Texto básico: Marcos 5.1-14
Não é comum vermos pessoas nas condições descritas como as desse homem possesso.
Nem mesmo nos dias do NT isso era comum ou corriqueiro, tanto que tal elemento levantava sobre si grande admiração e espanto por parte das pessoas da região.
O Ministério do Senhor Jesus Cristo, conforme descrito por Ele mesmo (referindo-se ao cumprimento da profecia de Isaías 61), envolve a realidade de “pôr em liberdade os cativos, libertação aos oprimidos”.
A passagem de nosso estudo é um dos episódios onde vemos de forma mais clara a atuação libertadora de Cristo, quebrando todos os grilhões e algemas impostos pelo Diabo a um ser humano.
A possessão é uma realidade da qual não podemos nos esquivar ou fugir; não há como não admiti-la ou não aceita-la diante de uma narrativa como a que temos diante de nós.
O mais importante de tudo, porém, é vermos o extraordinário poder de Cristo e sua autoridade incomparável no exercício da libertação dessa vida das garras de Satanás.
Não podemos incorrer no erro de supor que toda forma de domínio de Satanás, sobre a vida de uma pessoa, se expressa apenas do modo descrito na experiência desse gadareno.
O Diabo não tem uma única forma de agir e nem um único método de aprisionamento das pessoas.
Mas não importa a forma de dominação exercida por ele sobre a vida de alguém, pois Jesus veio (e vem ainda hoje) para promover “a libertação dos cativos”. Estudemos esta libertação neste caso específico.
1 - SITUAÇÃO DAQUELE ENDEMONINHADO (vv. 3-5)
As condições de existência desse homem eram deploráveis e o reduziam a uma figura animalesca. Era violento em suas ações e reações (v. 4), tanto em relação aos outros como a si próprio (v. 5). Uma figura como esta (vivendo entre sepulcros) era temida e transmitia pavor àqueles que se avistavam com ele.
Era o exemplo e a imagem da decadência completa do ser humano subjugado pelo poder tiranizador e destruidor de Satanás.
Alguns comentaristas e estudiosos da Bíblia querem ver neste caso uma manifestação de esquizofrenia múltipla (em termos simples - personalidade múltipla), já que ele parecia ter momentos de lucidez e momentos de loucura.
No entanto, o texto é muito claro quando mostra que tal situação era gerada por atuação direta de demônios na vida daquele infeliz. Não se tratava de nenhum tipo de enfermidade psíquica, mas domínio total das hostes infernais sobre aquele indivíduo.
É interessante notar que nos meios onde se verifica a prática de espiritismo, umbanda, candomblé e similares, os que se prestam a receber as "entidades espirituais” são denominados "cavalos".
Trata-se da absorção da própria personalidade da pessoa, sendo todo o controle assumido por um determinado "espirito" que se incorpora nela.
É evidente que nem todos os que estão sob o domínio de demônios agem como aquele gadareno.
Na verdade, não importa se o domínio dos demônios na vida de alguém se manifesta como neste caso, ou apenas mantendo “amarrada” a pessoa em discreta ligação com "espíritos" que vêm para “ajudar e orientar".
Em ambos os casos a situação dos tais é de aprisionamento ao Diabo e precisam ser libertos pelo poder de Deus em Nome de Jesus. O registro de Atos 16.16-18 mostra que alguém pode estar tomado (=possesso) por demônios e manter atitudes aparentemente boas e corretas.
Embora a jovem de Atos 16 não estivesse na situação exterior tão decadente e miserável quanto o gadareno, ela, de igual modo, era cativa do Diabo e precisava da libertação.
2 - O LIBERTADOR E O TIRANO (vv. 6-10)
Às vezes se torna difícil discernir o que é atuação direta de Satanás e o que é participação da pessoa. Aqui está um destes casos.
Quem seria responsável pela atitude descrita no verso 6?
Seria o homem que, naquele momento, estaria fora da influência dos demônios, ou seriam estes tais que se rendiam à autoridade e soberania de Cristo?
A narrativa não parece fazer distinção no sentido de separar o homem dos demônios, como se cada um estivesse agindo e falando distintamente.
