41)
Há no texto uma expressão que traduz a atitude constante de Cristo para com o homem perdido e abandonado: "...estendeu a mão...”. No Salmo 27, verso 10, temos esta promessa solene da parte de Deus em nos estender a mão quando estivermos abandonados mesmo por aqueles que nos são mais achegados e queridos.
Quando Cristo estendeu a mão para o leproso, não tinha o interesse de lhe oferecer benesses fúteis diante de sua situação decadente e degradante. Jesus oferece a possibilidade de se sentir restaurado e reintegrado.
A Igreja tem também esse papel, sendo fonte de reintegração para os segregados. É triste notar que, nem sempre, Jesus e a Igreja são uma só fonte nesse mister. A Igreja tem dificuldade em receber a muitos que Jesus recebeu (veja o caso de Paulo em Jerusalém após sua conversão).
Nós temos que aprender, como Igreja, a seguir os passos de nosso Senhor e nos constituir em fonte de acolhimento e ressocialização para todos os marginalizados pela sociedade — como pessoas em situação de prostituição, portadores de enfermidades estigmatizantes ou que cometeram infrações — que, uma vez restaurados pelo Senhor, devem ser também recebidos por nós com júbilo e alegria, bem como devem ver em nós uma fonte de restauração à sociedade e referencial de solidariedade humana (I Co 6.9-11).
Note que a reintrodução só se dava por meio do sacerdote (= Igreja) que, publicamente, o declarava restaurado e apto para o convívio com a sociedade.
Temos que reler com atenção a narrativa de Atos 10, entre Pedro e o centurião Cornélio, e pararmos de considerar "impuro o que Deus já purificou”, bem como passar a receber aquele que Cristo já recebeu. Jesus está perto, está ao lado, tem suas mãos estendidas ao segregado com o propósito de reintegrá-lo.
Não vamos encolher nossa mão e deixarmos apenas a de Cristo estendida, pois o que somos nós senão apenas leprosos que um dia também foram purificados? Sejamos em Cristo fonte de reintegração para os segregados.
3 - JESUS É A FONTE DE COMPAIXÃO PARA TODO DESESPERADO (v. 41)
O leproso era visto como elemento de constante perigo e risco (na verdade o era) pelos seus contemporâneos. Essa posição incômoda o tornava alvo de um ódio tremendo por parte de quase todas as pessoas, visto ser agente de disseminação daquela maldição.
Não havia o menor escrúpulo em apedrejar leprosos. Era obrigado a viver isolado, e o afastamento do convívio social e familiar era tão terrível quanto a doença em sua carne. Aquela situação gerava neles desespero agudo e profundo.
No verso 41 vemos que Jesus está “profundamente compadecido” por aquele homem, demonstrando sua misericórdia e amor por alguém que só conhecia ódio, desprezo e desdém.
Ao longo de seu ministério, Jesus sempre se constituiu numa torrente de amor por aqueles que estavam tomados de desespero.
Ele é o mais profundo conhecedor da miséria e desespero humanos, e por isso oferece, em si mesmo, posição inigualável para solução dos males. Ele é a Fonte que mitiga toda sede (Jo 7.37) e único capaz de trazer descanso e paz à vida atribulada e aflita.
É inimaginável, para nós, o desespero de alguém leproso nos dias de Cristo, sendo por vezes chamado "morto vivo".
Mas, mesmo para esta classe de gente tão sofrida e tão desesperada, Ele é a fonte de compaixão, misericórdia e socorro. Esses foram os sentimentos que permearam todo o seu ministério (Mt 9.36).
CONCLUSÃO
Somos leprosos que descobriram a Fonte para purificação de sua impureza. Vamos deixar que os demais leprosos permaneçam na sua situação de impureza, ou é mister que revelemos a eles a fonte maravilhosa?
Somos leprosos purificados; é justo que, agora limpos, fiquemos discriminando aqueles que eram nossos companheiros de infortúnio até pouco tempo? Alguns leprosos purificados se tornavam os maiores segregadores dos que continuavam leprosos.
Somos leprosos purificados e sabemos o que é o desespero. Vamos estar revelando compaixão e misericórdia para com aqueles que ainda não estão sob a Graça de Deus, para que por nosso meio venham também a beber da mesma fonte que jorra para a Vida Eterna.
Autor: PAULO AUDEBERT DELAGE
Lista de estudos da série
1. A voz que preparou o Rei – Estudo Bíblico sobre João Batista em Marcos
2. O segredo para vencer no deserto – Estudo Bíblico sobre a Tentação de Cristo
3. O poder de Deus nos pequenos detalhes – Estudo Bíblico sobre a Cura da Sogra de Pedro
4. O toque que quebra todas as barreiras – Estudo Bíblico sobre a Cura do Leproso
5. O guia infalível para a batalha espiritual – Estudo Bíblico sobre Suplantar o Valente
6. Do caos à paz: O passo a passo da libertação – Estudo Bíblico sobre o Endemoniado Gadareno
7. Encontrando esperança quando tudo desmorona – Estudo Bíblico sobre a Filha de Jairo
8. O toque de fé que libera o milagre – Estudo Bíblico sobre a Mulher do Fluxo de Sangue
9. As 3 responsabilidades que todo discípulo precisa saber – Estudo Bíblico sobre a Multiplicação dos Pães
10. 5 Lições de vida com quem o mundo despreza – Estudo Bíblico sobre o Cego Bartimeu
11. Só folhas? O aviso de Jesus que você não pode ignorar – Estudo Bíblico sobre a Figueira que Secou
12. Dono, trabalhadores e herdeiro: Qual seu papel nesta história? – Estudo Bíblico sobre a Parábola dos Lavradores Maus
13. O substituto improvável: por que a morte dele garantiu sua vida – Estudo Bíblico sobre Jesus e Barrabás