Creio que os demônios prestaram tal adoração, pois reconheceram a autoridade de Cristo e sua posição de Filho de Deus. Os demônios conhecem a Cristo muito bem e seu poder e o adoram como Deus (At 19.15).
Há um temor patenteado na expressão dos demônios por antever a ação soberana de Cristo em puni-los e derrotá-los. “Não nos atormentes” - foi a expressão usada por um deles, pois sabia que o Senhor tem este poder de impor-lhes tormento.
É digno de nota que aquele(s) que antes afligia (e sentia satisfação nisto) suplica e roga com instância para não ser alvo de aflição.
Há alguns pontos que merecem particular atenção neste encontro entre Cristo e a legião de demônios.
a) Exercício da Autoridade
Jesus ordenou aos demônios que saíssem daquele homem e logo lhe obedeceram por não ter como resistir à autoridade de Cristo. Jesus agora tinha o controle de tudo, e não mais os espíritos imundos, que lhe rogam permissão para fazerem alguma coisa.
O libertador estava quebrando as algemas e soltando as amarras impostas àquela vida, e os demônios não podiam resistir. Jesus consentiu (não se pode entender o pleno sentido disso) em atender à solicitação dos demônios, permitindo (=autorizando) que entrassem nos porcos que se encontravam por perto.
Isso não significa falta de autoridade de Cristo. Ele tem o controle da destinação dos seres opressores e os estava mandando para o lugar que Ele (Jesus) julgava o mais adequado e conveniente naquele momento. Ele ordena, os demônios obedecem.
A astúcia do demônio é grande e precisamos estar atentos a isto. Quando o Senhor quis saber o nome do demônio que falava com Ele (é a única vez que se pergunta por nome de demônio), a resposta se deu prontamente: “Legião é o meu nome, porque somos muitos".
Está aí uma resposta que propunha amedrontar, inibir e intimidar, pois era do conhecimento comum que uma legião se compunha de seis mil soldados. Desse modo o intento era imprimir algum tipo de medo e temor pelo fato de estar lidando com tantos demônios.
É assim que ele age, desejando nos passar uma imagem de alguém imbatível, invencível, incapaz de ser derrotado, “pois somos muitos”. Mas, as legiões todas do inferno caem diante de um só: O Filho de Deus!
b) Tratando com os Demônios
Vemos aqui alguns princípios claros na ação libertadora de Cristo que devem estar presentes em nossa mente quando nos avistarmos com situações que exijam o confronto com demônios:
- Não conversar - Não houve aqui diálogo entre Cristo e os demônios. Houve uma pergunta (“Qual é o seu nome? "); uma ordem (“Sai deste homem”) e uma permissão. Jesus não ficou entabulando longa conversação com tais seres. Hoje em dia vemos, com frequência, “exorcistas" ficarem conversando com demônios, dando-lhes oportunidade de lançar dúvidas nos corações, discórdias entre os irmãos e sustentar mentiras como se fossem verdades, desviando a atenção do objetivo principal: a libertação do cativo.
- Não zombar - Para mim é sumamente importante notar o fato de que em nenhum caso de libertação descrito na Bíblia houve chacota e zombaria para com os espíritos malignos. Nenhum registro bíblico nos mostra alguém zombando deles, em nenhuma situação. A Bíblia nos diz que não devemos zombar de Satanás ou de qualquer demônio, mas resisti-lo com firmeza e autoridade, subjugando-o em Nome do Senhor. O Diabo já foi exposto ao vitupério na cruz (Cl 2.15) e ali vencido. Portanto, não se deve brincar ou zombar, mas repreender, subjugar e expulsar em Nome de Jesus, conforme nos mostram as Escrituras Sagradas.
3 - REAÇÕES QUANTO À LIBERTAÇÃO (vv. 13, 15, 17, 19, 20)
Há três reações que merecem análise de nossa parte nesta libertação operada por Jesus:
a) Dos Demônios
A reação deles foi de submissão e obediência à ordem de Cristo, conforme visto no item anterior desta nossa lição.
b) Do Liberto
Se as condições desse homem eram deploráveis enquanto objeto e joguete nas mãos do Diabo, a transformação nele operada é extraordinária. Vejamos isto à luz do versículo 15.
1ª - Emocional - Estava assentado, mostrando que a calma e a tranquilidade passaram a dominar seu ser em contraste com o verso 5.
2ª - Física - O texto nos afirma que ele estava vestido, o que contrasta com Lucas 8.27 onde se vê que tal homem andava nu. O verso 5 de nosso texto nos afirma que ele "se feria com pedras", e agora se vê livre da ação prejudicial a si mesmo, resguardando o corpo.
3ª - Mental - "Perfeito Juízo" é a expressão que aparece no texto, apontando para o fato de que tal homem podia agora raciocinar com equilíbrio e sensatez, não mais "encabresta- do” pelo Diabo.
4ª - Social - Não mais os sepulcros, mas sua casa. Não mais as criaturas da noite, mas seus familiares e conterrâneos. Voltara ao convívio da sociedade (v.19).
5ª - Espiritual - Em Lucas 8.35 está registrado que este homem estava "assentado aos pés de Cristo". Aqui o vemos trabalhando para o Senhor, testemunhando o que ocorrera em sua vida, tornando-o nova criatura. Liberto para servir, liberto para libertar.
c) Do Povo
Era de esperar júbilo, satisfação e louvores daqueles que eram testemunhas de tão grande transformação operada em uma vida outrora desgraçada. Mas a reação é oposta, e solicitam a Cristo que “se retirasse da terra deles" (v. 17).
A presença de Jesus era uma ameaça à segurança e estabilidade econômica daquele lugar.
Os interesses econômicos poderiam ser seriamente prejudicados se tais ocorrências se tornassem frequentes. Seria o caos econômico, a ruína financeira, a penúria monetária.
A visão estava embotada e não percebiam que a restauração daquela vida valia muito mais que a manada de porcos lançada ao mar. Para muita gente não vale a pena tanto investimento para libertação de uma pessoa.
O prejuízo pessoal é muito grande (para alguns), demandando períodos longos de jejum, oração e comunhão com Deus por meio de estudo sério da Palavra de Deus.
Estaria você entre os gadarenos que preferem ver sua segurança material resguardada, deixando um homem em condição lamentável sofrer sob o tacão do Diabo? A libertação tem um preço. Está disposto a pagar, ou julga que não vale a pena?
CONCLUSÃO
Jesus veio para "pôr em liberdade os cativos”. Ele realizou esta obra e designou sua Igreja para continuá-la. Fomos libertos para servir. Fomos libertos para libertar os que estão cativos das trevas e de Satanás.
Não só os pentecostais ou carismáticos são chamados à libertação de oprimidos e possessos, mas todos nós que somos salvos em Cristo e membros do seu Corpo, a Igreja.
Autor: PAULO AUDEBERT DELAGE
Lista de estudos da série
1. A voz que preparou o Rei – Estudo Bíblico sobre João Batista em Marcos
2. O segredo para vencer no deserto – Estudo Bíblico sobre a Tentação de Cristo
3. O poder de Deus nos pequenos detalhes – Estudo Bíblico sobre a Cura da Sogra de Pedro
4. O toque que quebra todas as barreiras – Estudo Bíblico sobre a Cura do Leproso
5. O guia infalível para a batalha espiritual – Estudo Bíblico sobre Suplantar o Valente
6. Do caos à paz: O passo a passo da libertação – Estudo Bíblico sobre o Endemoniado Gadareno
7. Encontrando esperança quando tudo desmorona – Estudo Bíblico sobre a Filha de Jairo
8. O toque de fé que libera o milagre – Estudo Bíblico sobre a Mulher do Fluxo de Sangue
9. As 3 responsabilidades que todo discípulo precisa saber – Estudo Bíblico sobre a Multiplicação dos Pães
10. 5 Lições de vida com quem o mundo despreza – Estudo Bíblico sobre o Cego Bartimeu
11. Só folhas? O aviso de Jesus que você não pode ignorar – Estudo Bíblico sobre a Figueira que Secou
12. Dono, trabalhadores e herdeiro: Qual seu papel nesta história? – Estudo Bíblico sobre a Parábola dos Lavradores Maus
13. O substituto improvável: por que a morte dele garantiu sua vida – Estudo Bíblico sobre Jesus e Barrabás
